19.9.26

#4558

Atordoado pelo mundo torrencial 

fugi para dentro das páginas avulsas: 

o acaso corrompe a tirania do caos.

18.9.26

#4557

O progresso é analítico, 

dizias,

e eu acrescentava:

depende da perícia da chuva.

17.9.26

LVIII

Cortejo o cepo meado

entre a ramagem rala

no provérbio do Verão. 

Desencontro-me das horas arredias

o mosto válido segundo os anciãos

as mãos dançantes perseguindo a luz

enquanto o corpo desalinha do dia terminal. 

A pele angorá suplica pela chuva promitente

no acaso do nada

no vão, insensato lugar de tudo

e as estrofes que assinam as paredes

não procuram encómios

contentam-se modestamente

com o vulcão aqui,

uma lua grávida ali

a voz desenganada 

que corre em contrabando

sugando os segundos inteiros

gulosamente. 

Não quero que me digam

quem sou

o que sou

o que de mim dou

por dourado que seja o nome outorgado;

 

atravesso 

os dedos à frente do olhar

conspirando

conspirando as estrénuas conspirações

aquelas que procuram chão para desandar

e as outras

uma maçada em estado bruto. 

Animado pelo estado solar

engano o desestofo enquistado

enquanto deixo que ao sol subam mil luares

e tudo se confunde na lucidez estimada. 

Só os acossados pela turbulência interior

desconfiam dos verbos embelezados

só eles 

é que esqueceram os livros

num paradeiro sem lugar

ou num lugar sem paradeiro

onde os nomes perdem saber

e os saberes disfarçam-se de futuro. 

 

Ah

oxalá os termos fossem diferentes

outras as regras

oh nenhumas até

para depois do sonho 

todas as quimeras serem depostas

no chão que te vê passar

e eu

ao longe

tão longe sem saber onde estou

testemunha fosse 

do teu airoso viver.

#4556

Não és tu que prescreves; 

é o tempo que fica para trás.

16.9.26

#4555

Às vezes 

desafiar o dia

é como montar um adamastor.

15.9.26

O silêncio é um direito constitucional

Um suspiro como vírgula

desnorteia o silêncio embuçado. 

Já de longe 

se ensina:

os sinais ortográficos podem ser

a matéria gestual colhida 

ao acaso. 

As almofadas 

também podem calar as palavras

impor-lhes um silêncio envergonhado

e todavia terrífico:

a matéria lacustre exibe as águas paradas

a metáfora pantanal 

para o silencio arrancado a ferros,

uma tortura inimaginada 

até por adestrados algozes. 

Eu mantenho

que não há tortura pior 

do que palavras a eito

como se estivessem no cio adolescente

sem o tempero da moderação

tumultuosamente gongóricas

rasgando paisagens 

como se de papel fossem feitas

atraiçoando o sono translúcido

que fica refém das palavras a destempo

das palavras marcadas a fogo 

na pele desajeitada. 

Até que o direito ao silêncio

não seja uma impostura

ou o caldo untuoso 

onde acasalam os misantropos

e de constitucional abrigo seja credor.

#4554

Morde a sílaba distraída 

antes que o verso se amotine.

14.9.26

O norte do norte

Nosso é o desejo que fazemos com que acorde imperador. Acordamos os vulcões adormecidos na terra de fogo domada com o gelo inventado com as mãos diligentes. Recebemos flores enquanto o mar murmura o medo que desmaia nas areias pretas. Nosso é o idioma próprio que esconde os segredos para não deixarem de ser segredos.

 

[Concerto de Sigur Rós, Coliseu do Porto, 13.09.26]

#4553

Uma onda 

depois outra 

a maré inteira, 

antes que mudada seja 

a página diante.

13.9.26

#4552

Indulto o futuro 

no verso 

que anestesia o olhar.

12.9.26

#4551

Sou 

o meu próprio legado 

a forma do nada 

dissolvido no vento tardio.

11.9.26

Injustiças documentadas (693)

De: noite

Para: dia:

Aparece

e cresce.

#4550

O poeta 

é o dandy

das palavras.

10.9.26

Injustiças documentadas (692)

Ora, 

a que horas oras

por ora

que não é a desoras.

#4549

Um cacho de gente 

ao longe 

só anónimos

e eu aqui 

exilado.

9.9.26

Injustiças documentadas (691)

A voz viva

de viva-voz 

dos por enquanto 

avós.

#4548

Sobre o peso extinto da noite 

a boca amaldiçoa os estertores 

que enfeitiçam o ar do tempo.

8.9.26

Corrosão, pela certa

Tiravas o som à televisão

e na mímica que sobrava

encontravas um medo maior:

 

não são meigos os silêncios

e até os ventríloquos

os sindicalistas em nome alheio

precisam de som

para não serem convencidos da nudez. 

 

O pior

é que poucos se esmeram

na arte de ler os lábios. 

 

Os silêncios eletrocutados

podem querer dizer coisas diversas

e pior do que a mudez

é não saber seguir 

pela linha acertada. 

#4547

O estaleiro,

povoado no presente pelo desalento, 

é a dor de parto 

para uma ordem vindoura.

7.9.26

Cão que morde não ladra

Do lugar da roupa suja

onde os urgentes demandam detergente

os dentes subidos safram os dias indigentes

e nem o cloro salva a água de ser assaltante

os dedos consumidos no xisto

onde se amanha a impaciência. 

 

Dei ao lugar

a indiferença capaz

e de dentro vieram, embuçados,

tiranetes avulsos em contramão

bolçando impropérios e outras platitudes. 

 

Confrontei-os 

com o detergente em emulsão

e eles

não querendo aparentar fraca parte

encheram de ar o peito

e avançaram. 

 

Um singelo terçar dos dedos

contra tanta ufania

chegou

para os deixar sombriamente gastos

a contagem no chão os seus próprios despojos

só para efeitos contabilísticos

e etc.

#4546

A dúvida perpétua 

não é dúvida metódica; 

é desconfiança cultivada.

6.9.26

#4545

Dobro 

a metade em que se mutilas 

a aritmética deixa de molho 

o rosto original 

o mosto fundacional.

5.9.26

#4544

Não digam do cavalo de Troia 

que não é ardil engenhoso, 

o combustível dos astutos.

4.9.26

#4543

O passado encerra-se

numa fábula sem heróis.

3.9.26

Injustiças documentadas (690)

Sou levado a desconfiar 

que ser amigo do alheio é, 

literalmente,

de uma generosidade desarmante.

Injustiças documentadas (689)

E se não houver 

cepa direita?

#4542

Fiz da farsa o alibi 

escrevi em entrelinhas 

palavras amarrotadas pelo silêncio.

2.9.26

#4541

Bons os modos de saber 

na paga da curiosidade salubre

nas páginas e páginas descascadas. 

1.9.26

To whom it might concern

Aninho as víboras certeiras

no cobertor puído 

das horas incertas. 

 

As cores esbatidas

perfumam as cotovias em espera

e os velhos inventariados em públicos jardins

amotinam-se num silêncio jazente

como se eclipsassem o tempo

e dessem às gerações vindouras

a generosidade maior do tempo 

em suspensão. 

 

Arrumada a noite no provérbio latejante

só ficam em pé os verbos teimosos,

a obstinação 

(diz-se) 

é o melhor remédio

contra o torpor. 

#4540

De trás para a frente 

o passo passa a certo

à mercê 

do baço fingimento.