23.8.26

Injustiças documentadas (688)

The fundamental pledge: 

to resign or to re-sign?

#4533

A pose extrínseca

diabo que lobriga às escondidas 

o adiamento do eu.

22.8.26

Injustiças documentadas (687)

O doador 

doa a dor.

 

[Falsa filantropia]

#4532

Continuação do episódio anterior:

vertes as nuvens ósseas

na torpeza que atiras ao dia.

#4531

O cenho velhaco 

desfaz o dia 

a desperdício.

21.8.26

#4530

O extraordinário ambicionado 

é a discrição à prova de radar.

20.8.26

#4529

Feitas as trevas 

o embaraço da escolha.

19.8.26

Injustiças documentadas (686)

Alinha 

a linha 

e então 

enfim 

sabe-te 

desalinhado.

#4528

Talvez 

seja a vez

de ser de vez 

a cortina que apaga 

o revés.

18.8.26

#4527

Uma maçã sem Adão 

para costurar o pecado 

que nem é original.

17.8.26

#4526

Provável 

o vento que se desafeiçoa 

no estribilho da maré vetusta.

16.8.26

#4525

Se por mear é por fraco tido 

fraco é quem assim o estatui.

15.8.26

#4524

A soldo do soldo, 

solto o bordão 

que me detém.

14.8.26

#4523

Todos somos

um pouco baldios de nós mesmos, 

aquela parte visível 

à revelia da vontade.

13.8.26

Injustiças documentadas (685)

Ninguém verte lágrimas

sobre algo que seja

leite derramado.

12.8.26

#4522

Dei a volta ao texto: 

li-o de cabeça para baixo 

e tudo se manteve igual.

11.8.26

Injustiças documentadas (684)

Passa a palavra

lá por casa 

e depois 

pelo resto do mundo 

a Wikipedia 

é uma weakipedia.

#4521

Se longe se dá o feito 

longe se projete a viagem.

10.8.26

Injustiças documentadas (683)

Quem diz “ao deus-dará” 

está longe de admitir 

que deus não dará nada.

#4520

Tomas partido

e esperas 

que o partido não te tome.

 

[Sobre a democracia adulterada]

9.8.26

#4519

Um satélite despenteado 

dava cambalhotas na órbita; 

cá em baixo todos se portavam 

como os gauleses de Asterix. 

8.8.26

#4518

Um sopro inclinado 

os dedos entrecruzados 

os olhos desembaciados: 

doravante 

fingirá que está de atalaia 

ao mundo que precisa de atenção.

7.8.26

#4517

Desencontro a luz, 

refém do crepúsculo, 

e descubro

que é fácil a visão 

quando a luz foi abandonada.

6.8.26

Injustiças documentadas (682)

Uma pessoa de esquerda 

pode ser 

às direitas.

 

[A maldita semântica oficial, 

que é politicamente enviesada]

Injustiças documentadas (681)

Cala o frio, 

calafrio.

#4516

O rosto não foge da luz 

não perde o dia como aval 

sua é a atalaia despótica.

5.8.26

#4515

O nariz 

ou a mostarda 

um está enganado.

4.8.26

Injustiças documentadas (680)

The tale 

has a tail 

with so much 

to tell.

#4514

Não leves o dolo ao colo, 

ainda te afogas nas togas

do embaraço madraço. 

3.8.26

#4513

O que acaba pendente 

na borda do prato 

é a lisura do que tem serventia 

mas só pode chegar 

depois.

2.8.26

#4512

O freio legítimo, 

o que limita a fala tonitruante 

e repõe a lucidez. 

1.8.26

#4511

Na fábrica dos sapatos 

fazem-se os pés 

à medida dos mundos.

31.7.26

#4510

O metódico aconselhamento do medo, 

sensatez lúdica;

ou hipocrisia em dose homeopática.

30.7.26

Injustiças documentadas (679)

Podiam inventar

uma prevenção rodoviária portuguesa 

a favor do idioma

não há ninguém 

que sofra tantos atropelos 

trezentos e sessenta e cinco dias no ano.

