12.5.26

#4441

Inspira 

toda a inspiração 

que o dia pródigo 

te dá em crédito.

11.5.26

Longo prazo (um bardo inconsequente)

Um bardo com sardas assobia ao piano.

Absorto

caminha pelo abismo sem a fita métrica.

Pergunta:

o que é a manhã?

O que podemos fazer 

com o luar extinto?

A música derramada

não ajuda a descobrir uma resposta.

O bardo

vem a descobrir 

que não importa 

descobrir a solução 

para aqueles enigmas, 

são perguntas sem lugar próprio

perguntas órfãs.

O bardo dedilha umas sílabas

talvez dali venha a sair um poema.

E antes um poema 

nem que seja em forma de ensaio

do que respostas categóricas 

a perguntas erradas:

se as segundas são erradas

por mais que sejam 

certezas 

a abençoar as respostas 

as primeiras também estão erradas.

Injustiças documentadas (653)

Ninguém 

no seu imperfeito juízo 

faz os impossíveis 

para cair nas más graças.

#4440

À revelia 

a lucidez compensa

o atrito da loucura.

10.5.26

#4439

A pele em plano máximo 

os poros desenhados à mão 

a pele que respira no desejo.

8.5.26

#4438

Como uma água sem represa 

os dedos selvagens escrevem estrofes 

antes de encontrarem o estuário 

que os torna finitos.

7.5.26

Relógio

O segredo

invade o silêncio

a voz que em mim se agiganta

na noite minha testemunha.

Injustiças documentadas (652)

Dos amigos do alheio 

pode-se dizer 

que são amigos da onça.

 

(Ainda que esteja por determinar 

do que a onça é culpada)

#4437

Estremece o corpo 

no seu sismo interno, 

a redenção é o que procura.

6.5.26

Injustiças documentadas (651)

Escroque monsieur

a desconstrução 

da iguaria local.

Incógnito

As esporas ferradas na pele

mais tarde do que cedo

cicatrizes que deixam a memória 

à mostra.

 

Os dentes puídos 

rebelam-se contra personalidades 

consabidas

um desmatrimónio que tem tudo

mais cedo do que tarde

para se encerrar num êxito.

 

O descampado é testemunha:

mais ninguém está por perto

o que for dito 

fica perdido no vento rasante.

#4436

Uma meda de queixo caído, 

que a espécie é um espanto.

5.5.26

Dos dias a meio

Dos dias a meio

guardo o esconjuro da rotina

os olhos inertes 

amanhecidos no rapto da melancolia. 

Os ramos estendidos 

davam vida aos rostos

na meação do critério despojado

por todos os demónios destronados

e todos os verbos extintos

na farsa esquecida. 

Os ossos fartos falam mais alto

vertem sobre os diademas claros

as férteis promessas que se juntam no apogeu

num qualquer baldio sem costura. 

As pessoas querem a salvação das almas

enquanto se distraem no fogo da insídia

enquanto

descorajosas se encomendam a divindades

por conta de inaugurações do passado

das costas entortadas com o tempo adversário. 

Não importa que hoje seja apenas hoje

a métrica caótica que aloja a angústia toda

não importa

que se desmontem os demónios sem escrúpulos

nem os meios atiçados para o propósito. 

As estrofes avulsas

um credo como qualquer outro

põem-se em sentido

num sortidos de braços e pernas e dorsos

a que surdos os sentidos se entregam:

em vez da perfeita encomenda para o desastre

sobrestimam-se

as pistolas desenganadas 

que encenam os projetos de impuros esboços

de simplicidade. 

Quero os números todos

inteiros e por completar

primos e bastardos

levantando o véu ao vale sem paradeiro

essa matéria-prima de que não sou feito

mas podia ser

se não tivesse fugido às comendas

e do peito tivesse gritado

em minha desdefesa

que não há préstimo menor

do que querer ser deitado só olvido. 

#4435

O resmungão

protesta a torto e a esquerdo 

dá uma lição

de democracia.

