25.3.26

Nuvens escafandro

Sem medo, 

não sei o que é a morte. 

Sem o tempo escasso, 

tenho medo da morte. 

Depois das nuvens escafandro, 

onde tudo perde o sentido 

e os sentidos se exilam no nada, 

as memórias são guardadas em tatuagens 

que ajeitam a pele para a decadência. 

Aviva-se o penhor 

de todo o tempo que é pertença, 

de toda a vida que só pode ser sentida 

se rimar com vertigem. 

Como se houvesse 

apenas

um amanhã a amotinar-se de tanto passado.

#4394

Tudo num sopro

instantâneo

em prazo válido

na virtude do caudal límpido.

24.3.26

Desfeitiço

O endireita azares 

compareceu à faina

ainda com o guardanapo a tiracolo

os beiços com a gordura prova do almoço

pronto a devorar os inocentes candidatos

mesmo a jeito do selo do azar

que ficavam tão bovino naqueles lombos. 

O ferreiro e o almocreve subiram à mesa

mediam 

o estatuto dos notáveis que desfilavam

sem, ó heresia, passadeira carmim,

tao tenros para serem a carne 

para a boca do canhão

e ali jazendo depois

sem misericórdia dos verdugos

que se lambuzavam com a vitória 

cravada nos cascos

a sublime tatuagem

sem a fuligem do tempo que perdeu a memória

para grande lamento da turba que aprendeu

o feitiço dos notáveis. 

Faltaram 

o cangalheiro e o cobrador de fraque,

mas não importava,

as dívidas estavam prescritas

e só faltava esperar pelo espelho dos rostos

a sepultura onde desvivem os párias.

#4393

A luz baça 

que prescreve a noite

é enteada da lucidez.

23.3.26

#4392

Quem quer ser estátua em vida 

pressente a indiferença póstuma.

22.3.26

#4391

O traço fino 

emulsionado pelo dedo firme 

as cores à escolha 

numa paleta de vozes.

21.3.26

#4390

A marcha de horrores 

apalavrada para a sobremesa. 

aos olhos 

não deve ser escondida 

a franqueza que não é fraqueza.

20.3.26

#4389

Dou-te menos de um minuto

para deixares em letra de forma 

o poema que estiver a desinvernar.

19.3.26

Assento circunflexo

Ontem

arrumei as facas no alguidar

e esqueci-me do sangue. 

Desenhei um mapa

à prova de infantes e marialvas

em cima de uma colher de desdém

depois de bebidos três cálices

de impudor. 

Saí

sem medo da rua varrida

sem medo das pessoas

ah! ausentes

e estendi o meu império pelas ruas

desandadas

assim, errante,

gostosamente errante

só a olhar para as palmas das mãos

à procura de oráculo

ou só apenas à procura 

de exílio. 

Disseram-me

tu não sabes nadar nas espadas centrípetas

não sabes nada

de diplomacia

de jardinagem

e dos mistérios conspirativamente imputados

a (um) deus. 

Não importa:

prefiro 

a vertigem do vento que magoa a pele

fazer de detetive 

em demanda de desconhecimento

metendo parafusos nas estrofes 

(assim) abortadas 

precavendo os demónios

impedindo-os de cavalgarem numa aurora pária

para fora de mim. 

Amanhã

vou arrumar o desarrumo de depois de amanhã;

pode ser que o esconjuro

dê juros no passado.

 

Injustiças documentadas (642)

Riscos 

e mal agradecidos.

#4388

Nos bastidores da memória 

joga-se às charadas com o tempo.

18.3.26

É preciso desconfiar dos que desconfiam

Sempre desconfiei

de gente com ideias apessoadas

como se tivessem sido engomadas

pela omissão de perguntas

e por vírgulas mal confecionadas 

– aquela gente de elevado gabarito, 

não menos de dois metros de alto

(para extinguir as dúvidas que haja).

