12.7.26

#4491

Os is 

não precisam de pontos,

ilesos que estão.

11.7.26

#4490

Sabermos 

os contornos da pele 

a quimera que se guarda 

na ponta dos dedos. 

10.7.26

Injustiças documentadas (668)

Do mal menor.

Do mal, menor.

Do: mal menor.

#4489

Um número inteiro 

a par de um primo ímpar

faz uma salada russa matemática.

9.7.26

#4488

O verso mel 

beija a pele açambarcada 

na pose maestrina de quem orquestra

o desejo.

8.7.26

Injustiças documentadas (667)

A más horas 

ou apenas 

más, as horas.

#4487

Sete são as chaves 

setenta as almas 

muitas órfãs se acham 

no desalinhavo dos números.

7.7.26

#4486

O gato 

espreguiça o excesso de mundo 

disfarçado pelo mundo.

6.7.26

O seco rio

O seco rio abate o silêncio

o tomador de almas que só esperam

redenção. 

À noite 

combinam-se as vozes assustadas

a maresia vestiu-se de música

e os demónios agora são o que se entoam,

sem os disfarces de outrora

sem as máscaras 

do descarnaval.

Injustiças documentadas (666)

Besides 

the b-sides.

#4485

O fermento gasto 

aviva o ocaso 

– a estultícia

não perde pela demora.

5.7.26

#4484

Parto por dentro da folha 

a nudez escondida 

nas entrelinhas opacas.

4.7.26

#4483

A redenção

compensa a lucidez amputada 

nos olhos ávios que acompanham

a madrugada.

3.7.26

Injustiças documentadas (665)

Um Verão inteiro 

não faz uma andorinha.

#4482

Sem saber que verbo fiar 

vou caindo do lento sonhar.

2.7.26

#4481

Os sonsos 

amanhecem 

imperadores.

1.7.26

#4480

Não colhas o sal no sol tardio. 

Antes de ti 

haverá uma gesta com saudades do futuro.

30.6.26

A língua franca

Os olhos não se escondem

dos corpos à altura

desmatam o medo

como se fossem poetas baldios

e o suor

passa a língua franca. 

#4479

Gostamos 

ostentamos com honra 

os chapéus morais que nos trazem 

superioridade,

mas esquecemos

a finura dos telhados de vidro.

29.6.26

#4478

Sem saber do lugar estado 

o ocaso dança no estirador

enquanto a mão agita 

as palavras amanhecias.

27.6.26

#4477

Estamos numa altura do mundo 

em que é preciso 

deixar o Homem sozinho.

26.6.26

#4476

A parada 

estava parada 

por falta 

de atualização.

 

[Atavismos hodiernos]

25.6.26

O sarcasmo adiado

No jeito desastrado

de quem sopra as pétalas por acaso

e desmonta a flor tornada deserto

sapateava o chão do dia com os óculos de sol

e nem sequer estava sol

mas os deveres de estilo

torpedeiam as pragmáticas coisas 

destinadas ao olvido

numa praça não sei se meio deserta

ou meio composta

transfigurando os rostos dos anónimos

que é preciso obedecer ao RGPD

antes que em contrafação de modos seja apanhado

e por heresia das leis seja condenado

a toda a sorte de trabalhos comunitários

e destrabalhos de outra linhagem

enquanto em surdina indulto uma ode avulsa

que hoje estou por conta do estilo livre

não sinto que cinto algum seja à minha medida

e nem o remorso consegue verter a sua lava

deixando os impropérios 

por conta da voz em pano de fundo

que nunca se desaloja 

das funduras de onde a luz não intimida. 

Ainda assim

reservei o sarcasmo para amanhã.

#4475

Sarilharam tudo o que podiam 

até à meia-noite,

aquele era o dia consagrado 

aos sarilhos.

24.6.26

#4474

A corda 

à roda 

acorda 

a rodos.

22.6.26

#4473

Nasceu do nada (dizem) 

agora é a torre altaneira 

que ateia a esperança 

dos iguais.

21.6.26

#4472

Um truísmo

como bandeira, 

sina sem exílio.

