30.5.26

#4459

Quando a caridade

se confunde com corveia

as mãos trocam palavras 

por desdém.

 

(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)

29.5.26

Injustiças documentadas (662)

Roubar a atenção 

é um delito 

qualificado.

#4458

As luzes bruxuleiam

ateando os braços para a dança 

a que as pernas emprestam cor.

28.5.26

Quem foge das perguntas não é de confiar

Como se chama 

a voz zangada

que sobe para a jangada

e se vinga no caudal de lágrimas?

 

Como se chama

pelo estroina de serviço

e se pede para descer a cortina

sobre os amalucados que deformam

o concerto das nações?

 

Como se chama

o patrono dos sonhos

e se pede para receber a vacina

contra os despreparos do mundo

e os incendiários que o descomandam?

#4457

Só devia haver arsenais 

se fossem compêndios de poesia.

27.5.26

Das almas artesãs

Na ebulição que amanhece

deixo o olhar seguir pelo teu

apuramos o silêncio que não se adia

e sozinhos diante de uma fonte,

como se ela fôssemos,

ousamos ciciar um sonho 

de que somos artesãos.

Injustiças documentadas (661)

Quem entronizou no diabo

as prerrogativas da escolha

é dele cúmplice.

#4456

Domados os minutos acelerados

emergíamos no sonho lisérgico.

26.5.26

Fugir

Fujo de vozes que murmuram lamentos.

Fujo de luares adulterados no horizonte.

Fujo de “personalidades” fingidas

e das que não o sendo não ficam atrás

em voyeurismo banal.

Fujo das invetivas de gente ofensora.

Fujo dos idiomas que ultrajam a fala.

Fujo de viúvas negras com o cenho carregado.

Fujo de idiotas úteis e dos outros 

que intuem uma certa utilidade.

Fujo da “resiliência”,

do “impactante”

e do “abrangente”.

Fujo dos tipos que estão sempre a dizer “tipo”.

Fujo dos farsantes que mentem a si mesmos

enquanto fingem uma coisa qualquer.

Fujo do marasmo que se deita no calendário.

Fujo das ideias matrioskas.

Fujo de amadores ufanos e patriotas fala-barato.

Fujo do deus dará 

que oxalá seja estatuto falhado.

Fujo do que finjo 

antes que o fingimento me colonize.

Fujo da indigência 

e da soberba dos risíveis arautos.

Fujo da nomenclatura gasta 

em fósforos virgens.

Fujo dos sacerdotes de todos os calibres.

Fujo dos mapas, das fronteiras, 

da obnóxia distinção de nacionalidades.

Fujo quando for hora de fugir.

Fujo enquanto me apetecer fugir

e de tanto fugir não me cansar

altura em que fujo de continuar a fugir.

Injustiças documentadas (660)

Travar de razões 

não é meter travões à razão.

#4455

Desarmar o medo

é caucionar 

o avanço da civilização.

25.5.26

Mousse de chocolate

Não tinha uma varinha mágica

e não aspirava a ter uma 

no arsenal das coisas que mudam

os palcos.

Deixava as mudanças para os sonhadores.

Deixava os projetos generosos

para os líricos apóstolos da ingenuidade.

As estrofes vazavam os sonhos pueris

e às mãos vinham parar

como seu cais

as coisas puídas que não mudam

(a não ser para pior).

#4454

Teima a esmo 

cavando as entrelinhas 

das maravilhas.

24.5.26

#4453

Com um fanico de fancaria 

mangando a mando 

o estarola estagia 

no formulário do fingimento.

23.5.26

#4452

Sexto sentido

um ar descongelado

a boca a fugir do medo.

22.5.26

Ortodontia

Estimados dentes que acendem os candeeiros

se fossem isqueiros 

que vulcões desatavam da letargia?

Dentição assestada em riste

que dos argumentos opostos

por mais variegados que seja

fundeiam na terrível indisposição mental

que fariam se vosso fosse o império

e às mãos calhasse em hipótese silenciar

os que ao contrário de vós pensam?

