31.12.17

Arsenal

Meu arsenal:
candeia acesa
manual de instruções
aurora arguta
mãos hospedeiras
palavras
mar do avesso
pensamento
silêncio impressivo
combustão
rarefeito
clepsidra avulsa
troçador de régulos
sombra irremediável
palco anónimo
irreverência
“devastação inteligente”
veludo
pedregoso
fortaleza sem ameias
combustão perene
um nome só
morada
cais
rosto outonal
riso escondido
penhor
atrevido
marégrafo
regente do silêncio
lume brando
caudal contínuo
fio de prumo,
desarmado.

#423

A madrugada tardia
na enseada que vaza
sósia prístina do forte remediado.

30.12.17

Posse

Não caibo em mim
nas margens tomadas pela loucura
nos promontórios acima das nuvens
nas árvores primaveris
nos relógios vertiginosos
nas viagens argutas ao mundo por dentro.
Não me confino
ao vetusto saber de hoje
às cores principescamente pintadas no céu
às lautas coroas de imperadores
ao corpo inteiro e desenfreado
aos chapéus que hospedam ciências.
Caibo em mim
no sortilégio dos sonhos sem freio
nas páginas devoradas
nos socalcos matematicamente aformoseados
nas caves fora dos mapas
na azulada frota de palavras aliviadas.
Confino-me
aos deslimites de mim
na intemporal maré agitada
em devaneios com assinatura solene
à febre sem estilo
às juras que faltam nas bainhas do pensamento.

#422

Moeda forte
o peito sem algemas
remédio contra a usura.

29.12.17

Profeta

O profeta está esquecido
e da gramática aprova o nada.
Mangas arregaçadas
os braços desaprovam o pretérito:
talvez seja o chamamento
até ao porvir adivinhado.
Fracassadas intenções:
o oráculo estava desmaiado.
E o profeta, esquecido,
aprendeu a identidade.

#421

Do fado desfeito
ou do desfado sem colheita;
uma seara sem sol.

28.12.17

Apeadeiro

Que louca correria
os sentinelas distraídos sem nada verem,
fortunas perdidas no poço seco
petróleos brancos em erupções ciclópicas
e as juras todas recusadas.
Feitorias esquecidas
no umbral corroído por sorrisos astutos
desaprovam os penhores mendazes
devolvendo ao sol o gelo sem forma.
Oxalá os proveitos fossem sentidos
e os olhos soubessem ler nos antípodas do choro
e as pedras de fogo
não iracundas
dessem férteis arroios aos caudais secos.
Que louca correria
que parece não se chegar
a lado algum.

#420

Olhava
por dentro do olhar
na demanda do ângulo singular.

27.12.17

Dístico

Nas abóbodas crepusculares
repousam as lágrimas vertidas
e um arco-íris tardio levanta-se
contra o mastro da angústia.
Não se perde
se não a maré tardia
insurgente contra as lajes furtivas,
um pouco de um nada.
Nas calendas anotadas
depreende-se um furor instantâneo.
Assim se enquistam
as catedrais do pensamento
contra os tomadores que o querem
manso.

#419

O navio
levita sobre a neblina
sem perder a altivez.

26.12.17

Cartografia das tempestades

A janela coberta
por gotas de chuva
– e de saber que cada gota
foi arrancada ao mar vadio
sem sequer o emagrecer. 

Empresta-se o conforto 
do avesso da janela
onde se ouve o crestar da lareira. 
Um cão vadio,
encharcado,
segue apressado,
talvez na demanda de um abrigo,
não incomodado pela chuva abundante. 
Num logradouro 
que se avista a poente
o vento destemperado faz a curva. 

É a tempestade
que fala pelo inverno. 

Do lado oculto do logradouro
as convulsões do mar
em ondas que se atropelam
sobrepostas
num mar anomalamente cinéreo
fervendo o rastilho da tempestade
– ou a tempestade
que incendeia a fúria do mar.

Não há vivalma nas ruas
– o selo da tempestade medonha,
como se por decreto
recolher obrigatório fosse ditado.
Outro cão vadio
desafia a chuva copiosa,
indiferente,
caucionado pelo farto pelo. 
O entardecer antecipado
combina com a luz desmaiada
a tiracolo da tempestade. 

