31.3.24

#3108

Muda a hora.

Muda,

uma hora.

A hora

não muda.

30.3.24

#3107

A luz rouca

numa fotografia

desenhada a preto e branco.

29.3.24

Injustiças indocumentadas (320)

Se o diabo

vendesse a alma

era licitação para demorar.

#3106

Às vezes

é preciso inventar

odisseias.

28.3.24

#3105

Nómada no lugar certo

esbracejo não-bandeiras

atiço o idioma recauchutado

beijo o amanhã desafiado.

27.3.24

Atribuições

Dar à corda

toda

imerso na audácia

e das baias do dia

trazer

mel que adoça a pele

e a ousadia

que sinaliza a coragem.

#3104

Deixa o sangue correr

as sílabas no seu tempo certo

o amanhã ser a fotografia capaz

um nome a estrofe prometida.

26.3.24

Ricochete

A sucata ordena o feixe da decadência. 

Não importa,

temos o destino cinzelado

no horizonte no seguimento do nariz. 

As luas sobrepõem-se

falam mais alto que as trevas. 

Todas as mãos são anónimas. 

Não há autoria

nem o embelezamento improfícuo

de personalidades exacerbadas 
no sangue em que correm. 

Diremos amanhã

Para a ata das intenções ditaremos

talvez

impropérios

agastados que estamos. 

Seremos

 

(pode ser dito sem recearmos represálias) 

 

dissidentes. 

Dissidentes

a começar

de nós mesmos. 

Injustiças indocumentadas (319)

Ninguém

morre

de amor(es).

#3103

A escultura 

muito assisada

com ares de exemplo

e nós deste lado

militantes da impureza. 

25.3.24

Injustiças indocumentadas (318)

As graças

não são todas

de graça.

Armadilha

Cabeçalho, cabeçudo

cabeção, cabisbaixo

canhestro, calhorda

sinistro, santeiro

simiesco, sinaleiro

armeiro, arabesco

alfândega, alentejano

bardo, bago

batráquio, balsa

poejo, paróquia

parteira, perfunctório.  

#3102

O norte 

pedia luar

como a noite

descerra o silêncio.

24.3.24

#3101

O embaixador

roeu a corda

mostrando

que para chegar a rato

não é preciso ser rato.

23.3.24

#3100

Os apóstolos do ambiente

calados

estranhamente calados

não acusam a cocaína

que polui as águas do Porto.

22.3.24

A alma vestida a rigor

A alma vestida a rigor

dança só quando chove

abraçada ao vento iracundo

remexendo entre as nuvens gastas

prometendo o anoitecer em forma de verso. 

 

A alma

vestida a rigor

não desmente o estremecimento

quando o rio combina com o luar

e um prateado braço de água escorrega

até à foz

onde se confirmam os pesadelos arrematados. 

 

A alma

vestida

a rigor

no exato testamento

das flores colhidas

dos entes a caminho de queridos

da frugalidade 

que ensina a ver depois do espelho baço

adormecendo com o murmúrio do entardecer

adormecendo

abraçando aos sonhos exilados

na exaltação que se cola à pele desadormecida. 


Porque

a alma 

está

vestida

a rigor.

Injustiças indocumentadas (317)

A literatura

não rima

com ditadura.

#3099

Ajeita-se a podridão precoce

a espuma pútrida na boca do peixe

um certo odor a apocalipse.

21.3.24

Vate (absolvição)

O poema

é as nossas mãos

que se fundem 

na véspera da loucura. 

 

O poema

é o silêncio que colonizou 

estrofes. 

 

O poema 

é a rua inaugurada

no despontar da cidade. 

 

O poema

é a manhã que levita

sobre os sonhos limítrofes. 

 

O poema

é um verso singular

tatuado no coração amplo. 

 

O poema

é o piano que ensinamos

a quatro mãos. 

 

O poema

é a escultura

em que nos tornamos

o marco geodésico adivinhado

o cais terminal sem gramática por baixo

a entardecida jarra onde nadam

as flores robustas. 

 

O poema

é matéria-prima 

constante

um sinal sem trânsito

dieta que não pede regras

o poema armilar

a esbracejar a alma combustível

no parapeito do amanhã. 

 

O poema

não precisa de poeta

só precisa

dos nossos olhares impuros

alfaiates da métrica em desuso

pátria maternal das manhãs ateadas

no incenso sussurrado 

pelas nossas bocas. 

