Inspira
toda a inspiração
que o dia pródigo
te dá em crédito.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Um bardo com sardas assobia ao piano.
Absorto
caminha pelo abismo sem a fita métrica.
Pergunta:
o que é a manhã?
O que podemos fazer
com o luar extinto?
A música derramada
não ajuda a descobrir uma resposta.
O bardo
vem a descobrir
que não importa
descobrir a solução
para aqueles enigmas,
são perguntas sem lugar próprio
perguntas órfãs.
O bardo dedilha umas sílabas
talvez dali venha a sair um poema.
E antes um poema
nem que seja em forma de ensaio
do que respostas categóricas
a perguntas erradas:
se as segundas são erradas
por mais que sejam
certezas
a abençoar as respostas
as primeiras também estão erradas.
Ninguém
no seu imperfeito juízo
faz os impossíveis
para cair nas más graças.
Como uma água sem represa
os dedos selvagens escrevem estrofes
antes de encontrarem o estuário
que os torna finitos.
Dos amigos do alheio
pode-se dizer
que são amigos da onça.
(Ainda que esteja por determinar
do que a onça é culpada)
As esporas ferradas na pele
mais tarde do que cedo
cicatrizes que deixam a memória
à mostra.
Os dentes puídos
rebelam-se contra personalidades
consabidas
um desmatrimónio que tem tudo
mais cedo do que tarde
para se encerrar num êxito.
O descampado é testemunha:
mais ninguém está por perto
o que for dito
fica perdido no vento rasante.
Dos dias a meio
guardo o esconjuro da rotina
os olhos inertes
amanhecidos no rapto da melancolia.
Os ramos estendidos
davam vida aos rostos
na meação do critério despojado
por todos os demónios destronados
e todos os verbos extintos
na farsa esquecida.
Os ossos fartos falam mais alto
vertem sobre os diademas claros
as férteis promessas que se juntam no apogeu
num qualquer baldio sem costura.
As pessoas querem a salvação das almas
enquanto se distraem no fogo da insídia
enquanto
descorajosas se encomendam a divindades
por conta de inaugurações do passado
das costas entortadas com o tempo adversário.
Não importa que hoje seja apenas hoje
a métrica caótica que aloja a angústia toda
não importa
que se desmontem os demónios sem escrúpulos
nem os meios atiçados para o propósito.
As estrofes avulsas
um credo como qualquer outro
põem-se em sentido
num sortidos de braços e pernas e dorsos
a que surdos os sentidos se entregam:
em vez da perfeita encomenda para o desastre
sobrestimam-se
as pistolas desenganadas
que encenam os projetos de impuros esboços
de simplicidade.
Quero os números todos
inteiros e por completar
primos e bastardos
levantando o véu ao vale sem paradeiro
essa matéria-prima de que não sou feito
mas podia ser
se não tivesse fugido às comendas
e do peito tivesse gritado
em minha desdefesa
que não há préstimo menor
do que querer ser deitado só olvido.
Se todas as bandeiras
fossem do avesso
teríamos a paz
que não passa de uma quimera?
Se todas as palavras
não pertencessem a um idioma
os Homens
entender-se-iam melhor?
Se os rostos não escondessem
fingimentos
as mentiras seriam macias?
Se procurássemos perguntas
sem lhes encomendarmos respostas
os dedos deixariam de tremer de medo?
Deixei de fora a cartola
não por ser de pouco jaez a tola
é que por não ir com eruditos à bola
perdi o direito à estola.
Não é essa sabedoria que cola
que de tão feérica não passa de carambola
só um montão de platitudes na sacola
o lugar especial para qualquer mariola.
Porque se de volta tola
andasse em demanda estarola
seria eu próprio dos maiores o artola
e de meus pecados diria arrola.
São pedaços de certeza
embutidos na cofragem estonada
que voam sem asas no quintal dos profetas
que ávidos se acham
num banquete de inocentes
entontecidos pela usura dos indigentes.
O sol a pique acende os faróis do sono
subindo as escadas irregulares para nenhures
aparafusando as sinapses ao contorcionismo
que não pediu licença.