20.6.26

#4471

A voz descarnada, 

como a janela nua 

que se dobra perante o dia.

19.6.26

Contramão

Não digas nada. 

Não acordes os demónios 

do seu sono de fealdade. 

Não abandones o silêncio inteiro

nem que por vírgulas tenham

a tua sorte. 

Não amanheças imperador do dia. 

Mas não fujas dele

lembra-te das flores que são seu cio

e toma-as como penhor 

das juras por vencer. 

Amanhã 

dirás o que hoje não disseste

se entretanto não fores vítima (voluntária)

do (teu) esquecimento. 

#4470

Fugi da noite 

como o dia ártico em junho.

A luz perene 

desfaz a escuridão adamastora.

18.6.26

Areia para os olhos

Referendei a apolónica montanha

como se entre os copos fluíssem os verbos

e o miado dos gatos se escutasse

em surdina.

Mas toda a gente estava em promenade

o vazio hasteado com pundonor

como se estivessem desligadas da corrente

ou alguém tivesse desligado as fichas todas.

Os feriados foram feitos

para todos se porem entre parêntesis.

#4469

As lágrimas falam 

pelo silêncio inacabado.

17.6.26

#4468

Podia-se pensar 

em taxar as taxas 

– e assim sucessivamente – 

até se chegar 

ao palimpsesto da receita pública.

16.6.26

Haste

Toda a haste 

bebe no impuro luar 

que desagrava a noite. 

Os copos 

desembaraçam-se da água

povoam latitudes inexploradas. 

Amanhã 

 

(sempre o amanhã) 

 

apuramos as contas desmatadas, 

na contabilidade por estima 

na vacatura das almas.

#4467

O corpo 

fala no idioma 

que dispensa

tradução.

15.6.26

Injustiças documentadas (664)

Herein, 

the worst-off of myself 

embedded in a golden rule.

#4466

Desfliam 

os números as letras as frases avulsas

massacram o pensamento

pedindo, sem saberem, que se exile.

 

[Concerto de Massive Attack, Primavera Sound Porto 2026]

13.6.26

#4465

Resumia-se

a um delírio,

para bem 

da humanidade.

12.6.26

Injustiças documentadas (663)

Um crédito malparado 

devia ser cominado 

com multa.

#4464

A bola de bilhar 

brinca com a rasura, 

deixa extático

um mundo que dorme.

11.6.26

#4463

A porta usada 

escolhe a noite 

como exílio.

10.6.26

#4462

Um livro não é a badana 

uma pessoa não é efémera.

9.6.26

#4461

Um manguito aos estarolas 

que ceifam as esperanças 

em proveito próprio.

8.6.26

#4460

Se o meio ficar pela metade

mentimos à matemática

ou conseguimos o todo aritmético?

30.5.26

#4459

Quando a caridade

se confunde com corveia

as mãos trocam palavras 

por desdém.

 

(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)

29.5.26

Injustiças documentadas (662)

Roubar a atenção 

é um delito 

qualificado.

#4458

As luzes bruxuleiam

ateando os braços para a dança 

a que as pernas emprestam cor.

28.5.26

Quem foge das perguntas não é de confiar

Como se chama 

a voz zangada

que sobe para a jangada

e se vinga no caudal de lágrimas?

 

Como se chama

pelo estroina de serviço

e se pede para descer a cortina

sobre os amalucados que deformam

o concerto das nações?

 

Como se chama

o patrono dos sonhos

e se pede para receber a vacina

contra os despreparos do mundo

e os incendiários que o descomandam?

#4457

Só devia haver arsenais 

se fossem compêndios de poesia.

27.5.26

Das almas artesãs

Na ebulição que amanhece

deixo o olhar seguir pelo teu

apuramos o silêncio que não se adia

e sozinhos diante de uma fonte,

como se ela fôssemos,

ousamos ciciar um sonho 

de que somos artesãos.

Injustiças documentadas (661)

Quem entronizou no diabo

as prerrogativas da escolha

é dele cúmplice.

#4456

Domados os minutos acelerados

emergíamos no sonho lisérgico.

