Do saque inteiro
os despojos ao deus-dará
e nós, inteiramente usurários.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
The sea is like sargassum
melting the bones that care
for the light to come.
Yet, clocks disdain hope.
An overrated device shambles in waves,
wiping away self-sustained sorrow.
The clock is still there,
so dull.
We are imprisoned
by the farce that fades words away.
No shall we dance in the foggy night.
No say we to the thrilling moonlight.
Cast away the sorrow
hollowing out the void inside.
Dismantled words
brush into the thin light
that unfolds from merciless houses.
No wonder we are strangers to each other.
Oh! should we look in the eyes
instead of running away;
should we avoid mounting voices
that shelter the seeds of apocalypses,
playing the trustee of mankind.
As if
gold were removed from the words we say,
deleveraging the deeds
of massive, yet uncommitted aspirations.
Oh!
if at least we stopped running from ourselves,
if flagships arose in the midst of fierce seas,
seats from which
we start would uncover the best of us.
Lá vai ele todo ledo
confiança é o que exsuda
exacerbada estima própria a tiracolo
na proverbial vereda para
o desastre.
O mar esconde naufrágios.
De nós
os pesadelos opostos
sem a usura das ondas delituosas
a manhã silenciosa
onde de mãos dadas
memorizamos o mar como idioma.
Fogem amiúde da felicidade
os indigentes que penhoram as almas
contra nadas culpados.
Nós
que deleitosamente rumamos contra marés
descobrimos o sentido
da felicidade.
Um caso raro
as cordas de violinos por aparecer
todos em apneia
não se sabe
se à espera da derrocada
ou de um milagre divinamente abençoado.
Um ocaso raro
sem ser eclipse
ou comboio sem atraso:
as horas pregaram uma partida
e não dei conta
do entardecer que se anunciava.
Agora
sou crepúsculo
refém dos semióticos fantasmas
que alardeiam as desfigurações da gramática.
O entardecer baço
agiganta o sol acobreado.
As vozes murmuram verbos em combustão.
Prometem as candeias que escondem
a escuridão da noite.
Prometem os campos que se dão às flores,
um poema arrancado ao sangue telúrico.
Hoje sou a janela por onde respiras.
Amanhã
serás a fogueira onde esqueço o medo.
Um provérbio arrancado a ferros
o alumínio vertido na alvorada
o peito forte que abraça contratempos.
Falam por mim
as folhas caducas
a alma de outubro
os versos de jasmim
com sílabas loucas
seu diletante membro.
Neste simbólico marfim
fortuna sem passar das marcas
no sonho que cobro
feitor deste festim
dirijo as miríficas barcas
trago o amor em dobro.
Empurro com um dedo hesitante
a matéria pútrida do dia.
Os velhos descem a rua da estação
calados
como se do silêncio fosse o tempo havido.
Mordem os lábios
a corpulência do passado
investida nas mandíbulas fortes
dizem que se forem viúvos
pouco é o futuro que os espera.
No labirinto aberto em forma de flor
as paredes intrínsecas formam a gramática
o desenho inválido em janelas torpes
consumindo a atenção
vertendo sobre o chão desarrumado
uma dor todavia não excessiva
um quanto baste para se saber
(ou não de esquecer)
o paradeiro da dor.
A luz domina o céu esbranquiçado
como se uma insólita aurora boreal
tivesse ditado os seus termos
e no terminal estatuto
se despedisse como legado para o mundo.
As mãos desatadas reaprendem a ler
resplandecem
ao saberem que os demónios
não deixaram de fazer prova de vida.
Astutos
sem desconfiar a não ser da desconfiança
empunhando as espadas rombas
um distante destroço das ovações sonhadas:
e o definhar constante
fazendo notar
que as prescrições avivam o tempo
ou a forma torturante que tem
destina-se às elegias proverbiais
a menos que proibidas sejam
emitidas por solenes meios
para não ficarem
deixadas em ata
dúvidas.
Umas voltas à toa
imprevisíveis
o ânimo dos dias desiguais
e tudo se recompõe
na rotina centrípeta
nem que pelo pelo do fingimento
seja selada uma rebeldia
em forma de farsa.
Não interessa a cor dos dias
nem que entrega é a nossa;
o que importa
é o somar dos dias numa soma contínua
e esconjurar
com o medo admitido da morte
a finitude do tempo.
Atirado às cordas
em minha defesa disse:
se da culpa cumpro a redenção
não lhe viro, então, a cara.
Fingia
que trazia o peso inteiro do mundo
as costas arqueadas
como prova.
A fenda entre o sentir e o olhar
a irremediável força abrupta do caudal
a fronteira sobranceira ao abismo
as palavras
contadas na hierarquia dos sinais
como se fossem proibidas de falar
entre si
os idiomas tão dispares
a apneia contumaz
uma anestesia
lograda contra as injúrias do mundo
e tudo,
tudo a cavalgar brutamente
contra o avesso
que investe na força centrípeta
demitindo as vezes que dissera
“para sempre”
e “nunca”
os quesitos transfigurados em tábuas régias
onde a gramática era uma infração
e as proibições banidas das leis
até que as leis se tornaram finas teias,
tão frágeis
que se desinvestiram do lugar que era seu
agora tornado extinto por direito forasteiro.
No diadema de pedra
fala a fronte no cenáculo onde os frágeis
passam o tempo:
se dissesse que os invejo
não estava a agredir a verdade.
Às vezes
quero ser o rebelde com causa por determinar
por causa da ebulição continua
que furta o sono;
outras vezes
só queria ser condenado à hibernação
para não ouvir os demónios acordados
as harpas delicodoces que esconjuram
os vultos dionisíacos
e de um lugar incerto
partir
partir sem ter de arranjar destino
apenas comandado por uma demanda
sem paradeiro
como se o corpo subisse pelos dedos
dando ordem a um piano
e dos versos contrafeitos
a boca arrancasse a sobremesa dúctil
que encerra o corpo
numa fortaleza sem mãos para existir.
Fujo de lugar algum:
os lugares não são como torturas
que levam pedaços do corpo
e o condenam à decadência;
os lugares
são o contrabando sem direito a castigo
açambarcando às flores
o impuro estatuto
que só os sonhos perseguem.
Qual estorninho atrasado
qual videirinho desafamado
à boleia das estrofes
que são dádiva incógnita.
Deixei de ver as pontes.
A alvorada desembaraça a espada
e o luar recolhe-se ao avesso crepúsculo.
Minhas não são as facas
as mentiras vêm por conta das algas perdidas
e sou eu o areal onde extintas se despojam
eu
pedra angular no beijo estiolado
compasso sem ruído
a razia à prova de engenheiros.
Amanhã
quando for só eu
não me escondo do dia
mesmo que a noite tenha falido.
Piso os ultrajes assestados
a vã inveja que outros consome
todas as platitudes,
um atalho para a farsa.
Os versos
acordam o pesadelo
que perdeu as sílabas
por medo.
Deito-me
na concha do teu sono,
sonhos açorados chamam
pelo meu nome.
A noite extinta
sacia as palavras empenhadas
e os meus dedos
desenham o poema contínuo
na tua pele morosa.