9.2.26

Injustiças documentadas (634)

Ninguém gosta 

de pôr o dedo na ferida

se a ferida 

é um viveiro de coisas infectas.

#4346

Deita-se o leite no ouro

e o mel no azul

e (quase) todos dormem serenos.

 

[Ressaca pós-eleitoral, take 11]

8.2.26

Injustiças documentadas (633)

É reunião 

mesmo quando é

pela primeira vez?

#4345

A rua 

deixa a noite bruxuleante 

enquanto encomenda os olhos 

ao sono.

7.2.26

#4344

O poeta hesita 

quer a palavra 

embrulhada 

num átomo de fragilidade.

6.2.26

Saúdinha

Benzida saudade

porque o povo diz

“saúdinha”

enquanto se saúda a bonança

nem que seja fingida

entre os braços dilacerados

que se prestam ao silêncio

à medida que a dor morde até ao osso.

Saudade,

saudadinha,

que dantes é que havia saúdinha

e se sabia como saudar

sem saudade

a saúde suada.

#4343

Faz antes a boca postiça 

a mentira cai-te 

como luva à medida da sua mão.

5.2.26

#4342

Não coabites 

as feridas abertas 

que dormem 

no caudal da angústia.

4.2.26

Injustiças documentadas (632)

Discover no less 

of what lies in 

a non-educated guess.

Injustiças documentadas (631)

O pano de fundo 

escolhe a marca de água.

#4341

O salto no precipício 

contra o medo colossal 

a veia devolvida 

na vertigem de quem o afronta.

3.2.26

#4340

Em contrarrelógio 

à medida do suicídio do tempo 

reis que somos das cicatrizes por fechar.

2.2.26

#4339

Perco a conta das palavras, 

concorrentes a arrancar 

a palidez de uma página.

1.2.26

#4338

Se a alma tivesse arestas 

as palavras não tinham pontuação.

31.1.26

#4337

A não parcimoniosa prosa 

diletante elegia a destempo

confunde de tão gongórica 

– é como se alguém falasse 

apenas para os seus ouvidos.

30.1.26

Injustiças documentadas (630)

O Leitão Amaro 

é uma mazela. 

#4336

A fúria 

não tem 

lugar nem hora, 

só vítimas ao acaso.

 

[Destroços poéticos da tempestade Kristin]

29.1.26

#4335

Podiam extinguir as vírgulas,

que elas dão tanto trabalho

(e tantas vergonhas deixam a nu).

#4334

Primeira volta 

segunda volta, 

já dizia Tom Waits 

a melhor cura para a ressaca 

é a bebedeira.

 

[Ressaca eleitoral, take 10]

28.1.26

A glória perdeu a glória

A glória à solta 

sem freio

livre

e ninguém a apanha.

 

Sinal dos tempos 

– lamenta o idoso 

com morada no Restelo

(lá para os lados

do ministério da defesa).

 

Já não é como dantes 

– fez coro

o odioso mais amado

ajudando-se um ao outro

a conservar a poeira

que enfeita as fatiotas.

 

Dantes

(lá está)

a glória valia mais 

do que o ouro

e as especiarias das colónias.

 

Agora

o ouro está entesourado

a crescer de valor

porque um endemoninhado

espalhou a confusão no globo

sem estar à altura das responsabilidades.

 

Já a glória

coitada

perdeu-se na bolsa do esquecimento

condenada a ser uma atávica lembrança

com paradeiro por determinar.

 

Consta 

que a última vez

que alguém deitou ouvidos na glória

foi quando os Sétima Legião a glosaram.

#4333

A procissão de notáveis

arrisca encurralar o seu procurador.

 

[Ressaca eleitoral, take 9]

27.1.26

A poesia como sinónimo de liberdade

As algemas mordem na pele

submergem a respiração em pesadelos

previnem a poesia 

– oh, a tão perigosa poesia

úbere dos espíritos desamparados

e ao mesmo tempo livres

apaixonadamente livres.

 

Um poema 

é a chave-mestra

que dissolve as algemas.

Agora se percebe

porque há tão pouca gente

a ler poesia.

#4332

Podíamos 

deixar falar 

a liberdade, 

apenas.

 

[Ressaca eleitoral, take 8]

26.1.26

Sofreguidão

Costuro as lágrimas no coldre vazio

deixo às mentiras a gramática do medo

entretido com a prosa luminosa

uma trovoada irradia os seus braços

como um polvo acossado.

 

Tiro à sorte a medida da angústia

saiu um três

– alvíssaras,

a angústia anda despojada sobre a matéria 

o vento cicia um segredo

temos de esperar pela próxima curva do dia

para saber se o segredo se deixa desenroupar.

 

Mal por mal 

os antigos tossicam desconfiança

o mundo tem cores e formas que são punhais

e eles fogem do tempo, fogem

como se por eles falasse o embaixador da vida.

 

A água está muito fria

a lucidez é uma peça ausente na engrenagem

e já dizem, 

por alto, 

que o ocaso não é mentira.

#4331

Estamos 

em carne viva 

– o doce sintoma 

de podermos 

falar as diferenças.

 

[Ressaca eleitoral, take 7]

25.1.26

#4330

A duas voltas, 

para tirar as dúvidas.

 

[Ressaca eleitoral, take 6]

24.1.26

#4329

A amnésia 

disfarçada de ignorância,

ou vice-versa.

 

[Ressaca eleitoral, take 5]

23.1.26

#4328

Talvez se pudesse dizer 

dos processos de intenções 

que são um fascismo disfarçado.

 

[Ressaca eleitoral, take 4]

22.1.26

As flores obrigatórias

As flores deviam ser obrigatórias nas varandas. 

Ou as varandas só não seriam multadas

se tivessem flores abundantes e garridas

como ornato. 

As flores mercadejadas deviam dar direito

a desconto nos impostos. 

Não há lugar melhor

do que um que seja um mosaico de flores. 

#4327

Sitiar consciências 

devia dar direito a pontos negativos 

no cartão de cidadão.

 

[Ressaca eleitoral, take 3]