18.10.26

#4584

Sentinela em causa própria 

bebe no luar 

o anestésico velado. 

17.10.26

Quem quer uma autobiografia?

Não tenho pressa. 

Não. 

Tenho pressa. 

Não tenho. 

Pressa. 

Pressa não tenho. 

Não tenho

Pressa não. 

Não. 

Não tenho pressa

de fazer a autobiografia. 

De fazer. 

Pressa. 

A autobiografia. 

Não a autobiografia. 

Pressa. 

Não.

Injustiças documentadas (696)

Não se assarapantem: 

o elefante

não cabe na sala.

#4583

Mordo sem medo 

nos mastins que desassossegam os justos

na audácia louca de quem estrangula 

os torcionários.

16.10.26

Injustiças documentadas (695)

Estar às moscas, 

a incisiva peçonha das ditas cujas.

#4582

Conto este conto 

por conta das contas 

que conto não contar.

15.10.26

Sou penumbra

A boca fardada evita os suores noturnos. 

Lá fora

pássaros noctívagos grasnam

um protesto que alivia a solidão

ou apenas

o parco mantimento a festejar ilusões. 

Agora é o sibilar do vento

arrancado às folhas das árvores vizinhas

outro idioma que se amotina 

contra o silêncio de pedra. 

Nunca soube o que era ter medo do silêncio. 

Madrugava 

a horas nos outros visitadas pelo sono

pressentia que o corpo suplicava

o som líquido e lúcido do silêncio,

nem gente nos corredores 

a suar impaciência

nem cães raçudos 

a (pretenderem) anexar pernas 

com a sua mandíbula

ou demónios disfarçados 

a contrariar o regresso a casa,

só o dom do silêncio,

só o som de que me agencio. 

Deito ao peito as palavras amanhecidas

como forno onde fermentam os verbos

e os candeeiros acendem quando sou 

penumbra.

#4581

Do saque inteiro

os despojos ao deus-dará 

e nós, inteiramente usurários.

14.10.26

Exodus

The sea is like sargassum 

melting the bones that care 

for the light to come. 

Yet, clocks disdain hope. 

An overrated device shambles in waves, 

wiping away self-sustained sorrow. 

The clock is still there, 

so dull. 

We are imprisoned 

by the farce that fades words away. 

No shall we dance in the foggy night. 

No say we to the thrilling moonlight. 

Cast away the sorrow 

hollowing out the void inside. 

Dismantled words 

brush into the thin light 

that unfolds from merciless houses. 

No wonder we are strangers to each other. 

Oh! should we look in the eyes 

instead of running away; 

should we avoid mounting voices 

that shelter the seeds of apocalypses, 

playing the trustee of mankind. 

As if 

gold were removed from the words we say, 

deleveraging the deeds 

of massive, yet uncommitted aspirations. 

Oh!

if at least we stopped running from ourselves, 

if flagships arose in the midst of fierce seas, 

seats from which 

we start would uncover the best of us.

#4580

Lá vai ele todo ledo

confiança é o que exsuda

exacerbada estima própria a tiracolo

na proverbial vereda para

o desastre.

13.10.26

O mar esconde naufrágios

O mar esconde naufrágios.

 

De nós 

os pesadelos opostos

sem a usura das ondas delituosas

a manhã silenciosa 

onde de mãos dadas

memorizamos o mar como idioma. 

 

Fogem amiúde da felicidade

os indigentes que penhoram as almas

contra nadas culpados.

 

Nós

que deleitosamente rumamos contra marés

descobrimos o sentido 

da felicidade.

#4579

Desbotado 

o dia não lamenta os lamentos 

que seriam a sua contrafação.

12.10.26

#4578

Desapertado o arnês 

cumpre-se 

o abismo sintomático.

11.10.26

#4577

Desço o sol poente 

arrisco a ser cadente.

10.10.26

#4576

É audaz 

ser a favor 

da paz.

9.10.26

Injustiças documentadas (694)

Vistas 

as forças vivas

viva 

as forças mortas.

#4575

Trocado por miudezas 

o verso escondia da noite 

os sentidos vagos.

