O estaleiro,
povoado no presente pelo desalento,
é a dor de parto
para uma ordem vindoura.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Do lugar da roupa suja
onde os urgentes demandam detergente
os dentes subidos safram os dias indigentes
e nem o cloro salva a água de ser assaltante
os dedos consumidos no xisto
onde se amanha a impaciência.
Dei ao lugar
a indiferença capaz
e de dentro vieram, embuçados,
tiranetes avulsos em contramão
bolçando impropérios e outras platitudes.
Confrontei-os
com o detergente em emulsão
e eles
não querendo aparentar fraca parte
encheram de ar o peito
e avançaram.
Um singelo terçar dos dedos
contra tanta ufania
chegou
para os deixar sombriamente gastos
a contagem no chão os seus próprios despojos
só para efeitos contabilísticos
e etc.
Dobro
a metade em que se mutilas
a aritmética deixa de molho
o rosto original
o mosto fundacional.
Sou levado a desconfiar
que ser amigo do alheio é,
literalmente,
de uma generosidade desarmante.
Aninho as víboras certeiras
no cobertor puído
das horas incertas.
As cores esbatidas
perfumam as cotovias em espera
e os velhos inventariados em públicos jardins
amotinam-se num silêncio jazente
como se eclipsassem o tempo
e dessem às gerações vindouras
a generosidade maior do tempo
em suspensão.
Arrumada a noite no provérbio latejante
só ficam em pé os verbos teimosos,
a obstinação
(diz-se)
é o melhor remédio
contra o torpor.
Debruada a ouro
a estultícia do “influenciador”
(assim mesmo,
em português camoniano,
só para aborrecer a novilíngua)
arrotava por cima do seu fautor.
As palavras suadas
soam como pórticos sisudos
dispensam os punhais imberbes
soadas que são como dentes de mastins
que em seus festins
alcançam o suor dos predadores
– então tornados perdedores.