Promete umas bastonadas pedagógicas
copiando um inditoso ministro da cultura
(sem a parte do ministro da cultura
que à nascença asfixiei as políticas ambições)
como quem ameaça só para amedrontar
que a linhagem de homem da paz
não seja beliscada
por uma ameaça impraticável.
À força de uma montanha
peticiono uma coragem discreta
o rosto sem esgares
na esquina dos infecundos provérbios
enquanto procuro as artes de pesca
o adro da igreja
fantasmas disfarçados de viúvas anciãs
o pacto que ninguém vai selar
e na noite vespertina
com o atraso típico das coisas afiadas
deixo um adeus pressentido
aos deuses logrados costurados
em ponto de cruz.
Untadas as costas da mentira
com um banho de luz avivada
às portas da impudicícia ficava
a boca torta
de quem rompeu o lacre da honra.
Ficaram todos a falar sozinhos
em círculos
não demovendo
as múltiplas personagens que espreitavam
pela escotilha.
Na versão escatológica
diziam os puros
(soi disant)
que o avesso da mentira
pertencia aos conceitos arqueológicos.
Ninguém corou.
Cozinhamos a vapor
a injúria dos homens sem rosto
cozinhamos no vapor
a fealdade arrotada com desdém.
Não escondo as vírgulas da alma.
Não arranjo parafusos avariados.
Não durmo quando a noite ainda espreita a lua.
Não salvo almas das labaredas avulsas.
Não minto por serem mentiras às escuras.
Não rimo com o vento sentado.
Não remo nas entrelinhas das vozes malsãs.
Não me amotino contra os ossos cansados.
Não traduzo as luzes baças sobre o cais.
Não acordo com o sussurro dos sonhos imprevistos.
Não adio os remédios estatutários.
Não sirvo para estátua imorredoira.
Não me sento no parapeito do futuro.
Se em vez de ouro
peticionassem
(eu lá sei)
antúrios vicejantes
rifas sobre o dia vindouro
um estuário ou um delta disfarçado
e retorcida imagem de um misógino
(só para destruir, só para destruir)
as telhas por estrear num telhado abandonado
farsas contra o apogeu da verdade-verdadinha
a métrica sem medição
uma fogueira lutuosa em cima da incógnita
a purulenta, arcana voz de barítono
do ensaboador de notáveis
(de serviço)
o espanador puído deixado em herança
a rota só com retas
o adversário a que se deixou a vitória
o mel coado em vez da feira ruidosa
a fonte vertiginosa caída de combro no precipício
se peticionassem uma só
das hipóteses admitidas
extinguir-se-iam as vaidades
os óculos graduados
os dedos trémulos com medo da chuva
os cerebrais despensadores
que nos abandonam ao azar
a que não falta o ar.
Falava como hieróglifos
nem uma alma para o traduzir
– dizia-se,
acontece com mais gente
do que parece.
Causa provável
o verso incerto que acompanha a lucidez
o retrato amarelecido dos rostos também gastos
uma pedra sentada na cama desfeita
e ainda assim por descobrir
no tirocínio involuntário da desonra do dia.
Causa,
provável assenhorear das vontades avulsas
como serpentes elevadas ao quadrado
para pesadelos que cortam a respiração.
Tréguas como pequeno-almoço
anunciava o major
mandatado para matar a guerra.
Nas casernas
os generais e outras patentes que tais
caíram em si:
e agora
que a paz teve bênção humana
quem os salva da extinção?
O vulcão hasteado
o desejo tempera
no destempo arqueado
sem a noite em espera.
No livro saciado,
a estrofe sincera
o beijo rogado
esta nossa quimera.
O olhar mudado
corpo ainda primavera
o hábito rasgado
a boca que se supera
o amor povoado
o dia que se esmera.
Os braços impugnados
atiram sal para as vozes vulcânicas;
são os mecenas do silêncio caridoso.
Os grandes ladrões
ocupam o alheio
com a mesma facilidade
que ao mitómano
se averba falta de comparência
à verdade.
São uma espécie de marxistas ilícitos
(os primeiros).