#4509

Como piranhas aparafusadas na boca

os sentinelas do tempo

sem o saberem

na maré-baixa.

29.7.26

#4508

Não há 

perguntas 

suicidas.

28.7.26

#4507

A sentinela

não dorme

mas está 

distraída.

 

[Um sentido da teologia]

27.7.26

Trinta e sete graus, centígrados

Tirando as vírgulas em excesso

e as águas tépidas servidas ao desbarato

quando o termómetro mordia a mais de trinta

não tinha nada a dizer

e o livro de reclamações não veio a propósito. 

Dizias:

há matéria-prima que mais parece

matéria-tia

e eu perguntei se tinha algo a ver

com a linha de Cascais

ao que redarguiste

com voz surpreendida

que não alcançavas a distinção. 

Num dia de estio desacertado

em que as moscas perdem a timidez

e pesam mais do que a sombra acalorada

o raciocínio derrete no horizonte distorcido

ou era eu que estava a ser assaltado por um pesadelo

e não dei conta. 

#4506

Tal como no rosto cansado 

a terra pede a água 

que só a noite compensa.

26.7.26

#4505

Hoje 

sei que ontem não tem idem 

e as aspas ficam por conta 

das ilusões.

25.7.26

Injustiças documentadas (678)

De cor e salteado 

da cor a salto

da corda e alto.

Injustiças documentadas (677)

Direito de resposta:

resposta direita.

#4504

No Verão 

os figos sabem melhor 

do que as figas. 

 

(E no resto do ano 

também.)

24.7.26

#4503

A corda desatada 

engraxa o dia 

os arreios já só participam

do passado.

23.7.26

Injustiças documentadas (676)

Quem tanto celebra a vida 

nunca se faz de morto.

#4502

Diziam-me 

que se açucarasse as palavras 

seria o Pantagurel da poesia.

22.7.26

#4501

Peso o peso 

antes de ser do peso refém 

e da dieta súbdito.

 

[Modernidades que placam a autonomia individual]

21.7.26

As cicatrizes da terra

A terra cicatrizada que me devolve a manhã

subleva-se em marés iracundas e sucessivas

no hastear dos versos lídimos

arrebatados por um clarão iridiscente. 

Os destroços deitados na estrada

enquanto são removidos de o serem

são o rosto da devastação;

 

antes fossem uma nota de rodapé

no atlas aberto que abraça o tempo inteiro. 

 

A terra tem cicatrizes

eternas

oxalá pudessem ser uma mnemónica

a bandeira sem paradeiro certo

o hino cantado 

por todos os idiomas. 

Injustiças documentadas (675)

Tirar partido

é tirar o partido.

#4500

Tantos 

a impetrar reformas 

(disto e daquilo 

e assim sucessivamente)

e ninguém com lucidez para avisar 

que o Estado está a cheirar 

a aposentação.

20.7.26

#4499

Em roda livre 

sem medo da falésia 

como se não houvesse 

gravidade.

19.7.26

#4498

As árvores

não esquecem 

o tempo.

18.7.26

Injustiças documentadas (674)

Devagar.

De vagar.

Do vagar.

Injustiças documentadas (673)

A culpa 

fica sempre 

para tia.

#4497

A sorte é cega

a sorte cega

e não tem um braille 

só para ela.

17.7.26

#4496

Às turras com a teimosia, 

entre ser contumaz 

e trazer o pelo pela venta. 

16.7.26

Injustiças documentadas (672)

[Variação de Injustiças documentadas (671)]

 

É inútil o estado da nação

sem a noção da nação.

Injustiças documentadas (671)

De que adianta o estado da nação

se antes não se fez o estudo da nação?

#4495

O rebelde 

encontra sempre 

a sua causa.

15.7.26

#4494

Como se fosse

um golpe de Estado

o rei foi deposto

e deixou de ser a principal peça 

do xadrez.

14.7.26

Injustiças documentadas (670)

Hora de ponta

ponta na hora 

para ficar 

hora sem ponta.

