10.4.26

O velho que não era profeta

O homem velho

talvez lúcido como só a velhice admite

avisou: 

estamos vivos só à espera da morte.

 

Ninguém lhe perguntou

se já encomendara os serviços fúnebres

pois ninguém era tão velho

como o velho dali.

 

O velho residente

ou por surdez seletiva

ou por não saber da resposta, 

dedicou-lhes um silêncio conspirador.

 

Quem nos mandou

passear no jardim 

junto à câmara municipal.

#4410

A erupção do ócio profundo 

que é sexta-feira 

véspera da preguiça legalizada.

9.4.26

Reservado o direito de admissão

Às pérolas que há em nós

escondidas sob a pele fortaleza

neste que é um castelo que guarda a voz

povoada por singela grandeza. 

 

Crescermos na largueza do estuário

vontade por vontade conquistada

do tempo não se sacia o anuário

onde se hasteia a bandeira desatada. 

 

E depois, antes do entardecer,

disfarçamos os poemas mudos

reforçamos a voz que não sabe envelhecer

 

nem que pelos corpos puídos

suba um diferente amanhecer

para calar os verbos doídos.

#4409

As sete vidas de um gato 

provavelmente não chegavam 

para tanta sede de viver.

8.4.26

Injustiças documentadas (647)

I said

I’m sad.

Sad 

is therefore 

said.

#4408

Nem os dias merecem mordaça 

nem as bocas são freadas com o silêncio.

7.4.26

Jogar por fora

O garfo forja a farsa

e os dedos advertem

os sentidos assimétricos

que da poda não apodrecem

os galhos daninhos. 

 

Se assimétricos fossem os sacerdotes

talvez tivessem travessas atravessadas

e num poço empossado na peça centrípeta

falassem os nefelibatas fadados

os convictos em hora de ponta. 

 

De hoje para amanhã amacia o tempo

(houve quem o quisesse matar)

trovoadas avulsas desavisam os vetustos

sem a cerimónia nem a parcimónia

dos diplomatas desmatados

esquecidos dos manuais datados.

#4407

Uma aposta

na loucura

para ver se saímos 

do precipício.

6.4.26

Corta a corrente

O corsário bebeu as horas

e ainda foi a tempo

do circo.

 

O tenente cuspiu às escondidas

mas ainda selou as regras

da urbe.

 

O mendigo dormiu de dia

sem sequer temer o desagravo

das lides.

 

O figurão escondeu-se das regras

para gáudio dos ainda crucificadores

de serviço.

#4406

Na sola do dia, 

desfigurado,

o fidalgo acerta contas

com os fantasmas insistentes.

5.4.26

#4405

Crescido o sol amante 

a pele suada diz ao dia

que dia assim se deve 

emoldurado.

4.4.26

#4404

Salto em altura 

preciso de um vol d’oiseau

para dissolver confusões. 

3.4.26

Injustiças documentadas (646)

C’o a breca 

tive uma breca!

 

(E fiquei sem a beca)

#4403

Este beijo sabe a mundo

tenho na boca 

uma amostra de todos os continentes.

2.4.26

Injustiças documentadas (645)

Quem é louco 

ao ponto de oferecer ouvidos

nunca mais consegue usar a audição.

Injustiças documentadas (644)

Cão por ser preso

e cão por não ser.

#4402

Sílabas a soldo 

uma voz trémula

o medo 

como gramática do mundo.

1.4.26

Praxe

Justas 

as preces aprisionadas no jogo sem regras

quando as cortinas descem

e a luz sussurra os mistérios 

ajaezados.

Não é questão de tempo

o anticlone conspira a favor da Primavera;

os bardos foram silenciados

e os favos de mel suam a colheita esperada:

amanhã de manhã

haverá novidades ao pequeno-almoço

e o dia correrá a preceito 

– assim sejam confirmadas as justas preces.

#4401

Eis o portuguesmente fatalismo:

as ruas obcecadas 

a língua de trapos

um futuro preso ao passado.

31.3.26

À corda

À corda

a cabeça sentada na periferia

um atilho estreita o olhar

neste lugar não há satélites

apenas os cantos dolentes de viúvas de carvão

e nem um abraço se peticiona

as pessoas têm alergia umas das outras. 

A corda 

a saltar de três em três degraus

matéria-prima por adulterar

os diamantes também

até os que se misturam com a fala

e de um gesto brusco fazem pérolas promissoras. 

Acorda:

o rio ainda vai caudaloso

e as mesas descompostas anunciam a noite

e tu

entre a espuma do dia

e a efémera condução de tudo

tomas a procuração inteira

para seres embaixador de ninguém. 

Injustiças documentadas (643)

À atenção superior: 

cair no goto 

pode ser 

uma armadilha.

#4400

Sanada a ferida funda, 

a cicatriz como prova 

incontestável.

30.3.26

Punhos de bisel

No testamento sem vírgulas

amontoam-se vinganças e prebendas

como se ser póstumo caiasse a transparência

e fosse confirmado

que estar vivo exige muita farsa

 

(há quem lhe chame

diplomacia).

 

No palacete que esconde as meias rotas

o embaixador encena ginástica retórica

manda dizer por palavras mediadoras

o que fica à porta de ser dito

poupando uma mão-cheia

de diplomáticos incidentes 

e querelas subterrâneas.

 

#4399

Contaram 

que o silêncio substituiu a fala 

e ninguém disse nada 

sobre isso.

29.3.26

#4398

Sabe a pouco 

o muito que vultos sem rostos 

fazem cair 

com sabor a injúria sem nome.

28.3.26

#4397

Que dizem as farsas em lume-brando

dos profetas que as anunciam?

27.3.26

Pele

Como contas os verbos da minha pele?

Em vez da noite, 

sombras levam por nós à boca 

o tempo sem cortesia. 

Em vez de braços 

embainhados numa coreografia daninha, 

estrofes levitam na alma sem fundo. 

Damos um adeus ao dia havido. 

Dele diremos elogios só. 

Não seremos sós 

enquanto a sós formos uma multidão.

#4396

Não fermento o mosto de autos da fé 

prefiro deixar a vontade à vontade,

sinal do seu império.

26.3.26

Contrafação

De cor

a cor neve

o nervo acobreado

a embocadura da névoa

a coberto dos noves nada

o nevrálgico costurar da corda

em cargos enevoados

o enlevo da carga pesada. 

 

Da cor água

de cor estabeleço o corsário

e o fortuito corpo estiolado

no estuário que desfaz o encargo

o calvário em estátuas desfeitas

encolhendo o corpete dos estafetas. 

 

Comprimo o olhar

em desavença com cores que sei de cor

o corrupio estiola os corsários avulsos

e de mim serão infecundas 

as cisões conspiradas por vozes lúgubres.

#4395

Nas veias do labirinto 

as horas escurecem de propósito 

e o sangue arrefece numa anestesia indulgente.