4.5.26

A coreografia das perguntas lunáticas

Se todas as bandeiras 

fossem do avesso

teríamos a paz 

que não passa de uma quimera?

Se todas as palavras 

não pertencessem a um idioma

os Homens 

entender-se-iam melhor?

Se os rostos não escondessem

fingimentos

as mentiras seriam macias?

Se procurássemos perguntas

sem lhes encomendarmos respostas

os dedos deixariam de tremer de medo?

#4434

As flores 

olham com ternura 

até depois de serem arrancadas.

3.5.26

#4433

Muito o desfalecer

tardia a venda 

que arrefece a compostura.

2.5.26

#4432

Metro a metro 

deito o mel nas palavras 

antes que desçam ao estuário 

e o rio tardio as consuma. 

#4431

Acerto o relógio 

pela cor do vento 

e espero 

que a luz se torne 

o seguro do dia.

1.5.26

#4430

Tanto se mete o pensamento em trabalhos 

e nem assim a preguiça prospera.

Injustiças documentadas (650)

O tempo livre 

livrou-se 

de um cadastro.

30.4.26

Tola, a cartola

Deixei de fora a cartola

não por ser de pouco jaez a tola

é que por não ir com eruditos à bola

perdi o direito à estola. 

 

Não é essa sabedoria que cola

que de tão feérica não passa de carambola

só um montão de platitudes na sacola

o lugar especial para qualquer mariola. 

 

Porque se de volta tola

andasse em demanda estarola

seria eu próprio dos maiores o artola

e de meus pecados diria arrola.

#4429

Uma trovoada medonha 

abateu-se sobre o sangue transido 

e o dia não voltou a ser o mesmo.

29.4.26

#4428

Um embaraço pela trela 

é menos mau 

do que uma mentira 

em nome da verdade.

28.4.26

Deuses costurados em ponto de cruz

São pedaços de certeza

embutidos na cofragem estonada

que voam sem asas no quintal dos profetas

que ávidos se acham 

num banquete de inocentes

entontecidos pela usura dos indigentes. 

O sol a pique acende os faróis do sono

subindo as escadas irregulares para nenhures

aparafusando as sinapses ao contorcionismo 

que não pediu licença. 

Promete umas bastonadas pedagógicas

copiando um inditoso ministro da cultura

 

(sem a parte do ministro da cultura

que à nascença asfixiei as políticas ambições) 

 

como quem ameaça só para amedrontar

que a linhagem de homem da paz

não seja beliscada

por uma ameaça impraticável. 

À força de uma montanha

peticiono uma coragem discreta

o rosto sem esgares 

na esquina dos infecundos provérbios

enquanto procuro as artes de pesca

o adro da igreja

fantasmas disfarçados de viúvas anciãs

o pacto que ninguém vai selar

e na noite vespertina

com o atraso típico das coisas afiadas

deixo um adeus pressentido

aos deuses logrados costurados 

em ponto de cruz.

#4427

A valsa cismada não sai de casa 

os corpos retorcidos têm pudor.

27.4.26

A mentira perdeu o arnês

Untadas as costas da mentira

com um banho de luz avivada

às portas da impudicícia ficava 

a boca torta 

de quem rompeu o lacre da honra.

 

Ficaram todos a falar sozinhos

em círculos

não demovendo

as múltiplas personagens que espreitavam

pela escotilha.

 

Na versão escatológica

diziam os puros 

(soi disant)

que o avesso da mentira

pertencia aos conceitos arqueológicos.

 

Ninguém corou.

#4426

O tempo descalço 

embota os rostos desprevenidos. 

26.4.26

#4425

Percorro o dia corajoso 

e digo 

que as palavras não chegam

para tanto falar.

25.4.26

#4424

A casa segredo 

murmura 

o que o olhar sente do avesso.

24.4.26

#4423

Cozinhamos a vapor 

a injúria dos homens sem rosto 

cozinhamos no vapor 

a fealdade arrotada com desdém. 

23.4.26

Viabilização

Não escondo as vírgulas da alma. 

