Quando a caridade
se confunde com corveia
as mãos trocam palavras
por desdém.
(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Quando a caridade
se confunde com corveia
as mãos trocam palavras
por desdém.
(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)
Como se chama
a voz zangada
que sobe para a jangada
e se vinga no caudal de lágrimas?
Como se chama
pelo estroina de serviço
e se pede para descer a cortina
sobre os amalucados que deformam
o concerto das nações?
Como se chama
o patrono dos sonhos
e se pede para receber a vacina
contra os despreparos do mundo
e os incendiários que o descomandam?
Na ebulição que amanhece
deixo o olhar seguir pelo teu
apuramos o silêncio que não se adia
e sozinhos diante de uma fonte,
como se ela fôssemos,
ousamos ciciar um sonho
de que somos artesãos.
Fujo de vozes que murmuram lamentos.
Fujo de luares adulterados no horizonte.
Fujo de “personalidades” fingidas
e das que não o sendo não ficam atrás
em voyeurismo banal.
Fujo das invetivas de gente ofensora.
Fujo dos idiomas que ultrajam a fala.
Fujo de viúvas negras com o cenho carregado.
Fujo de idiotas úteis e dos outros
que intuem uma certa utilidade.
Fujo da “resiliência”,
do “impactante”
e do “abrangente”.
Fujo dos tipos que estão sempre a dizer “tipo”.
Fujo dos farsantes que mentem a si mesmos
enquanto fingem uma coisa qualquer.
Fujo do marasmo que se deita no calendário.
Fujo das ideias matrioskas.
Fujo de amadores ufanos e patriotas fala-barato.
Fujo do deus dará
que oxalá seja estatuto falhado.
Fujo do que finjo
antes que o fingimento me colonize.
Fujo da indigência
e da soberba dos risíveis arautos.
Fujo da nomenclatura gasta
em fósforos virgens.
Fujo dos sacerdotes de todos os calibres.
Fujo dos mapas, das fronteiras,
da obnóxia distinção de nacionalidades.
Fujo quando for hora de fugir.
Fujo enquanto me apetecer fugir
e de tanto fugir não me cansar
altura em que fujo de continuar a fugir.
Não tinha uma varinha mágica
e não aspirava a ter uma
no arsenal das coisas que mudam
os palcos.
Deixava as mudanças para os sonhadores.
Deixava os projetos generosos
para os líricos apóstolos da ingenuidade.
As estrofes vazavam os sonhos pueris
e às mãos vinham parar
como seu cais
as coisas puídas que não mudam
(a não ser para pior).
Estimados dentes que acendem os candeeiros
se fossem isqueiros
que vulcões desatavam da letargia?
Dentição assestada em riste
que dos argumentos opostos
por mais variegados que seja
fundeiam na terrível indisposição mental
que fariam se vosso fosse o império
e às mãos calhasse em hipótese silenciar
os que ao contrário de vós pensam?
Dentes a eito
originais ou em encenada substituição
perdidos no meio das vulgares suposições
abraçados em dúcteis conspirações
mesmo a calhar como a roca serve ao parafuso
dentes, ó dentes tão soezes,
era preferível
que as mandíbulas que vos amparam
estivessem de vós nuas.
Comprei uma astúcia
mas tive de a deixar de molho
assim oravam as instruções.
Era urgente a urgência da astúcia.
Perguntei aos manuais fáceis que há
se podia apressar a demolha da astúcia
– era tanta a urgência
que temia que a astúcia
de tanta demolha
se dissolvesse
num placebo sem utilidade.
Apressado pela urgência
apressei a demolha da astúcia.
Soube depois
a astúcia que havia mercado
não chegar a medrar
e fiquei sem ganho de causa
na causa que precisava da astúcia
se nem o logro serviu de sucedâneo.
Desliga das nações,
a aposta em alta
é a dedicada ao indivíduo.
Desliga das nações,
a liga é tão frágil
as nações vomitam guerras.
Corto raso a boçalidade encorpada
os dentes vagos trituram as sílabas
e agredidas são as palavras
parindo ideias soezes.
É como agarrar no rabo do touro
e vê-lo rabear, rabear, rabear,
convencido que se torce capazmente
para se desembaraçar do estroina de serviço.
Mal se amanham os néscios
que nada sabem da História
para eles reservada a mesa dos atoleimados
não há maior ignorante a ensebar teorias.
