A sentinela
não dorme
mas está
distraída.
[Um sentido da teologia]
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Tirando as vírgulas em excesso
e as águas tépidas servidas ao desbarato
quando o termómetro mordia a mais de trinta
não tinha nada a dizer
e o livro de reclamações não veio a propósito.
Dizias:
há matéria-prima que mais parece
matéria-tia
e eu perguntei se tinha algo a ver
com a linha de Cascais
ao que redarguiste
com voz surpreendida
que não alcançavas a distinção.
Num dia de estio desacertado
em que as moscas perdem a timidez
e pesam mais do que a sombra acalorada
o raciocínio derrete no horizonte distorcido
ou era eu que estava a ser assaltado por um pesadelo
e não dei conta.
Peso o peso
antes de ser do peso refém
e da dieta súbdito.
[Modernidades que placam a autonomia individual]
A terra cicatrizada que me devolve a manhã
subleva-se em marés iracundas e sucessivas
no hastear dos versos lídimos
arrebatados por um clarão iridiscente.
Os destroços deitados na estrada
enquanto são removidos de o serem
são o rosto da devastação;
antes fossem uma nota de rodapé
no atlas aberto que abraça o tempo inteiro.
A terra tem cicatrizes
eternas
oxalá pudessem ser uma mnemónica
a bandeira sem paradeiro certo
o hino cantado
por todos os idiomas.
Tantos
a impetrar reformas
(disto e daquilo
e assim sucessivamente)
e ninguém com lucidez para avisar
que o Estado está a cheirar
a aposentação.
[Variação de Injustiças documentadas (671)]
É inútil o estado da nação
sem a noção da nação.
De que adianta o estado da nação
se antes não se fez o estudo da nação?