Já os segundos,
são como especialistas
de fertilidade in vitro
com uma precisão milimétrica
para acertarem na mentira.
Por sinal
os patos bravos do imobiliário
são como diplomatas a comer
com os cotovelos em cima da mesa.
Havia números primos
outros elevados ao cubo
outros ainda conspirando
em lúdicas cabalísticas
e a matemática,
aos costumes, dizia zero.
O homem velho
talvez lúcido como só a velhice admite
avisou:
estamos vivos só à espera da morte.
Ninguém lhe perguntou
se já encomendara os serviços fúnebres
pois ninguém era tão velho
como o velho dali.
O velho residente
ou por surdez seletiva
ou por não saber da resposta,
dedicou-lhes um silêncio conspirador.
Quem nos mandou
passear no jardim
junto à câmara municipal.
Às pérolas que há em nós
escondidas sob a pele fortaleza
neste que é um castelo que guarda a voz
povoada por singela grandeza.
Crescermos na largueza do estuário
vontade por vontade conquistada
do tempo não se sacia o anuário
onde se hasteia a bandeira desatada.
E depois, antes do entardecer,
disfarçamos os poemas mudos
reforçamos a voz que não sabe envelhecer
nem que pelos corpos puídos
suba um diferente amanhecer
para calar os verbos doídos.
O garfo forja a farsa
e os dedos advertem
os sentidos assimétricos
que da poda não apodrecem
os galhos daninhos.
Se assimétricos fossem os sacerdotes
talvez tivessem travessas atravessadas
e num poço empossado na peça centrípeta
falassem os nefelibatas fadados
os convictos em hora de ponta.
De hoje para amanhã amacia o tempo
(houve quem o quisesse matar)
trovoadas avulsas desavisam os vetustos
sem a cerimónia nem a parcimónia
dos diplomatas desmatados
esquecidos dos manuais datados.
O corsário bebeu as horas
e ainda foi a tempo
do circo.
O tenente cuspiu às escondidas
mas ainda selou as regras
da urbe.
O mendigo dormiu de dia
sem sequer temer o desagravo
das lides.
O figurão escondeu-se das regras
para gáudio dos ainda crucificadores
de serviço.
Quem é louco
ao ponto de oferecer ouvidos
nunca mais consegue usar a audição.
Justas
as preces aprisionadas no jogo sem regras
quando as cortinas descem
e a luz sussurra os mistérios
ajaezados.
Não é questão de tempo
o anticlone conspira a favor da Primavera;
os bardos foram silenciados
e os favos de mel suam a colheita esperada:
amanhã de manhã
haverá novidades ao pequeno-almoço
e o dia correrá a preceito
– assim sejam confirmadas as justas preces.
Eis o portuguesmente fatalismo:
as ruas obcecadas
a língua de trapos
um futuro preso ao passado.
À corda
a cabeça sentada na periferia
um atilho estreita o olhar
neste lugar não há satélites
apenas os cantos dolentes de viúvas de carvão
e nem um abraço se peticiona
as pessoas têm alergia umas das outras.
A corda
a saltar de três em três degraus
matéria-prima por adulterar
os diamantes também
até os que se misturam com a fala
e de um gesto brusco fazem pérolas promissoras.
Acorda:
o rio ainda vai caudaloso
e as mesas descompostas anunciam a noite
e tu
entre a espuma do dia
e a efémera condução de tudo
tomas a procuração inteira
para seres embaixador de ninguém.
No testamento sem vírgulas
amontoam-se vinganças e prebendas
como se ser póstumo caiasse a transparência
e fosse confirmado
que estar vivo exige muita farsa
(há quem lhe chame
diplomacia).
No palacete que esconde as meias rotas
o embaixador encena ginástica retórica
manda dizer por palavras mediadoras
o que fica à porta de ser dito
poupando uma mão-cheia
de diplomáticos incidentes
e querelas subterrâneas.
Como contas os verbos da minha pele?
Em vez da noite,
sombras levam por nós à boca
o tempo sem cortesia.
Em vez de braços
embainhados numa coreografia daninha,
estrofes levitam na alma sem fundo.
