7.4.26

Jogar por fora

O garfo forja a farsa

e os dedos advertem

os sentidos assimétricos

que da poda não apodrecem

os galhos daninhos. 

 

Se assimétricos fossem os sacerdotes

talvez tivessem travessas atravessadas

e num poço empossado na peça centrípeta

falassem os nefelibatas fadados

os convictos em hora de ponta. 

 

De hoje para amanhã amacia o tempo

(houve quem o quisesse matar)

trovoadas avulsas desavisam os vetustos

sem a cerimónia nem a parcimónia

dos diplomatas desmatados

esquecidos dos manuais datados.

#4407

Uma aposta

na loucura

para ver se saímos 

do precipício.

6.4.26

Corta a corrente

O corsário bebeu as horas

e ainda foi a tempo

do circo.

 

O tenente cuspiu às escondidas

mas ainda selou as regras

da urbe.

 

O mendigo dormiu de dia

sem sequer temer o desagravo

das lides.

 

O figurão escondeu-se das regras

para gáudio dos ainda crucificadores

de serviço.

#4406

Na sola do dia, 

desfigurado,

o fidalgo acerta contas

com os fantasmas insistentes.

5.4.26

#4405

Crescido o sol amante 

a pele suada diz ao dia

que dia assim se deve 

emoldurado.

4.4.26

#4404

Salto em altura 

preciso de um vol d’oiseau

para dissolver confusões. 

3.4.26

Injustiças documentadas (646)

C’o a breca 

tive uma breca!

 

(E fiquei sem a beca)

#4403

Este beijo sabe a mundo

tenho na boca 

uma amostra de todos os continentes.

2.4.26

Injustiças documentadas (645)

Quem é louco 

ao ponto de oferecer ouvidos

nunca mais consegue usar a audição.

Injustiças documentadas (644)

Cão por ser preso

e cão por não ser.

#4402

Sílabas a soldo 

uma voz trémula

o medo 

como gramática do mundo.

1.4.26

Praxe

Justas 

as preces aprisionadas no jogo sem regras

quando as cortinas descem

e a luz sussurra os mistérios 

ajaezados.

Não é questão de tempo

o anticlone conspira a favor da Primavera;

os bardos foram silenciados

e os favos de mel suam a colheita esperada:

amanhã de manhã

haverá novidades ao pequeno-almoço

e o dia correrá a preceito 

– assim sejam confirmadas as justas preces.

#4401

Eis o portuguesmente fatalismo:

as ruas obcecadas 

a língua de trapos

um futuro preso ao passado.

31.3.26

À corda

À corda

a cabeça sentada na periferia

um atilho estreita o olhar

neste lugar não há satélites

apenas os cantos dolentes de viúvas de carvão

e nem um abraço se peticiona

as pessoas têm alergia umas das outras. 

A corda 

a saltar de três em três degraus

matéria-prima por adulterar

os diamantes também

até os que se misturam com a fala

e de um gesto brusco fazem pérolas promissoras. 

Acorda:

o rio ainda vai caudaloso

e as mesas descompostas anunciam a noite

e tu

entre a espuma do dia

e a efémera condução de tudo

tomas a procuração inteira

para seres embaixador de ninguém. 

Injustiças documentadas (643)

À atenção superior: 

cair no goto 

pode ser 

uma armadilha.

#4400

Sanada a ferida funda, 

a cicatriz como prova 

incontestável.

30.3.26

Punhos de bisel

No testamento sem vírgulas

amontoam-se vinganças e prebendas

como se ser póstumo caiasse a transparência

e fosse confirmado

que estar vivo exige muita farsa

 

(há quem lhe chame

diplomacia).

 

No palacete que esconde as meias rotas

o embaixador encena ginástica retórica

manda dizer por palavras mediadoras

o que fica à porta de ser dito

poupando uma mão-cheia

de diplomáticos incidentes 

e querelas subterrâneas.

 

#4399

Contaram 

que o silêncio substituiu a fala 

e ninguém disse nada 

sobre isso.

29.3.26

#4398

Sabe a pouco 

o muito que vultos sem rostos 

fazem cair 

com sabor a injúria sem nome.

28.3.26

#4397

Que dizem as farsas em lume-brando

dos profetas que as anunciam?

27.3.26

Pele

Como contas os verbos da minha pele?

Em vez da noite, 

sombras levam por nós à boca 

o tempo sem cortesia. 

Em vez de braços 

embainhados numa coreografia daninha, 

estrofes levitam na alma sem fundo. 

Damos um adeus ao dia havido. 

Dele diremos elogios só. 

Não seremos sós 

enquanto a sós formos uma multidão.

#4396

Não fermento o mosto de autos da fé 

prefiro deixar a vontade à vontade,

sinal do seu império.

26.3.26

Contrafação

De cor

a cor neve

o nervo acobreado

a embocadura da névoa

a coberto dos noves nada

o nevrálgico costurar da corda

em cargos enevoados

o enlevo da carga pesada. 

 

Da cor água

de cor estabeleço o corsário

e o fortuito corpo estiolado

no estuário que desfaz o encargo

o calvário em estátuas desfeitas

encolhendo o corpete dos estafetas. 

 

Comprimo o olhar

em desavença com cores que sei de cor

o corrupio estiola os corsários avulsos

e de mim serão infecundas 

as cisões conspiradas por vozes lúgubres.

#4395

Nas veias do labirinto 

as horas escurecem de propósito 

e o sangue arrefece numa anestesia indulgente.

25.3.26

Nuvens escafandro

Sem medo, 

não sei o que é a morte. 

Sem o tempo escasso, 

tenho medo da morte. 

Depois das nuvens escafandro, 

onde tudo perde o sentido 

e os sentidos se exilam no nada, 

as memórias são guardadas em tatuagens 

que ajeitam a pele para a decadência. 

Aviva-se o penhor 

de todo o tempo que é pertença, 

de toda a vida que só pode ser sentida 

se rimar com vertigem. 

Como se houvesse 

apenas

um amanhã a amotinar-se de tanto passado.

#4394

Tudo num sopro

instantâneo

em prazo válido

na virtude do caudal límpido.

24.3.26

Desfeitiço

O endireita azares 

compareceu à faina

ainda com o guardanapo a tiracolo

os beiços com a gordura prova do almoço

pronto a devorar os inocentes candidatos

mesmo a jeito do selo do azar

que ficavam tão bovino naqueles lombos. 

O ferreiro e o almocreve subiram à mesa

mediam 

o estatuto dos notáveis que desfilavam

sem, ó heresia, passadeira carmim,

tao tenros para serem a carne 

para a boca do canhão

e ali jazendo depois

sem misericórdia dos verdugos

que se lambuzavam com a vitória 

cravada nos cascos

a sublime tatuagem

sem a fuligem do tempo que perdeu a memória

para grande lamento da turba que aprendeu

o feitiço dos notáveis. 

Faltaram 

o cangalheiro e o cobrador de fraque,

mas não importava,

as dívidas estavam prescritas

e só faltava esperar pelo espelho dos rostos

a sepultura onde desvivem os párias.

#4393

A luz baça 

que prescreve a noite

é enteada da lucidez.

23.3.26

#4392

Quem quer ser estátua em vida 

pressente a indiferença póstuma.

22.3.26

#4391

O traço fino 

emulsionado pelo dedo firme 

as cores à escolha 

numa paleta de vozes.