25.11.05

Folhas outonais

O solo é o leito das enrugadas folhas.
Um eco outonal,
o desprendimento das folhas caducas.
Dantes embelezavam árvores
tingiam-nas de um acobreado mágico.
As árvores despedem-se da folhagem inerte,
paradoxal desnudamento para a intempérie invernal.

Ficam os galhos
a coragem de levitar ao vento agreste
de acolher as pesadas gotículas que sedimentam com o frio.
As folhas hibernam
refugiam-se da inclemência dos elementos.
Folhas inanes de coragem
primeiro perdem o verde reluzente
ganham um vermelho que, carcomido,
se vulgariza num castanho fúnebre.

Caem, enfim, na leveza da brisa imperceptível,
ou fustigadas pela ventania
que anuncia a estação severa.
Jorram das árvores com abundância.
Chegadas ao chão,
são calçada para os pés
viscosa matéria quando nelas repousaram
as caídas gotas de chuva.
Até que zelosos lixeiros as recolhem
deixando à mostra um tristinho cenário
– um nada, árvores despidas, o chão friamente vazio,
o vento que sopra com amargura,
o frio pedindo uma bebida quente.

As folhas vieram até ao solo.
Convidam ao refúgio no crepitar da lareira.
E tal como as árvores se escondem das folhas
– ou as folhas fogem das árvores –
os corpos tiritantes de frio exilam-se
na retemperadora chama da lareira.
Um Inverno
clamor ao deserto das ruas.

11.11.05

O que podes dizer (tanatologia da razão)

Podes dizer
que já nem as cores do Outono interessam
as aves ladinas perderam a graça
ou o riso das crianças que entoa a alegria só um rumor
perdido na bruma espessa que mumifica o frio.

Podes até dizer
que o azul do céu perdeu a beleza
as ondas do mar perecem em indistinta monocromia
as vozes inspiradoras gelaram o seu canto.

Num estremecimento apetece-te clamar
que a injustiça é injusta
a escuridão um breu aterrorizador
a insidiosa hipocrisia criminalizada seria.

Mas para além da deriva niilista
algo, poderoso, cativa sentidos.
Misteriosa dimensão
como se fé obscura fosse,
inconfessável, impenetrável
varre negras nuvens de um horizonte que queres
amanhecido em todo o tempo.

Então dás conta da contradição:
prisioneiro do agnosticismo
a esperança que fervilhas sufoca
na mão pesada da razão que se abate.

Achado a meio de uma encruzilhada,
sem saber por onde ir,
vacilas:
ora acertar o caminho por onde as ondas da razão apontam,
ora cegar a ditatorial racionalidade
e partir,
partir rumo ao nada que te espicaça.

És déspota da tua certeza
nos muros pedregosos e escorregadios
que não podes escalar.

8.11.05

Roda dentada

Numa manhã rumorosa
acordaste
da desaparecida penumbra.

Lá fora
o barulho industrial da grande cidade
deixou de martelar a dor de cabeça matinal.

Revivias os lanços dos tempos idos,
revisitação dolente
a que o marasmo te enredava.

Libertação do torpor maquinal
sorvendo um refrescante sumo de toranjas
enquanto fitas o horizonte perdido.

Remexes numa gaveta
sem saber o que buscas;
os dedos tacteiam objectos inanimados.

Da gaveta tiras uma fotografia gasta;
incensas memórias
por ousadia do porvir.

Tempo de mergulhar
pelos nódulos que te atam
à parasitária forma de viver em ti mesmo.

E de procurar a porta da saída,
uma apertada clarabóia que seja
um novo fôlego.

Um novo fôlego
ou a árvore eloquente
que te dá a vereda necessária.

Sabes, com a certeza das coisas férreas,
que espalhas as sementes
do reencontro ao mais alto de ti.

Da harmonia que buscas, sedento,
um esteio de tranquilidade
destino cumprido, enfim.