 

O poema

não precisa

de poetas

se nós lhe demos

corpo.

#3098

O poema que fala

através da fala

que se emudece no poema.

20.3.24

Injustiças indocumentadas (316)

Tirou nabos da púcara

e não foi

para cozinhar um caldo.

Injustiças indocumentadas (315)

Disse:

a liberdade tem de ser regada.

Não disse

a liberdade tem de ser regrada.

#3097

As palavras

tinham a cor da mentira

o desporto nacional favorito

a seguir  

à fraude com dinheiro dos outros.

19.3.24

O país eu

A janela efémera

olha por dentro das veias

cicatriza a carne aberta 

pelo tempo estouvado. 

 

As linhas cosidas sobre a pele

arrefecem o ardor

os novelos do ocaso dão-se à combustão

e os sentidos hibernam 

entre as estrelas avulsas. 

 

Olho pelas fogueiras que hasteiam refúgios

é esta atalaia que redijo em forma de lei

mesmo que seja baldio o pensamento

e em vez de cortinas veja o luar caiado. 

 

Corro pelos miradouros

corro como se não precisasse do sono

a maré alta de meu peito desdoído

a fala que se intromete no silêncio.

Injustiças indocumentadas (314)

Por este andar

num destes dias vindouros

os elegíveis serão ilegíveis.

#3096

Mergulhados na tômbola

ficamos à espera

que ora se ria connosco

ora se ria de sermos seu infortúnio.

18.3.24

Seiva

Peguei nas miragens todas

respirei dentro da escotilha

soube dizer as sílabas da ousadia

e na véspera do medo

arrastei a coragem em nome dos pés

até que de um fôlego só

atirei as nuvens para cima do horizonte

e pude ser do sol a alma gémea. 

#3095

De cada vez 

que se acanha o luar

é tirada a prova dos nove 

à redenção que se fabrica 

num lampejo.  

17.3.24

#3094

“Vaughan Gething, de 50 anos, foi ministro da Saúde do País de Gales (...).” (Das notícias)

 

A mania 

de usar a idade

como passaporte.

#3093

Um braço de prata

a aprender a ser 

ouro.

 

[Entardecer]

16.3.24

#3092

Atravessas a vau

os espelhos abotoados

que fogem da memória.

15.3.24

Oficina

Retificação de motores

era a placa à porta da oficina

e lá dentro

pude espreitar

carcaças desnudarás

cilindros e correias

quase todas untadas em óleo negro e gasto

blocos de motor esventrados

uns em cima de estrados

outros, os pobres, jazendo pelo chão

desenfeitando o chão

e não percebi

os motores que estavam para cirurgia

e os outros

à espera de autópsia

depois de por eles terem assinado

testamento vital

e a trasfega de peças úteis acontecer

para motores outros então ainda mutilados. 

E fiquei sem perceber

se os olhos tinham passado

por uma oficina chamada retificação de motores

ou se era uma metáfora em maiúsculas

um sonho remediado.

Injustiças indocumentadas (313)

As bestas

não precisam

de ser quadradas.

 

(Se forem

elevadas ao quadrado

é caso para pensar)

Injustiças indocumentadas (312)

Os outros

não somos nós

por mais que tentemos.

#3091

O eclipse acorda os medos

às sombras regressa o império.

14.3.24

Simetria

Tiro desta fala

o testemunho maior

cobro

às varas que contam o futuro

os olhos embaciados

que se passeiam nas livrarias. 

 

Desejo o estatuto decaído

os telhados contrabandeados

as bocas teatrais e desemudecidas

um espartano anoitecer

na margem da loucura. 

 

Apago as luzes do dia

as cortinas baças abatem-se no equinócio

e sinto o aroma da Primavera

o corpo que nu se entrega

aos dedos que exaltam fantasias

o sentado sentir por dentro do sangue

enquanto as respostas se encomendam

ao próximo apeadeiro 

sem nome.

#3090

Um salto em altura 

até chegar

ao sonho cristalizado.

13.3.24

Deu-la-deu

Ana-ina-não

Tão-tão

Parlatão

Charlatão não

Um-dó-li-tá

Escabeche

Taran-tan-tan

Chelique

Ora bora

Borra 

Pim-pam-pum

Pin

Plin

Atchim

Cof cof

Psiu

Chiu

Ufa

Ala

Trim trim

Splash

Vruuuum

Miau.

