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by stealth.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Cocteau Twins, “These Eyes That Mouth”, in https://www.youtube.com/watch?v=s9yhVY2RCsk
Somos
todo o chão demandado
o postal das milhas averbadas
as palavras tecidas em estrofes
o corpo-cais onde desce a âncora
sentinelas sem gasto
a alvorada que guarda os segredos
a pele que segrega os olhares escondidos
somos nós
no esplendor que não mede palavras.
Desconversamos
furtivos atrás dos descamisados
entretidos com os verbos emparedados
nesse palco nosso em que capitulamos.
Nos nós gastos enganamos
os velhos desarmados
presos nos estertores desalmados
sem temor dos sismos não abanamos.
Na má matemática calculámos
os números mal artilhados
os versos depois conspirados
que em tempo algum armámos.
É ao luar quimera que nos damos
artesãos dos incríveis achados
arquitetos a cargo dos poemas suados
na empreitada pueril que aproveitamos.
Não tenho pressa.
Não.
Tenho pressa.
Não tenho.
Pressa.
Pressa não tenho.
Não tenho
Pressa não.
Não.
Não tenho pressa
de fazer a autobiografia.
De fazer.
Pressa.
A autobiografia.
Não a autobiografia.
Pressa.
Não.
Mordo sem medo
nos mastins que desassossegam os justos
na audácia louca de quem estrangula
os torcionários.
A boca fardada evita os suores noturnos.
Lá fora
pássaros noctívagos grasnam
um protesto que alivia a solidão
ou apenas
o parco mantimento a festejar ilusões.
Agora é o sibilar do vento
arrancado às folhas das árvores vizinhas
outro idioma que se amotina
contra o silêncio de pedra.
Nunca soube o que era ter medo do silêncio.
Madrugava
a horas nos outros visitadas pelo sono
pressentia que o corpo suplicava
o som líquido e lúcido do silêncio,
nem gente nos corredores
a suar impaciência
nem cães raçudos
a (pretenderem) anexar pernas
com a sua mandíbula
ou demónios disfarçados
a contrariar o regresso a casa,
só o dom do silêncio,
só o som de que me agencio.
Deito ao peito as palavras amanhecidas
como forno onde fermentam os verbos
e os candeeiros acendem quando sou
penumbra.
The sea is like sargassum
melting the bones that care
for the light to come.
Yet, clocks disdain hope.
An overrated device shambles in waves,
wiping away self-sustained sorrow.
The clock is still there,
so dull.
We are imprisoned
by the farce that fades words away.
No shall we dance in the foggy night.
No say we to the thrilling moonlight.
Cast away the sorrow
hollowing out the void inside.
Dismantled words
brush into the thin light
that unfolds from merciless houses.
No wonder we are strangers to each other.
Oh! should we look in the eyes
instead of running away;
should we avoid mounting voices
that shelter the seeds of apocalypses,
playing the trustee of mankind.
As if
gold were removed from the words we say,
deleveraging the deeds
of massive, yet uncommitted aspirations.
Oh!
if at least we stopped running from ourselves,
if flagships arose in the midst of fierce seas,
seats from which
we start would uncover the best of us.
Lá vai ele todo ledo
confiança é o que exsuda
exacerbada estima própria a tiracolo
na proverbial vereda para
o desastre.
O mar esconde naufrágios.
De nós
os pesadelos opostos
sem a usura das ondas delituosas
a manhã silenciosa
onde de mãos dadas
memorizamos o mar como idioma.
Fogem amiúde da felicidade
os indigentes que penhoram as almas
contra nadas culpados.
Nós
que deleitosamente rumamos contra marés
descobrimos o sentido
da felicidade.
Um caso raro
as cordas de violinos por aparecer
todos em apneia
não se sabe
se à espera da derrocada
ou de um milagre divinamente abençoado.
Um ocaso raro
sem ser eclipse
ou comboio sem atraso:
as horas pregaram uma partida
e não dei conta
do entardecer que se anunciava.
Agora
sou crepúsculo
refém dos semióticos fantasmas
que alardeiam as desfigurações da gramática.
O entardecer baço
agiganta o sol acobreado.
As vozes murmuram verbos em combustão.
Prometem as candeias que escondem
a escuridão da noite.
Prometem os campos que se dão às flores,
um poema arrancado ao sangue telúrico.
Hoje sou a janela por onde respiras.
Amanhã
serás a fogueira onde esqueço o medo.
Um provérbio arrancado a ferros
o alumínio vertido na alvorada
o peito forte que abraça contratempos.
Falam por mim
as folhas caducas
a alma de outubro
os versos de jasmim
com sílabas loucas
seu diletante membro.
Neste simbólico marfim
fortuna sem passar das marcas
no sonho que cobro
feitor deste festim
dirijo as miríficas barcas
trago o amor em dobro.