16.2.26

Tômbola

Por todo o lado

estão

os sorrisos postiços

as paredes rombas

os pássaros a prazo

os parágrafos a destempo

o zimbório desguarnecido

as viúvas pretéritas

os godos alisados pela angústia

os baraços que atam o futuro

navios enferrujados não naufragáveis

a madeira decomposta

os fardos com listas de medo

os rapazes que fruem as horas vagas

os marinheiros saltimbancos

bêbados pela manhã

as horas perdidas no suor da noite

os pesadelos

os pesadelos como ciprestes

rompendo o céu sem aviso

estão

por todo o lado

e sem mapa nenhum.

#4353

Fundas 

as palavras viscerais 

não se escondem 

do medo limítrofe.

15.2.26

#4352

Maltrata o trato 

despreza os códigos 

não se admire 

que fale 

ainda mais alto 

a reciprocidade.

14.2.26

Injustiças documentadas (636)

Pecado, 

capital.

#4351

À razão de um dente por mentira 

tantos são os que estão em dívida 

de um punhado de dentaduras.

13.2.26

Injustiças documentadas (635)

Paninhos quentes 

só têm serventia 

no inverno.

#4350

As cores 

abandonam a fala, 

é como se tivesse sido 

descafeinada.

12.2.26

#4349

As profecias 

são os impérios 

encomendados 

pelos farsantes.

11.2.26

#4348

Colam-se 

como barro pegajoso 

aquelas palavras 

que assassinam o idioma:

 

expectável, impactante, resiliente,

narrativa.

10.2.26

Dizia do bem que bem está

Desconfio

que as guilhotinas arrefecem

com as vozes que amadurecem

à medida da ira dos tempos. 

 

De todos os ontem sem saída

emancipou-se um estuário de estrofes

o grande manifesto 

onde cabem os manifestos avulsos

o músculo que se sobrepõe à força,

até os que se embriagaram com poder

sabem que o medo não escolhe vítimas. 

 

Do miradouro onde se esconde o passado

vejo as milhas à distância do horizonte

e guardo as perguntas que fugiram dos fantasmas

guardo-as 

como o maior tesouro

apalavrado nas minhas mãos.

#4347

Ao longe 

o mar conspira as marés hediondas,

o selo das tempestades consecutivas.

9.2.26

Injustiças documentadas (634)

Ninguém gosta 

de pôr o dedo na ferida

se a ferida 

é um viveiro de coisas infectas.

#4346

Deita-se o leite no ouro

e o mel no azul

e (quase) todos dormem serenos.

 

[Ressaca pós-eleitoral, take 11]

8.2.26

Injustiças documentadas (633)

É reunião 

mesmo quando é

pela primeira vez?

#4345

A rua 

deixa a noite bruxuleante 

enquanto encomenda os olhos 

ao sono.

7.2.26

#4344

O poeta hesita 

quer a palavra 

embrulhada 

num átomo de fragilidade.

6.2.26

Saúdinha

Benzida saudade

porque o povo diz

“saúdinha”

enquanto se saúda a bonança

nem que seja fingida

entre os braços dilacerados

que se prestam ao silêncio

à medida que a dor morde até ao osso.

Saudade,

saudadinha,

que dantes é que havia saúdinha

e se sabia como saudar

sem saudade

a saúde suada.

#4343

Faz antes a boca postiça 

a mentira cai-te 

como luva à medida da sua mão.

5.2.26

#4342

Não coabites 

as feridas abertas 

que dormem 

no caudal da angústia.

4.2.26

Injustiças documentadas (632)

Discover no less 

of what lies in 

a non-educated guess.

Injustiças documentadas (631)

O pano de fundo 

escolhe a marca de água.

#4341

O salto no precipício 

contra o medo colossal 

a veia devolvida 

na vertigem de quem o afronta.

3.2.26

#4340

Em contrarrelógio 

à medida do suicídio do tempo 

reis que somos das cicatrizes por fechar.

2.2.26

#4339

Perco a conta das palavras, 

concorrentes a arrancar 

a palidez de uma página.

1.2.26

#4338

Se a alma tivesse arestas 

as palavras não tinham pontuação.

31.1.26

#4337

A não parcimoniosa prosa 

diletante elegia a destempo

confunde de tão gongórica 

– é como se alguém falasse 

apenas para os seus ouvidos.

30.1.26

Injustiças documentadas (630)

O Leitão Amaro 

é uma mazela. 

#4336

A fúria 

não tem 

lugar nem hora, 

só vítimas ao acaso.

 

[Destroços poéticos da tempestade Kristin]

29.1.26

#4335

Podiam extinguir as vírgulas,

que elas dão tanto trabalho

(e tantas vergonhas deixam a nu).

#4334

Primeira volta 

segunda volta, 

já dizia Tom Waits 

a melhor cura para a ressaca 

é a bebedeira.

 

[Ressaca eleitoral, take 10]