Injustiças indocumentadas (311)

Um contratempo é uma dádiva

pois investe contra o tempo

não o deixa envelhecer.

#3089

Descubra-se o amanhã

mal se transforme em hoje

mas não se antecipem oráculos

não queiram

apanhar o futuro pelos colarinhos.

12.3.24

Floresta (a prazo)

Estendemos os dedos

acreditamos

que por eles as bocas tocam na lua. 

Não trocamos a luz clara do dia

pela noite postiça

dedilhamos os postais arrematados

de cidades forasteiras

onde vendemos diademas

e das ruas trouxemos as melodias dos idiomas. 

Deixamos tempestades por conta do ontem

brindámos aos dias consecutivos

não quisemos a abundância estéril

ou a indigência de palcos fátuos:

somos inventores do encanto

à medida que revelamos os negativos do dia

e juramos

na furtiva despedida do entardecer

não sermos dádivas da indigência

ou astrolábios das florestas desencantadas.

#3088

Movia-se a planetas

o ânimo à altura

das estrelas.

11.3.24

O véu da ignorância

Tu não sabes 

que as miragens escondem a carne submersa

os carris rombos que desassossegam os párias

que é pelas praias ermas

que se juntam os denunciantes do ouro

a matéria vaga em que amanhecem os olhos. 

Tu não sabes

que as vésperas albergam a gramática impopular

que os destinos se confundem com o dia abastado

e as sombras medram em folhas roubadas. 

Tu não sabes

que há idiomas sem verbo

e outros que recusam bandeiras

ou que se levantam poetas de uma casta rara

que escolhem estrofes singulares

e falam com a usura de figuras de estilo

devolvendo ao leitor 

a liberdade que antes não havia. 

Tu não sabes

dos punhos caiados pelo luar expoente

das marés caídas sobre os rochedos gratuitos

das costas das ondas 

que guardam segredos dos marinheiros

e dos mares que empenham os segredos

dos demais. 

Tu não sabes

e não queres saber

que há lugar na geografia do tempo

para não saber destes saberes.

Injustiças indocumentadas (310)

Não há

ideias feitas

só há

ideias por fazer.

Injustiças indocumentadas (309)

Não há nada tão gratuito

como o relógio da igreja

que dá as horas.

#3087

Os braços

rasavam o sol a eito

no alpendre ermo.

8.3.24

#3086

Disse:

vamos parentesiar

as desinterresâncias

as dores que comem as almas

as vírgulas que entaramelam a fala.

Injustiças indocumentadas (308)

Ainda bem

que o nervoso

(ainda) é miudinho.

7.3.24

Extinção

Plastifico o sangue 

não vá latejar na ebulição

e eu seja vulcão contrariado. 

 

Componho os telhados efémeros

contra a fala das velhas tempestades

é da carne feita que se fabricam as sílabas. 

 

Açambarco as desilusões sem paradeiro

no sono dos gatos furtivos

adivinhando as aleias da noite lunar. 

 

As janelas escondem o amanhã sem passaporte

as viúvas remedeiam o desmedo

nas costuras puídas pelas velhas mãos. 

 

As vozes são tomas diárias de coragem

barcos frágeis que fundeiam a despeito. 

 

O vivo sal enfeitiça as musas

desta fraca linhagem se diz soberania

os povos possuídos pela imoderação. 

 

E se ao enxofre digo oxalá

deixo ao cuidado dos copos cavernosos

esta herança feita de garfos antónimos. 

#3085

As mãos

que fazem as paredes

que arborizam a alma

que se devolve

a um rosto.

6.3.24

O avesso das profecias (ou profecias do avesso)

Já não sabia 

o que fazer com o futuro:

eram tantas as profecias

contra um futuro singular

que quase todas as profecias

participavam no erro.

Não ficou inquieto.

É da natureza das profecias

estarem destinadas a errar.

Por isso sempre disse

que preferia

as profecias sobre o passado.

#3084

Contra a tirania dos adjetivos

substantivar, 

como se fosse a fortuna

do caviar.

5.3.24

Amortecedor

Atiro paralelos aos pesadelos

convencido que os espanto

e depois

apenas titular de um responso

habilito a hábil transferência de pesares

de velha viúva 

para o jovem amordaçado pela angústia

o ancestral viveiro das dúvidas existenciais

que já não assombram a velha. 