Dentes a eito

originais ou em encenada substituição

perdidos no meio das vulgares suposições

abraçados em dúcteis conspirações

mesmo a calhar como a roca serve ao parafuso

dentes, ó dentes tão soezes,

era preferível 

que as mandíbulas que vos amparam

estivessem de vós nuas.

#4451

Dei-te uma alquimia 

e tu, tão prudente, 

depositaste-a no banco.

21.5.26

A astúcia apressada

Comprei uma astúcia

mas tive de a deixar de molho

assim oravam as instruções. 

Era urgente a urgência da astúcia. 

Perguntei aos manuais fáceis que há

se podia apressar a demolha da astúcia 

– era tanta a urgência

que temia que a astúcia

de tanta demolha

se dissolvesse 

num placebo sem utilidade. 

 

Apressado pela urgência

apressei a demolha da astúcia. 

 

Soube depois

a astúcia que havia mercado

não chegar a medrar

e fiquei sem ganho de causa

na causa que precisava da astúcia

se nem o logro serviu de sucedâneo.

#4450

Jogamos aos alçapões, 

insensatamente frívolos, 

enquanto somos espetadores 

do tempo a passar.

20.5.26

Injustiças documentadas (659)

Desliga das nações, 

a aposta em alta 

é a dedicada ao indivíduo.

Desliga das nações,

a liga é tão frágil

as nações vomitam guerras.

Prémio “asno do ano”

Corto raso a boçalidade encorpada

os dentes vagos trituram as sílabas

e agredidas são as palavras 

parindo ideias soezes.

 

É como agarrar no rabo do touro

e vê-lo rabear, rabear, rabear,

convencido que se torce capazmente

para se desembaraçar do estroina de serviço.

 

Mal se amanham os néscios

que nada sabem da História

para eles reservada a mesa dos atoleimados

não há maior ignorante a ensebar teorias.

#4449

Esse tempo de mel, 

o das vacas gordas, 

esbarrou no contratempo 

de não se poder dizer de um gordo 

que é gordo.

19.5.26

Presumidos

E depois

há sempre aqueles castiços

que precisam de palco

e que deixam atrás de si

um loquaz império de sapiência

aqueles que

depois

em diálogo com o avesso de si 

 

(noutros lugares chama-se

consciência)

 

confidenciam

que a distinção foi por engano

ou eles já estão tão senis

que do episódio por que receberam a comenda

não guardam memória. 

E assim

empossados num sonho pródigo

levitam na sua douta aparência

distantes o quanto baste

da ralé limítrofe.

Injustiças documentadas (658)

Ligadura.

Liga dura

Liga, dura.

Liga a dura.

#4448

O motim interior

aprova a maré silenciosa, 

os baldios

incessantemente demandados.

18.5.26

Manifesto contra os manifestos

Ouves o rumor

os verbos noturnos

que trazem beleza às sombras.

 

Contrarias os vultos

os medos desalinhados

que entregas ao cuidado dos artesãos.

 

Falas do pouco que queres

a modéstia das palavras

um sortilégio que poucos conhecem.

 

Entregas o ouro teu

o atestado que destemido abres 

na inspiração de um sangue fraco.

#4447

No trato ordeiro, 

o avesso da boçalidade, 

um adorno esquecido.

17.5.26

#4446

A farsa que amanhece 

não tem prazo de validade.

16.5.26

#4445

As palavras dançam 

no caudal volumoso 

de quem rompe o granito 

e espera que elas se avivem.

15.5.26

Mão à palmatória

Junto as mãos

o templo sem medida

deponho a noite sem nome

de só querer o teu paradeiro.

 

Junto o silêncio

o rumor do mar que estilhaça a areia

subo ao miradouro

e abro o horizonte com as mãos juntas.

 

Chamo o teu nome

sem me desembaraçar do crepúsculo

sigo a sombra que deixas

no estremecimento da voz que serve de toada.

Injustiças documentadas (657)

Chatear o Camões 

devia ser proibido por lei 

e os mandantes condenados 

a Chagas.

Injustiças documentadas (656)

Ser testa-de-ferro 

deve ser duro.

#4444

À matilha deram corda 

os dentes arregaçados 

puseram os cotovelos à janela.

