31.1.20

Tutela

Qual é a sabedoria dos sábios
a imagem diligentemente nítida
o verbo colocado
a consumação da perfeição afinal possível?
As sombras escondem o palco lívido
as cortinas arroxeadas
que deixam, 
sob a espátula da contraluz,
silhuetas em fundo
os corpos despropositadamente deselegantes
apanhados à má-fé
enquanto se preparam para as luzes?
O que deixamos em legado
se não as impressões imateriais sem paradeiro
a sementeira árida
um diadema de nada
a escultural pose dos abastados vencedores
de jogo sem adversário
um jogo de sombras
em que somos a estatura diminuída
do espelho refratado?
Que se anuncia
no cimento do passado
que se conjuga com verbos intransitivos?
Deixamos em memória futura
a mnemónica artilhada pelas mãos
o sumo do dia vertido na areia
a infecunda faca esgrimindo a fúria sem rosto
o goto da incerteza
as paredes por onde se desenharam os corpos
o património sem inventário?

#1370

Entre a sede e o tumulto
a cólera em forma de voz.

#1369

A marquesa
estendida na marquesa
à espera da lascívia clandestina. 

30.1.20

Machado de paz

Digo-o
com todo o fervor
a centelha ávida a estalar
na boca:
confisco um pedaço do horizonte
preciso 
de um pouco de espaço para arregaçar os olhos 
e do redor trazer os instantes sortilégio
o muito que se pede 
ao promontório onde se tutelam as vontades.

Se em roda se verter o precipício
diremos 
sem temor
que não sobram 
as angústias em sede própria
dissolvidas no caldear da noite
em pose de luar luminoso
em pose
até que o retrato caiba na moldura.

Tomo em mim a frescura da manhã
e deito os dados ao relampejar das vozes
ainda timoratas
ainda apressadas
dos matinais passageiros
os tumulares esqueletos contrariados,
que mais parecem corpos mutilados.

Não admito
se não 
o vago pesar das ondas
em que se deitam os pássaros 
para de meu vagar 
saber tirar a rasante do desmedo.

Divago,
talvez.

Desmonto 
as agitadas vozes atribuladas
renego-as às sombras lenticulares
aos lugares
onde medram os apóstatas dos pleitos.

Não 
em mim não coabitam os gládios
e sei do santuário
onde se somam as pazes.

#1368

Trago à história
um aroma de História
contra a bolçada aragem 
de mitomania e disfarce.

29.1.20

Paciente (ao quadrado)

Um paciente paciente
conta as sílabas à medida dos segundos
E secunda a prosápia póstuma
dos iracundos a destempo.
desaperta os nós cegos por dentro
do sangue
em camadas fundas, inertes,
enquanto esboça a legenda sob a janela
no formulário amarrotado,
sem autorização para o agastar.
Paciente
o paciente interroga
a paciência
pois não consta
que pacientes impacientes
sejam de outra linhagem.

#1367

Do miradouro decano
os prantos perdidos
da viuvez sem paradeiro.

28.1.20

#1366

Andava à procura 
de revistas cor-de-rosa.
Andava à procura 
de cagões.

O homem que gostava de fazer prefácios

O homem que gostava de fazer prefácios
fez mais um prefácio
na contabilidade prístina
de quem se faz solene visita
às palavras lacradas por outros. 

O homem que gostava de fazer prefácios
gosta de uma cerveja antes do jantar
enquanto amacia o pelo do bulldog 
e mastiga as cascas azedas
que o mundo obnóxio não se cansa de bolçar. 

E mesmo assim
o homem que gostava de fazer prefácios
tem sempre um prefácio 
à espera de sementeira pela prolífica mão
e ufana-se
nos interstícios da alma
pela façanha contínua.

Ainda hoje,
tantos prefácios depois
que até 
o homem que gostava de escrever prefácios
perdeu a conta ao inventário,
ninguém pergunta pela obra restante
do homem que gostava de escrever prefácios. 
Tamanho pergaminho
é predicado de um escol
de um punhado de prescientes
estabelecidas autoridades intelectuais,
com obra firmada. 

Mas 
do homem que gostava de escrever prefácios
ninguém conhece a não ser
as páginas 
onde o homem escreveu prefácios.

