Sou
o meu próprio legado
a forma do nada
dissolvido no vento tardio.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Tiravas o som à televisão
e na mímica que sobrava
encontravas um medo maior:
não são meigos os silêncios
e até os ventríloquos
os sindicalistas em nome alheio
precisam de som
para não serem convencidos da nudez.
O pior
é que poucos se esmeram
na arte de ler os lábios.
Os silêncios eletrocutados
podem querer dizer coisas diversas
e pior do que a mudez
é não saber seguir
pela linha acertada.
Do lugar da roupa suja
onde os urgentes demandam detergente
os dentes subidos safram os dias indigentes
e nem o cloro salva a água de ser assaltante
os dedos consumidos no xisto
onde se amanha a impaciência.
Dei ao lugar
a indiferença capaz
e de dentro vieram, embuçados,
tiranetes avulsos em contramão
bolçando impropérios e outras platitudes.
Confrontei-os
com o detergente em emulsão
e eles
não querendo aparentar fraca parte
encheram de ar o peito
e avançaram.
Um singelo terçar dos dedos
contra tanta ufania
chegou
para os deixar sombriamente gastos
a contagem no chão os seus próprios despojos
só para efeitos contabilísticos
e etc.
Dobro
a metade em que se mutilas
a aritmética deixa de molho
o rosto original
o mosto fundacional.
Sou levado a desconfiar
que ser amigo do alheio é,
literalmente,
de uma generosidade desarmante.
Aninho as víboras certeiras
no cobertor puído
das horas incertas.
As cores esbatidas
perfumam as cotovias em espera
e os velhos inventariados em públicos jardins
amotinam-se num silêncio jazente
como se eclipsassem o tempo
e dessem às gerações vindouras
a generosidade maior do tempo
em suspensão.
Arrumada a noite no provérbio latejante
só ficam em pé os verbos teimosos,
a obstinação
(diz-se)
é o melhor remédio
contra o torpor.
Debruada a ouro
a estultícia do “influenciador”
(assim mesmo,
em português camoniano,
só para aborrecer a novilíngua)
arrotava por cima do seu fautor.
As palavras suadas
soam como pórticos sisudos
dispensam os punhais imberbes
soadas que são como dentes de mastins
que em seus festins
alcançam o suor dos predadores
– então tornados perdedores.
Passa a palavra
lá por casa
e depois
pelo resto do mundo
a Wikipedia
é uma weakipedia.
Um satélite despenteado
dava cambalhotas na órbita;
cá em baixo todos se portavam
como os gauleses de Asterix.
Um sopro inclinado
os dedos entrecruzados
os olhos desembaciados:
doravante
fingirá que está de atalaia
ao mundo que precisa de atenção.
Desencontro a luz,
refém do crepúsculo,
e descubro
que é fácil a visão
quando a luz foi abandonada.
Uma pessoa de esquerda
pode ser
às direitas.
[A maldita semântica oficial,
que é politicamente enviesada]
O que acaba pendente
na borda do prato
é a lisura do que tem serventia
mas só pode chegar
depois.
Podiam inventar
uma prevenção rodoviária portuguesa
a favor do idioma
não há ninguém
que sofra tantos atropelos
trezentos e sessenta e cinco dias no ano.
Tirando as vírgulas em excesso
e as águas tépidas servidas ao desbarato
quando o termómetro mordia a mais de trinta
não tinha nada a dizer
e o livro de reclamações não veio a propósito.
Dizias:
há matéria-prima que mais parece
matéria-tia
e eu perguntei se tinha algo a ver
com a linha de Cascais
ao que redarguiste
com voz surpreendida
que não alcançavas a distinção.
Num dia de estio desacertado
em que as moscas perdem a timidez
e pesam mais do que a sombra acalorada
o raciocínio derrete no horizonte distorcido
ou era eu que estava a ser assaltado por um pesadelo
e não dei conta.
Peso o peso
antes de ser do peso refém
e da dieta súbdito.
[Modernidades que placam a autonomia individual]
A terra cicatrizada que me devolve a manhã
subleva-se em marés iracundas e sucessivas
no hastear dos versos lídimos
arrebatados por um clarão iridiscente.
Os destroços deitados na estrada
enquanto são removidos de o serem
são o rosto da devastação;
antes fossem uma nota de rodapé
no atlas aberto que abraça o tempo inteiro.
A terra tem cicatrizes
eternas
oxalá pudessem ser uma mnemónica
a bandeira sem paradeiro certo
o hino cantado
por todos os idiomas.
Tantos
a impetrar reformas
(disto e daquilo
e assim sucessivamente)
e ninguém com lucidez para avisar
que o Estado está a cheirar
a aposentação.
[Variação de Injustiças documentadas (671)]
É inútil o estado da nação
sem a noção da nação.
De que adianta o estado da nação
se antes não se fez o estudo da nação?
O seco rio abate o silêncio
o tomador de almas que só esperam
redenção.
À noite
combinam-se as vozes assustadas
a maresia vestiu-se de música
e os demónios agora são o que se entoam,
sem os disfarces de outrora
sem as máscaras
do descarnaval.
Os olhos não se escondem
dos corpos à altura
desmatam o medo
como se fossem poetas baldios
e o suor
passa a língua franca.
Gostamos
ostentamos com honra
os chapéus morais que nos trazem
superioridade,
mas esquecemos
a finura dos telhados de vidro.
Sem saber do lugar estado
o ocaso dança no estirador
enquanto a mão agita
as palavras amanhecias.