Damos um adeus ao dia havido.
Dele diremos elogios só.
Não seremos sós
enquanto a sós formos uma multidão.
De cor
a cor neve
o nervo acobreado
a embocadura da névoa
a coberto dos noves nada
o nevrálgico costurar da corda
em cargos enevoados
o enlevo da carga pesada.
Da cor água
de cor estabeleço o corsário
e o fortuito corpo estiolado
no estuário que desfaz o encargo
o calvário em estátuas desfeitas
encolhendo o corpete dos estafetas.
Comprimo o olhar
em desavença com cores que sei de cor
o corrupio estiola os corsários avulsos
e de mim serão infecundas
as cisões conspiradas por vozes lúgubres.
Nas veias do labirinto
as horas escurecem de propósito
e o sangue arrefece numa anestesia indulgente.
Sem medo,
não sei o que é a morte.
Sem o tempo escasso,
tenho medo da morte.
Depois das nuvens escafandro,
onde tudo perde o sentido
e os sentidos se exilam no nada,
as memórias são guardadas em tatuagens
que ajeitam a pele para a decadência.
Aviva-se o penhor
de todo o tempo que é pertença,
de toda a vida que só pode ser sentida
se rimar com vertigem.
Como se houvesse
apenas
um amanhã a amotinar-se de tanto passado.
O endireita azares
compareceu à faina
ainda com o guardanapo a tiracolo
os beiços com a gordura prova do almoço
pronto a devorar os inocentes candidatos
mesmo a jeito do selo do azar
que ficavam tão bovino naqueles lombos.
O ferreiro e o almocreve subiram à mesa
mediam
o estatuto dos notáveis que desfilavam
sem, ó heresia, passadeira carmim,
tao tenros para serem a carne
para a boca do canhão
e ali jazendo depois
sem misericórdia dos verdugos
que se lambuzavam com a vitória
cravada nos cascos
a sublime tatuagem
sem a fuligem do tempo que perdeu a memória
para grande lamento da turba que aprendeu
o feitiço dos notáveis.
Faltaram
o cangalheiro e o cobrador de fraque,
mas não importava,
as dívidas estavam prescritas
e só faltava esperar pelo espelho dos rostos
a sepultura onde desvivem os párias.
A marcha de horrores
apalavrada para a sobremesa.
aos olhos
não deve ser escondida
a franqueza que não é fraqueza.
Ontem
arrumei as facas no alguidar
e esqueci-me do sangue.
Desenhei um mapa
à prova de infantes e marialvas
em cima de uma colher de desdém
depois de bebidos três cálices
de impudor.
Saí
sem medo da rua varrida
sem medo das pessoas
ah! ausentes
e estendi o meu império pelas ruas
desandadas
assim, errante,
gostosamente errante
só a olhar para as palmas das mãos
à procura de oráculo
ou só apenas à procura
de exílio.
Disseram-me
tu não sabes nadar nas espadas centrípetas
não sabes nada
de diplomacia
de jardinagem
e dos mistérios conspirativamente imputados
a (um) deus.
Não importa:
prefiro
a vertigem do vento que magoa a pele
fazer de detetive
em demanda de desconhecimento
metendo parafusos nas estrofes
(assim) abortadas
precavendo os demónios
impedindo-os de cavalgarem numa aurora pária
para fora de mim.
Amanhã
vou arrumar o desarrumo de depois de amanhã;
pode ser que o esconjuro
dê juros no passado.
Sempre desconfiei
de gente com ideias apessoadas
como se tivessem sido engomadas
pela omissão de perguntas
e por vírgulas mal confecionadas
– aquela gente de elevado gabarito,
não menos de dois metros de alto
(para extinguir as dúvidas que haja).
Sempre desconfiei
de amanhãs apreciados
sem se saber (ou desconfiar)
o que é o amanhã
e de profetas desenganados
peritos
em lubidriar o próximo e o distante.
Sempre desconfiei
daquelas bocas boçais que desconfiam
por desconfiar
a armadilham a confiança
em bolas de estrume disparadas sem critério.