Não arranjo parafusos avariados. 

Não durmo quando a noite ainda espreita a lua. 

Não salvo almas das labaredas avulsas. 

Não minto por serem mentiras às escuras. 

Não rimo com o vento sentado. 

Não remo nas entrelinhas das vozes malsãs. 

Não me amotino contra os ossos cansados. 

Não traduzo as luzes baças sobre o cais. 

Não acordo com o sussurro dos sonhos imprevistos.

Não adio os remédios estatutários. 

Não sirvo para estátua imorredoira. 

Não me sento no parapeito do futuro.

#4422

Aos pares,

que a solidão 

magoa.

22.4.26

#4421

Vaza a boca

das palavras corrompidas 

ainda vais a tempo 

de levar o dia.

21.4.26

Desarmadilha

Se em vez de ouro

peticionassem

(eu lá sei)

antúrios vicejantes

rifas sobre o dia vindouro

um estuário ou um delta disfarçado

e retorcida imagem de um misógino

(só para destruir, só para destruir)

as telhas por estrear num telhado abandonado

farsas contra o apogeu da verdade-verdadinha

a métrica sem medição

uma fogueira lutuosa em cima da incógnita

a purulenta, arcana voz de barítono

do ensaboador de notáveis 

(de serviço)

o espanador puído deixado em herança

a rota só com retas

o adversário a que se deixou a vitória

o mel coado em vez da feira ruidosa

a fonte vertiginosa caída de combro no precipício

se peticionassem uma só 

das hipóteses admitidas

extinguir-se-iam as vaidades

os óculos graduados

os dedos trémulos com medo da chuva

os cerebrais despensadores

que nos abandonam ao azar 

a que não falta o ar.

#4420

Afasto 

o peso mecânico do medo; 

as madressilvas medraram 

na paisagem oxigenada.

20.4.26

Arvoredo

Porque sabe a muito 

esforço o dia para ser diligente.

 

Porque sei o pouco

forço o dia a ser inquisitivo.

 

Porque esqueço há tanto

causo o dia a ser futuro.

#4419

Se sabemos de cor a pele estimada 

somos tutores da gramática da alma.

19.4.26

#4418

Falava como hieróglifos 

nem uma alma para o traduzir 

– dizia-se,

acontece com mais gente 

do que parece.

18.4.26

#4417

Ajudei a palavra a rir 

e depois 

dei-lhe um analgésico.

17.4.26

Injustiças documentadas (649)

A porca 

(não) torce o rabo

o rabo da porca

já está torcido.

Desacerto

Causa provável

o verso incerto que acompanha a lucidez

o retrato amarelecido dos rostos também gastos

uma pedra sentada na cama desfeita

e ainda assim por descobrir

no tirocínio involuntário da desonra do dia. 

Causa, 

provável assenhorear das vontades avulsas

como serpentes elevadas ao quadrado

para pesadelos que cortam a respiração.

#4416

Às vezes 

apetece ter cabelo comprido 

e deixá-lo cair para cima dos olhos.

 

16.4.26

Tréguas como pequeno-almoço

Tréguas como pequeno-almoço

anunciava o major

mandatado para matar a guerra. 

Nas casernas

os generais e outras patentes que tais

caíram em si:

e agora 

que a paz teve bênção humana

quem os salva da extinção?

15.4.26

#4415

Parto 

de um lugar poluído: 

antes costurar a boca 

ao silêncio.

14.4.26

Tabela de elementos

O vulcão hasteado 

o desejo tempera 

no destempo arqueado 

sem a noite em espera. 

 

No livro saciado,

a estrofe sincera 

o beijo rogado 

esta nossa quimera. 

 

O olhar mudado 

corpo ainda primavera 

o hábito rasgado 

 

a boca que se supera 

o amor povoado 

o dia que se esmera. 

#4414

Os braços impugnados 

atiram sal para as vozes vulcânicas; 

são os mecenas do silêncio caridoso.

13.4.26

Analogias e outras manias

Os grandes ladrões 

ocupam o alheio 

com a mesma facilidade 

que ao mitómano 

se averba falta de comparência 

à verdade.

