29.9.26

Ressonância

 Empurro com um dedo hesitante

a matéria pútrida do dia. 

Os velhos descem a rua da estação

calados 

como se do silêncio fosse o tempo havido. 

Mordem os lábios

a corpulência do passado 

investida nas mandíbulas fortes

dizem que se forem viúvos

pouco é o futuro que os espera. 

No labirinto aberto em forma de flor

as paredes intrínsecas formam a gramática

o desenho inválido em janelas torpes

consumindo a atenção 

vertendo sobre o chão desarrumado

uma dor todavia não excessiva

um quanto baste para se saber

(ou não de esquecer)

o paradeiro da dor. 

A luz domina o céu esbranquiçado

como se uma insólita aurora boreal

tivesse ditado os seus termos

e no terminal estatuto 

se despedisse como legado para o mundo. 

As mãos desatadas reaprendem a ler

resplandecem 

ao saberem que os demónios

não deixaram de fazer prova de vida. 

Astutos

sem desconfiar a não ser da desconfiança

empunhando as espadas rombas

um distante destroço das ovações sonhadas:

e o definhar constante

fazendo notar 

que as prescrições avivam o tempo

ou a forma torturante que tem

destina-se às elegias proverbiais

a menos que proibidas sejam

emitidas por solenes meios

para não ficarem

deixadas em ata

dúvidas. 

#4568

Pusilânime,

colonizou o público espaço

os seus curadores cúmplices

de uma certa desideia comum. 

28.9.26

Rebeldia de trazer por causa e a ilusão das coisas fátuas

Umas voltas à toa

imprevisíveis

o ânimo dos dias desiguais

e tudo se recompõe

na rotina centrípeta

nem que pelo pelo do fingimento

seja selada uma rebeldia 

em forma de farsa.

 

Não interessa a cor dos dias

nem que entrega é a nossa;

o que importa

é o somar dos dias numa soma contínua

e esconjurar

com o medo admitido da morte

a finitude do tempo.

#4567

Atirado às cordas 

em minha defesa disse: 

se da culpa cumpro a redenção 

não lhe viro, então, a cara.

27.9.26

#4566

Um murmúrio vago 

resplandece

na varanda ungida pelo sol.

26.9.26

Cintilação

Fingia 

que trazia o peso inteiro do mundo

as costas arqueadas 

como prova. 

A fenda entre o sentir e o olhar

a irremediável força abrupta do caudal

a fronteira sobranceira ao abismo

as palavras 

contadas na hierarquia dos sinais

como se fossem proibidas de falar 

entre si

os idiomas tão dispares

a apneia contumaz

uma anestesia 

lograda contra as injúrias do mundo

e tudo, 

tudo a cavalgar brutamente 

contra o avesso 

que investe na força centrípeta

demitindo as vezes que dissera

“para sempre”

e “nunca”

os quesitos transfigurados em tábuas régias

onde a gramática era uma infração

e as proibições banidas das leis

até que as leis se tornaram finas teias,

tão frágeis 

que se desinvestiram do lugar que era seu

agora tornado extinto por direito forasteiro. 

 

No diadema de pedra

fala a fronte no cenáculo onde os frágeis

passam o tempo:

se dissesse que os invejo

não estava a agredir a verdade. 

Às vezes

quero ser o rebelde com causa por determinar

por causa da ebulição continua

que furta o sono;

outras vezes

só queria ser condenado à hibernação

para não ouvir os demónios acordados

as harpas delicodoces que esconjuram

os vultos dionisíacos

e de um lugar incerto

partir

partir sem ter de arranjar destino

apenas comandado por uma demanda 

sem paradeiro

como se o corpo subisse pelos dedos 

dando ordem a um piano

e dos versos contrafeitos 

a boca arrancasse a sobremesa dúctil

que encerra o corpo 

numa fortaleza sem mãos para existir. 

 

Fujo de lugar algum:

 

os lugares não são como torturas 

que levam pedaços do corpo

e o condenam à decadência;

 

os lugares 

são o contrabando sem direito a castigo

açambarcando às flores

o impuro estatuto 

que só os sonhos perseguem.