26.5.26

Fugir

Fujo de vozes que murmuram lamentos.

Fujo de luares adulterados no horizonte.

Fujo de “personalidades” fingidas

e das que não o sendo não ficam atrás

em voyeurismo banal.

Fujo das invetivas de gente ofensora.

Fujo dos idiomas que ultrajam a fala.

Fujo de viúvas negras com o cenho carregado.

Fujo de idiotas úteis e dos outros 

que intuem uma certa utilidade.

Fujo da “resiliência”,

do “impactante”

e do “abrangente”.

Fujo dos tipos que estão sempre a dizer “tipo”.

Fujo dos farsantes que mentem a si mesmos

enquanto fingem uma coisa qualquer.

Fujo do marasmo que se deita no calendário.

Fujo das ideias matrioskas.

Fujo de amadores ufanos e patriotas fala-barato.

Fujo do deus dará 

que oxalá seja estatuto falhado.

Fujo do que finjo 

antes que o fingimento me colonize.

Fujo da indigência 

e da soberba dos risíveis arautos.

Fujo da nomenclatura gasta 

em fósforos virgens.

Fujo dos sacerdotes de todos os calibres.

Fujo dos mapas, das fronteiras, 

da obnóxia distinção de nacionalidades.

Fujo quando for hora de fugir.

Fujo enquanto me apetecer fugir

e de tanto fugir não me cansar

altura em que fujo de continuar a fugir.

Injustiças documentadas (660)

Travar de razões 

não é meter travões à razão.

#4455

Desarmar o medo

é caucionar 

o avanço da civilização.

25.5.26

Mousse de chocolate

Não tinha uma varinha mágica

e não aspirava a ter uma 

no arsenal das coisas que mudam

os palcos.

Deixava as mudanças para os sonhadores.

Deixava os projetos generosos

para os líricos apóstolos da ingenuidade.

As estrofes vazavam os sonhos pueris

e às mãos vinham parar

como seu cais

as coisas puídas que não mudam

(a não ser para pior).

#4454

Teima a esmo 

cavando as entrelinhas 

das maravilhas.

24.5.26

#4453

Com um fanico de fancaria 

mangando a mando 

o estarola estagia 

no formulário do fingimento.

23.5.26

#4452

Sexto sentido

um ar descongelado

a boca a fugir do medo.

22.5.26

Ortodontia

Estimados dentes que acendem os candeeiros

se fossem isqueiros 

que vulcões desatavam da letargia?

Dentição assestada em riste

que dos argumentos opostos

por mais variegados que seja

fundeiam na terrível indisposição mental

que fariam se vosso fosse o império

e às mãos calhasse em hipótese silenciar

os que ao contrário de vós pensam?

Dentes a eito

originais ou em encenada substituição

perdidos no meio das vulgares suposições

abraçados em dúcteis conspirações

mesmo a calhar como a roca serve ao parafuso

dentes, ó dentes tão soezes,

era preferível 

que as mandíbulas que vos amparam

estivessem de vós nuas.

#4451

Dei-te uma alquimia 

e tu, tão prudente, 

depositaste-a no banco.

21.5.26

A astúcia apressada

Comprei uma astúcia

mas tive de a deixar de molho

assim oravam as instruções. 

Era urgente a urgência da astúcia. 

Perguntei aos manuais fáceis que há

se podia apressar a demolha da astúcia 

– era tanta a urgência

que temia que a astúcia

de tanta demolha

se dissolvesse 

num placebo sem utilidade. 

 

Apressado pela urgência

apressei a demolha da astúcia. 

 

Soube depois

a astúcia que havia mercado

não chegar a medrar

e fiquei sem ganho de causa

na causa que precisava da astúcia

se nem o logro serviu de sucedâneo.

#4450

Jogamos aos alçapões, 

insensatamente frívolos, 

enquanto somos espetadores 

do tempo a passar.

20.5.26

Injustiças documentadas (659)

Desliga das nações, 

a aposta em alta 

é a dedicada ao indivíduo.

Desliga das nações,

a liga é tão frágil

as nações vomitam guerras.