14.5.26

#4443

Contra os piores prognósticos 

– diziam, 

antes de defenestrar o olhar caído, 

descolonizando-se da angústia.

13.5.26

Luar

Dá de beber ao fogo um fogo outro

os lugares apartados são a âncora das nossas mãos

e das coisas que somos únicos penhores

fabricamos sonhos que não dispensam matéria

sob o luar que em nós se faz carne. 

Injustiças documentadas (655)

Não é a prata da casa; 

é a casa da prata.

#4442

Não é a areia nos olhos 

que magoa 

é a mão que a atira.

12.5.26

Cadastro

Assento os ossos na bacia tumular

onde extraviados se elevam

os expoentes da decadência. 

Se há divórcios sem ónus

o que separa os termos desses próceres

é exemplo que não acaba

pois em acabando torna-se possível

a reconciliação 

que compunha o estulto perdão. 

Vejo 

como desfilam 

imersos num orgulho sem medida

como fingem aos fingimentos de excelência

esgrimindo a mentira como arte do possível

convocando os ingénuos para um altar

disfarçado de abismo

e depois

quando vítimas se encontram

capitulam 

na impossibilidade de reaver o seu eu. 

Vejo 

como se desfazem em elogios próprios

artesãos de uma vaidade por conta do futuro

na admissão sem finitude 

do que à sua volta gravita

vomitando palavras grotescas

mestres de cerimónias no mais pútrido 

dos lugares

onde dançam os frutos por amadurecer

no intencional rapto que devolve ao mundo

a vergonha que não o consome. 

Depois do futuro fica por mostrar 

a candeia que resgata a lucidez

fica à mostra

apenas a carne nua

a convocatória dos espíritos despojados de algemas

eles que recusam 

a assimetria dos déspotas

a aura corrompida dos embaixadores da frivolidade

os antros sinistros que adulteram a gramática

por que respondem as almas despojadas

o livre escrutínio que sujeita

até os que mantêm a usura dos farsantes. 

Corro daqui para longe

mergulho dentro das profundezas 

que em mim habitam

prefiro o desencanto do humilde anonimato

quero que invisível seja o meu rosto

quando se dá às ruas das cidades.

Quanto aos procuradores das banalidades,

os que passeiam o queixo 

garbosamente içado ao alto 

a trinta e cinco graus 

os que obrigam os outros 

a despenharem-se na sua vez

deixo-os a falar sozinhos

do lado de lá desta porta 

que é o meu forte.

Injustiças documentadas (654)

Não leses, 

majestade.

#4441

Inspira 

toda a inspiração 

que o dia pródigo 

te dá em crédito.

11.5.26

Longo prazo (um bardo inconsequente)

Um bardo com sardas assobia ao piano.

Absorto

caminha pelo abismo sem a fita métrica.

Pergunta:

o que é a manhã?

O que podemos fazer 

com o luar extinto?

A música derramada

não ajuda a descobrir uma resposta.

O bardo

vem a descobrir 

que não importa 

descobrir a solução 

para aqueles enigmas, 

são perguntas sem lugar próprio

perguntas órfãs.

O bardo dedilha umas sílabas

talvez dali venha a sair um poema.

E antes um poema 

nem que seja em forma de ensaio

do que respostas categóricas 

a perguntas erradas:

se as segundas são erradas

por mais que sejam 

certezas 

a abençoar as respostas 

as primeiras também estão erradas.

Injustiças documentadas (653)

Ninguém 

no seu imperfeito juízo 

faz os impossíveis 

para cair nas más graças.

#4440

À revelia 

a lucidez compensa

o atrito da loucura.

10.5.26

#4439

A pele em plano máximo 

os poros desenhados à mão 

a pele que respira no desejo.

8.5.26

#4438

Como uma água sem represa 

os dedos selvagens escrevem estrofes 

antes de encontrarem o estuário 

que os torna finitos.

7.5.26

Relógio

O segredo

invade o silêncio

a voz que em mim se agiganta

na noite minha testemunha.

Injustiças documentadas (652)

Dos amigos do alheio 

pode-se dizer 

que são amigos da onça.