#4565

Qual estorninho atrasado

qual videirinho desafamado 

à boleia das estrofes 

que são dádiva incógnita.

25.9.26

#4564

A cortesia

está em liquidação 

o preço pela hora da vida 

puída e desengonçada.

24.9.26

Razia à prova de engenheiros

Deixei de ver as pontes.

A alvorada desembaraça a espada

e o luar recolhe-se ao avesso crepúsculo.

Minhas não são as facas

as mentiras vêm por conta das algas perdidas

e sou eu o areal onde extintas se despojam

eu

pedra angular no beijo estiolado

compasso sem ruído

a razia à prova de engenheiros.

Amanhã

quando for só eu

não me escondo do dia

mesmo que a noite tenha falido.

#4563

Piso os ultrajes assestados

a vã inveja que outros consome

todas as platitudes, 

um atalho para a farsa.

23.9.26

Fugitivos

Os versos 

acordam o pesadelo 

que perdeu as sílabas 

por medo. 

 

Deito-me

na concha do teu sono, 

sonhos açorados chamam 

pelo meu nome. 

 

A noite extinta 

sacia as palavras empenhadas 

e os meus dedos 

desenham o poema contínuo 

na tua pele morosa.

#4562

As folhas baças passam a chão 

os dias menores levam à boca

a usura dos sentidos.

 

[Outono, dia um]

22.9.26

Manivela

Penhorado pelo cinto negro do vigilante

assobiei a farsa recetiva

e toquei no sino da alma

procurando um exílio que soubesse a lima. 

Quando o tempo 

não é roubado por astronautas

entretido na poesia diletante

vou desenhando palavras com o pensamento

avulso

como se as rodas dentadas acordassem

e do acordo com os ascetas

uma estética imprudente fosse registada. 

Assanham-se vozes 

as estultas e as outras

encomendam-se ao cais errático

carimbam o poder estático

e encenam

no melhor amadorismo cínico

os palcos por onde desfila o silêncio. 

Se amordaçados forem 

os marejadores de almas

e as canetas hasteadas forem 

até à fronteira do sol

perguntamos com voz imperativa

se as pessoas sabem a resposta

mesmo sem havermos diligenciado

uma concreta pergunta. 

Desembaraçadas de seráficos tiranetes

as pessoas 

encenam a sua própria liberdade. 

Encenam;

e depois correm atrás de si mesmas

como se de si partissem para fora delas

e assim

exteriormente contempladas

resumissem

num sumário deslimitado

todas as tantas fragilidades

escondidas 

em provérbios em vias de extinção

(oxalá)

a maresia tocada pelos dedos

e as palavras guardadas nas veias cavernosas

espantosamente sinceras

vítreas

até que a carne se levante, insubmissa,

e povoe carne outra do desejo armadilhado,

o desejo que só o desejo sem rédeas 

sabe munir.

#4561

Perdi-me dos alvos 

sou matéria estrelar 

– um vívido caso 

de aquietação.

21.9.26

Faca fria

Se por versos contasse os dias

haveria de anestesiar o tempo

como se dele ardido tivesse medida

e em mim a poesia fosse inacabada. 

 

Se por mar medisse a alma

preferia que do magma de um vulcão

a matéria inviável erodisse 

até à neve fresca deitar o olhar amotinado. 

 

Se nas margens de um rio repousasse

e do ânimo incensado mostrasse a pele

seria como nas epopeias gravadas a xisto

e no estuário da noite encontrasse a sede inteira. 

 

Se no luar enfeitiçado demando gramática

e os sinuosos versos desfeiteiam os pesares

na encruzilhada entre lágrimas e cinzas me encontro

deposto no avesso do medo refugiado. 

 

Se no fio delgado do horizonte adormeço

e as balas puídas desvio para um aterro

sou esta constelação sem marca registada

o pescoço adorado pela vítrea neblina matinal. 

 

Se no prejuízo me embuço

contumaz das noites desarrumadas

arremato a conspiração tonitruante

e aos vindouros deixo o sangue afónico.

#4560

Com os garfos

terças os insultos 

a sobremesa

fica para o perdão. 