 

Talvez haja telhados sem telhas

uma ardósia que dispensa o giz

crianças a pedirem o tempo vagaroso

mistérios que se emanciparam do anonimato

pais furtivos que não juram filhos. 

 

Colhe-se o incenso de ouro

que procede de sílabas serenas 

que sobem à boca literal. 

Ninguém pergunta pelos deuses

já tomaram conta dos desertos

só sabem ser curadores 

de ermos lugares sem gente. 

 

Um dia destes

tiro uma fotografia com o pneu abandonado

ou peço a um gato de rua

que seja poeta na minha vez

enquanto 

de fora

contemplo o ocaso dos sentidos

a perfeita elegia do dia. 

#3083

Um ombro

mesmo à mão

um arnês contra

a melancolia.

4.3.24

Crónica dos bons costumes

A burla 

trouxe sal para os olhos

dos burlados.

Mal deram conta do burlão

os heróis encapotados

assobiaram para a lua,

que estava magnífica

a lua.

O burlão correu os quatrocentos metros

em tempo pré-olímpico

não contava com uma barreira 

quando desfez uma esquina

e foi a esquina 

com a ajuda da barreira

que o desfez.

Ficou estatelado

queixava-se de dores lancinantes

talvez tivesse uma ou duas fraturas

ou então

eram 

(diria o povo tão obediente aos costumes)

as dores de consciência

da malvada da consciência.

Apurada a presença da polícia

os oficiais de serviço não escondiam o enfado:

tiveram de interromper o jantar

e as cervejas nem a meio iam

agora vão ficar mornas e imprestáveis.

Os oficiais de serviço

chegaram em câmara lenta

e, com denodo e elevado sentido de solenidade 

(ou, chamemos-lhe: complexo de farda),

prenderam o meliante

porque a ambulância chegou mais tarde

(os paramédicos não interromperam o jantar

e ainda por cima dava na televisão

o Vitória de Setúbal).

O burlão contorcia-se em dores

e o povo mesquinho

partidário do olho-por-olho-dente-por-dente

dizia com os pulmões inteiros

“é bem feito, seu pulha, é bem feito”.

 

Para crónica dos bons costumes

não está nada mal

anuiu o observador imparcial.

#3082

O corpo

toca a redenção

no poema vago 

que coloniza a manhã.

3.3.24

O tempo sem modo

Só do luar temos as mãos que juram o tempo. Dizem: a última vez. Nós é que ultimamos a vez em que nos deitamos ao poema. Sua é a palavra sem medo, o sortilégio expropriado à sorte. Não gostamos de profecias. Não queremos saber quando é a última vez. 

#3081

Não importa

dezoito ou dezanove

ou outro algarismo qualquer

desde que 0 > 1.

2.3.24

Injustiças indocumentadas (307)

Ninguém sabe

aonde fica

a fábrica de fazer tempo.

Renorte

Assaltas as vozes sísmicas que levantam

o medo. 

Juntas os estilhaços que herdaste

contas as espadas puídas

e adivinhas

os litros de sangue derramados

a estultícia que soa aos séculos atravessados. 

Povoas as fortalezas:

crês que não têm validade

os oráculos escondidos atrás dos ossos

os chapéus desfilados no fingimento de eruditos. 

Antes fossem atrasos 

os disfarces de progresso

antes houvesse indigência a atapetar as ruas

esgrimindo os rostos transidos de medo

e todos os desejos tivessem assinatura diária. 

Para depois

em cantos desastrados

descobrirmos os tentáculos que tudo sufocam

e num golpe certeiro

cortar a goela destes mastins

para então deixar assentar 

a luz fria que destoa da servidão.

#3080

O tempo teimoso

torna a tirar tempo

ao seu tirocínio.

1.3.24

O dono da sonoplastia

Pretérito eterno

interno mérito

ou o prefácio flácido

do fleumático ático.

Eterno o interno

sem o governo ermo

fica-lhe bem o termo

como pretérito prefácio

ou apenas flácido

fleuma sem chama

que chama o verbete

fora da enciclopédia.

Injustiças indocumentadas (306)

Vejo 

cometas

todos os dias.

#3079

O estuário

não desdiz a promessa

deixa o entardecer

falar por si.