31.5.16

Desutilidade

Para memória futura:
já alguém sondou
a serventia das coisas que julgamos úteis?
Já alguém deu dois passos atrás
e inquiriu o pensamento
sobre as utilidades a que se emprestam
coisas e ideias e pensamentos e paisagens?
Já alguém depôs
neste tribunal sem juiz
para apurar os interstícios da utilidade?

E
se alguém já empreendeu tamanha tarefa
sentenciou a desutilidade de coisa alguma?
E
em caso afirmativo
ficou refém da angústia
ao saber-se penhor de uma desutilidade?

É que o tempo passado
na almofada indistinta da desutilidade
pode ser abrasivo
pode ser motivo para rescisão da lucidez,
para encostar à parede as ideias fátuas
e pô-las sob a pontaria afinada
de um pelotão de fuzilamento,
às arrecuas.

Desenganem-se os angustiados
com a terrível sentença de que foram escrivães:
ao aferir a desutilidade
somos fiadores de uma utilidade maior
escrevemos com letras graúdas
um devir transfigurado
que congraça utilidades novas.

Nem sempre uma negação é uma negação:
há vezes em que uma negação
desembaraça caminho
para a construção maior.

30.5.16

Lembrete

Das ervas daninhas
perseverando em lugares ermos;
das fontes de água forte
onde se lavam as lágrimas;
dos orvalhos outonais
quando a alvorada era temporã:
dos êmbolos matraqueados
num murmúrio poluente e atulhado;
das lojas de especiarias
no bazar ululante e vagaroso;
das rimas forjadas
nos dedos trémulos que tocam uma tela baça;
da graça em que caíra
antes do jogo virado do avesso;
de uma estrada estreita
sulcando o desfiladeiro cavernoso;
das promessas infundadas
tirando o siso à sua formulação;
das proezas (ou do que assim tiver achamento)
em movimento ondulante de nostalgia;
de um epitáfio encomendado
a um juiz sem rosto;
das intenções alteradas
entre dois dedos de conversa propedêutica;
de uma reparação geral
às mãos de um tutor dessas coisas;
do olvido das coisas malsãs
mercê da recapitulação da alma;
de um panteão das nulidades
onde sobram ossadas emudecidas;
de um chapéu à maneira dos antigos
que não hei de usar.
De tudo isto
hei de possuir um lembrete
com a serventia do oblívio.
Para anotar num caderno a preceito
os passos perdidos
da desmemória.

#30

Preparar a escopeta
(a escopeta dos argumentos)
que lunáticos desvairados
esperam pela desatenção do sono.

29.5.16

Rostos

Rostos
rostos à minha volta
rostos por todo o lado
transpirando rugas
entoando melancolia
disfarçando maldade
rindo nas vetustas rodas da vida
rostos
dançando no bolor das estrelas
compondo estrofes contrafeitas
mostrando desdém pelos estranhos
rostos cultivando as mesmas amarras
que os estranhos fabricam
ao saberem estranho o meu
rosto.

27.5.16

Teoria da conspiração

Diria ter um Rubicão para derrotar
ao dar abrigo no regaço
aos trovões que vieram
com a tempestade tardia.

Estava enganado.

Não eram trovões
nem era tempestade
nem sequer entardecia.
No meu regaço
o ar vidrado a espelhar
as minhas roupas
e pouco mais.
O Rubicão é um começo de conversa
a ter no palco molhado
onde sereias impossíveis de ver
deitaram o musgo transparente.

E pouco mais:
a febre vertida no céu
aproveita aos espontâneos adoradores
de conspirações.

E pouco mais.

26.5.16

Ordem de trabalhos

Seremos todos velhos
quando esta história terminar.
Libertados dos logros e das farsas
teremos entre mãos a leveza
de uma presciência clara.
E seremos outra vez
novos
como se regressássemos
à nascença.

25.5.16

Postal autoilustrado

Dos penedos estrepitosos
deitados ao acaso na encosta
recolhi fragmentos
(também ao acaso)
para aprender os rudimentos da firmeza.
Das graníticas rochas
(maiores do que casas)
em equilíbrio precário
trouxe um manual de intenções.
Soube
pelos contrafortes da serrania
bons serem os modos dos pragmáticos
(desmentindo pueris enunciados dos líricos)
e paradoxalmente estáveis
os precários equilíbrios.
Pois tudo se resume
às coisas na sua antítese.