Esse tempo de mel,
o das vacas gordas,
esbarrou no contratempo
de não se poder dizer de um gordo
que é gordo.
E depois
há sempre aqueles castiços
que precisam de palco
e que deixam atrás de si
um loquaz império de sapiência
aqueles que
depois
em diálogo com o avesso de si
(noutros lugares chama-se
consciência)
confidenciam
que a distinção foi por engano
ou eles já estão tão senis
que do episódio por que receberam a comenda
não guardam memória.
E assim
empossados num sonho pródigo
levitam na sua douta aparência
distantes o quanto baste
da ralé limítrofe.
Ouves o rumor
os verbos noturnos
que trazem beleza às sombras.
Contrarias os vultos
os medos desalinhados
que entregas ao cuidado dos artesãos.
Falas do pouco que queres
a modéstia das palavras
um sortilégio que poucos conhecem.
Entregas o ouro teu
o atestado que destemido abres
na inspiração de um sangue fraco.
Junto as mãos
o templo sem medida
deponho a noite sem nome
de só querer o teu paradeiro.
Junto o silêncio
o rumor do mar que estilhaça a areia
subo ao miradouro
e abro o horizonte com as mãos juntas.
Chamo o teu nome
sem me desembaraçar do crepúsculo
sigo a sombra que deixas
no estremecimento da voz que serve de toada.
Chatear o Camões
devia ser proibido por lei
e os mandantes condenados
a Chagas.
Contra os piores prognósticos
– diziam,
antes de defenestrar o olhar caído,
descolonizando-se da angústia.
Dá de beber ao fogo um fogo outro
os lugares apartados são a âncora das nossas mãos
e das coisas que somos únicos penhores
fabricamos sonhos que não dispensam matéria
sob o luar que em nós se faz carne.
Assento os ossos na bacia tumular
onde extraviados se elevam
os expoentes da decadência.
Se há divórcios sem ónus
o que separa os termos desses próceres
é exemplo que não acaba
pois em acabando torna-se possível
a reconciliação
que compunha o estulto perdão.
Vejo
como desfilam
imersos num orgulho sem medida
como fingem aos fingimentos de excelência
esgrimindo a mentira como arte do possível
convocando os ingénuos para um altar
disfarçado de abismo
e depois
quando vítimas se encontram
capitulam
na impossibilidade de reaver o seu eu.
Vejo
como se desfazem em elogios próprios
artesãos de uma vaidade por conta do futuro
na admissão sem finitude
do que à sua volta gravita
vomitando palavras grotescas
mestres de cerimónias no mais pútrido
dos lugares
onde dançam os frutos por amadurecer
no intencional rapto que devolve ao mundo
a vergonha que não o consome.
Depois do futuro fica por mostrar
a candeia que resgata a lucidez
fica à mostra
apenas a carne nua
a convocatória dos espíritos despojados de algemas
eles que recusam
a assimetria dos déspotas
a aura corrompida dos embaixadores da frivolidade
os antros sinistros que adulteram a gramática
por que respondem as almas despojadas
o livre escrutínio que sujeita
até os que mantêm a usura dos farsantes.
Corro daqui para longe
mergulho dentro das profundezas
que em mim habitam
prefiro o desencanto do humilde anonimato
quero que invisível seja o meu rosto
quando se dá às ruas das cidades.
Quanto aos procuradores das banalidades,
os que passeiam o queixo
garbosamente içado ao alto
a trinta e cinco graus
os que obrigam os outros
a despenharem-se na sua vez
deixo-os a falar sozinhos
do lado de lá desta porta
que é o meu forte.
Um bardo com sardas assobia ao piano.
Absorto
caminha pelo abismo sem a fita métrica.
Pergunta:
o que é a manhã?
O que podemos fazer
com o luar extinto?
A música derramada
não ajuda a descobrir uma resposta.
O bardo
vem a descobrir
que não importa
descobrir a solução
para aqueles enigmas,
são perguntas sem lugar próprio
perguntas órfãs.
O bardo dedilha umas sílabas
talvez dali venha a sair um poema.
E antes um poema
nem que seja em forma de ensaio
do que respostas categóricas
a perguntas erradas:
se as segundas são erradas
por mais que sejam
certezas
a abençoar as respostas
as primeiras também estão erradas.