20.9.26

#4559

Os olhos escondidos 

baços lampejos 

de coragem rasurada.

19.9.26

#4558

Atordoado pelo mundo torrencial 

fugi para dentro das páginas avulsas: 

o acaso corrompe a tirania do caos.

18.9.26

#4557

O progresso é analítico, 

dizias,

e eu acrescentava:

depende da perícia da chuva.

17.9.26

LVIII

Cortejo o cepo meado

entre a ramagem rala

no provérbio do Verão. 

Desencontro-me das horas arredias

o mosto válido segundo os anciãos

as mãos dançantes perseguindo a luz

enquanto o corpo desalinha do dia terminal. 

A pele angorá suplica pela chuva promitente

no acaso do nada

no vão, insensato lugar de tudo

e as estrofes que assinam as paredes

não procuram encómios

contentam-se modestamente

com o vulcão aqui,

uma lua grávida ali

a voz desenganada 

que corre em contrabando

sugando os segundos inteiros

gulosamente. 

Não quero que me digam

quem sou

o que sou

o que de mim dou

por dourado que seja o nome outorgado;

 

atravesso 

os dedos à frente do olhar

conspirando

conspirando as estrénuas conspirações

aquelas que procuram chão para desandar

e as outras

uma maçada em estado bruto. 

Animado pelo estado solar

engano o desestofo enquistado

enquanto deixo que ao sol subam mil luares

e tudo se confunde na lucidez estimada. 

Só os acossados pela turbulência interior

desconfiam dos verbos embelezados

só eles 

é que esqueceram os livros

num paradeiro sem lugar

ou num lugar sem paradeiro

onde os nomes perdem saber

e os saberes disfarçam-se de futuro. 

 

Ah

oxalá os termos fossem diferentes

outras as regras

oh nenhumas até

para depois do sonho 

todas as quimeras serem depostas

no chão que te vê passar

e eu

ao longe

tão longe sem saber onde estou

testemunha fosse 

do teu airoso viver.

#4556

Não és tu que prescreves; 

é o tempo que fica para trás.

16.9.26

#4555

Às vezes 

desafiar o dia

é como montar um adamastor.

15.9.26

O silêncio é um direito constitucional

Um suspiro como vírgula

desnorteia o silêncio embuçado. 

Já de longe 

se ensina:

os sinais ortográficos podem ser

a matéria gestual colhida 

ao acaso. 

As almofadas 

também podem calar as palavras

impor-lhes um silêncio envergonhado

e todavia terrífico:

a matéria lacustre exibe as águas paradas

a metáfora pantanal 

para o silencio arrancado a ferros,

uma tortura inimaginada 

até por adestrados algozes. 

Eu mantenho

que não há tortura pior 

do que palavras a eito

como se estivessem no cio adolescente

sem o tempero da moderação

tumultuosamente gongóricas

rasgando paisagens 

como se de papel fossem feitas

atraiçoando o sono translúcido

que fica refém das palavras a destempo

das palavras marcadas a fogo 

na pele desajeitada. 

Até que o direito ao silêncio

não seja uma impostura

ou o caldo untuoso 

onde acasalam os misantropos

e de constitucional abrigo seja credor.

#4554

Morde a sílaba distraída 

antes que o verso se amotine.

14.9.26

O norte do norte

Nosso é o desejo que fazemos com que acorde imperador. Acordamos os vulcões adormecidos na terra de fogo domada com o gelo inventado com as mãos diligentes. Recebemos flores enquanto o mar murmura o medo que desmaia nas areias pretas. Nosso é o idioma próprio que esconde os segredos para não deixarem de ser segredos.

 

[Concerto de Sigur Rós, Coliseu do Porto, 13.09.26]

#4553

Uma onda 

depois outra 

a maré inteira, 

antes que mudada seja 

a página diante.

13.9.26

#4552

Indulto o futuro 

no verso 

que anestesia o olhar.

12.9.26

#4551

Sou 

o meu próprio legado 

a forma do nada 

dissolvido no vento tardio.

11.9.26

Injustiças documentadas (693)

De: noite

Para: dia:

Aparece

e cresce.

#4550

O poeta 

é o dandy

das palavras.