31.1.24

Injustiças indocumentadas (286)

Passas

paninhos quentes

mas

está tanto calor.

Injustiças indocumentadas (285)

O fazer mau contacto

é por não ter 

bons contactos.

#3046

O tempo (pode ser) livre

a roda (quer ser) livre

o regime (devia ser) livre 

e livre (antes fosse) direto.

30.1.24

Despertador

As coisas que se dizem:

a maldita boca destravada

vai mais depressa que o pensamento

azedando palavras

abrindo feridas 

à prova de cicatriz. 

 

Os mastins 

seguram a decência com a boca

mordem-na nos lábios

apetece-lhes falar do avesso

como se condenassem os costumes 

ao silêncio

e depressa os centuriões dos costumes

deitam-nos em acareação fundamentada

com os déspotas que bebem conspirações

azulando o caos com um raiar amanhecedor

o pior dos embargos:

 

ainda 

há muito dia 

a caminhar

e ele 

já nasceu 

torto.

Injustiças indocumentadas (284)

Corta e cose. 

Cose. 

C-o-r-t-a.

#3045

Andavam em cardume

a vontade rapinada 

o vértice de um nada.

29.1.24

A saque

O saque 

em talhadas

tutelou as ossadas

em descuidado material

não havia crime a preceito

e os soezes agitavam a alva bandeira

os farsantes, bolçando bílis,

chamando o alvará filial

dos que mercavam

de empreitada

o saque.

#3044

Devorou

os lanços da escada

sempre gostou

de carrosséis 

e túneis da morte.

Injustiças indocumentadas (283)

Tem as costas quentes

apesar de ser 

Inverno.

28.1.24

#3043

As cordas 

ficaram lassas 

deixaram espaço

para a vontade.

27.1.24

#3042

O mundo acaba de acordar.

Eu acordei mais cedo.

26.1.24

Injustiças indocumentadas (282)

Uma pedra no caminho

acreditem

é pior 

do que uma pedra no sapato.

#3041

Cai no céu infecundo

a base estrutural da angústia

e os dias por diante

já não estão à espera do medo.

25.1.24

O apocalipse que nunca mais chega

Confirma-se

a tese do apocalipse,

se for lida pela lente dos proponentes:

a teimosia do mundo em não se finar

é o apocalipse em cena

para os que dedicaram uma vida

a vender o apocalipse 

para a brevidade impossível.

Confirma-se:

o mundo a conspirar

contra os estetas do apocalipse:

o apocalipse

da tese do apocalipse.

#3040

O homem não,

chora.

24.1.24

Conspiração

A bengala puída limpa a erosão do tempo.

conspira contra o futuro à margem do adro.

Se ao menos as rugas hibernassem

se o corpo não fosse um arcaísmo prometido

se a matéria do tempo não fosse volúvel

podia-se estancar a desesperança

que grita desde mares longínquos

audível,

terrivelmente audível,

enquanto a procissão dos vultos

se encaminha para o pântano sem nome.

Se ao menos o fingimento fosse boa moeda

e os tumultos que ateiam o sangue adormecessem

podia ser 

que o tempo não fosse o nome do medo.

#3039

Um chelique,

quase!

a dama num achaque

a porcelana estilhaçada 

– um resumo 

das maneiras desfermentadas.

Injustiças indocumentadas (281)

Resumo da matéria dada

(sinopse):

Portugal (é) dos pequenitos.

23.1.24

Mau partido

Somos

as perdas a prazo

monumentos arcaicos na posse do medo

tiranetes escondidos debaixo de batinas 

a poeira acamada em cima dos calendários

um polvo privado de fala

e a voz entoada a relapsa tinta-da-china 

que ornamenta as páginas. 

Somos

arrependimentos sujeitos a arrependimento

traves de aço mortiças, 

pendidas sobre o precipício,

rapazes escolásticos que fingem decoro

a terrível orquestração que nos afasta dos eu

colégio de nuvens sem interior

a dançar desajeitadamente 

em cima dos copos vazios. 

Somos

aqueles que deixaram de ter 

remédio. 