24.5.16

Vertigo

Oh! ideias frescas
limpas serenidades da mente
que acalmam as nuvens sobressaltadas.

Oh! corpos terrestres
vindicando o prazer duradouro
em danças lunares que depõem a noite.

Oh! lanças dardejadas
em torrentes luxuriantes
por dádivas orquestradas no palco vidente.

Oh! perfumes vadios
em corpos trespassados de suor
no abrasear dos amantes em seu reduto.

Oh! um relógio parado
no êxtase dos segundos demorados
enquanto as janelas se deitam ao vento.

Oh! as palavras encantatórias
dedicadas aos murmúrios que transluzem
na luz feérica das manhãs sem sono.

Oh! um punhal tomado
entre mãos trémulas em ávidos prazeres
num contrato que dispensa assinaturas.

E, oh! um amanhã radioso
entre serenatas sem música
poemas sem rima
beijos incandescentes
sexo forte
mãos sem embaraços
peito ouvido à boca de cena
rosas aromáticas em forma de cama
braço que serve de regaço.

E uma janela aberta:
testemunha de um amplexo
na chama viva que acendemos
com o peito.

Leviatão

A parede sem rosto
esconde os segredos pátrios.
Argonautas com rosto
esbulham os bolsos rasurados
em nome do património comum
(dizem).
Males de estirpe semelhante
corroem as veias já incineradas
num movimento que de efémero
é desprovido.
A usura em forma de lei
com a caução dos bons costumes
e das lições de lentes
é o baraço que vagarosamente cerceia o ar.
Depondo a vontade
no sargaço podre
que restolha à beira-mar.

23.5.16

Terra nova

Mexo no xisto negro
o sal do chão à volta
e sinto as raízes da terra
a subirem pelos dedos.

O xisto lascado
(há quem lhe chame o chão cicatrizado)
denota a crueza da terra
como os dedos ásperos dos aldeões.

Nas voltas das terras alcantiladas
o sortilégio de uma paisagem
em povoamento sem ordem
libertando a terra das feridas fátuas.

No acampamento dos sonhos
(onde a tela branca aceita apostas altas)
os vinhedos em cama de xisto
habitam o sono.

Como se no xisto tivesse berço
mal sabendo que o berço algures
foi-se de empréstimo às terras duras
cicatrizadas pela paisagem pétrea.

E o xisto pesado, plúmbeo
arranca do corpo
cicatrizes féleas
prometendo um oxalá jamais dito.

20.5.16

Injustiça divina

Vemos
no palco açambarcado pelo suor
uma baleia exangue
num murmúrio piedoso.
Na baía sitiada
a baleia numa luta de norte
definhando nos baixios da baía.
E nós
de braços desarmados
sem socorro podermos empregar
preparamos uma noite de insónia.
Podemos mal
com a incapacidade que armadilha
e doem-nos os frutos da
(dita)
injustiça das divindades.

19.5.16

Sentença

Condenamos o quê?
A servidão
As amarras que freiam as mãos
As palavras suicidas
O frémito extemporâneo
As árvores inacessíveis
Os escrivães da frivolidade
Os poltrões de algibeira
As farsas sem causa inerente
Os pianos descaídos em rampas sujas
Sacerdotes impositivos de dedo em riste
A cobiça demencial
Os corpos untuosos em apertadas roupagens
A feiura dos belos
e a beleza dos feios
Os feitos ufanos na ponta da língua
A exacerbada monotonia dos dias repetidos
O desembaraçar de um enigma
Os punhais empunhados
As bandeiras de países em parada
Os ministros emproados
e os figurantes em pose de aspirante
A dança macabra do matadouro
A língua afiada dos desocupados
Os resguardos das almas em hibernação
A detestável ingratidão
A espera pelo nada que não se soergue
O que ficou por ser dito
e os pesares redondamente inúteis
Os despojos sem serventia abraçados às mãos.