Agora
as tempestades ganharam nomes de gente. 
Os humanos
não desaprendem de ser impostores. 
Achariam rudimentos para domar as tempestades,
emprestando-lhes gentis nomes;
as intempéries chacais
cuidarão de trazer as esperanças a terra,
dissolvidas como papel desfeito
sob o patrocínio
da chuva abundante.

#418

Era como Ícaro:
destemido no rebordo da falésia
antes do despenhamento imprevisto.

25.12.17

#417

Entre luzes desmaiadas
e jasmim murcho
as rugas fundas do velho bêbado.

24.12.17

#416

O fingimento na esteira
sarcástico silêncio lateral
e o lauto sorriso aos colibris aspirantes.

Estival

A enseada
forte diligente
recebe os forasteiros.
Nas areias
douradas e quentes
corpos repousam da fadiga anual.
Embarcações
nómadas e circunspetas
olham sem tresler o olhar.
O luar
armado contraforte
protege os viandantes.
A noite
sem máscara
dá caução à loucura.
A enseada
respira o dilúculo
no estertor da noite demencial.
Sem manhã
olhos refugiados no sono
sem quartel de sonhos.

23.12.17

Cartas esquecidas

As cartas inescritas
sem data
sem morada selada
as cartas das palavras vazias
segredos dissolvidos no mar inteiro.
As cartas dantes
dédalos avistados na espuma rasa
nas catedrais transparentes
sumidas no verbo intemporal.
Seriam
cartas algures
faróis em vez de centelhas
jogos sem regras no espelho lúcido.

#415

Nada,
um longo nada
reduzido ao tamanho de tudo.

22.12.17

#414

Virei o horizonte do avesso
sentado na madrugada
sobranceiro às pedras tumulares.

Costumes

Mandam os costumes
– os costumes mandam muito:
trovas sem freio
não contam no templo dos obedientes
no templo onde se narram justas coisas.
Não é preciso semelhante salvo-conduto
na infusão ética proposta
no tumultuoso extravio de hábitos,
contrafação da vontade.

Desmandam os costumes
– os costumes desarranjam tudo:
murmúrios-lamentos
por interposta pessoa
em excedente mosaico de aferições
submissão aos padrões de fora vertidos,
bolçando uma raiva
que não cabe dentro de quem a insemina.

Não interessam os costumes.
Não interessam os dados feridos.
Não interessam os holofotes ajuizados.
Não interessam húmidas palavras astutas
Não interessam intenções venais.

Não mandam os costumes.

21.12.17

#413

As gotas frias da chuva
curvam-se na pele transida
como pomares em terras depostas.

Trapézio

Sobram as cadeiras vazias
o cheiro a solidão
o cais sem rasto
o navio fantasma
as viúvas abatidas
as aranhas teimosamente sentadas.

Num raio de sol
o espelho mendicante
estilhaça as núpcias recentes
e a mulher em prantos
sem deixar descair o rosto (porém)
eleva a mão tumular sobre o soalheiro dia.

Favoráveis as contas
o artesão estonteia-se em planos audazes
na surdez dos aforros
contra os predicados dos peritos
apenas general da (sua) teimosia
na fartança de dinheiros em caixa.

O nenúfar abriga o peixe venal
sem a estatura de uma ponte
com a senha improvável
nas arcadas em ruínas sem norte
metidas em águas arroxeadas
albergue longânime contra tempestades.

Das teclas do piano percutidas como veludo
desabrocham pétalas orvalhadas
o singular lampejo das divindades
fortuita inspiração sem musa
ou insincero devaneio sem paradeiro
na espera deletéria das artes sem espera.

Sobra o espaço vazio
o chão sem vestígios
um deserto de gente efémera
um lugar incaracterístico
caudal voraz de águas matinais
o imenso compêndio das terras sem limite.

#412

Neste tira-teimas
é meu o braço mais forte
sem estima pelas vagas iracundas
em contrária maré.

