20.10.26

Vulcânico

Cocteau Twins, “These Eyes That Mouth”, in https://www.youtube.com/watch?v=s9yhVY2RCsk



Somos 

todo o chão demandado

o postal das milhas averbadas

as palavras tecidas em estrofes

o corpo-cais onde desce a âncora

sentinelas sem gasto

a alvorada que guarda os segredos

a pele que segrega os olhares escondidos

somos nós

no esplendor que não mede palavras.

Físico-química

Desconversamos

furtivos atrás dos descamisados

entretidos com os verbos emparedados

nesse palco nosso em que capitulamos. 

 

Nos nós gastos enganamos

os velhos desarmados 

presos nos estertores desalmados

sem temor dos sismos não abanamos. 

 

Na má matemática calculámos

os números mal artilhados 

os versos depois conspirados

que em tempo algum armámos. 

 

É ao luar quimera que nos damos

artesãos dos incríveis achados

arquitetos a cargo dos poemas suados

na empreitada pueril que aproveitamos.

#4586

A cidade em polvorosa 

a liberdade sequestrada 

rebeldes amotinados

num oxímoro de legitimidade.

19.10.26

#4585

Minhas são as alogias 

o irrenunciável direito a cometê-las 

e de prestar contas à consciência.

18.10.26

#4584

Sentinela em causa própria 

bebe no luar 

o anestésico velado. 

17.10.26

Quem quer uma autobiografia?

Não tenho pressa. 

Não. 

Tenho pressa. 

Não tenho. 

Pressa. 

Pressa não tenho. 

Não tenho

Pressa não. 

Não. 

Não tenho pressa

de fazer a autobiografia. 

De fazer. 

Pressa. 

A autobiografia. 

Não a autobiografia. 

Pressa. 

Não.

Injustiças documentadas (696)

Não se assarapantem: 

o elefante

não cabe na sala.

#4583

Mordo sem medo 

nos mastins que desassossegam os justos

na audácia louca de quem estrangula 

os torcionários.

16.10.26

Injustiças documentadas (695)

Estar às moscas, 

a incisiva peçonha das ditas cujas.

#4582

Conto este conto 

por conta das contas 

que conto não contar.

15.10.26

Sou penumbra

A boca fardada evita os suores noturnos. 

Lá fora

pássaros noctívagos grasnam

um protesto que alivia a solidão

ou apenas

o parco mantimento a festejar ilusões. 

Agora é o sibilar do vento

arrancado às folhas das árvores vizinhas

outro idioma que se amotina 

contra o silêncio de pedra. 

Nunca soube o que era ter medo do silêncio. 

Madrugava 

a horas nos outros visitadas pelo sono

pressentia que o corpo suplicava

o som líquido e lúcido do silêncio,

nem gente nos corredores 

a suar impaciência

nem cães raçudos 

a (pretenderem) anexar pernas 

com a sua mandíbula

ou demónios disfarçados 

a contrariar o regresso a casa,

só o dom do silêncio,

só o som de que me agencio. 

Deito ao peito as palavras amanhecidas

como forno onde fermentam os verbos

e os candeeiros acendem quando sou 

penumbra.

#4581

Do saque inteiro

os despojos ao deus-dará 

e nós, inteiramente usurários.

14.10.26

Exodus

The sea is like sargassum 

melting the bones that care 

for the light to come. 

Yet, clocks disdain hope. 

An overrated device shambles in waves, 

wiping away self-sustained sorrow. 

The clock is still there, 

so dull. 

We are imprisoned 

by the farce that fades words away. 

No shall we dance in the foggy night. 

No say we to the thrilling moonlight. 

Cast away the sorrow 

hollowing out the void inside. 

Dismantled words 

brush into the thin light 

that unfolds from merciless houses. 

No wonder we are strangers to each other. 

Oh! should we look in the eyes 

instead of running away; 

should we avoid mounting voices 

that shelter the seeds of apocalypses, 

playing the trustee of mankind. 

As if 

gold were removed from the words we say, 

deleveraging the deeds 

of massive, yet uncommitted aspirations. 

Oh!

if at least we stopped running from ourselves, 

if flagships arose in the midst of fierce seas, 

seats from which 

we start would uncover the best of us.

#4580

Lá vai ele todo ledo

confiança é o que exsuda

exacerbada estima própria a tiracolo

na proverbial vereda para

o desastre.

13.10.26

O mar esconde naufrágios

O mar esconde naufrágios.

 

De nós 

os pesadelos opostos

sem a usura das ondas delituosas

a manhã silenciosa 

onde de mãos dadas

memorizamos o mar como idioma. 

 

Fogem amiúde da felicidade

os indigentes que penhoram as almas

contra nadas culpados.

 

Nós

que deleitosamente rumamos contra marés

descobrimos o sentido 

da felicidade.

#4579

Desbotado 

o dia não lamenta os lamentos 

que seriam a sua contrafação.

12.10.26

#4578

Desapertado o arnês 

cumpre-se 

o abismo sintomático.

11.10.26

#4577

Desço o sol poente 

arrisco a ser cadente.

10.10.26

#4576

É audaz 

ser a favor 

da paz.

9.10.26

Injustiças documentadas (694)

Vistas 

as forças vivas

viva 

as forças mortas.

#4575

Trocado por miudezas 

o verso escondia da noite 

os sentidos vagos.

8.10.26

Ocaso raro (crepúsculo eu)

Um caso raro

as cordas de violinos por aparecer

todos em apneia

não se sabe

se à espera da derrocada

ou de um milagre divinamente abençoado. 

 

Um ocaso raro

sem ser eclipse

ou comboio sem atraso:

as horas pregaram uma partida

e não dei conta

do entardecer que se anunciava. 

 

Agora

sou crepúsculo

refém dos semióticos fantasmas

que alardeiam as desfigurações da gramática. 

#4574

A alcateia pronuncia-se: 

ouvem-se 

em pano de fundo 

os uivos concertados.

7.10.26

Vocação

O entardecer baço 

agiganta o sol acobreado. 

As vozes murmuram verbos em combustão. 

Prometem as candeias que escondem 

a escuridão da noite. 

Prometem os campos que se dão às flores, 

um poema arrancado ao sangue telúrico. 

Hoje sou a janela por onde respiras. 

Amanhã 

serás a fogueira onde esqueço o medo.

#4573

Um provérbio arrancado a ferros

o alumínio vertido na alvorada

o peito forte que abraça contratempos.

6.10.26

#4572

O postiço 

não deixa de ser autêntico 

só o postiço que passa por postiço 

é que me encarniça.

2.10.26

#4571

Estipêndio falso 

o elogio em forma de farsa; 

uma espécie

de vaidade venenosa.

1.10.26

A alma de outubro

Falam por mim

as folhas caducas

a alma de outubro

os versos de jasmim

com sílabas loucas

seu diletante membro. 

 

Neste simbólico marfim

fortuna sem passar das marcas

no sonho que cobro

feitor deste festim

dirijo as miríficas barcas

trago o amor em dobro. 

#4570

Escorre a vanidade disfarçada de fausto, 

um admirável retrato do tempo.

30.9.26

#4569

O ânimo 

em dose moderada 

pesa no sangue viável.