#1365

Nasce no musgo
a auréola vaga de um sonho.

27.1.20

Barragem


Explosions in the Sky, “First Breath After Coma”, in https://www.youtube.com/watch?v=ZVSrcxqUQH0

Guardei as lágrimas
em avesso
dobrando as rugas à medida da luz
à medida dos dedos no meu rosto
e sem o estertor dos desertores
trouxe ao meu lugar a vívida expressão
a gramática sem arestas
a tença na meação da carne.
Dos pedaços de suor embebidos na boca
parecia emudecer
mas estava enganado
era o libérrimo ecoar escondido
que fazia rima com os versos avulsos
e os braços acordavam-me dos pesadelos
os braços
eram o refúgio que silenciava os pesadelos
o mosto incindível 
que se acendia sobre o prazo ilegível
na sobreposição das palavras incendiadas
sobrando na maré-baixa
a constelação de estrelas onde se guardam
as frases emolduradas nos lábios incansáveis.
Guardei as lágrimas
no inverosímil rebanho que ninguém guarda
e contra os preceitos impecáveis
contenho no peito as águas de um rio
pois que de mim pediram para ser
barragem.
E eu não sei
se tenho bagagem
se em mim há a linhagem rara 
dos letrados dos sentimentos
a curvatura dócil da letra 
retirada à língua morta
para em refrão incansável
bordejar os limites do corpo com um luar
um luar intensamente singular
costurado pelas framboesas que não apodrecem.
E eu
exangue
limpo 
não as lágrimas
mas o suor
que delas veio em permuta.

#1364

Dantes
é um paroxismo.

26.1.20

#1363

Deste ao nome epicentro,
o fermento de um logro.

25.1.20

#1362

Colossal.
Colo o sal.
Colo e sal.

#1361

Sauf la liberté:
le crayon contre l’ombre.

24.1.20

Opúsculo contra as exclamações

De que cor
é querida a exclamação?

O simultâneo pesar
armadilha o sangue válido
e as vésperas passam a ter sentido:
não são apoquentadas por exclamações,
enfim 
na posse de seus autores
sujeitas apenas à sua vontade. 

Não encontro as ruínas,
o que me deixa exultante
contra 
os macilentos, espúrios tenentes da angústia.
Os dentes não travam os verbos anciãos
como não se opõem aos verbos moços:
em vez de algemas
desenham-se no céu 
os contornos de um rosto que sorri
contra as injúrias,
demitindo as exclamações
que não passam de ruído de fundo, 
uma distração. 

Não se concebem 
as partidas apalavradas
as enciumadas insónias
que travam o sono fecundo. 

Eu sabia
que a interrogação
sempre foi o sinal preferido.

#1360

Exílio sem força
por de uma forca fugir,
eis o panótico do plural.

23.1.20

Ode aos detestáveis

Do cofre da indigência
a semântica da força bruta
esporeada pela verborreia incontinente
e pelas más entranhas,
sem remédio. 

Os olhos vertem bílis 
e do imerecido palco bolçam desrazões
à medida das horas perdidas em inventário. 
Pudessem ser a gravitas 
e do poder serem máximos tutores
e da inquisição voltar-se-ia ao verbete
num passo falso nas eras. 

Uma certa comiseração lhes é devida:
pouco falta
para serem consumidos pelo avinagrado teor
das entranhas imersas em convulsão
e como 
ao olvido atribuem as medicinais prescrições
desfilam a sua soez condição
patriarcas de um predicado:
o fel contínuo, 
não decantado, 
tem efeitos tóxicos
e são como os eucaliptos 
que recusam a concorrência de outra vegetação,
risivelmente irascíveis
e vítimas da sua própria irascibilidade. 

Quando à terra forem destinados
teme-se o seu maléfico efeito,
a contaminação 
de terras e águas subterrâneas. 

Esta devia ser a próxima causa
dos advogados do ambiente.

#1359

Esta maré 
não deu em nada,
a safra deserta.

22.1.20

#1358

Que não coma
quem está em coma
na cama em que descama.