20.12.17

#411

Não emparedadas gentes
sobranceiras às grilhetas
sem a tirania do emparcelamento. 
(Berlim)

Elevador

A medida do vento
em espartilhos desatados
esconjura os medos beatos.
Combina com o solstício esquecido
por dentro dos dedos cansados
à espera de degraus aviltados.

Não se sabe
a não ser
o que se não sabe
– e esse é o conforto maior.

No céu
as impressões digitais dos aviões
presságio de lugares esperados
ou anúncio de lugares pretéritos.

A medida do tempo é mais fina
do que a medida do vento.

Nos folhos abertos das flores
o ar vai em busca de alimento.
Oxalá fosse tudo assim,
fácil,
como fáceis
são as faces faustas
da métrica complexa
da cornucópia de idiomas em surda fala
ou os vagares das almas apressadas
sem saberem a toma do fado seu
ou as facas esquecidas em salas labirínticas.

E nem o frio entranhado
demove a sentinela da cidade.

19.12.17

Paradoxo

História sem passado
mar sem litoral
peleja sem espada
comboio sem carril
floresta sem chuva.

Paradoxos sem arnês.

Caril na língua urdida
língua deixada na berma
estrada que não tem mapa
o mapa despedaçado, exausto.

O cerco sem exército
na trincheira a céu aberto
campo fértil de caídos em combate.

Na tecelagem grevista
fazenda a rodos
proveito repartido
adeus à luta de classes.

Não fossem os descamisados
que fado seria dos incansáveis ideólogos,
serventuários do antagonismo de classes
como húmus de onde proveem?

Paradoxos sem arnês.

#410

Porta de Brandenburg trespassada:
liberdade respirada
em todos os poros.

18.12.17

#409

Não é o zero
que postula nulidade
se o zero
em virtude se constitui.

Penumbra

Dos cantos esquecidos
arestas sem respiração
apenas os vestígios indiferentes
o aceno embaciado da mão madraça.

Multidões soberbas
congeminam os focos no vidrado altar
com sumptuosas sumidades
o agrado popular do chavão sem eira
apenas personagens ermas:
multidões soberbas
esquecidas da soberania dos cantos esquecidos.
Não é preciso luz
para os olhos se demorarem
nos veios pulsares sob a folhagem outonal.

O esquecido não merece ser esquecido
e ao esquecimento devem vir
os frívolos discípulos dos frívolos soberanos.
Desatando-se os penhores consagrados
e a vetusta aberração
dos centros pomposamente floridos
nua
exposta ao olhar
(porventura perplexo)
dos aduladores da causa.

Melhor andam
os órgãos de causas
os desenganados de ilusões
os ascetas céleres do chão irregular:
sabem
que os centros pomposamente floridos
são artificiais
as palavras despojadas de sentido
os sorrisos campeões da falácia
as verdades solenemente mascarando mentiras.

Ao menos
os cantos desvalorizados
não ensinam ardis.

17.12.17

#408

Por mentiras serem palavras
não seja das palavras
a culpa.

Aquecimento global

Os arbustos assustados
vertem a água da chuva;
se tivessem olhos
apresentavam-se marejados:
o estio prolongado
é circunstância que desmente
o pesadelo dos arbustos.
Já antes deles se soubera
irritação cutânea à agua:
foi em invernia severa
quando o orvalho se convertia
em geada implacável.
Os arbustos definharam
protestando
imberbes
contra a crueldade dos elementos.
Alguém encomendou oratória,
Seu porta-voz em oportunista golpe-de-asa,
junto do santo responsável pela meteorologia:
a intercessão foi proveitosa:
o inverno nunca mais voltou a ser igual.

16.12.17

Lugares

O lugar:
sombras furtivas
na gramática esquecida
contra os pergaminhos do nada
mãos desatadas num frémito desigual.

Outro lugar:
miradouro de vozes
no equívoco esquecimento
contra as tremendas dores do dia
corpos entregues num desejo ímpar.

O lugar ausente:
vasos sem flores
na cortina baça do fingimento
contra as viagens esconjuradas
olhos de atalaia no imorredoiro pesar.