Ninguém
no seu imperfeito juízo
faz os impossíveis
para cair nas más graças.
Como uma água sem represa
os dedos selvagens escrevem estrofes
antes de encontrarem o estuário
que os torna finitos.
Dos amigos do alheio
pode-se dizer
que são amigos da onça.
(Ainda que esteja por determinar
do que a onça é culpada)
As esporas ferradas na pele
mais tarde do que cedo
cicatrizes que deixam a memória
à mostra.
Os dentes puídos
rebelam-se contra personalidades
consabidas
um desmatrimónio que tem tudo
mais cedo do que tarde
para se encerrar num êxito.
O descampado é testemunha:
mais ninguém está por perto
o que for dito
fica perdido no vento rasante.
Dos dias a meio
guardo o esconjuro da rotina
os olhos inertes
amanhecidos no rapto da melancolia.
Os ramos estendidos
davam vida aos rostos
na meação do critério despojado
por todos os demónios destronados
e todos os verbos extintos
na farsa esquecida.
Os ossos fartos falam mais alto
vertem sobre os diademas claros
as férteis promessas que se juntam no apogeu
num qualquer baldio sem costura.
As pessoas querem a salvação das almas
enquanto se distraem no fogo da insídia
enquanto
descorajosas se encomendam a divindades
por conta de inaugurações do passado
das costas entortadas com o tempo adversário.
Não importa que hoje seja apenas hoje
a métrica caótica que aloja a angústia toda
não importa
que se desmontem os demónios sem escrúpulos
nem os meios atiçados para o propósito.
As estrofes avulsas
um credo como qualquer outro
põem-se em sentido
num sortidos de braços e pernas e dorsos
a que surdos os sentidos se entregam:
em vez da perfeita encomenda para o desastre
sobrestimam-se
as pistolas desenganadas
que encenam os projetos de impuros esboços
de simplicidade.
Quero os números todos
inteiros e por completar
primos e bastardos
levantando o véu ao vale sem paradeiro
essa matéria-prima de que não sou feito
mas podia ser
se não tivesse fugido às comendas
e do peito tivesse gritado
em minha desdefesa
que não há préstimo menor
do que querer ser deitado só olvido.
Se todas as bandeiras
fossem do avesso
teríamos a paz
que não passa de uma quimera?
Se todas as palavras
não pertencessem a um idioma
os Homens
entender-se-iam melhor?
Se os rostos não escondessem
fingimentos
as mentiras seriam macias?
Se procurássemos perguntas
sem lhes encomendarmos respostas
os dedos deixariam de tremer de medo?
Deixei de fora a cartola
não por ser de pouco jaez a tola
é que por não ir com eruditos à bola
perdi o direito à estola.
Não é essa sabedoria que cola
que de tão feérica não passa de carambola
só um montão de platitudes na sacola
o lugar especial para qualquer mariola.
Porque se de volta tola
andasse em demanda estarola
seria eu próprio dos maiores o artola
e de meus pecados diria arrola.
São pedaços de certeza
embutidos na cofragem estonada
que voam sem asas no quintal dos profetas
que ávidos se acham
num banquete de inocentes
entontecidos pela usura dos indigentes.
O sol a pique acende os faróis do sono
subindo as escadas irregulares para nenhures
aparafusando as sinapses ao contorcionismo
que não pediu licença.
Promete umas bastonadas pedagógicas
copiando um inditoso ministro da cultura
(sem a parte do ministro da cultura
que à nascença asfixiei as políticas ambições)
como quem ameaça só para amedrontar
que a linhagem de homem da paz
não seja beliscada
por uma ameaça impraticável.
À força de uma montanha
peticiono uma coragem discreta
o rosto sem esgares
na esquina dos infecundos provérbios
enquanto procuro as artes de pesca
o adro da igreja
fantasmas disfarçados de viúvas anciãs
o pacto que ninguém vai selar
e na noite vespertina
com o atraso típico das coisas afiadas
deixo um adeus pressentido
aos deuses logrados costurados
em ponto de cruz.
Untadas as costas da mentira
com um banho de luz avivada
às portas da impudicícia ficava
a boca torta
de quem rompeu o lacre da honra.
Ficaram todos a falar sozinhos
em círculos
não demovendo
as múltiplas personagens que espreitavam
pela escotilha.
