25.2.26

Burburinho

Um pelicano de corda

arrota sobre o lenço sujo da bailarina

enquanto nas traseiras do café

o artista do circo corta as páginas coladas

de um opúsculo de saberes esotéricos.

 

O pelicano balbucia umas sílabas

a bailarina espadana o plissado

para o sótão do pensamento.

Já o artista do circo

antes de ir buscar o petiz ao infantário

decora uns versos que cicia com pesar:

sua há de ser a presença num velório

e foi-lhe encomendada a elegia.

 

No restolho do dia

todos sem emprestam ao sono.

#4365

Uma mentira chique, 

colada com cuspo, 

respira 

como se puro fosse 

o ar da montanha.

24.2.26

IPMA

“Amanhã dão chuva”. 

E eu nunca soube

da identidade 

de tão filantrópica pessoa.

#4364

Para outros carnavais 

(em reserva dedicada)

a boca desenfreada 

e os corpos coreografados.

23.2.26

#4363

Entardece.

O dia fica míope. 

#4362

Peguei no verso do bilhete de metro para te escrever. 

O que já é uma declaração de amor.

#4361

Não é o restolho sobre o rosto que conta, 

é o riso espontâneo que decanta.

22.2.26

#4360

Maltrapilhos 

malsãos 

maltratados 

mal-entendidos.

21.2.26

#4359

Da bílis mal curada 

os sucos acerbos 

que desadoçam uma vida 

condenada à usura.

20.2.26

#4358

Sou culpado: 

tive uma ideia.

#4357

Dantes 

o futuro 

não contava.

19.2.26

#4356

À média luz 

palavras esgrimidas sem nudez 

a diplomacia,

ou a arte da mentira aburguesada.

18.2.26

A sagração do luar

Arrumo o luar

entre os nós da noite

e a jura da manhã. 

Levo o luar comigo

a luz extática que sua da noite

e respira através das paredes. 

É lugar-comum

o poeta pedir ao luar

que seja inspiração emprestado;

pode o poeta ser censurado

por se perder de encantos

por uma platitude tão carismática?

#4355

Um silêncio de fundo 

entoa a metáfora nascente:

depois de tudo

será outra vez

o silêncio.

17.2.26

#4354

Os olhos 

entardecem a pele; 

novos são os verbos 

que entram no estuário.

16.2.26

Tômbola

Por todo o lado

estão

os sorrisos postiços

as paredes rombas

os pássaros a prazo

os parágrafos a destempo

o zimbório desguarnecido

as viúvas pretéritas

os godos alisados pela angústia

os baraços que atam o futuro

navios enferrujados não naufragáveis

a madeira decomposta

os fardos com listas de medo

os rapazes que fruem as horas vagas

os marinheiros saltimbancos

bêbados pela manhã

as horas perdidas no suor da noite

os pesadelos

os pesadelos como ciprestes

rompendo o céu sem aviso

estão

por todo o lado

e sem mapa nenhum.

#4353

Fundas 

as palavras viscerais 

não se escondem 

do medo limítrofe.

15.2.26

#4352

Maltrata o trato 

despreza os códigos 

não se admire 

que fale 

ainda mais alto 

a reciprocidade.

14.2.26

Injustiças documentadas (636)

Pecado, 

capital.

#4351

À razão de um dente por mentira 

tantos são os que estão em dívida 

de um punhado de dentaduras.

13.2.26

Injustiças documentadas (635)

Paninhos quentes 

só têm serventia 

no inverno.

#4350

As cores 

abandonam a fala, 

é como se tivesse sido 

descafeinada.

12.2.26

#4349

As profecias 

são os impérios 

encomendados 

pelos farsantes.

11.2.26

#4348

Colam-se 

como barro pegajoso 

aquelas palavras 

que assassinam o idioma:

 

expectável, impactante, resiliente,

narrativa.

10.2.26

Dizia do bem que bem está

Desconfio

que as guilhotinas arrefecem

com as vozes que amadurecem

à medida da ira dos tempos. 

 

De todos os ontem sem saída

emancipou-se um estuário de estrofes

o grande manifesto 

onde cabem os manifestos avulsos

o músculo que se sobrepõe à força,

até os que se embriagaram com poder

sabem que o medo não escolhe vítimas. 

 

Do miradouro onde se esconde o passado

vejo as milhas à distância do horizonte

e guardo as perguntas que fugiram dos fantasmas

guardo-as 

como o maior tesouro

apalavrado nas minhas mãos.

#4347

Ao longe 

o mar conspira as marés hediondas,

o selo das tempestades consecutivas.

9.2.26

Injustiças documentadas (634)

Ninguém gosta 

de pôr o dedo na ferida

se a ferida 

é um viveiro de coisas infectas.

#4346

Deita-se o leite no ouro

e o mel no azul

e (quase) todos dormem serenos.

 

[Ressaca pós-eleitoral, take 11]

8.2.26

Injustiças documentadas (633)

É reunião 

mesmo quando é

pela primeira vez?

#4345

A rua 

deixa a noite bruxuleante 

enquanto encomenda os olhos 

ao sono.