27.5.26

Das almas artesãs

Na ebulição que amanhece

deixo o olhar seguir pelo teu

apuramos o silêncio que não se adia

e sozinhos diante de uma fonte,

como se ela fôssemos,

ousamos ciciar um sonho 

de que somos artesãos.

Injustiças documentadas (661)

Quem entronizou no diabo

as prerrogativas da escolha

é dele cúmplice.

#4456

Domados os minutos acelerados

emergíamos no sonho lisérgico.

26.5.26

Fugir

Fujo de vozes que murmuram lamentos.

Fujo de luares adulterados no horizonte.

Fujo de “personalidades” fingidas

e das que não o sendo não ficam atrás

em voyeurismo banal.

Fujo das invetivas de gente ofensora.

Fujo dos idiomas que ultrajam a fala.

Fujo de viúvas negras com o cenho carregado.

Fujo de idiotas úteis e dos outros 

que intuem uma certa utilidade.

Fujo da “resiliência”,

do “impactante”

e do “abrangente”.

Fujo dos tipos que estão sempre a dizer “tipo”.

Fujo dos farsantes que mentem a si mesmos

enquanto fingem uma coisa qualquer.

Fujo do marasmo que se deita no calendário.

Fujo das ideias matrioskas.

Fujo de amadores ufanos e patriotas fala-barato.

Fujo do deus dará 

que oxalá seja estatuto falhado.

Fujo do que finjo 

antes que o fingimento me colonize.

Fujo da indigência 

e da soberba dos risíveis arautos.

Fujo da nomenclatura gasta 

em fósforos virgens.

Fujo dos sacerdotes de todos os calibres.

Fujo dos mapas, das fronteiras, 

da obnóxia distinção de nacionalidades.

Fujo quando for hora de fugir.

Fujo enquanto me apetecer fugir

e de tanto fugir não me cansar

altura em que fujo de continuar a fugir.

Injustiças documentadas (660)

Travar de razões 

não é meter travões à razão.

#4455

Desarmar o medo

é caucionar 

o avanço da civilização.

25.5.26

Mousse de chocolate

Não tinha uma varinha mágica

e não aspirava a ter uma 

no arsenal das coisas que mudam

os palcos.

Deixava as mudanças para os sonhadores.

Deixava os projetos generosos

para os líricos apóstolos da ingenuidade.

As estrofes vazavam os sonhos pueris

e às mãos vinham parar

como seu cais

as coisas puídas que não mudam

(a não ser para pior).

#4454

Teima a esmo 

cavando as entrelinhas 

das maravilhas.

24.5.26

#4453

Com um fanico de fancaria 

mangando a mando 

o estarola estagia 

no formulário do fingimento.

23.5.26

#4452

Sexto sentido

um ar descongelado

a boca a fugir do medo.

22.5.26

Ortodontia

Estimados dentes que acendem os candeeiros

se fossem isqueiros 

que vulcões desatavam da letargia?

Dentição assestada em riste

que dos argumentos opostos

por mais variegados que seja

fundeiam na terrível indisposição mental

que fariam se vosso fosse o império

e às mãos calhasse em hipótese silenciar

os que ao contrário de vós pensam?

Dentes a eito

originais ou em encenada substituição

perdidos no meio das vulgares suposições

abraçados em dúcteis conspirações

mesmo a calhar como a roca serve ao parafuso

dentes, ó dentes tão soezes,

era preferível 

que as mandíbulas que vos amparam

estivessem de vós nuas.

#4451

Dei-te uma alquimia 

e tu, tão prudente, 

depositaste-a no banco.

21.5.26

A astúcia apressada

Comprei uma astúcia

mas tive de a deixar de molho

assim oravam as instruções. 

Era urgente a urgência da astúcia. 

Perguntei aos manuais fáceis que há

se podia apressar a demolha da astúcia 

– era tanta a urgência

que temia que a astúcia

de tanta demolha

se dissolvesse 

num placebo sem utilidade. 

