Os versos
acordam o pesadelo
que perdeu as sílabas
por medo.
Deito-me
na concha do teu sono,
sonhos açorados chamam
pelo meu nome.
A noite extinta
sacia as palavras empenhadas
e os meus dedos
desenham o poema contínuo
na tua pele morosa.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Os versos
acordam o pesadelo
que perdeu as sílabas
por medo.
Deito-me
na concha do teu sono,
sonhos açorados chamam
pelo meu nome.
A noite extinta
sacia as palavras empenhadas
e os meus dedos
desenham o poema contínuo
na tua pele morosa.
As folhas baças passam a chão
os dias menores levam à boca
a usura dos sentidos.
[Outono, dia um]
Penhorado pelo cinto negro do vigilante
assobiei a farsa recetiva
e toquei no sino da alma
procurando um exílio que soubesse a lima.
Quando o tempo
não é roubado por astronautas
entretido na poesia diletante
vou desenhando palavras com o pensamento
avulso
como se as rodas dentadas acordassem
e do acordo com os ascetas
uma estética imprudente fosse registada.
Assanham-se vozes
as estultas e as outras
encomendam-se ao cais errático
carimbam o poder estático
e encenam
no melhor amadorismo cínico
os palcos por onde desfila o silêncio.
Se amordaçados forem
os marejadores de almas
e as canetas hasteadas forem
até à fronteira do sol
perguntamos com voz imperativa
se as pessoas sabem a resposta
mesmo sem havermos diligenciado
uma concreta pergunta.
Desembaraçadas de seráficos tiranetes
as pessoas
encenam a sua própria liberdade.
Encenam;
e depois correm atrás de si mesmas
como se de si partissem para fora delas
e assim
exteriormente contempladas
resumissem
num sumário deslimitado
todas as tantas fragilidades
escondidas
em provérbios em vias de extinção
(oxalá)
a maresia tocada pelos dedos
e as palavras guardadas nas veias cavernosas
espantosamente sinceras
vítreas
até que a carne se levante, insubmissa,
e povoe carne outra do desejo armadilhado,
o desejo que só o desejo sem rédeas
sabe munir.
Se por versos contasse os dias
haveria de anestesiar o tempo
como se dele ardido tivesse medida
e em mim a poesia fosse inacabada.
Se por mar medisse a alma
preferia que do magma de um vulcão
a matéria inviável erodisse
até à neve fresca deitar o olhar amotinado.
Se nas margens de um rio repousasse
e do ânimo incensado mostrasse a pele
seria como nas epopeias gravadas a xisto
e no estuário da noite encontrasse a sede inteira.
Se no luar enfeitiçado demando gramática
e os sinuosos versos desfeiteiam os pesares
na encruzilhada entre lágrimas e cinzas me encontro
deposto no avesso do medo refugiado.
Se no fio delgado do horizonte adormeço
e as balas puídas desvio para um aterro
sou esta constelação sem marca registada
o pescoço adorado pela vítrea neblina matinal.
Se no prejuízo me embuço
contumaz das noites desarrumadas
arremato a conspiração tonitruante
e aos vindouros deixo o sangue afónico.
Atordoado pelo mundo torrencial
fugi para dentro das páginas avulsas:
o acaso corrompe a tirania do caos.
Cortejo o cepo meado
entre a ramagem rala
no provérbio do Verão.
Desencontro-me das horas arredias
o mosto válido segundo os anciãos
as mãos dançantes perseguindo a luz
enquanto o corpo desalinha do dia terminal.
A pele angorá suplica pela chuva promitente
no acaso do nada
no vão, insensato lugar de tudo
e as estrofes que assinam as paredes
não procuram encómios
contentam-se modestamente
com o vulcão aqui,
uma lua grávida ali
a voz desenganada
que corre em contrabando
sugando os segundos inteiros
gulosamente.
Não quero que me digam
quem sou
o que sou
o que de mim dou
por dourado que seja o nome outorgado;
atravesso
os dedos à frente do olhar
conspirando
conspirando as estrénuas conspirações
aquelas que procuram chão para desandar
e as outras
uma maçada em estado bruto.
Animado pelo estado solar
engano o desestofo enquistado
enquanto deixo que ao sol subam mil luares
e tudo se confunde na lucidez estimada.
Só os acossados pela turbulência interior
desconfiam dos verbos embelezados
só eles
é que esqueceram os livros
num paradeiro sem lugar
ou num lugar sem paradeiro
onde os nomes perdem saber
e os saberes disfarçam-se de futuro.
Ah
oxalá os termos fossem diferentes
outras as regras
oh nenhumas até
para depois do sonho
todas as quimeras serem depostas
no chão que te vê passar
e eu
ao longe
tão longe sem saber onde estou
testemunha fosse
do teu airoso viver.
Um suspiro como vírgula
desnorteia o silêncio embuçado.
Já de longe
se ensina:
os sinais ortográficos podem ser
a matéria gestual colhida
ao acaso.
As almofadas
também podem calar as palavras
impor-lhes um silêncio envergonhado
e todavia terrífico:
a matéria lacustre exibe as águas paradas
a metáfora pantanal
para o silencio arrancado a ferros,
uma tortura inimaginada
até por adestrados algozes.
Eu mantenho
que não há tortura pior
do que palavras a eito
como se estivessem no cio adolescente
sem o tempero da moderação
tumultuosamente gongóricas
rasgando paisagens
como se de papel fossem feitas
atraiçoando o sono translúcido
que fica refém das palavras a destempo
das palavras marcadas a fogo
na pele desajeitada.
Até que o direito ao silêncio
não seja uma impostura
ou o caldo untuoso
onde acasalam os misantropos
e de constitucional abrigo seja credor.
Nosso é o desejo que fazemos com que acorde imperador. Acordamos os vulcões adormecidos na terra de fogo domada com o gelo inventado com as mãos diligentes. Recebemos flores enquanto o mar murmura o medo que desmaia nas areias pretas. Nosso é o idioma próprio que esconde os segredos para não deixarem de ser segredos.
[Concerto de Sigur Rós, Coliseu do Porto, 13.09.26]
Tiravas o som à televisão
e na mímica que sobrava
encontravas um medo maior:
não são meigos os silêncios
e até os ventríloquos
os sindicalistas em nome alheio
precisam de som
para não serem convencidos da nudez.
O pior
é que poucos se esmeram
na arte de ler os lábios.
Os silêncios eletrocutados
podem querer dizer coisas diversas
e pior do que a mudez
é não saber seguir
pela linha acertada.
Do lugar da roupa suja
onde os urgentes demandam detergente
os dentes subidos safram os dias indigentes
e nem o cloro salva a água de ser assaltante
os dedos consumidos no xisto
onde se amanha a impaciência.
Dei ao lugar
a indiferença capaz
e de dentro vieram, embuçados,
tiranetes avulsos em contramão
bolçando impropérios e outras platitudes.
Confrontei-os
com o detergente em emulsão
e eles
não querendo aparentar fraca parte
encheram de ar o peito
e avançaram.
Um singelo terçar dos dedos
contra tanta ufania
chegou
para os deixar sombriamente gastos
a contagem no chão os seus próprios despojos
só para efeitos contabilísticos
e etc.
Dobro
a metade em que se mutilas
a aritmética deixa de molho
o rosto original
o mosto fundacional.