Injustiças documentadas (669)

Levantei uma ideia, 

tão mísera,

que estava pusilânime.

#4493

Sobe às paredes do eclipse 

esconde o esgar intratável,

o dia vem às meadas 

bebe-o por inteiro.

13.7.26

#4492

Sob o mar temperado 

o sonho estival descansa 

num olhar anestesiado.

12.7.26

#4491

Os is 

não precisam de pontos,

ilesos que estão.

11.7.26

#4490

Sabermos 

os contornos da pele 

a quimera que se guarda 

na ponta dos dedos. 

10.7.26

Injustiças documentadas (668)

Do mal menor.

Do mal, menor.

Do: mal menor.

#4489

Um número inteiro 

a par de um primo ímpar

faz uma salada russa matemática.

9.7.26

#4488

O verso mel 

beija a pele açambarcada 

na pose maestrina de quem orquestra

o desejo.

8.7.26

Injustiças documentadas (667)

A más horas 

ou apenas 

más, as horas.

#4487

Sete são as chaves 

setenta as almas 

muitas órfãs se acham 

no desalinhavo dos números.

7.7.26

#4486

O gato 

espreguiça o excesso de mundo 

disfarçado pelo mundo.

6.7.26

O seco rio

O seco rio abate o silêncio

o tomador de almas que só esperam

redenção. 

À noite 

combinam-se as vozes assustadas

a maresia vestiu-se de música

e os demónios agora são o que se entoam,

sem os disfarces de outrora

sem as máscaras 

do descarnaval.

Injustiças documentadas (666)

Besides 

the b-sides.

#4485

O fermento gasto 

aviva o ocaso 

– a estultícia

não perde pela demora.

5.7.26

#4484

Parto por dentro da folha 

a nudez escondida 

nas entrelinhas opacas.

4.7.26

#4483

A redenção

compensa a lucidez amputada 

nos olhos ávios que acompanham

a madrugada.

3.7.26

Injustiças documentadas (665)

Um Verão inteiro 

não faz uma andorinha.

#4482

Sem saber que verbo fiar 

vou caindo do lento sonhar.

2.7.26

#4481

Os sonsos 

amanhecem 

imperadores.

1.7.26

#4480

Não colhas o sal no sol tardio. 

Antes de ti 

haverá uma gesta com saudades do futuro.

30.6.26

A língua franca

Os olhos não se escondem

dos corpos à altura

desmatam o medo

como se fossem poetas baldios

e o suor

passa a língua franca. 

#4479

Gostamos 

ostentamos com honra 

os chapéus morais que nos trazem 

superioridade,

mas esquecemos

a finura dos telhados de vidro.

29.6.26

#4478

Sem saber do lugar estado 

o ocaso dança no estirador

enquanto a mão agita 

as palavras amanhecias.

27.6.26

#4477

Estamos numa altura do mundo 

em que é preciso 

deixar o Homem sozinho.

26.6.26

#4476

A parada 

estava parada 

por falta 

de atualização.

 

[Atavismos hodiernos]

25.6.26

O sarcasmo adiado

No jeito desastrado

de quem sopra as pétalas por acaso

e desmonta a flor tornada deserto

sapateava o chão do dia com os óculos de sol

e nem sequer estava sol

mas os deveres de estilo

torpedeiam as pragmáticas coisas 

destinadas ao olvido

numa praça não sei se meio deserta

ou meio composta

transfigurando os rostos dos anónimos

que é preciso obedecer ao RGPD

antes que em contrafação de modos seja apanhado

e por heresia das leis seja condenado

a toda a sorte de trabalhos comunitários

e destrabalhos de outra linhagem

enquanto em surdina indulto uma ode avulsa

que hoje estou por conta do estilo livre

não sinto que cinto algum seja à minha medida

e nem o remorso consegue verter a sua lava

deixando os impropérios 

por conta da voz em pano de fundo

que nunca se desaloja 

das funduras de onde a luz não intimida. 