 

(Ainda que esteja por determinar 

do que a onça é culpada)

#4437

Estremece o corpo 

no seu sismo interno, 

a redenção é o que procura.

6.5.26

Injustiças documentadas (651)

Escroque monsieur

a desconstrução 

da iguaria local.

Incógnito

As esporas ferradas na pele

mais tarde do que cedo

cicatrizes que deixam a memória 

à mostra.

 

Os dentes puídos 

rebelam-se contra personalidades 

consabidas

um desmatrimónio que tem tudo

mais cedo do que tarde

para se encerrar num êxito.

 

O descampado é testemunha:

mais ninguém está por perto

o que for dito 

fica perdido no vento rasante.

#4436

Uma meda de queixo caído, 

que a espécie é um espanto.

5.5.26

Dos dias a meio

Dos dias a meio

guardo o esconjuro da rotina

os olhos inertes 

amanhecidos no rapto da melancolia. 

Os ramos estendidos 

davam vida aos rostos

na meação do critério despojado

por todos os demónios destronados

e todos os verbos extintos

na farsa esquecida. 

Os ossos fartos falam mais alto

vertem sobre os diademas claros

as férteis promessas que se juntam no apogeu

num qualquer baldio sem costura. 

As pessoas querem a salvação das almas

enquanto se distraem no fogo da insídia

enquanto

descorajosas se encomendam a divindades

por conta de inaugurações do passado

das costas entortadas com o tempo adversário. 

Não importa que hoje seja apenas hoje

a métrica caótica que aloja a angústia toda

não importa

que se desmontem os demónios sem escrúpulos

nem os meios atiçados para o propósito. 

As estrofes avulsas

um credo como qualquer outro

põem-se em sentido

num sortidos de braços e pernas e dorsos

a que surdos os sentidos se entregam:

em vez da perfeita encomenda para o desastre

sobrestimam-se

as pistolas desenganadas 

que encenam os projetos de impuros esboços

de simplicidade. 

Quero os números todos

inteiros e por completar

primos e bastardos

levantando o véu ao vale sem paradeiro

essa matéria-prima de que não sou feito

mas podia ser

se não tivesse fugido às comendas

e do peito tivesse gritado

em minha desdefesa

que não há préstimo menor

do que querer ser deitado só olvido. 

#4435

O resmungão

protesta a torto e a esquerdo 

dá uma lição

de democracia.

4.5.26

A coreografia das perguntas lunáticas

Se todas as bandeiras 

fossem do avesso

teríamos a paz 

que não passa de uma quimera?

Se todas as palavras 

não pertencessem a um idioma

os Homens 

entender-se-iam melhor?

Se os rostos não escondessem

fingimentos

as mentiras seriam macias?

Se procurássemos perguntas

sem lhes encomendarmos respostas

os dedos deixariam de tremer de medo?

#4434

As flores 

olham com ternura 

até depois de serem arrancadas.

3.5.26

#4433

Muito o desfalecer

tardia a venda 

que arrefece a compostura.

2.5.26

#4432

Metro a metro 

deito o mel nas palavras 

antes que desçam ao estuário 

e o rio tardio as consuma. 

#4431

Acerto o relógio 

pela cor do vento 

e espero 

que a luz se torne 

o seguro do dia.

1.5.26

#4430

Tanto se mete o pensamento em trabalhos 

e nem assim a preguiça prospera.

Injustiças documentadas (650)

O tempo livre 

livrou-se 

de um cadastro.

30.4.26

Tola, a cartola

Deixei de fora a cartola

não por ser de pouco jaez a tola

é que por não ir com eruditos à bola

perdi o direito à estola. 

 

Não é essa sabedoria que cola

que de tão feérica não passa de carambola

só um montão de platitudes na sacola

o lugar especial para qualquer mariola. 

 

Porque se de volta tola

andasse em demanda estarola

seria eu próprio dos maiores o artola

e de meus pecados diria arrola.

#4429

Uma trovoada medonha 

abateu-se sobre o sangue transido 

e o dia não voltou a ser o mesmo.

29.4.26

#4428

Um embaraço pela trela 

é menos mau 

do que uma mentira 

em nome da verdade.