8.10.26

Ocaso raro (crepúsculo eu)

Um caso raro

as cordas de violinos por aparecer

todos em apneia

não se sabe

se à espera da derrocada

ou de um milagre divinamente abençoado. 

 

Um ocaso raro

sem ser eclipse

ou comboio sem atraso:

as horas pregaram uma partida

e não dei conta

do entardecer que se anunciava. 

 

Agora

sou crepúsculo

refém dos semióticos fantasmas

que alardeiam as desfigurações da gramática. 

#4574

A alcateia pronuncia-se: 

ouvem-se 

em pano de fundo 

os uivos concertados.

7.10.26

Vocação

O entardecer baço 

agiganta o sol acobreado. 

As vozes murmuram verbos em combustão. 

Prometem as candeias que escondem 

a escuridão da noite. 

Prometem os campos que se dão às flores, 

um poema arrancado ao sangue telúrico. 

Hoje sou a janela por onde respiras. 

Amanhã 

serás a fogueira onde esqueço o medo.

#4573

Um provérbio arrancado a ferros

o alumínio vertido na alvorada

o peito forte que abraça contratempos.

6.10.26

#4572

O postiço 

não deixa de ser autêntico 

só o postiço que passa por postiço 

é que me encarniça.

2.10.26

#4571

Estipêndio falso 

o elogio em forma de farsa; 

uma espécie

de vaidade venenosa.

1.10.26

A alma de outubro

Falam por mim

as folhas caducas

a alma de outubro

os versos de jasmim

com sílabas loucas

seu diletante membro. 

 

Neste simbólico marfim

fortuna sem passar das marcas

no sonho que cobro

feitor deste festim

dirijo as miríficas barcas

trago o amor em dobro. 

#4570

Escorre a vanidade disfarçada de fausto, 

um admirável retrato do tempo.

30.9.26

#4569

O ânimo 

em dose moderada 

pesa no sangue viável.

29.9.26

Ressonância

 Empurro com um dedo hesitante

a matéria pútrida do dia. 

Os velhos descem a rua da estação

calados 

como se do silêncio fosse o tempo havido. 

Mordem os lábios

a corpulência do passado 

investida nas mandíbulas fortes

dizem que se forem viúvos

pouco é o futuro que os espera. 

No labirinto aberto em forma de flor

as paredes intrínsecas formam a gramática

o desenho inválido em janelas torpes

consumindo a atenção 

vertendo sobre o chão desarrumado

uma dor todavia não excessiva

um quanto baste para se saber

(ou não de esquecer)

o paradeiro da dor. 

A luz domina o céu esbranquiçado

como se uma insólita aurora boreal

tivesse ditado os seus termos

e no terminal estatuto 

se despedisse como legado para o mundo. 

As mãos desatadas reaprendem a ler

resplandecem 

ao saberem que os demónios

não deixaram de fazer prova de vida. 

Astutos

sem desconfiar a não ser da desconfiança

empunhando as espadas rombas

um distante destroço das ovações sonhadas:

e o definhar constante

fazendo notar 

que as prescrições avivam o tempo

ou a forma torturante que tem

destina-se às elegias proverbiais

a menos que proibidas sejam

emitidas por solenes meios

para não ficarem

deixadas em ata

dúvidas. 

#4568

Pusilânime,

colonizou o público espaço

os seus curadores cúmplices

de uma certa desideia comum. 

28.9.26

Rebeldia de trazer por causa e a ilusão das coisas fátuas

Umas voltas à toa

imprevisíveis

o ânimo dos dias desiguais

e tudo se recompõe

na rotina centrípeta

nem que pelo pelo do fingimento

seja selada uma rebeldia 

em forma de farsa.

 

Não interessa a cor dos dias

nem que entrega é a nossa;

o que importa

é o somar dos dias numa soma contínua

e esconjurar

com o medo admitido da morte

a finitude do tempo.

#4567

Atirado às cordas 

em minha defesa disse: 

se da culpa cumpro a redenção 

não lhe viro, então, a cara.