18.5.16

Boca do inferno

Da excelência dos propósitos
nem reticências.
Os dobrões apanhados no veio das ruínas
contam os calendários acidulados
as rainhas sem coroas
os dedos feitos garfos mendazes.
Os rochedos enegrecidos
distinguem o precipício
de onde o mar intransigente veste
um luto medonho.
Saio da boca de cena
para os bastidores vazios
à espera de um amanhã adiado.
Saio dos candeeiros gastos
da luz frouxa que coalha os sentidos
e digo que os infernos não têm prazo.
Digo
que uma ventura tingida no céu
se me oferece meretriz insincera;
que os olhos aplacados de uma sereia
tingem as páginas com o sangue gasto;
que naus viquingues sem remos
sulcam as águas macias de um mar sem cor;
que senhores apessoados
prelecionam argutas prédicas;
que velhos sem dentes
se saciam com framboesas imaturas;
que o torniquete do museu
não deixa passar os estultos ao engano;
que sôfregas divindades
escondem aperaltadas vestes acetinadas.
Digo
o que oxalá queira dizer
entre duas notas de vinho branco
e três módicas doses de fruta madura
enquanto o sumo escorre da boca
e inunda o chão de uma sementeira capaz.

17.5.16

#29

Evidentemente
não sei de nada
a não ser
do muito pouco que tenho
por conhecimento.

Êxtases

Escaramuças
na noite vadia
com os ossos embebidos
na seiva da maresia.

Efémero
o olhar compungido
por desalentadas almas já não serem
para além do horizonte baço.

Elegante
o epíteto transfigurado
em cima de um prato rombo
dentro do manjar possível.

Escol
interminável
antagonizando militantemente
com o povaréu estrepitoso.

Evitável
a sanha elegíaca
dos mastros inclinados
à mercê dos ventos procelosos.

Elucubrações
solenes em pé-de-página
ditas em murmúrio
por divindades escondidas na penumbra.

16.5.16

Contratempo

Explode na boca
um trunfo cheio de demência
sob o ocaso das árvores madrastas.
Explode na boca
enquanto o entardecer se deita no mar
e a luz dá o braço a torcer
a pirómanos audazes.
Um trunfo
desimportante por ser desabitado;
e as árvores gentis
amolecem a boca ressequida
enquanto o mar se mistura com o céu.
Espera-se.
Espera-se pelo comodato do peito
um cinturão justo cheio de esmeraldas
e um braço revigorado pela madrugada alta.
Espera-se
sem outorgar alma
aos contratempos desassisados.

13.5.16

Desafinação

Ouvidos os sábios
em solene conciliábulo
arranjaram-se motivos válidos
para perseverar na bonomia.
Já não colhiam semente
as desconfianças da grei
quando o céu se fechava sobre si
e os farsantes se riam
como hienas.
Os sábios,
serenos em sua sumptuosa gravidade,
deram-se de penhor à farsa.

12.5.16

Quase prece

Pudesse arranjar quartel
para alojar as iras
que se atrevem.
Pudesse desembargar emoções fruídas
e olhar pelos olhos de uma estrela
enquanto bebia a noite
por um cálice de ouro.
Pudesse achar a fogo noturno
e tingir o frio
com as labaredas em crepitação.
Pudesse, ao menos,
tirar do alfaiate um fato à medida
enquanto as pedras rombas
magoam os pés.

11.5.16

#28

Uma vírgula fora do sítio
uma alínea para perlongar raciocínio
o logro de uma palavra sem coorte,
para dizer:
antes o silêncio.

Cinco sentidos

Vejo
o negro dos pássaros enlutados
que farejam o cio da morte.
Cheiro
o negro das cobaias sem remédio
que involuntárias se entregam
ao sabre dos cientistas.
Provo
o negro das iguarias experimentais
que devolvem palco aos obnóxios.
Sinto
o negro das cortinas de fumo
que se deitam nas mãos
em leveduras tácitas.
Ouço
o negro das cançonetas tolas
que desensinam o ouvido.

