Às vezes
desafiar o dia
é como montar um adamastor.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Um suspiro como vírgula
desnorteia o silêncio embuçado.
Já de longe
se ensina:
os sinais ortográficos podem ser
a matéria gestual colhida
ao acaso.
As almofadas
também podem calar as palavras
impor-lhes um silêncio envergonhado
e todavia terrífico:
a matéria lacustre exibe as águas paradas
a metáfora pantanal
para o silencio arrancado a ferros,
uma tortura inimaginada
até por adestrados algozes.
Eu mantenho
que não há tortura pior
do que palavras a eito
como se estivessem no cio adolescente
sem o tempero da moderação
tumultuosamente gongóricas
rasgando paisagens
como se de papel fossem feitas
atraiçoando o sono translúcido
que fica refém das palavras a destempo
das palavras marcadas a fogo
na pele desajeitada.
Até que o direito ao silêncio
não seja uma impostura
ou o caldo untuoso
onde acasalam os misantropos
e de constitucional abrigo seja credor.
Nosso é o desejo que fazemos com que acorde imperador. Acordamos os vulcões adormecidos na terra de fogo domada com o gelo inventado com as mãos diligentes. Recebemos flores enquanto o mar murmura o medo que desmaia nas areias pretas. Nosso é o idioma próprio que esconde os segredos para não deixarem de ser segredos.
[Concerto de Sigur Rós, Coliseu do Porto, 13.09.26]
Tiravas o som à televisão
e na mímica que sobrava
encontravas um medo maior:
não são meigos os silêncios
e até os ventríloquos
os sindicalistas em nome alheio
precisam de som
para não serem convencidos da nudez.
O pior
é que poucos se esmeram
na arte de ler os lábios.
Os silêncios eletrocutados
podem querer dizer coisas diversas
e pior do que a mudez
é não saber seguir
pela linha acertada.
Do lugar da roupa suja
onde os urgentes demandam detergente
os dentes subidos safram os dias indigentes
e nem o cloro salva a água de ser assaltante
os dedos consumidos no xisto
onde se amanha a impaciência.
Dei ao lugar
a indiferença capaz
e de dentro vieram, embuçados,
tiranetes avulsos em contramão
bolçando impropérios e outras platitudes.
Confrontei-os
com o detergente em emulsão
e eles
não querendo aparentar fraca parte
encheram de ar o peito
e avançaram.
Um singelo terçar dos dedos
contra tanta ufania
chegou
para os deixar sombriamente gastos
a contagem no chão os seus próprios despojos
só para efeitos contabilísticos
e etc.
Dobro
a metade em que se mutilas
a aritmética deixa de molho
o rosto original
o mosto fundacional.
Sou levado a desconfiar
que ser amigo do alheio é,
literalmente,
de uma generosidade desarmante.
Aninho as víboras certeiras
no cobertor puído
das horas incertas.
As cores esbatidas
perfumam as cotovias em espera
e os velhos inventariados em públicos jardins
amotinam-se num silêncio jazente
como se eclipsassem o tempo
e dessem às gerações vindouras
a generosidade maior do tempo
em suspensão.
Arrumada a noite no provérbio latejante
só ficam em pé os verbos teimosos,
a obstinação
(diz-se)
é o melhor remédio
contra o torpor.
Debruada a ouro
a estultícia do “influenciador”
(assim mesmo,
em português camoniano,
só para aborrecer a novilíngua)
arrotava por cima do seu fautor.