São uma espécie de marxistas ilícitos 

(os primeiros). 

Já os segundos, 

são como especialistas 

de fertilidade in vitro

com uma precisão milimétrica 

para acertarem na mentira. 

Por sinal

os patos bravos do imobiliário 

são como diplomatas a comer 

com os cotovelos em cima da mesa.

Injustiças documentadas (648)

Cair em si 

é o abismo 

não reconhecido 

(como tal).

#4413

Etc. e mil

prouvera a inflação 

dos sentidos.

12.4.26

#4412

Sejam ruínas

os versos 

das minhas lágrimas.

11.4.26

#4411

Havia números primos 

outros elevados ao cubo 

outros ainda conspirando 

em lúdicas cabalísticas 

e a matemática,

aos costumes, dizia zero.

10.4.26

O velho que não era profeta

O homem velho

talvez lúcido como só a velhice admite

avisou: 

estamos vivos só à espera da morte.

 

Ninguém lhe perguntou

se já encomendara os serviços fúnebres

pois ninguém era tão velho

como o velho dali.

 

O velho residente

ou por surdez seletiva

ou por não saber da resposta, 

dedicou-lhes um silêncio conspirador.

 

Quem nos mandou

passear no jardim 

junto à câmara municipal.

#4410

A erupção do ócio profundo 

que é sexta-feira 

véspera da preguiça legalizada.

9.4.26

Reservado o direito de admissão

Às pérolas que há em nós

escondidas sob a pele fortaleza

neste que é um castelo que guarda a voz

povoada por singela grandeza. 

 

Crescermos na largueza do estuário

vontade por vontade conquistada

do tempo não se sacia o anuário

onde se hasteia a bandeira desatada. 

 

E depois, antes do entardecer,

disfarçamos os poemas mudos

reforçamos a voz que não sabe envelhecer

 

nem que pelos corpos puídos

suba um diferente amanhecer

para calar os verbos doídos.

#4409

As sete vidas de um gato 

provavelmente não chegavam 

para tanta sede de viver.

8.4.26

Injustiças documentadas (647)

I said

I’m sad.

Sad 

is therefore 

said.

#4408

Nem os dias merecem mordaça 

nem as bocas são freadas com o silêncio.

7.4.26

Jogar por fora

O garfo forja a farsa

e os dedos advertem

os sentidos assimétricos

que da poda não apodrecem

os galhos daninhos. 

 

Se assimétricos fossem os sacerdotes

talvez tivessem travessas atravessadas

e num poço empossado na peça centrípeta

falassem os nefelibatas fadados

os convictos em hora de ponta. 

 

De hoje para amanhã amacia o tempo

(houve quem o quisesse matar)

trovoadas avulsas desavisam os vetustos

sem a cerimónia nem a parcimónia

dos diplomatas desmatados

esquecidos dos manuais datados.

#4407

Uma aposta

na loucura

para ver se saímos 

do precipício.

6.4.26

Corta a corrente

O corsário bebeu as horas

e ainda foi a tempo

do circo.

 

O tenente cuspiu às escondidas

mas ainda selou as regras

da urbe.

 

O mendigo dormiu de dia

sem sequer temer o desagravo

das lides.

 

O figurão escondeu-se das regras

para gáudio dos ainda crucificadores

de serviço.

#4406

Na sola do dia, 

desfigurado,

o fidalgo acerta contas

com os fantasmas insistentes.

5.4.26

#4405

Crescido o sol amante 

a pele suada diz ao dia

que dia assim se deve 

emoldurado.

4.4.26

#4404

Salto em altura 

preciso de um vol d’oiseau

para dissolver confusões. 

3.4.26

Injustiças documentadas (646)

C’o a breca 

tive uma breca!

 

(E fiquei sem a beca)

#4403

Este beijo sabe a mundo

tenho na boca 

uma amostra de todos os continentes.

2.4.26

Injustiças documentadas (645)

Quem é louco 

ao ponto de oferecer ouvidos

nunca mais consegue usar a audição.