O lugar-tenente:
fábrica deserta
no labirinto fermentado
contra as vésperas desassisadas
pensamento alinhavado nas bainhas meãs.

#407

A saliva fundente
babilónia do desejo
nas páginas acesas da noite-lírio.

15.12.17

Ismos

O labirinto dos ismos:
dogmáticos sendeiros
lunáticos dos estreitos corredores
apostam a fortuna na mesma carta.
Convencidos do jogo triunfado
desprezam os de outros ismos
e prescindem dos trunfos
– tanta a presunção.
Untam-se de linóleos sacerdotais
na procissão onanista
de quem tudo em coro repete
e só destarte consegue falar.
No cárcere dos ismos
não há pensamento
apenas pavloviano recitar
a contrafação das palavras gastas
das ideias vulgares
gastas.
Os tiranetes dos ismos
confecionam sua própria estultícia
nos dogmas bolorentos bolçados das unhas.

#406

Cobro o marfim,
o mosto límpido
em rostos impassíveis.

14.12.17

Diário de bordo

Soberano
dito para a ata
os vindouros versos
na varanda desabrigada.
Compilo
as páginas debruadas a mel
embutidas no largo sorriso
das crianças extasiadas.
Salgo
em criterioso esgar
o mar que vem à janela
na epístola de ondas timoratas.
Descubro
nas entrelinhas do dia
o sangue puro
e deito-me à espera de tudo.

#405

Vingança da borboleta
num bater de asas:
tempestade devastadora nos antípodas
(é o que dizem à boca grande).

#404

A janela do avesso
nas mãos estruturadas
a secante das lágrimas hirsutas.

13.12.17

Os notáveis

Com base nos despojos
farejo o vértice do sol
na hipótese de redenção.

(Não sei
por que preciso de redenção.)

Automóveis incessantes
não deixam repouso para o silêncio
e a noite esbraceja
na heresia dos apaziguados.

Quem sabe
o rédito tirado ao acaso,
no cais anónimo
entre paredes imundas,
disponha a sorte madraça.

Não tive grande ideia
das ladinas raparigas nas ruas céleres
e das esperanças trago apenas
um trespasse cheio de cicatrizes.

Os néones de Paris são uma impostura.

O Maserati mal-estacionado
é a mnemónica que queria:
a pompa, uma bravata sem eira
e os notáveis esquecem-se da artilharia,
resumidos à irrelevância:
corpo cheio de nada
e pensamento em hibernação demorada.

#403

Que bavaroise sumptuosa
às camadas fundidas
e os olhos,
famintos.

12.12.17

You name it

You name it:
oblivious
tireless
breakthrough
originality
daring.

You name it:
patient
thorough
obstinate
phlegmatic
contradictory.

You name it:
loving
warm-hearted
lubricious
exciting
hungry.

You name it:
voyages
buildings
landscapes
languages
voices.

You name it:
ideas
words
perennial
theatre
hands.

You name it:
vision
challenge
embraces
speechless
morning.

You name it:
names
faces
eyes
colours
variety.

You name it:
traces
avenues
house
sea
cloudless.

You name it:
hands
horses
raindrops
moon
breathing.

#402

O estipulado em registo solene
sem notário por perto
apenas a caução do apalavrado.

11.12.17

Fio da navalha

Sangue bombeado
ver-ti-gi-no-sa-men-te
sensação visível de um precipício.
Em falta do toque de Midas
o Confúcio dos malogros pessoais
fogueira acesa,
as cinzas crestadas seu combustível:
abraçam-se
os demenciais fautores da importunação
em revoadas de ar tirado aos pulmões
como se não fizesse falta
à apoplexia sobrante.
A jugular apertada
liquefaz as forças
já sem resistência por palco
já sem saber sequer a respiração.
Escasseia o chão sob os pés
escasseiam os pés sob o corpo
escasseiam os esteios em tudo:
diz-se:
a tragédia tomou conta da vitória
e as vitórias embotaram as derrotas.
No fio da navalha
sob o torpedo aceso
na lava de faíscas flamíferas
o ocaso benevolente.
Aceitam-se os modos esvaziados do ser
na penúria dos desenganados
com a caução dos inverosímeis indigentes
e a sua desatração por tudo.
Ao fio da navalha
vem a carne abraçada 
dos promitentes mastins do desdesejo.
Desça a navalha
já não tem préstimo o seu simples fio.
Os progenitores dos infaustos palcos
desembaraçam-se das teias-labirinto
e rejubilam.
A eles pertence a última palavra.
A eles
o trono incontestado
onde se expõem
galanteadoras
as navalhas já sem seu fio.