28.4.26

Deuses costurados em ponto de cruz

São pedaços de certeza

embutidos na cofragem estonada

que voam sem asas no quintal dos profetas

que ávidos se acham 

num banquete de inocentes

entontecidos pela usura dos indigentes. 

O sol a pique acende os faróis do sono

subindo as escadas irregulares para nenhures

aparafusando as sinapses ao contorcionismo 

que não pediu licença. 

Promete umas bastonadas pedagógicas

copiando um inditoso ministro da cultura

 

(sem a parte do ministro da cultura

que à nascença asfixiei as políticas ambições) 

 

como quem ameaça só para amedrontar

que a linhagem de homem da paz

não seja beliscada

por uma ameaça impraticável. 

À força de uma montanha

peticiono uma coragem discreta

o rosto sem esgares 

na esquina dos infecundos provérbios

enquanto procuro as artes de pesca

o adro da igreja

fantasmas disfarçados de viúvas anciãs

o pacto que ninguém vai selar

e na noite vespertina

com o atraso típico das coisas afiadas

deixo um adeus pressentido

aos deuses logrados costurados 

em ponto de cruz.

#4427

A valsa cismada não sai de casa 

os corpos retorcidos têm pudor.

27.4.26

A mentira perdeu o arnês

Untadas as costas da mentira

com um banho de luz avivada

às portas da impudicícia ficava 

a boca torta 

de quem rompeu o lacre da honra.

 

Ficaram todos a falar sozinhos

em círculos

não demovendo

as múltiplas personagens que espreitavam

pela escotilha.

 

Na versão escatológica

diziam os puros 

(soi disant)

que o avesso da mentira

pertencia aos conceitos arqueológicos.

 

Ninguém corou.

#4426

O tempo descalço 

embota os rostos desprevenidos. 

26.4.26

#4425

Percorro o dia corajoso 

e digo 

que as palavras não chegam

para tanto falar.

25.4.26

#4424

A casa segredo 

murmura 

o que o olhar sente do avesso.

24.4.26

#4423

Cozinhamos a vapor 

a injúria dos homens sem rosto 

cozinhamos no vapor 

a fealdade arrotada com desdém. 

23.4.26

Viabilização

Não escondo as vírgulas da alma. 

Não arranjo parafusos avariados. 

Não durmo quando a noite ainda espreita a lua. 

Não salvo almas das labaredas avulsas. 

Não minto por serem mentiras às escuras. 

Não rimo com o vento sentado. 

Não remo nas entrelinhas das vozes malsãs. 

Não me amotino contra os ossos cansados. 

Não traduzo as luzes baças sobre o cais. 

Não acordo com o sussurro dos sonhos imprevistos.

Não adio os remédios estatutários. 

Não sirvo para estátua imorredoira. 

Não me sento no parapeito do futuro.

#4422

Aos pares,

que a solidão 

magoa.

22.4.26

#4421

Vaza a boca

das palavras corrompidas 

ainda vais a tempo 

de levar o dia.

21.4.26

Desarmadilha

Se em vez de ouro

peticionassem

(eu lá sei)

antúrios vicejantes

rifas sobre o dia vindouro

um estuário ou um delta disfarçado

e retorcida imagem de um misógino

(só para destruir, só para destruir)

as telhas por estrear num telhado abandonado

farsas contra o apogeu da verdade-verdadinha

a métrica sem medição

uma fogueira lutuosa em cima da incógnita

a purulenta, arcana voz de barítono

do ensaboador de notáveis 

(de serviço)

o espanador puído deixado em herança

a rota só com retas

o adversário a que se deixou a vitória

o mel coado em vez da feira ruidosa

a fonte vertiginosa caída de combro no precipício

se peticionassem uma só 

das hipóteses admitidas

extinguir-se-iam as vaidades

os óculos graduados

os dedos trémulos com medo da chuva

os cerebrais despensadores

que nos abandonam ao azar 

a que não falta o ar.

#4420

Afasto 

o peso mecânico do medo; 

as madressilvas medraram 

na paisagem oxigenada.

20.4.26

Arvoredo

Porque sabe a muito 

esforço o dia para ser diligente.