Prémio “asno do ano”

Corto raso a boçalidade encorpada

os dentes vagos trituram as sílabas

e agredidas são as palavras 

parindo ideias soezes.

 

É como agarrar no rabo do touro

e vê-lo rabear, rabear, rabear,

convencido que se torce capazmente

para se desembaraçar do estroina de serviço.

 

Mal se amanham os néscios

que nada sabem da História

para eles reservada a mesa dos atoleimados

não há maior ignorante a ensebar teorias.

#4449

Esse tempo de mel, 

o das vacas gordas, 

esbarrou no contratempo 

de não se poder dizer de um gordo 

que é gordo.

19.5.26

Presumidos

E depois

há sempre aqueles castiços

que precisam de palco

e que deixam atrás de si

um loquaz império de sapiência

aqueles que

depois

em diálogo com o avesso de si 

 

(noutros lugares chama-se

consciência)

 

confidenciam

que a distinção foi por engano

ou eles já estão tão senis

que do episódio por que receberam a comenda

não guardam memória. 

E assim

empossados num sonho pródigo

levitam na sua douta aparência

distantes o quanto baste

da ralé limítrofe.

Injustiças documentadas (658)

Ligadura.

Liga dura

Liga, dura.

Liga a dura.

#4448

O motim interior

aprova a maré silenciosa, 

os baldios

incessantemente demandados.

18.5.26

Manifesto contra os manifestos

Ouves o rumor

os verbos noturnos

que trazem beleza às sombras.

 

Contrarias os vultos

os medos desalinhados

que entregas ao cuidado dos artesãos.

 

Falas do pouco que queres

a modéstia das palavras

um sortilégio que poucos conhecem.

 

Entregas o ouro teu

o atestado que destemido abres 

na inspiração de um sangue fraco.

#4447

No trato ordeiro, 

o avesso da boçalidade, 

um adorno esquecido.

17.5.26

#4446

A farsa que amanhece 

não tem prazo de validade.

16.5.26

#4445

As palavras dançam 

no caudal volumoso 

de quem rompe o granito 

e espera que elas se avivem.

15.5.26

Mão à palmatória

Junto as mãos

o templo sem medida

deponho a noite sem nome

de só querer o teu paradeiro.

 

Junto o silêncio

o rumor do mar que estilhaça a areia

subo ao miradouro

e abro o horizonte com as mãos juntas.

 

Chamo o teu nome

sem me desembaraçar do crepúsculo

sigo a sombra que deixas

no estremecimento da voz que serve de toada.

Injustiças documentadas (657)

Chatear o Camões 

devia ser proibido por lei 

e os mandantes condenados 

a Chagas.

Injustiças documentadas (656)

Ser testa-de-ferro 

deve ser duro.

#4444

À matilha deram corda 

os dentes arregaçados 

puseram os cotovelos à janela.

14.5.26

#4443

Contra os piores prognósticos 

– diziam, 

antes de defenestrar o olhar caído, 

descolonizando-se da angústia.

13.5.26

Luar

Dá de beber ao fogo um fogo outro

os lugares apartados são a âncora das nossas mãos

e das coisas que somos únicos penhores

fabricamos sonhos que não dispensam matéria

sob o luar que em nós se faz carne. 

Injustiças documentadas (655)

Não é a prata da casa; 

é a casa da prata.

#4442

Não é a areia nos olhos 

que magoa 

é a mão que a atira.

12.5.26

Cadastro

Assento os ossos na bacia tumular

onde extraviados se elevam

os expoentes da decadência. 

Se há divórcios sem ónus

o que separa os termos desses próceres

é exemplo que não acaba

pois em acabando torna-se possível

a reconciliação 

que compunha o estulto perdão. 

Vejo 

como desfilam 

imersos num orgulho sem medida

como fingem aos fingimentos de excelência

esgrimindo a mentira como arte do possível

convocando os ingénuos para um altar

disfarçado de abismo

e depois

quando vítimas se encontram

capitulam 

na impossibilidade de reaver o seu eu. 

