20.5.26

#4449

Esse tempo de mel, 

o das vacas gordas, 

esbarrou no contratempo 

de não se poder dizer de um gordo 

que é gordo.

19.5.26

Presumidos

E depois

há sempre aqueles castiços

que precisam de palco

e que deixam atrás de si

um loquaz império de sapiência

aqueles que

depois

em diálogo com o avesso de si 

 

(noutros lugares chama-se

consciência)

 

confidenciam

que a distinção foi por engano

ou eles já estão tão senis

que do episódio por que receberam a comenda

não guardam memória. 

E assim

empossados num sonho pródigo

levitam na sua douta aparência

distantes o quanto baste

da ralé limítrofe.

Injustiças documentadas (658)

Ligadura.

Liga dura

Liga, dura.

Liga a dura.

#4448

O motim interior

aprova a maré silenciosa, 

os baldios

incessantemente demandados.

18.5.26

Manifesto contra os manifestos

Ouves o rumor

os verbos noturnos

que trazem beleza às sombras.

 

Contrarias os vultos

os medos desalinhados

que entregas ao cuidado dos artesãos.

 

Falas do pouco que queres

a modéstia das palavras

um sortilégio que poucos conhecem.

 

Entregas o ouro teu

o atestado que destemido abres 

na inspiração de um sangue fraco.

#4447

No trato ordeiro, 

o avesso da boçalidade, 

um adorno esquecido.

17.5.26

#4446

A farsa que amanhece 

não tem prazo de validade.

16.5.26

#4445

As palavras dançam 

no caudal volumoso 

de quem rompe o granito 

e espera que elas se avivem.

15.5.26

Mão à palmatória

Junto as mãos

o templo sem medida

deponho a noite sem nome

de só querer o teu paradeiro.

 

Junto o silêncio

o rumor do mar que estilhaça a areia

subo ao miradouro

e abro o horizonte com as mãos juntas.

 

Chamo o teu nome

sem me desembaraçar do crepúsculo

sigo a sombra que deixas

no estremecimento da voz que serve de toada.

Injustiças documentadas (657)

Chatear o Camões 

devia ser proibido por lei 

e os mandantes condenados 

a Chagas.

Injustiças documentadas (656)

Ser testa-de-ferro 

deve ser duro.

#4444

À matilha deram corda 

os dentes arregaçados 

puseram os cotovelos à janela.

14.5.26

#4443

Contra os piores prognósticos 

– diziam, 

antes de defenestrar o olhar caído, 

descolonizando-se da angústia.

13.5.26

Luar

Dá de beber ao fogo um fogo outro

os lugares apartados são a âncora das nossas mãos

e das coisas que somos únicos penhores

fabricamos sonhos que não dispensam matéria

sob o luar que em nós se faz carne. 

Injustiças documentadas (655)

Não é a prata da casa; 

é a casa da prata.

#4442

Não é a areia nos olhos 

que magoa 

é a mão que a atira.

12.5.26

Cadastro

Assento os ossos na bacia tumular

onde extraviados se elevam

os expoentes da decadência. 

Se há divórcios sem ónus

o que separa os termos desses próceres

é exemplo que não acaba

pois em acabando torna-se possível

a reconciliação 

que compunha o estulto perdão. 

Vejo 

como desfilam 

imersos num orgulho sem medida

como fingem aos fingimentos de excelência

esgrimindo a mentira como arte do possível

convocando os ingénuos para um altar

disfarçado de abismo

e depois

quando vítimas se encontram

capitulam 

na impossibilidade de reaver o seu eu. 

Vejo 

como se desfazem em elogios próprios

artesãos de uma vaidade por conta do futuro

na admissão sem finitude 

do que à sua volta gravita

vomitando palavras grotescas

mestres de cerimónias no mais pútrido 

dos lugares

onde dançam os frutos por amadurecer

no intencional rapto que devolve ao mundo

a vergonha que não o consome. 

Depois do futuro fica por mostrar 

a candeia que resgata a lucidez

fica à mostra

apenas a carne nua

a convocatória dos espíritos despojados de algemas

eles que recusam 

a assimetria dos déspotas

a aura corrompida dos embaixadores da frivolidade

os antros sinistros que adulteram a gramática

por que respondem as almas despojadas

o livre escrutínio que sujeita

até os que mantêm a usura dos farsantes. 

Corro daqui para longe

mergulho dentro das profundezas 

que em mim habitam

prefiro o desencanto do humilde anonimato

quero que invisível seja o meu rosto

quando se dá às ruas das cidades.

Quanto aos procuradores das banalidades,

os que passeiam o queixo 

garbosamente içado ao alto 

a trinta e cinco graus 

os que obrigam os outros 

a despenharem-se na sua vez

deixo-os a falar sozinhos

do lado de lá desta porta 

que é o meu forte.

Injustiças documentadas (654)

Não leses, 

majestade.

#4441

Inspira 

toda a inspiração 

que o dia pródigo 

te dá em crédito.

11.5.26

Longo prazo (um bardo inconsequente)

Um bardo com sardas assobia ao piano.

Absorto

caminha pelo abismo sem a fita métrica.

Pergunta:

o que é a manhã?

O que podemos fazer 

com o luar extinto?

A música derramada

não ajuda a descobrir uma resposta.

O bardo

vem a descobrir 

que não importa 

descobrir a solução 

para aqueles enigmas, 

são perguntas sem lugar próprio

perguntas órfãs.

O bardo dedilha umas sílabas

talvez dali venha a sair um poema.

E antes um poema 

nem que seja em forma de ensaio

do que respostas categóricas 

a perguntas erradas:

se as segundas são erradas

por mais que sejam 

certezas 

a abençoar as respostas 

as primeiras também estão erradas.

Injustiças documentadas (653)

Ninguém 

no seu imperfeito juízo 

faz os impossíveis 

para cair nas más graças.

#4440

À revelia 

a lucidez compensa

o atrito da loucura.

10.5.26

#4439

A pele em plano máximo 

os poros desenhados à mão 

a pele que respira no desejo.

8.5.26

#4438

Como uma água sem represa 

os dedos selvagens escrevem estrofes 

antes de encontrarem o estuário 

que os torna finitos.

7.5.26

Relógio

O segredo

invade o silêncio

a voz que em mim se agiganta

na noite minha testemunha.

Injustiças documentadas (652)

Dos amigos do alheio 

pode-se dizer 

que são amigos da onça.

 

(Ainda que esteja por determinar 

do que a onça é culpada)

#4437

Estremece o corpo 

no seu sismo interno, 

a redenção é o que procura.

6.5.26

Injustiças documentadas (651)

Escroque monsieur

a desconstrução 

da iguaria local.

Incógnito

As esporas ferradas na pele

mais tarde do que cedo

cicatrizes que deixam a memória 

à mostra.

 

Os dentes puídos 

rebelam-se contra personalidades 

consabidas

um desmatrimónio que tem tudo

mais cedo do que tarde

para se encerrar num êxito.

 

O descampado é testemunha:

mais ninguém está por perto

o que for dito 

fica perdido no vento rasante.

#4436

Uma meda de queixo caído, 

que a espécie é um espanto.