Injustiças documentadas (644)

Cão por ser preso

e cão por não ser.

#4402

Sílabas a soldo 

uma voz trémula

o medo 

como gramática do mundo.

1.4.26

Praxe

Justas 

as preces aprisionadas no jogo sem regras

quando as cortinas descem

e a luz sussurra os mistérios 

ajaezados.

Não é questão de tempo

o anticlone conspira a favor da Primavera;

os bardos foram silenciados

e os favos de mel suam a colheita esperada:

amanhã de manhã

haverá novidades ao pequeno-almoço

e o dia correrá a preceito 

– assim sejam confirmadas as justas preces.

#4401

Eis o portuguesmente fatalismo:

as ruas obcecadas 

a língua de trapos

um futuro preso ao passado.

31.3.26

À corda

À corda

a cabeça sentada na periferia

um atilho estreita o olhar

neste lugar não há satélites

apenas os cantos dolentes de viúvas de carvão

e nem um abraço se peticiona

as pessoas têm alergia umas das outras. 

A corda 

a saltar de três em três degraus

matéria-prima por adulterar

os diamantes também

até os que se misturam com a fala

e de um gesto brusco fazem pérolas promissoras. 

Acorda:

o rio ainda vai caudaloso

e as mesas descompostas anunciam a noite

e tu

entre a espuma do dia

e a efémera condução de tudo

tomas a procuração inteira

para seres embaixador de ninguém. 

Injustiças documentadas (643)

À atenção superior: 

cair no goto 

pode ser 

uma armadilha.

#4400

Sanada a ferida funda, 

a cicatriz como prova 

incontestável.

30.3.26

Punhos de bisel

No testamento sem vírgulas

amontoam-se vinganças e prebendas

como se ser póstumo caiasse a transparência

e fosse confirmado

que estar vivo exige muita farsa

 

(há quem lhe chame

diplomacia).

 

No palacete que esconde as meias rotas

o embaixador encena ginástica retórica

manda dizer por palavras mediadoras

o que fica à porta de ser dito

poupando uma mão-cheia

de diplomáticos incidentes 

e querelas subterrâneas.

 

#4399

Contaram 

que o silêncio substituiu a fala 

e ninguém disse nada 

sobre isso.

29.3.26

#4398

Sabe a pouco 

o muito que vultos sem rostos 

fazem cair 

com sabor a injúria sem nome.

28.3.26

#4397

Que dizem as farsas em lume-brando

dos profetas que as anunciam?

27.3.26

Pele

Como contas os verbos da minha pele?

Em vez da noite, 

sombras levam por nós à boca 

o tempo sem cortesia. 

Em vez de braços 

embainhados numa coreografia daninha, 

estrofes levitam na alma sem fundo. 

Damos um adeus ao dia havido. 

Dele diremos elogios só. 

Não seremos sós 

enquanto a sós formos uma multidão.

#4396

Não fermento o mosto de autos da fé 

prefiro deixar a vontade à vontade,

sinal do seu império.

26.3.26

Contrafação

De cor

a cor neve

o nervo acobreado

a embocadura da névoa

a coberto dos noves nada

o nevrálgico costurar da corda

em cargos enevoados

o enlevo da carga pesada. 

 

Da cor água

de cor estabeleço o corsário

e o fortuito corpo estiolado

no estuário que desfaz o encargo

o calvário em estátuas desfeitas

encolhendo o corpete dos estafetas. 

 

Comprimo o olhar

em desavença com cores que sei de cor

o corrupio estiola os corsários avulsos

e de mim serão infecundas 

as cisões conspiradas por vozes lúgubres.

#4395

Nas veias do labirinto 

as horas escurecem de propósito 

e o sangue arrefece numa anestesia indulgente.

25.3.26

Nuvens escafandro

Sem medo, 

não sei o que é a morte. 

Sem o tempo escasso, 

tenho medo da morte. 