Vejo 

como se desfazem em elogios próprios

artesãos de uma vaidade por conta do futuro

na admissão sem finitude 

do que à sua volta gravita

vomitando palavras grotescas

mestres de cerimónias no mais pútrido 

dos lugares

onde dançam os frutos por amadurecer

no intencional rapto que devolve ao mundo

a vergonha que não o consome. 

Depois do futuro fica por mostrar 

a candeia que resgata a lucidez

fica à mostra

apenas a carne nua

a convocatória dos espíritos despojados de algemas

eles que recusam 

a assimetria dos déspotas

a aura corrompida dos embaixadores da frivolidade

os antros sinistros que adulteram a gramática

por que respondem as almas despojadas

o livre escrutínio que sujeita

até os que mantêm a usura dos farsantes. 

Corro daqui para longe

mergulho dentro das profundezas 

que em mim habitam

prefiro o desencanto do humilde anonimato

quero que invisível seja o meu rosto

quando se dá às ruas das cidades.

Quanto aos procuradores das banalidades,

os que passeiam o queixo 

garbosamente içado ao alto 

a trinta e cinco graus 

os que obrigam os outros 

a despenharem-se na sua vez

deixo-os a falar sozinhos

do lado de lá desta porta 

que é o meu forte.

Injustiças documentadas (654)

Não leses, 

majestade.

#4441

Inspira 

toda a inspiração 

que o dia pródigo 

te dá em crédito.

11.5.26

Longo prazo (um bardo inconsequente)

Um bardo com sardas assobia ao piano.

Absorto

caminha pelo abismo sem a fita métrica.

Pergunta:

o que é a manhã?

O que podemos fazer 

com o luar extinto?

A música derramada

não ajuda a descobrir uma resposta.

O bardo

vem a descobrir 

que não importa 

descobrir a solução 

para aqueles enigmas, 

são perguntas sem lugar próprio

perguntas órfãs.

O bardo dedilha umas sílabas

talvez dali venha a sair um poema.

E antes um poema 

nem que seja em forma de ensaio

do que respostas categóricas 

a perguntas erradas:

se as segundas são erradas

por mais que sejam 

certezas 

a abençoar as respostas 

as primeiras também estão erradas.

Injustiças documentadas (653)

Ninguém 

no seu imperfeito juízo 

faz os impossíveis 

para cair nas más graças.

#4440

À revelia 

a lucidez compensa

o atrito da loucura.

10.5.26

#4439

A pele em plano máximo 

os poros desenhados à mão 

a pele que respira no desejo.

8.5.26

#4438

Como uma água sem represa 

os dedos selvagens escrevem estrofes 

antes de encontrarem o estuário 

que os torna finitos.

7.5.26

Relógio

O segredo

invade o silêncio

a voz que em mim se agiganta

na noite minha testemunha.

Injustiças documentadas (652)

Dos amigos do alheio 

pode-se dizer 

que são amigos da onça.

 

(Ainda que esteja por determinar 

do que a onça é culpada)

#4437

Estremece o corpo 

no seu sismo interno, 

a redenção é o que procura.

6.5.26

Injustiças documentadas (651)

Escroque monsieur

a desconstrução 

da iguaria local.

Incógnito

As esporas ferradas na pele

mais tarde do que cedo

cicatrizes que deixam a memória 

à mostra.

 

Os dentes puídos 

rebelam-se contra personalidades 

consabidas

um desmatrimónio que tem tudo

mais cedo do que tarde

para se encerrar num êxito.

 

O descampado é testemunha:

mais ninguém está por perto

o que for dito 

fica perdido no vento rasante.

#4436

Uma meda de queixo caído, 

que a espécie é um espanto.

5.5.26

Dos dias a meio

Dos dias a meio

guardo o esconjuro da rotina

os olhos inertes 

amanhecidos no rapto da melancolia. 

Os ramos estendidos 

davam vida aos rostos

na meação do critério despojado

por todos os demónios destronados

e todos os verbos extintos

na farsa esquecida. 

Os ossos fartos falam mais alto

vertem sobre os diademas claros

as férteis promessas que se juntam no apogeu

num qualquer baldio sem costura. 