#3038

As cores 

diluem as sombras

antes que as sombras 

fujam das cores.

22.1.24

Porta-chaves

São daninhos

esses bocejos esgrimidos 

a destempo.

Passas a mão atapetada

pelo cachaço das ideias

e esperas

que as ideias fruam

contra a indolência dos anátemas.

Sem a correria dos diplomatas do medo

ficarias à tua inteira mercê:

sozinho sem solidão

engenheiro de verbos invulgares

o cajado à mão

para despojares as banalidades previstas.

Não adornas 

no vago lado da corrente tempestuosa:

prezas o equador que faz a meação

e dizes

com a convicção de um condenado,

que estás a meio 

entre a estultícia e a consagração.

Desatas as mãos

só para saberes como são 

as pétalas da liberdade.

Encomendas a voz firme

contra os manuais da obediência

as litanias que somam rotina à rotina.

E dizes

(só para tu próprio ouvires)

que a maré vem cheia antes do anoitecer.

#3037

Os mortos

não voltam

atrás.

 

[Variante do #3036]

#3036

Os mortos

não contam mentiras.

Os mortos

não voltam a morrer.

21.1.24

#3035

Os dias 

eram garfos 

abolidos da carne.

20.1.24

#3034

Renunciado o dote

ficava a nudez inteira

ao palco não subia

o fingimento.

19.1.24

Agência de viagens

Serás imperatriz 

assim que disseres o meu nome

enquanto em ti 

for uma planície à prova de sol

na sela aninhada do rosto noturno

e tu

testemunha do luar insubmisso

empunhando o ar dócil de um estorninho

a tua boca diz

que são muitas as paisagens

que nos querem forasteiros. 

#3033

Aposto

as fichas todas

nas desgeneralizações. 

18.1.24

Injustiças indocumentadas (280)

Um desdentado

não mente.

#3032

[Variante do #3031]

 

Já leste

ou estás à espera

da página do nada?  

#3031

A Leste de tudo

à espera do nada. 

17.1.24

A inveja dos deuses

As palavras doces sobem à boca. Desenham paisagens no corpo. Cuidam das cicatrizes. As palavras, murmuradas na beleza do estuário levitada pelo entardecer. E nós, emudecidos, curadores das palavras ateadas pela combustão do sangue, soletramos as sílabas do hino hasteado nas nossas mãos. E deixamos ao sol futuro os desembargos prometidos.

#3030

É muito melhor

quando os números

desembucham 

o resultado desejado.

 

(Começa-se pelo fim;

e anda-se para trás.)

16.1.24

Tinturaria

Tingido

o suor

pela mudez que não queria. 

 

Tingida 

a carne

pelas farsas que dispensa. 

 

Tingido

o luar

pelos penhores adiantados. 

 

Tingida

a boca

pelo anzol carismático que não pediu. 

 

Tingido 

o arco-íris 

pelo crepúsculo itinerante. 

 

Tingido

o ocaso

pelas horas furtadas aos relógios. 

 

Tingida

a maré

pelo areal em legado por um vulcão. 

 

Tingida

a fala

pelo silêncio impronunciável.

Injustiças indocumentadas (279)

Quando se fala

em engolir um sapo

ninguém pergunta

se o sapo quer ser comido.

#3029

As esculturas

deviam ter direito

aos direitos humanos.

15.1.24

#3028

Não insultes janeiro

se queres o julho a preceito.

14.1.24

#3027

As ruas

que suam História

mesmo quando é

inverno.

13.1.24

#3026

As marés

são congeminadas

por sereias e náufragos 

– a nova sorte 

da luta de classes.

12.1.24

By the book

By the book:

as faianças 

não se perdem

no penhor,

as mãos congeminadas

são o fogo envaidecido

a tomada de poder

contra os estetas do medo. 

 

By the book:

ainda há manhãs sortilégio

um esboço do avesso do luar

a foz que arremete

contra o estuário. 

 

By the book:

suam as palavras

vulgarmente artesanais

o campo aberto 

onde secas se perdem as alvoradas. 