Depois das nuvens escafandro, 

onde tudo perde o sentido 

e os sentidos se exilam no nada, 

as memórias são guardadas em tatuagens 

que ajeitam a pele para a decadência. 

Aviva-se o penhor 

de todo o tempo que é pertença, 

de toda a vida que só pode ser sentida 

se rimar com vertigem. 

Como se houvesse 

apenas

um amanhã a amotinar-se de tanto passado.

#4394

Tudo num sopro

instantâneo

em prazo válido

na virtude do caudal límpido.

24.3.26

Desfeitiço

O endireita azares 

compareceu à faina

ainda com o guardanapo a tiracolo

os beiços com a gordura prova do almoço

pronto a devorar os inocentes candidatos

mesmo a jeito do selo do azar

que ficavam tão bovino naqueles lombos. 

O ferreiro e o almocreve subiram à mesa

mediam 

o estatuto dos notáveis que desfilavam

sem, ó heresia, passadeira carmim,

tao tenros para serem a carne 

para a boca do canhão

e ali jazendo depois

sem misericórdia dos verdugos

que se lambuzavam com a vitória 

cravada nos cascos

a sublime tatuagem

sem a fuligem do tempo que perdeu a memória

para grande lamento da turba que aprendeu

o feitiço dos notáveis. 

Faltaram 

o cangalheiro e o cobrador de fraque,

mas não importava,

as dívidas estavam prescritas

e só faltava esperar pelo espelho dos rostos

a sepultura onde desvivem os párias.

#4393

A luz baça 

que prescreve a noite

é enteada da lucidez.

23.3.26

#4392

Quem quer ser estátua em vida 

pressente a indiferença póstuma.

22.3.26

#4391

O traço fino 

emulsionado pelo dedo firme 

as cores à escolha 

numa paleta de vozes.

21.3.26

#4390

A marcha de horrores 

apalavrada para a sobremesa. 

aos olhos 

não deve ser escondida 

a franqueza que não é fraqueza.

20.3.26

#4389

Dou-te menos de um minuto

para deixares em letra de forma 

o poema que estiver a desinvernar.

19.3.26

Assento circunflexo

Ontem

arrumei as facas no alguidar

e esqueci-me do sangue. 

Desenhei um mapa

à prova de infantes e marialvas

em cima de uma colher de desdém

depois de bebidos três cálices

de impudor. 

Saí

sem medo da rua varrida

sem medo das pessoas

ah! ausentes

e estendi o meu império pelas ruas

desandadas

assim, errante,

gostosamente errante

só a olhar para as palmas das mãos

à procura de oráculo

ou só apenas à procura 

de exílio. 

Disseram-me

tu não sabes nadar nas espadas centrípetas

não sabes nada

de diplomacia

de jardinagem

e dos mistérios conspirativamente imputados

a (um) deus. 

Não importa:

prefiro 

a vertigem do vento que magoa a pele

fazer de detetive 

em demanda de desconhecimento

metendo parafusos nas estrofes 

(assim) abortadas 

precavendo os demónios

impedindo-os de cavalgarem numa aurora pária

para fora de mim. 

Amanhã

vou arrumar o desarrumo de depois de amanhã;

pode ser que o esconjuro

dê juros no passado.

 

Injustiças documentadas (642)

Riscos 

e mal agradecidos.

#4388

Nos bastidores da memória 

joga-se às charadas com o tempo.

18.3.26

É preciso desconfiar dos que desconfiam

Sempre desconfiei

de gente com ideias apessoadas

como se tivessem sido engomadas

pela omissão de perguntas

e por vírgulas mal confecionadas 

– aquela gente de elevado gabarito, 

não menos de dois metros de alto

(para extinguir as dúvidas que haja).

Sempre desconfiei

de amanhãs apreciados

sem se saber (ou desconfiar) 

o que é o amanhã

e de profetas desenganados

peritos 

em lubidriar o próximo e o distante.

Sempre desconfiei

daquelas bocas boçais que desconfiam 

por desconfiar

a armadilham a confiança 

em bolas de estrume disparadas sem critério.