Perdeu a cabeça,
diz-se
por aí.
Alvíssaras
pela cabeça decepada
que por aí
for encontrada.
(É prometida recompensa?)
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Perdeu a cabeça,
diz-se
por aí.
Alvíssaras
pela cabeça decepada
que por aí
for encontrada.
(É prometida recompensa?)
Um deus dará em dobro as palavras que colo à tua nuca. Delas dirá serem sortilégio pelas estrofes desenhadas na tua pele enquanto deixamos o tempo quieto, lá fora. Delas serão as bocas amanhecidas, a lava forasteira a fugir de um paradeiro incerto.
Não sejam vertidas lágrimas
o peso ardiloso de uma crise
– mais outra crise –
faz doer as almas.
As crises
estão tatuadas como uma lei de bronze;
as lágrimas usadas como lamento
são lágrimas perdidas pela usura da crise
lágrimas
que deviam ter outra fortuna.
Oxalá se pudesse dizer
não há guerra
em vez de resmungar
não à guerra.
[Compêndio de ingenuidade antropológica]
Um esquimó paramentado
noiteia sem freio
antes que devolvam o Inverno
à escolástica ruminante.
A soldo de um general desarmado
convence os anões
um verbo é substantivo
e no emaranhado de falas
bolça um arroto imperial
para gáudio dos circunstantes.
Se ao menos pedissem
para caiar os tijolos
era empreitada para ele habilitada
mas este não era um lugar
para igloos.
Junho ainda é outono
na terra dos esquimós
não precisamos de contar os graus
pelos dedos de uma mão
para anotar o paradeiro extinto
de um Inverno que nunca houve por cá.
Alvíssaras
o esquimó perdeu o paramento
e não se sabe
se andam à procura do paramento
ou do esquimó.
As muitas caras de um reino
desborbulham na madurez
e fingem,
com o descaro de quem finge fingir
que são uma só.
As caras-espantalhos
tomam o pulso da distração geral
e passam por rostos respeitáveis
oh!
de pergaminhos imbeliscáveis
não vá ser profanado
o carisma
que trazem a tiracolo
uma medida das medidas
definida por definição.
Bebemos gasolina
dos escanções esgrouviados
e comemos asfalto
com direito a estrela Michelin.
[Compêndio de geopolítica do Médio Oriente e dos dementes em estado de negação ambiental]
Não é a diplomacia que fraqueja
são os homens que se tecem
na sua pele de lobo.
[Ontologia da guerra explicada às criancinhas]
Uma bala
perdida num universo de milhões de balas
– dir-se-á, uma bala achada
debalde
num achado que é um infortúnio.
Uma bala
atravessada no tempo errado
num corpo errado
assim trespassado
com um viés avulso
diagonal ou setentrional
até sentir o fogo macho na carne
e o sangue eflúvio em colheradas muitas
já um mar a caminho de estuário
e o apagamento à mão de semear.
Um pelicano de corda
arrota sobre o lenço sujo da bailarina
enquanto nas traseiras do café
o artista do circo corta as páginas coladas
de um opúsculo de saberes esotéricos.
O pelicano balbucia umas sílabas
a bailarina espadana o plissado
para o sótão do pensamento.
Já o artista do circo
antes de ir buscar o petiz ao infantário
decora uns versos que cicia com pesar:
sua há de ser a presença num velório
e foi-lhe encomendada a elegia.
No restolho do dia
todos sem emprestam ao sono.
Arrumo o luar
entre os nós da noite
e a jura da manhã.
Levo o luar comigo
a luz extática que sua da noite
e respira através das paredes.
É lugar-comum
o poeta pedir ao luar
que seja inspiração emprestado;
pode o poeta ser censurado
por se perder de encantos
por uma platitude tão carismática?