Na versão escatológica
diziam os puros
(soi disant)
que o avesso da mentira
pertencia aos conceitos arqueológicos.
Ninguém corou.
Cozinhamos a vapor
a injúria dos homens sem rosto
cozinhamos no vapor
a fealdade arrotada com desdém.
Não escondo as vírgulas da alma.
Não arranjo parafusos avariados.
Não durmo quando a noite ainda espreita a lua.
Não salvo almas das labaredas avulsas.
Não minto por serem mentiras às escuras.
Não rimo com o vento sentado.
Não remo nas entrelinhas das vozes malsãs.
Não me amotino contra os ossos cansados.
Não traduzo as luzes baças sobre o cais.
Não acordo com o sussurro dos sonhos imprevistos.
Não adio os remédios estatutários.
Não sirvo para estátua imorredoira.
Não me sento no parapeito do futuro.
Se em vez de ouro
peticionassem
(eu lá sei)
antúrios vicejantes
rifas sobre o dia vindouro
um estuário ou um delta disfarçado
e retorcida imagem de um misógino
(só para destruir, só para destruir)
as telhas por estrear num telhado abandonado
farsas contra o apogeu da verdade-verdadinha
a métrica sem medição
uma fogueira lutuosa em cima da incógnita
a purulenta, arcana voz de barítono
do ensaboador de notáveis
(de serviço)
o espanador puído deixado em herança
a rota só com retas
o adversário a que se deixou a vitória
o mel coado em vez da feira ruidosa
a fonte vertiginosa caída de combro no precipício
se peticionassem uma só
das hipóteses admitidas
extinguir-se-iam as vaidades
os óculos graduados
os dedos trémulos com medo da chuva
os cerebrais despensadores
que nos abandonam ao azar
a que não falta o ar.
Falava como hieróglifos
nem uma alma para o traduzir
– dizia-se,
acontece com mais gente
do que parece.
Causa provável
o verso incerto que acompanha a lucidez
o retrato amarelecido dos rostos também gastos
uma pedra sentada na cama desfeita
e ainda assim por descobrir
no tirocínio involuntário da desonra do dia.
Causa,
provável assenhorear das vontades avulsas
como serpentes elevadas ao quadrado
para pesadelos que cortam a respiração.
Tréguas como pequeno-almoço
anunciava o major
mandatado para matar a guerra.
Nas casernas
os generais e outras patentes que tais
caíram em si:
e agora
que a paz teve bênção humana
quem os salva da extinção?
O vulcão hasteado
o desejo tempera
no destempo arqueado
sem a noite em espera.
No livro saciado,
a estrofe sincera
o beijo rogado
esta nossa quimera.
O olhar mudado
corpo ainda primavera
o hábito rasgado
a boca que se supera
o amor povoado
o dia que se esmera.
Os braços impugnados
atiram sal para as vozes vulcânicas;
são os mecenas do silêncio caridoso.
Os grandes ladrões
ocupam o alheio
com a mesma facilidade
que ao mitómano
se averba falta de comparência
à verdade.
São uma espécie de marxistas ilícitos
(os primeiros).
Já os segundos,
são como especialistas
de fertilidade in vitro
com uma precisão milimétrica
para acertarem na mentira.
Por sinal
os patos bravos do imobiliário
são como diplomatas a comer
com os cotovelos em cima da mesa.
Havia números primos
outros elevados ao cubo
outros ainda conspirando
em lúdicas cabalísticas
e a matemática,
aos costumes, dizia zero.
O homem velho
talvez lúcido como só a velhice admite
avisou:
estamos vivos só à espera da morte.
Ninguém lhe perguntou
se já encomendara os serviços fúnebres
pois ninguém era tão velho
como o velho dali.
O velho residente
ou por surdez seletiva
ou por não saber da resposta,
dedicou-lhes um silêncio conspirador.
Quem nos mandou
passear no jardim
junto à câmara municipal.
Às pérolas que há em nós
escondidas sob a pele fortaleza
neste que é um castelo que guarda a voz
povoada por singela grandeza.
Crescermos na largueza do estuário
vontade por vontade conquistada
do tempo não se sacia o anuário
onde se hasteia a bandeira desatada.
E depois, antes do entardecer,
disfarçamos os poemas mudos
reforçamos a voz que não sabe envelhecer
nem que pelos corpos puídos
suba um diferente amanhecer
para calar os verbos doídos.