Naipe

Um pequeno salto no úbere do medo
é a farsa composta no madrigal
entre os lagos parados e os ninhos.
Admita-se uma tempestade:
será apólice do desmedo
a tresloucada saída para a rua
o peito a dar-se ao vento irascível
à chuva copiosa
um desmando intrépido
a recusa do estabelecido.
Um pequeno salto na voz dos astutos
e a fala enuncia nomes
nomes na parte inteira de que são feitos
o verso da cidade que precisa de amanhecer.
Um instante na estação do metro
a plataforma apinhada de rostos sem rosto
o estridente matraquear das carruagens
desafia o olhar
extraído da abúlica condição.
O resto
são as escadas que separam do solo.
Não há medo que suba à superfície
quando somos toupeiras comodistas.

#1357

Que sejam pagos
os sonhos órfãos
com sangue em ebulição.

21.1.20

#1356

Navigate by stealth
gauging the tides.

Occipital

[Ímpar]

Diz-me 
deste desgoverno
que a alma dança 
rebelde
no diamante hasteado no areal acobreado. 

Diz-me 
que contas são feitas com os dedos
enquanto se debruçam sobre o abismo
só para poderes certificar
como é a forma do abismo. 

Dir-me-ás

(creio ser esta a minha preferência)

como se entoam as palavras
em variegados idiomas
em vez 
da estulta demanda pela gramática pura. 

Direi
em voz sublinhada
que as dunas esperam o seu mar
enquanto não se vê a orla da maresia
em ditos e desditos
comezinha matéria arrancada a ferros
contra as tresleituras 
que naufragam o sentido das palavras. 

Seremos diseurs 
do que nos aprouverem os sentidos
dando lastro 
à partida dos lugares estremecidos
porque sísmicos 
só aprovamos
as estrofes ditas pelo régulo 
que é a voz nossa.

#1355

Outorgo a moratória,
a rima perfeita da paciência.

20.1.20

Cena #4

O que arrumas
com tanto afã?

- Uns verbos sem remissão 
o luar de desdém. 

O que te falam os versos
assim despromovidos?

- O risível de mim mesmo
a mordomia da meã condição. 

O que te prometes jurar
em tão intensa jornada?

- O limiar escondido
talvez a soberba da humildade. 

O que te faz convocar
o avesso de ti?

- A insubmissão relativa
o desarrumar dos mapas interiores. 

O que te faz pensar
em tão proveitosa demanda?

- Nada, um intenso nada
perfumado pelo não convencimento 
das coisas. 

O que te falta fazer
para desta passagem reunires um rito de ti?

- Tudo o que se inscreve 
num oráculo falhado
a grotesca desmedida onde não cabemos.

#1354

No espaço limítrofe
onde a memória não foi cidade
enquanto espera pela redenção.

19.1.20

Património

Não mudo a página.
Se dou a palavra
acerta-se o biombo através dela
por esta macieira sem companhia.
A sua folhagem circunspecta
não demove a geada.
Não mudo a página
e contudo
não me removo da aprendizagem.

#1353

Como nos salvamos de uma emboscada
se não sabemos que é uma emboscada?

18.1.20

Esquecimento

Não tinha as sombras
no avesso da memória:
o desfiladeiro rígido no dorso cansado
e a bota dura contra as rochas avulsas
desenhando o seu próprio caminho
“a pulso”
(como se envaidecem os arrivistas).
Não eram as sombras
o avental da memória:
por junto 
no hemisfério da vontade
sobravam umas migalhas da impaciência
e um dia contrariado.
Há-os alguns desta linhagem:
dias sem remédio.
Da memória
não consegui outra coisa 
que sombras sem fronteira.

#1352

[Poema infantil]

Não corras depressa
se a consciência 
te mete os travões.

17.1.20

A bússola interna

Norteio os limites pela régua gasta
antes que das montanhas desçam os druidas
personagens baças que enxameiam pesadelos
e por uma alvorada prematura,
em sobressalto,
seja assaltado. 
Não é que me desinteressem
as quintessências assim apoderadas
mas os tronos prometidos são matéria venal
um desqualificativo. 
Em vez disso
prefiro o entardecer 
que amadurece num copo de cerveja
sem pensar nos retesados jogos semânticos
que sobram da maré restante
um poço fundo cheio do ar que o compõe. 
O sangue bombeado não chega
para a imensidão de coisas que estão no mapa. 
Má ideia 
não será incluir um critério
nas resoluções a considerar
um critério 
que calibre a bússola interna
e saiba distinguir 
o que cai no goto do merecimento. 
Pois de tantas e meãs imerecidas coisas
se desgasta o tempo que não capitula.