#401

Ira
irra
irá
ir à...
(à vontade do leitor).

10.12.17

#400

Ainda vamos a tempo
na madrugada sem rugas
do elixir salvífico.

Enclave

Enquanto espera
no resgate da paciência
ouve conversas laterais.
Nada de importante.
Se por desimportantes
se açambarcarem
incontestáveis achaques
imolestáveis proezas
irrenunciáveis fúrias
irremediáveis narcisismos
imparáveis angústias
indeléveis granduras
impuras superioridades pessoais
e o paradoxal culto
da comiseração de que se é credor
ou do fausto que se devolve em dívida.

9.12.17

Multidão

A mala aberta
e a multidão,
Como as porteiras,
bisbilhota as gavetas desarrumadas.
O sangue enxuto
(homicídio?)
um autocarro de dois andares
(metonímia?)
as cinzas amontoadas
(lareira?)
o dia timorato
(inverno?)
a lanterna estilhaçada
(violência?)
outra multidão partindo
(êxodo do mundo sem provimento?)
prantos sem lágrimas
(temporário?)
figurões, importantes e ufanos
(decadência?)
contratempos assinados a tinta-da-China
(melancolia?)
um murmúrio cobrindo o mundo inteiro
(esperança?)
A multidão não sabia nada.
Apenas bisbilhotava.
Era sua malapata.

#399

Ferve a tempestade
no sobressalto ímpar
da noite sem fim.

8.12.17

Fio e pavio

No avesso do horizonte
sem as cortinas corridas
mapa desenfreado nas avenidas largas
e um olhar compulsivo.
Desconto das palavras ditas
a gramática datada
os espiões contumazes
os insultos sem prazo de validade
as veias incandescentes do dia.
Não digo nada.
Sei
que nos contrafortes escondidos
onde as mãos se entrelaçam com o tempo
e os copos se esvaziam no lúcido apetite
há pontes abertas
lírios irrompidos
e rios vorazes
– um pouco
como um sentinela
que recusa a rendição.

#398

Língua viperina,
não
língua morta
língua de trapos.

7.12.17

#397

Leme sem homem
legenda sem palavras
em homenagem ao silêncio.

Da confiança

Aos arquitetos do mundo
o papel selado
a vontade franqueada
aos ventos por eles domados.
Porventura
confia-se nos arquitetos
em desrazão de seus predicados.
As pessoas não se perguntam
apenas confiam
cegamente.

Nos compêndios
instrução a condizer:
quando ensinam a confiar
não se incomoda a confiança
nem o tutor que assim ensina.
E seguimos pelas veredas falsamente belas
ordeiramente
acriticamente
paradamente
nas arcadas das letras não duvidadas
pois são pungentes as dores
quando à confiança se tira o chão exigido.

Alguém questionou os arquitetos
alguém
alguma vez
percorreu as páginas dos seus pergaminhos?
Acreditemos nos arquitetos
porque nos dizem que sim
apenas porque sim.

Acreditemos.
Como podíamos acreditar
num louco fermentando saliva
(talvez melhor critério de confiança)
num drogado sem remédio
numa meretriz fria
num edil corrompido
numa barata-tonta das revistas sociais
no anónimo padeiro
(que cozinhou o pão do pequeno-almoço)
em viúvas melancólicas
em druidas disfarçados de carpinteiros
em farsantes noctívagos
ou em toda a gente
na confiança em democrático golpe
para ninguém se tomar pela exclusão.

Confiemos.
Confiemos tudo
desde a indumentária que trazemos
(sem vergonha da nudez)
aos tesouros mais recônditos
à inteireza da alma profunda.

Um dia
acordamos a tempo
de sentir a confiança
um logro.