 

By the book:

arrumo a moeda fraca

o porquinho-mealheiro estilhaçado

agora com a alma à mostra

enquanto no adro

as vozes loucas deitam-se nas árvores

e as horas amputam-se de mastros

os imarcescíveis ecos da rebeldia 

povoando os versos inacabados. 

 

By the book,

dizias

porque queremos corrimões

bengalas contra a penumbra

um salvo-conduto num labirinto

as modas 

que se conduzem na anuência silenciosa

um muro sem limites

um desacontecimento que conspira

e nós

sempre

by the book

desaprendemos a liberdade

contra o ónus da segurança.

Injustiças indocumentadas (278)

Estamos a salvo

do conservadorismo:

por serem um mero punhado

os adeptos do Belenenses

são escassos

os velhos do Restelo.

#3025

Não desalmes

o sangue que se desata

no nó cego da dúvida.

11.1.24

#3024

Há quem prefira

ser ogre bonito

a patinho feio.

10.1.24

#3023

Não se vê

a alma do rio,

escondida no caudal

que desenha o estuário.

9.1.24

#3022

Os dias simples

como o farol

que ajuda o navio

a destruir a escuridão.

7.1.24

#3021

Lançado 

na vertigem do carrossel

as palavras emudecidas

derrubavam o medo.

6.1.24

Injustiças indocumentadas (277)

A noz

do povo.

#3020

As mangas arregaçadas

os braços nus, à mostra

a empreitada que vem

no próximo apeadeiro.

5.1.24

Petróleo

Os dentes mordem a carne fraquejada

sentem o sangue morno a balbuciar

como se não houvesse inocentes

e as tábuas herdadas não fossem 

do vazamento da maré.

O cicerone aposta no esgrima

aposta no atleta com menos hipóteses

aposta que a aposta será um epílogo

se tiver vencimento.

Os dentes souberam da manhã

e a carne sabia ao crepúsculo por inaugurar.

#3019

A deriva

deriva,

à deriva.

4.1.24

Autofagia

A árvore estilhaçada

a prova de morte de um ciclone

ou apenas

o estado da arte da mão humana

avançando no agravo

de quem precisa da infâmia

para se estabelecer.

#3018

Um artesão

disfarçado de oráculo

porque o povo tem a mania

de querer saber do futuro.

3.1.24

Injustiças indocumentadas (276)

Não te preocupes

com os pontos nos i.

Preocupa-te

com os pontos

na foz das frases.

#3017

Encerrado para obras,

disse.

Era a fingir

só para fugir dos radares.

2.1.24

Junta autónoma da poesia

Escolhe um cantoneiro

um que esteja de atalaia ao asfalto da poesia

e tu, grato,

danças uma dança caótica

sabendo que é a desordem que rima

com a poesia. 

Antes da estocada final

roubas um marco geodésico

que mede a desprecisão da métrica

como tu medes o tamanho das peúgas

ou a volumetria do suor. 

De ti poderão dizer as coisas piores;

não te apoquentas:

as más profecias

são apalavradas nas tuas costas 

e tu dirás

que as costas não têm ouvidos. 

Quando chegar ao Natal,

não te esqueças 

da “lembrançazinha” 

(ah! o perfume às coisas pequeninas

ou a catedral da tão consagrada

pequenez dos costumes)

para o senhor engenheiro

que tutela

a junta autónoma da poesia.

#3016

A penumbra que fala

arranca à luz 

o silêncio sepulcral.

1.1.24

#3015

Arrancado à carne

o cadáver do ano cadivo

fica 

na alçada do olhar 

um deserto à espera de ser 

instalado.

Do lado da maré

Quero

que em galáxia se torne

o penhor de meus desejos

um miradouro sem paradeiro

onde a paisagem é esculpida por mim

às mãos fugitivas que se desaconselham.

Como se fôssemos todos apátridas

todos

os guarda-luas diligentes

que não perdoam a indigência 

a verdade teimosamente disfarçada de verdade

a utopia hasteada a hino sem bandeira

todo um labirinto sonhado 

enquanto o entardecer proclama 

a noite duradoura.