Ainda assim

reservei o sarcasmo para amanhã.

#4475

Sarilharam tudo o que podiam 

até à meia-noite,

aquele era o dia consagrado 

aos sarilhos.

24.6.26

#4474

A corda 

à roda 

acorda 

a rodos.

22.6.26

#4473

Nasceu do nada (dizem) 

agora é a torre altaneira 

que ateia a esperança 

dos iguais.

21.6.26

#4472

Um truísmo

como bandeira, 

sina sem exílio.

20.6.26

#4471

A voz descarnada, 

como a janela nua 

que se dobra perante o dia.

19.6.26

Contramão

Não digas nada. 

Não acordes os demónios 

do seu sono de fealdade. 

Não abandones o silêncio inteiro

nem que por vírgulas tenham

a tua sorte. 

Não amanheças imperador do dia. 

Mas não fujas dele

lembra-te das flores que são seu cio

e toma-as como penhor 

das juras por vencer. 

Amanhã 

dirás o que hoje não disseste

se entretanto não fores vítima (voluntária)

do (teu) esquecimento. 

#4470

Fugi da noite 

como o dia ártico em junho.

A luz perene 

desfaz a escuridão adamastora.

18.6.26

Areia para os olhos

Referendei a apolónica montanha

como se entre os copos fluíssem os verbos

e o miado dos gatos se escutasse

em surdina.

Mas toda a gente estava em promenade

o vazio hasteado com pundonor

como se estivessem desligadas da corrente

ou alguém tivesse desligado as fichas todas.

Os feriados foram feitos

para todos se porem entre parêntesis.

#4469

As lágrimas falam 

pelo silêncio inacabado.

17.6.26

#4468

Podia-se pensar 

em taxar as taxas 

– e assim sucessivamente – 

até se chegar 

ao palimpsesto da receita pública.

16.6.26

Haste

Toda a haste 

bebe no impuro luar 

que desagrava a noite. 

Os copos 

desembaraçam-se da água

povoam latitudes inexploradas. 

Amanhã 

 

(sempre o amanhã) 

 

apuramos as contas desmatadas, 

na contabilidade por estima 

na vacatura das almas.

#4467

O corpo 

fala no idioma 

que dispensa

tradução.

15.6.26

Injustiças documentadas (664)

Herein, 

the worst-off of myself 

embedded in a golden rule.

#4466

Desfliam 

os números as letras as frases avulsas

massacram o pensamento

pedindo, sem saberem, que se exile.

 

[Concerto de Massive Attack, Primavera Sound Porto 2026]

13.6.26

#4465

Resumia-se

a um delírio,

para bem 

da humanidade.

12.6.26

Injustiças documentadas (663)

Um crédito malparado 

devia ser cominado 

com multa.

#4464

A bola de bilhar 

brinca com a rasura, 

deixa extático

um mundo que dorme.

11.6.26

#4463

A porta usada 

escolhe a noite 

como exílio.

10.6.26

#4462

Um livro não é a badana 

uma pessoa não é efémera.

9.6.26

#4461

Um manguito aos estarolas 

que ceifam as esperanças 

em proveito próprio.

8.6.26

#4460

Se o meio ficar pela metade

mentimos à matemática

ou conseguimos o todo aritmético?

30.5.26

#4459

Quando a caridade

se confunde com corveia

as mãos trocam palavras 

por desdém.

 

(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)

29.5.26

Injustiças documentadas (662)

Roubar a atenção 

é um delito 

qualificado.

#4458

As luzes bruxuleiam

ateando os braços para a dança 

a que as pernas emprestam cor.

28.5.26

Quem foge das perguntas não é de confiar

Como se chama 

a voz zangada

que sobe para a jangada

e se vinga no caudal de lágrimas?

 

Como se chama

pelo estroina de serviço

e se pede para descer a cortina

sobre os amalucados que deformam

o concerto das nações?

 

Como se chama

o patrono dos sonhos

e se pede para receber a vacina

contra os despreparos do mundo

e os incendiários que o descomandam?