 

Porque sei o pouco

forço o dia a ser inquisitivo.

 

Porque esqueço há tanto

causo o dia a ser futuro.

#4419

Se sabemos de cor a pele estimada 

somos tutores da gramática da alma.

19.4.26

#4418

Falava como hieróglifos 

nem uma alma para o traduzir 

– dizia-se,

acontece com mais gente 

do que parece.

18.4.26

#4417

Ajudei a palavra a rir 

e depois 

dei-lhe um analgésico.

17.4.26

Injustiças documentadas (649)

A porca 

(não) torce o rabo

o rabo da porca

já está torcido.

Desacerto

Causa provável

o verso incerto que acompanha a lucidez

o retrato amarelecido dos rostos também gastos

uma pedra sentada na cama desfeita

e ainda assim por descobrir

no tirocínio involuntário da desonra do dia. 

Causa, 

provável assenhorear das vontades avulsas

como serpentes elevadas ao quadrado

para pesadelos que cortam a respiração.

#4416

Às vezes 

apetece ter cabelo comprido 

e deixá-lo cair para cima dos olhos.

 

16.4.26

Tréguas como pequeno-almoço

Tréguas como pequeno-almoço

anunciava o major

mandatado para matar a guerra. 

Nas casernas

os generais e outras patentes que tais

caíram em si:

e agora 

que a paz teve bênção humana

quem os salva da extinção?

15.4.26

#4415

Parto 

de um lugar poluído: 

antes costurar a boca 

ao silêncio.

14.4.26

Tabela de elementos

O vulcão hasteado 

o desejo tempera 

no destempo arqueado 

sem a noite em espera. 

 

No livro saciado,

a estrofe sincera 

o beijo rogado 

esta nossa quimera. 

 

O olhar mudado 

corpo ainda primavera 

o hábito rasgado 

 

a boca que se supera 

o amor povoado 

o dia que se esmera. 

#4414

Os braços impugnados 

atiram sal para as vozes vulcânicas; 

são os mecenas do silêncio caridoso.

13.4.26

Analogias e outras manias

Os grandes ladrões 

ocupam o alheio 

com a mesma facilidade 

que ao mitómano 

se averba falta de comparência 

à verdade.

São uma espécie de marxistas ilícitos 

(os primeiros). 

Já os segundos, 

são como especialistas 

de fertilidade in vitro

com uma precisão milimétrica 

para acertarem na mentira. 

Por sinal

os patos bravos do imobiliário 

são como diplomatas a comer 

com os cotovelos em cima da mesa.

Injustiças documentadas (648)

Cair em si 

é o abismo 

não reconhecido 

(como tal).

#4413

Etc. e mil

prouvera a inflação 

dos sentidos.

12.4.26

#4412

Sejam ruínas

os versos 

das minhas lágrimas.

11.4.26

#4411

Havia números primos 

outros elevados ao cubo 

outros ainda conspirando 

em lúdicas cabalísticas 

e a matemática,

aos costumes, dizia zero.

10.4.26

O velho que não era profeta

O homem velho

talvez lúcido como só a velhice admite

avisou: 

estamos vivos só à espera da morte.

 

Ninguém lhe perguntou

se já encomendara os serviços fúnebres

pois ninguém era tão velho

como o velho dali.

 

O velho residente

ou por surdez seletiva

ou por não saber da resposta, 

dedicou-lhes um silêncio conspirador.

 

Quem nos mandou

passear no jardim 

junto à câmara municipal.

#4410

A erupção do ócio profundo 

que é sexta-feira 

véspera da preguiça legalizada.

9.4.26

Reservado o direito de admissão

Às pérolas que há em nós

escondidas sob a pele fortaleza

neste que é um castelo que guarda a voz

povoada por singela grandeza. 

 

Crescermos na largueza do estuário

vontade por vontade conquistada

do tempo não se sacia o anuário

onde se hasteia a bandeira desatada. 

 

E depois, antes do entardecer,

disfarçamos os poemas mudos

reforçamos a voz que não sabe envelhecer

 

nem que pelos corpos puídos

suba um diferente amanhecer

para calar os verbos doídos.