10.5.16

Mau conselho

Que maus caminhos esses
por onde anda a sede de conselhos?
Bastarda a porta a que batem
os que julgam saciados em bom conselho.
Bastarda a intenção
que enlaça as mãos ao conselho dado
ao mau conselho de maus pergaminhos.
Não quero ser porta-estandarte
de conselhos ávidos
nem conselheiro de coisa nenhuma.
As curas interiores
que as busquem algures:
em peritos de descaminhos das almas
em oráculos feéricos
em curandeiros insolentes
ou apenas
no restolho que os pés próprios deixam
em peugada.
Não peçam conselhos
que as cicatrizes se doem nas mortificações
de outrora
e as baças nuvens impedem o olhar.
A preceito de maus conselhos
julguem-me em pelotão de fuzilamento.

9.5.16

Contrastes

Um prego na estopeta
para quem caça baleias em mar alto.
E um tubarão furtivo
para desenhadores dos mares.
Uma cruz ao alto
para ateus sem remédio.
E as cores do Érebo
para seguidores de igrejas.
Dois beijos no rosto
para frígidas emblemáticas.
E algemas álgidas
para amantes abrasadores.
Uma montanha de arroz
para modelos anoréticas.
E um freio na boca
para gulosos empedernidos.
Um papel de embrulho
para um desapossado da estética.
E uma página em branco
para um asceta da estética.
Um chão firme
para o nómada incorrigível.
E um mundo aberto nas palmas das mãos
para o sedentário esquizofrénico.
Um manual de ideias
para os sibilinos do obscurantismo.
E um banho de humildade
para os insaciáveis da erudição.
Quase tudo em novo
para os conservadores de linhagem.
E um módico de estar
para os ganhadores de vanguarda.
Uma rosa dos ventos
para cidadãos desgovernados.
E um manual de Bastiat
para aduladores da ordem social.
O mar aberto
para pastores de serranias.
E as cumeadas pintalgadas de neve
para os pescadores de alto mar.
Um pau cinzelado a cobre
para os pioneiros da maré.
E um copo de chá
para elefantes brancos.
O martírio assinalado
para os devotos de perfeição.
E a algazarra inominável
para dementes do espaço.
Um impropério banal
ao polícia de costumes.
E uma genuflexão
ao meliante dos costumes.
A noite adorada
para os meninos bem-comportados.
E a alvorada fresca
para catedráticos bon vivants.
Um livro de poesia
para burocratas mangas-de-alpaca.
E três quilos de formulários
para poetas poltrões.
Um olhar iracundo
para o trovador das inconsequências.
e um desleixo aluado
para o zelador das coisas constituídas.
As trevas sem fastio
para o pintor psicadélico.
E a impertinência das cores luxuriantes
para cantores sorumbáticos.

#27

I shall not dare riding
on wings.
Safer is wearing
own wings.

8.5.16

Sabatina

Daninhos lugares
de feições subtis
fingidos pesares
de intenções vis.

Altivos doutores
de capas varonis
em demorados vagares
de castas estudantis.

Convencidos esgares
em dirigidos projéteis
dardejados aos populares.

Todavia inférteis
de pensamentos lunares
em disfunções eréteis.

7.5.16

Salva vidas

Os ossos abraçados
às teias dedilhadas por artesãos
e o medo dos naufrágios
que naufraga
às mãos de um colete salva vidas.
Podem vir as ondas todas
podem vir até as do tamanho
de torres sem fim
podem vir míticas figuras marinhas
imortalizadas em heroicas páginas
podem vir piratas desalmados
podem vir ilhas que prometem delícias
e podem vir outras ameaças furtivas
deitando revólveres à fronte;
nem os impossíveis
dão manancial aos medos avulsos
mercê do salva vidas
anjo que abriga
dos fungos destravados
com a coroa da maldade.

6.5.16

#26

Deu-me uma ilha,
a mais encantadora voz,
sereia emergindo de profundas águas
e eu sentei-me na árvore mais alta.

Objeto decorativo

O pedestal.
Cimeiro.
Luzes de néon
e a refração do distorcido,
que as luzes de néon
são pródigas em mantos de ilusão.
Do pedestal
vê-se empolado
(num espelho que só existe
à frente dos seus olhos).
Vai à cata das luzes de néon.
Convencido
que se chegar aos néones
vem ungido com dotes divinos.
Do alto de pedestal
nem sabe que não passa
de objeto decorativo.