 

Apressado pela urgência

apressei a demolha da astúcia. 

 

Soube depois

a astúcia que havia mercado

não chegar a medrar

e fiquei sem ganho de causa

na causa que precisava da astúcia

se nem o logro serviu de sucedâneo.

#4450

Jogamos aos alçapões, 

insensatamente frívolos, 

enquanto somos espetadores 

do tempo a passar.

20.5.26

Injustiças documentadas (659)

Desliga das nações, 

a aposta em alta 

é a dedicada ao indivíduo.

Desliga das nações,

a liga é tão frágil

as nações vomitam guerras.

Prémio “asno do ano”

Corto raso a boçalidade encorpada

os dentes vagos trituram as sílabas

e agredidas são as palavras 

parindo ideias soezes.

 

É como agarrar no rabo do touro

e vê-lo rabear, rabear, rabear,

convencido que se torce capazmente

para se desembaraçar do estroina de serviço.

 

Mal se amanham os néscios

que nada sabem da História

para eles reservada a mesa dos atoleimados

não há maior ignorante a ensebar teorias.

#4449

Esse tempo de mel, 

o das vacas gordas, 

esbarrou no contratempo 

de não se poder dizer de um gordo 

que é gordo.

19.5.26

Presumidos

E depois

há sempre aqueles castiços

que precisam de palco

e que deixam atrás de si

um loquaz império de sapiência

aqueles que

depois

em diálogo com o avesso de si 

 

(noutros lugares chama-se

consciência)

 

confidenciam

que a distinção foi por engano

ou eles já estão tão senis

que do episódio por que receberam a comenda

não guardam memória. 

E assim

empossados num sonho pródigo

levitam na sua douta aparência

distantes o quanto baste

da ralé limítrofe.

Injustiças documentadas (658)

Ligadura.

Liga dura

Liga, dura.

Liga a dura.

#4448

O motim interior

aprova a maré silenciosa, 

os baldios

incessantemente demandados.

18.5.26

Manifesto contra os manifestos

Ouves o rumor

os verbos noturnos

que trazem beleza às sombras.

 

Contrarias os vultos

os medos desalinhados

que entregas ao cuidado dos artesãos.

 

Falas do pouco que queres

a modéstia das palavras

um sortilégio que poucos conhecem.

 

Entregas o ouro teu

o atestado que destemido abres 

na inspiração de um sangue fraco.

#4447

No trato ordeiro, 

o avesso da boçalidade, 

um adorno esquecido.

17.5.26

#4446

A farsa que amanhece 

não tem prazo de validade.

16.5.26

#4445

As palavras dançam 

no caudal volumoso 

de quem rompe o granito 

e espera que elas se avivem.

15.5.26

Mão à palmatória

Junto as mãos

o templo sem medida

deponho a noite sem nome

de só querer o teu paradeiro.

 

Junto o silêncio

o rumor do mar que estilhaça a areia

subo ao miradouro

e abro o horizonte com as mãos juntas.

 

Chamo o teu nome

sem me desembaraçar do crepúsculo

sigo a sombra que deixas

no estremecimento da voz que serve de toada.

Injustiças documentadas (657)

Chatear o Camões 

devia ser proibido por lei 

e os mandantes condenados 

a Chagas.

Injustiças documentadas (656)

Ser testa-de-ferro 

deve ser duro.

#4444

À matilha deram corda 

os dentes arregaçados 

puseram os cotovelos à janela.

14.5.26

#4443

Contra os piores prognósticos 

– diziam, 

antes de defenestrar o olhar caído, 

descolonizando-se da angústia.

13.5.26

Luar

Dá de beber ao fogo um fogo outro

os lugares apartados são a âncora das nossas mãos

e das coisas que somos únicos penhores

fabricamos sonhos que não dispensam matéria

sob o luar que em nós se faz carne.