Sempre desconfiei

de amanhãs apreciados

sem se saber (ou desconfiar) 

o que é o amanhã

e de profetas desenganados

peritos 

em lubidriar o próximo e o distante.

Sempre desconfiei

daquelas bocas boçais que desconfiam 

por desconfiar

a armadilham a confiança 

em bolas de estrume disparadas sem critério.

#4387

Um grosso pincel 

caia os corpos. 

O véu da vergonha, 

disfarçado,

cumpre os mínimos 

do fingimento.

17.3.26

Aritmética de salão

Quando se diz

tirei o dia

isso é soma ou subtração?

Injustiças documentadas (641)

A dissolução do (Banco) Espírito Santo,

ninguém me desconvence do contrário,

tem um significado metafísico.

#4386

Levantou-se um calvário tal 

que as bocas emudeceram 

de tanto medo.

16.3.26

Deselogio fúnebre

Não sou a noite que emudece. 

Vale a voz que estilhaça o silêncio

mais alta do que todas as marés tempestuosas. 

Não sou para ser lembrado 

quando não souber

prefiro as manhãs sem calado

as horas contadas ao minuto

a garrafa atirada ao mar entardecido

até que me lembre de mim mesmo

no fim dos tempos.

#4385

A granada

tinha pólvora seca 

e ninguém lamentou a ocorrência.

15.3.26

Injustiças documentadas (640)

Em cadeia.

Encadeia.

Em candeia.

#4384

A porta destravada 

o beijo do alecrim que desorvalha 

a fatia inteira do dia só para mim.

13.3.26

Zambujal

Um malandro

à Zambujal

hoje seria

um assediador.

#4382

Provavelmente

é improvável 

que a probabilidade 

se confirme.

12.3.26

Falésia

Ah, 

estas conspirações da alma

que atam as mãos a altos petroleiros

desensaboam as línguas curtas

enregelando vulcões atados

e na penumbras se esquecem da partida

e não se lembram da chegada. 

Houvesse estrelas decadentes

idades certas para morrer

ou o desmorrer eterno apoiado em canetas

um punhado de folhas amarrotadas

e o sangue em convulsão

situado na ebulição de uma aurora boreal

para então

com o peito virado na nudez

e os estilhaços pendidos na pele trespassada

pudesse esconjurar os nomes

que pútridos descem pela falésia

até serem tão mar quanto o mar imenso

onde se depõem.

#4381

Não esmorece 

o fio precário sobre o horizonte 

o rosto dá-se de frente 

à maré tumultuosa.

11.3.26

#4380

Escolhe a melhor poltrona: 

a decadência que avança 

não merece a tua desatenção.

10.3.26

Juntos

As sílabas colam-se à noite

no pesar dos murmúrios isentos de gramática

esse rumor que se cola ao ouvido

e coloniza a vontade. 

Sei que juntos somos a grandeza

que não consegue a soma das partes. 

Sei que os nossos olhos fechados

chegam ao magma fundo onde ninguém vê. 

Os beijos que ciciam as estrofes sem medo

sabem de cor a tua silhueta

podiam desenhar uma carta topográfica

com os pormenores dos teus poros. 

Imagino 

o santuário que abriga o juntos que somos

juntos como se fôssemos siameses

e o meu sangue soubesse de cor

os versos em que te ergues. 

Imagino

a maresia do teu corpo

espanejando o cofre fraco

que esconde os nossos rostos fortes. 

E sei

que não há tempestades que falem mais alto

ou marés sublevadas no bojo do inverno

que separem esta nossa carne

do uníssono contínuo. 

Injustiças documentadas (639)

Às vezes 

que não são tão poucas

o saco deve 

mesmo 

estar roto.

#4379

A pólvora seca 

seca a pólvora 

assim emudecida.

9.3.26

#4378

Tosse os lugares-comuns 

torna-te

(dizê-lo não magoa) 

banal

sai de cena 

coberto pela vulgaridade 

– do par de lustros 

que foste representação.

#4377

Um filósofo 

por ser burguês 

despensa?