Tomas partido
e esperas
que o partido não te tome.
[Sobre a democracia adulterada]
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Um satélite despenteado
dava cambalhotas na órbita;
cá em baixo todos se portavam
como os gauleses de Asterix.
Um sopro inclinado
os dedos entrecruzados
os olhos desembaciados:
doravante
fingirá que está de atalaia
ao mundo que precisa de atenção.
Desencontro a luz,
refém do crepúsculo,
e descubro
que é fácil a visão
quando a luz foi abandonada.
Uma pessoa de esquerda
pode ser
às direitas.
[A maldita semântica oficial,
que é politicamente enviesada]
O que acaba pendente
na borda do prato
é a lisura do que tem serventia
mas só pode chegar
depois.
Podiam inventar
uma prevenção rodoviária portuguesa
a favor do idioma
não há ninguém
que sofra tantos atropelos
trezentos e sessenta e cinco dias no ano.
Tirando as vírgulas em excesso
e as águas tépidas servidas ao desbarato
quando o termómetro mordia a mais de trinta
não tinha nada a dizer
e o livro de reclamações não veio a propósito.
Dizias:
há matéria-prima que mais parece
matéria-tia
e eu perguntei se tinha algo a ver
com a linha de Cascais
ao que redarguiste
com voz surpreendida
que não alcançavas a distinção.
Num dia de estio desacertado
em que as moscas perdem a timidez
e pesam mais do que a sombra acalorada
o raciocínio derrete no horizonte distorcido
ou era eu que estava a ser assaltado por um pesadelo
e não dei conta.
Peso o peso
antes de ser do peso refém
e da dieta súbdito.
[Modernidades que placam a autonomia individual]
A terra cicatrizada que me devolve a manhã
subleva-se em marés iracundas e sucessivas
no hastear dos versos lídimos
arrebatados por um clarão iridiscente.
Os destroços deitados na estrada
enquanto são removidos de o serem
são o rosto da devastação;
antes fossem uma nota de rodapé
no atlas aberto que abraça o tempo inteiro.
A terra tem cicatrizes
eternas
oxalá pudessem ser uma mnemónica
a bandeira sem paradeiro certo
o hino cantado
por todos os idiomas.