As pessoas querem a salvação das almas

enquanto se distraem no fogo da insídia

enquanto

descorajosas se encomendam a divindades

por conta de inaugurações do passado

das costas entortadas com o tempo adversário. 

Não importa que hoje seja apenas hoje

a métrica caótica que aloja a angústia toda

não importa

que se desmontem os demónios sem escrúpulos

nem os meios atiçados para o propósito. 

As estrofes avulsas

um credo como qualquer outro

põem-se em sentido

num sortidos de braços e pernas e dorsos

a que surdos os sentidos se entregam:

em vez da perfeita encomenda para o desastre

sobrestimam-se

as pistolas desenganadas 

que encenam os projetos de impuros esboços

de simplicidade. 

Quero os números todos

inteiros e por completar

primos e bastardos

levantando o véu ao vale sem paradeiro

essa matéria-prima de que não sou feito

mas podia ser

se não tivesse fugido às comendas

e do peito tivesse gritado

em minha desdefesa

que não há préstimo menor

do que querer ser deitado só olvido. 

#4435

O resmungão

protesta a torto e a esquerdo 

dá uma lição

de democracia.

4.5.26

A coreografia das perguntas lunáticas

Se todas as bandeiras 

fossem do avesso

teríamos a paz 

que não passa de uma quimera?

Se todas as palavras 

não pertencessem a um idioma

os Homens 

entender-se-iam melhor?

Se os rostos não escondessem

fingimentos

as mentiras seriam macias?

Se procurássemos perguntas

sem lhes encomendarmos respostas

os dedos deixariam de tremer de medo?

#4434

As flores 

olham com ternura 

até depois de serem arrancadas.

3.5.26

#4433

Muito o desfalecer

tardia a venda 

que arrefece a compostura.

2.5.26

#4432

Metro a metro 

deito o mel nas palavras 

antes que desçam ao estuário 

e o rio tardio as consuma. 

#4431

Acerto o relógio 

pela cor do vento 

e espero 

que a luz se torne 

o seguro do dia.

1.5.26

#4430

Tanto se mete o pensamento em trabalhos 

e nem assim a preguiça prospera.

Injustiças documentadas (650)

O tempo livre 

livrou-se 

de um cadastro.

30.4.26

Tola, a cartola

Deixei de fora a cartola

não por ser de pouco jaez a tola

é que por não ir com eruditos à bola

perdi o direito à estola. 

 

Não é essa sabedoria que cola

que de tão feérica não passa de carambola

só um montão de platitudes na sacola

o lugar especial para qualquer mariola. 

 

Porque se de volta tola

andasse em demanda estarola

seria eu próprio dos maiores o artola

e de meus pecados diria arrola.

#4429

Uma trovoada medonha 

abateu-se sobre o sangue transido 

e o dia não voltou a ser o mesmo.

29.4.26

#4428

Um embaraço pela trela 

é menos mau 

do que uma mentira 

em nome da verdade.

28.4.26

Deuses costurados em ponto de cruz

São pedaços de certeza

embutidos na cofragem estonada

que voam sem asas no quintal dos profetas

que ávidos se acham 

num banquete de inocentes

entontecidos pela usura dos indigentes. 

O sol a pique acende os faróis do sono

subindo as escadas irregulares para nenhures

aparafusando as sinapses ao contorcionismo 

que não pediu licença. 

Promete umas bastonadas pedagógicas

copiando um inditoso ministro da cultura

 

(sem a parte do ministro da cultura

que à nascença asfixiei as políticas ambições) 

 

como quem ameaça só para amedrontar

que a linhagem de homem da paz

não seja beliscada

por uma ameaça impraticável. 

À força de uma montanha

peticiono uma coragem discreta

o rosto sem esgares 

na esquina dos infecundos provérbios

enquanto procuro as artes de pesca

o adro da igreja

fantasmas disfarçados de viúvas anciãs

o pacto que ninguém vai selar

e na noite vespertina

com o atraso típico das coisas afiadas

deixo um adeus pressentido

aos deuses logrados costurados 

em ponto de cruz.