No jeito desastrado
de quem sopra as pétalas por acaso
e desmonta a flor tornada deserto
sapateava o chão do dia com os óculos de sol
e nem sequer estava sol
mas os deveres de estilo
torpedeiam as pragmáticas coisas
destinadas ao olvido
numa praça não sei se meio deserta
ou meio composta
transfigurando os rostos dos anónimos
que é preciso obedecer ao RGPD
antes que em contrafação de modos seja apanhado
e por heresia das leis seja condenado
a toda a sorte de trabalhos comunitários
e destrabalhos de outra linhagem
enquanto em surdina indulto uma ode avulsa
que hoje estou por conta do estilo livre
não sinto que cinto algum seja à minha medida
e nem o remorso consegue verter a sua lava
deixando os impropérios
por conta da voz em pano de fundo
que nunca se desaloja
das funduras de onde a luz não intimida.
Ainda assim
reservei o sarcasmo para amanhã.
Não digas nada.
Não acordes os demónios
do seu sono de fealdade.
Não abandones o silêncio inteiro
nem que por vírgulas tenham
a tua sorte.
Não amanheças imperador do dia.
Mas não fujas dele
lembra-te das flores que são seu cio
e toma-as como penhor
das juras por vencer.
Amanhã
dirás o que hoje não disseste
se entretanto não fores vítima (voluntária)
do (teu) esquecimento.
Referendei a apolónica montanha
como se entre os copos fluíssem os verbos
e o miado dos gatos se escutasse
em surdina.
Mas toda a gente estava em promenade
o vazio hasteado com pundonor
como se estivessem desligadas da corrente
ou alguém tivesse desligado as fichas todas.
Os feriados foram feitos
para todos se porem entre parêntesis.
Podia-se pensar
em taxar as taxas
– e assim sucessivamente –
até se chegar
ao palimpsesto da receita pública.
Toda a haste
bebe no impuro luar
que desagrava a noite.
Os copos
desembaraçam-se da água
povoam latitudes inexploradas.
Amanhã
(sempre o amanhã)
apuramos as contas desmatadas,
na contabilidade por estima
na vacatura das almas.
Desfliam
os números as letras as frases avulsas
massacram o pensamento
pedindo, sem saberem, que se exile.
[Concerto de Massive Attack, Primavera Sound Porto 2026]
Quando a caridade
se confunde com corveia
as mãos trocam palavras
por desdém.
(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)
Como se chama
a voz zangada
que sobe para a jangada
e se vinga no caudal de lágrimas?
Como se chama
pelo estroina de serviço
e se pede para descer a cortina
sobre os amalucados que deformam
o concerto das nações?
Como se chama
o patrono dos sonhos
e se pede para receber a vacina
contra os despreparos do mundo
e os incendiários que o descomandam?
Na ebulição que amanhece
deixo o olhar seguir pelo teu
apuramos o silêncio que não se adia
e sozinhos diante de uma fonte,
como se ela fôssemos,
ousamos ciciar um sonho
de que somos artesãos.
Fujo de vozes que murmuram lamentos.
Fujo de luares adulterados no horizonte.
Fujo de “personalidades” fingidas
e das que não o sendo não ficam atrás
em voyeurismo banal.
Fujo das invetivas de gente ofensora.
Fujo dos idiomas que ultrajam a fala.
Fujo de viúvas negras com o cenho carregado.
Fujo de idiotas úteis e dos outros
que intuem uma certa utilidade.
Fujo da “resiliência”,
do “impactante”
e do “abrangente”.
Fujo dos tipos que estão sempre a dizer “tipo”.
Fujo dos farsantes que mentem a si mesmos
enquanto fingem uma coisa qualquer.
Fujo do marasmo que se deita no calendário.
Fujo das ideias matrioskas.
Fujo de amadores ufanos e patriotas fala-barato.
Fujo do deus dará
que oxalá seja estatuto falhado.
Fujo do que finjo
antes que o fingimento me colonize.
Fujo da indigência
e da soberba dos risíveis arautos.
Fujo da nomenclatura gasta
em fósforos virgens.
Fujo dos sacerdotes de todos os calibres.
Fujo dos mapas, das fronteiras,
da obnóxia distinção de nacionalidades.
Fujo quando for hora de fugir.
Fujo enquanto me apetecer fugir
e de tanto fugir não me cansar
altura em que fujo de continuar a fugir.
Não tinha uma varinha mágica
e não aspirava a ter uma
no arsenal das coisas que mudam
os palcos.
Deixava as mudanças para os sonhadores.
Deixava os projetos generosos
para os líricos apóstolos da ingenuidade.
As estrofes vazavam os sonhos pueris
e às mãos vinham parar
como seu cais
as coisas puídas que não mudam
(a não ser para pior).
Estimados dentes que acendem os candeeiros
se fossem isqueiros
que vulcões desatavam da letargia?
Dentição assestada em riste
que dos argumentos opostos
por mais variegados que seja
fundeiam na terrível indisposição mental
que fariam se vosso fosse o império
e às mãos calhasse em hipótese silenciar
os que ao contrário de vós pensam?
Dentes a eito
originais ou em encenada substituição
perdidos no meio das vulgares suposições
abraçados em dúcteis conspirações
mesmo a calhar como a roca serve ao parafuso
dentes, ó dentes tão soezes,
era preferível
que as mandíbulas que vos amparam
estivessem de vós nuas.