#4457

Só devia haver arsenais 

se fossem compêndios de poesia.

27.5.26

Das almas artesãs

Na ebulição que amanhece

deixo o olhar seguir pelo teu

apuramos o silêncio que não se adia

e sozinhos diante de uma fonte,

como se ela fôssemos,

ousamos ciciar um sonho 

de que somos artesãos.

Injustiças documentadas (661)

Quem entronizou no diabo

as prerrogativas da escolha

é dele cúmplice.

#4456

Domados os minutos acelerados

emergíamos no sonho lisérgico.

26.5.26

Fugir

Fujo de vozes que murmuram lamentos.

Fujo de luares adulterados no horizonte.

Fujo de “personalidades” fingidas

e das que não o sendo não ficam atrás

em voyeurismo banal.

Fujo das invetivas de gente ofensora.

Fujo dos idiomas que ultrajam a fala.

Fujo de viúvas negras com o cenho carregado.

Fujo de idiotas úteis e dos outros 

que intuem uma certa utilidade.

Fujo da “resiliência”,

do “impactante”

e do “abrangente”.

Fujo dos tipos que estão sempre a dizer “tipo”.

Fujo dos farsantes que mentem a si mesmos

enquanto fingem uma coisa qualquer.

Fujo do marasmo que se deita no calendário.

Fujo das ideias matrioskas.

Fujo de amadores ufanos e patriotas fala-barato.

Fujo do deus dará 

que oxalá seja estatuto falhado.

Fujo do que finjo 

antes que o fingimento me colonize.

Fujo da indigência 

e da soberba dos risíveis arautos.

Fujo da nomenclatura gasta 

em fósforos virgens.

Fujo dos sacerdotes de todos os calibres.

Fujo dos mapas, das fronteiras, 

da obnóxia distinção de nacionalidades.

Fujo quando for hora de fugir.

Fujo enquanto me apetecer fugir

e de tanto fugir não me cansar

altura em que fujo de continuar a fugir.

Injustiças documentadas (660)

Travar de razões 

não é meter travões à razão.

#4455

Desarmar o medo

é caucionar 

o avanço da civilização.

25.5.26

Mousse de chocolate

Não tinha uma varinha mágica

e não aspirava a ter uma 

no arsenal das coisas que mudam

os palcos.

Deixava as mudanças para os sonhadores.

Deixava os projetos generosos

para os líricos apóstolos da ingenuidade.

As estrofes vazavam os sonhos pueris

e às mãos vinham parar

como seu cais

as coisas puídas que não mudam

(a não ser para pior).

#4454

Teima a esmo 

cavando as entrelinhas 

das maravilhas.

24.5.26

#4453

Com um fanico de fancaria 

mangando a mando 

o estarola estagia 

no formulário do fingimento.

23.5.26

#4452

Sexto sentido

um ar descongelado

a boca a fugir do medo.

22.5.26

Ortodontia

Estimados dentes que acendem os candeeiros

se fossem isqueiros 

que vulcões desatavam da letargia?

Dentição assestada em riste

que dos argumentos opostos

por mais variegados que seja

fundeiam na terrível indisposição mental

que fariam se vosso fosse o império

e às mãos calhasse em hipótese silenciar

os que ao contrário de vós pensam?

Dentes a eito

originais ou em encenada substituição

perdidos no meio das vulgares suposições

abraçados em dúcteis conspirações

mesmo a calhar como a roca serve ao parafuso

dentes, ó dentes tão soezes,

era preferível 

que as mandíbulas que vos amparam

estivessem de vós nuas.

#4451

Dei-te uma alquimia 

e tu, tão prudente, 

depositaste-a no banco.

21.5.26

A astúcia apressada

Comprei uma astúcia

mas tive de a deixar de molho

assim oravam as instruções. 

Era urgente a urgência da astúcia. 

Perguntei aos manuais fáceis que há

se podia apressar a demolha da astúcia 

– era tanta a urgência

que temia que a astúcia

de tanta demolha

se dissolvesse 

num placebo sem utilidade. 