#1351

Jogas
os dados
contra a sorte
e a sorte 
vence.

16.1.20

ORH+

A primeira fila. 
A dos mirones. 
Testemunhas oculares. 
Porteiras, 
no sentido metafórico, 
o pior de todos eles. 
E se houver sangue,
mais salivam pelos danos da carne,
indiferentes à vítima 
– indiferentes ao que serão, 
quando sua for a hora certa. 
Arrematam os ombros do lugar
para serem espectadores in loco
por cima dos corpos dilacerados
e esquadrinham cada pormenor
do quadro para eles opíparo
e eles
batalhão com as bocas ensanguentadas
leem a partitura do abjeto
dando-se à circunstância
do sarrabulho e das morcelas
da faena onde touros são malquistos
das transfusões em que medram
na apologia da bandeira datada
suada em sangue. 
E eles
necrófagos de si mesmos
em antecipação
pois sua há de ser uma hora
em que seus féretros são expiados 
pelos que dobram na festa vivente 
– pelos que sobram na festa sobrevivente.

#1350

Ao longe
o mar
a aurora dominante
o estuque da noite que se estilhaça.

15.1.20

Reivindicação

Diz do dia diamante
o verso e a volúpia
dos amantes. 

Abraça o abrigo
em que são mestres
os lídimos ilustradores do amor. 

Amanhece no amaciado rosto
alisa as páginas do alimento
na incontroversa fala sem infâmia. 

Arredonda as arestas ajuramentadas
no vocábulo vindicado à vibrante pele
e arremata os miasmas com as mãos atadas. 

Apresta-te ao pecaminoso lugar
em dissidência com a diuturna sedição
e deseja o desejo na rima do devaneio. 

Opõe-te à maré macilenta
oferece ao mar uma amarílis fulgente 
e contraria as juras contrárias ao teu vagar. 

Deixa uma deixa como pressentimento
em sinuosos sinalagmas da sede
e expia o escafandro da residual melancolia. 

Descobre a medula destinada
açaima as sucessivas camadas de medo
e atira-te, intrépido, à tez do mundo.

#1349

Jura sem prazo:
não deixar a um marginal papel
tudo o que as palavras não dizem.

14.1.20

O outro lado da trincheira

A regra insinua-se
ditadura de si mesma
no santuário onde colhe suas vítimas. 
Não afrontem os demónios escondidos
os vultos que atiram sombras sobre a lua
não hostilizem os pederastas do futuro
em seus solilóquios perenes
que devastam as árvores frondosas
e a paciência. 
A regra faz-se convencimento
narrativa de autojustificação
a favor dos usos
fazendo cânone em cima de cânone
até que,
obedientes,
sejamos aura sem nome
identidade numérica
pessoas despojadas de rosto
liberdade despojada. 
Conseguimos 
ser guerrilheiros em causa própria
obrigatoriamente em causa própria
e desinvestimos as regras de seu altar
tornando-o a praça indigna
a que cuidamos 
despertencer.

#1348

No refúgio da solidão
somos um corpo descarnado
órfão em demanda de astrolábio.

#1347

Underway.
On their way.

13.1.20

Escatológico

A matilha fareja os arbustos
espera por uma centelha
para o começo da caça. 

Sobeja 
um pouco de fome
nos intervalados esgares do sol
calçados no frio invernal
e a matilha persevera
convencida 
que a demanda não será um logro. 

Batizam as presas
mal as encontram
e elas, 
não podendo já fugir,
constituem-se banquete
nos em breve retalhados corpos
pelas bocas famintas e egoístas
de cada indivíduo da matilha. 

Altura em que 
a matilha deixa de ser matilha
cedendo à plausibilidade de cada ser,
cegos pela fome que urge matar
depois de mortas as presas
feitas presas
para matarem a fome da matilha
antes que a matilha 
seja presa da fome
e assim por ela seja morta. 

*

Rescaldo do documentário.

O petiz pergunta ao pai
se tudo se reconduz
(não terá sido 
o termo usado pelo petiz)
a matar, 
a morrer,
ou a ser morto por algo mortal.