A parada
estava parada
por falta
de atualização.
[Atavismos hodiernos]
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
No jeito desastrado
de quem sopra as pétalas por acaso
e desmonta a flor tornada deserto
sapateava o chão do dia com os óculos de sol
e nem sequer estava sol
mas os deveres de estilo
torpedeiam as pragmáticas coisas
destinadas ao olvido
numa praça não sei se meio deserta
ou meio composta
transfigurando os rostos dos anónimos
que é preciso obedecer ao RGPD
antes que em contrafação de modos seja apanhado
e por heresia das leis seja condenado
a toda a sorte de trabalhos comunitários
e destrabalhos de outra linhagem
enquanto em surdina indulto uma ode avulsa
que hoje estou por conta do estilo livre
não sinto que cinto algum seja à minha medida
e nem o remorso consegue verter a sua lava
deixando os impropérios
por conta da voz em pano de fundo
que nunca se desaloja
das funduras de onde a luz não intimida.
Ainda assim
reservei o sarcasmo para amanhã.
Não digas nada.
Não acordes os demónios
do seu sono de fealdade.
Não abandones o silêncio inteiro
nem que por vírgulas tenham
a tua sorte.
Não amanheças imperador do dia.
Mas não fujas dele
lembra-te das flores que são seu cio
e toma-as como penhor
das juras por vencer.
Amanhã
dirás o que hoje não disseste
se entretanto não fores vítima (voluntária)
do (teu) esquecimento.
Referendei a apolónica montanha
como se entre os copos fluíssem os verbos
e o miado dos gatos se escutasse
em surdina.
Mas toda a gente estava em promenade
o vazio hasteado com pundonor
como se estivessem desligadas da corrente
ou alguém tivesse desligado as fichas todas.
Os feriados foram feitos
para todos se porem entre parêntesis.
Podia-se pensar
em taxar as taxas
– e assim sucessivamente –
até se chegar
ao palimpsesto da receita pública.
Toda a haste
bebe no impuro luar
que desagrava a noite.
Os copos
desembaraçam-se da água
povoam latitudes inexploradas.
Amanhã
(sempre o amanhã)
apuramos as contas desmatadas,
na contabilidade por estima
na vacatura das almas.
Desfliam
os números as letras as frases avulsas
massacram o pensamento
pedindo, sem saberem, que se exile.
[Concerto de Massive Attack, Primavera Sound Porto 2026]
Quando a caridade
se confunde com corveia
as mãos trocam palavras
por desdém.
(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)
Como se chama
a voz zangada
que sobe para a jangada
e se vinga no caudal de lágrimas?
Como se chama
pelo estroina de serviço
e se pede para descer a cortina
sobre os amalucados que deformam
o concerto das nações?
Como se chama
o patrono dos sonhos
e se pede para receber a vacina
contra os despreparos do mundo
e os incendiários que o descomandam?
Na ebulição que amanhece
deixo o olhar seguir pelo teu
apuramos o silêncio que não se adia
e sozinhos diante de uma fonte,
como se ela fôssemos,
ousamos ciciar um sonho
de que somos artesãos.