 

Apressado pela urgência

apressei a demolha da astúcia. 

 

Soube depois

a astúcia que havia mercado

não chegar a medrar

e fiquei sem ganho de causa

na causa que precisava da astúcia

se nem o logro serviu de sucedâneo.

#4450

Jogamos aos alçapões, 

insensatamente frívolos, 

enquanto somos espetadores 

do tempo a passar.

20.5.26

Injustiças documentadas (659)

Desliga das nações, 

a aposta em alta 

é a dedicada ao indivíduo.

Desliga das nações,

a liga é tão frágil

as nações vomitam guerras.

Prémio “asno do ano”

Corto raso a boçalidade encorpada

os dentes vagos trituram as sílabas

e agredidas são as palavras 

parindo ideias soezes.

 

É como agarrar no rabo do touro

e vê-lo rabear, rabear, rabear,

convencido que se torce capazmente

para se desembaraçar do estroina de serviço.

 

Mal se amanham os néscios

que nada sabem da História

para eles reservada a mesa dos atoleimados

não há maior ignorante a ensebar teorias.

#4449

Esse tempo de mel, 

o das vacas gordas, 

esbarrou no contratempo 

de não se poder dizer de um gordo 

que é gordo.

19.5.26

Presumidos

E depois

há sempre aqueles castiços

que precisam de palco

e que deixam atrás de si

um loquaz império de sapiência

aqueles que

depois

em diálogo com o avesso de si 

 

(noutros lugares chama-se

consciência)

 

confidenciam

que a distinção foi por engano

ou eles já estão tão senis

que do episódio por que receberam a comenda

não guardam memória. 

E assim

empossados num sonho pródigo

levitam na sua douta aparência

distantes o quanto baste

da ralé limítrofe.

Injustiças documentadas (658)

Ligadura.

Liga dura

Liga, dura.

Liga a dura.

#4448

O motim interior

aprova a maré silenciosa, 

os baldios

incessantemente demandados.

18.5.26

Manifesto contra os manifestos

Ouves o rumor

os verbos noturnos

que trazem beleza às sombras.

 

Contrarias os vultos

os medos desalinhados

que entregas ao cuidado dos artesãos.

 

Falas do pouco que queres

a modéstia das palavras

um sortilégio que poucos conhecem.

 

Entregas o ouro teu

o atestado que destemido abres 

na inspiração de um sangue fraco.

#4447

No trato ordeiro, 

o avesso da boçalidade, 

um adorno esquecido.

17.5.26

#4446

A farsa que amanhece 

não tem prazo de validade.

16.5.26

#4445

As palavras dançam 

no caudal volumoso 

de quem rompe o granito 

e espera que elas se avivem.

15.5.26

Mão à palmatória

Junto as mãos

o templo sem medida

deponho a noite sem nome

de só querer o teu paradeiro.

 

Junto o silêncio

o rumor do mar que estilhaça a areia

subo ao miradouro

e abro o horizonte com as mãos juntas.

 

Chamo o teu nome

sem me desembaraçar do crepúsculo

sigo a sombra que deixas

no estremecimento da voz que serve de toada.

Injustiças documentadas (657)

Chatear o Camões 

devia ser proibido por lei 

e os mandantes condenados 

a Chagas.

Injustiças documentadas (656)

Ser testa-de-ferro 

deve ser duro.

#4444

À matilha deram corda 

os dentes arregaçados 

puseram os cotovelos à janela.

14.5.26

#4443

Contra os piores prognósticos 

– diziam, 

antes de defenestrar o olhar caído, 

descolonizando-se da angústia.

13.5.26

Luar

Dá de beber ao fogo um fogo outro

os lugares apartados são a âncora das nossas mãos

e das coisas que somos únicos penhores

fabricamos sonhos que não dispensam matéria

sob o luar que em nós se faz carne. 

Injustiças documentadas (655)

Não é a prata da casa; 

é a casa da prata.

#4442

Não é a areia nos olhos 

que magoa 

é a mão que a atira.