6.3.26

Injustiças documentadas (638)

Perdeu a cabeça, 

diz-se

por aí. 

Alvíssaras 

pela cabeça decepada 

que por aí 

for encontrada.

 

(É prometida recompensa?)

#4374

A matéria 

que prima ser matéria 

prima sobre o vazio.

5.3.26

A pele que fala

Um deus dará em dobro as palavras que colo à tua nuca. Delas dirá serem sortilégio pelas estrofes desenhadas na tua pele enquanto deixamos o tempo quieto, lá fora. Delas serão as bocas amanhecidas, a lava forasteira a fugir de um paradeiro incerto.

#4373

O que é adorável 

no pensamento pré-fabricado 

é ser a bandeira 

da agonia do pensamento.

4.3.26

A crise das crises

Não sejam vertidas lágrimas

o peso ardiloso de uma crise 

 

– mais outra crise –

 

faz doer as almas.

 

As crises

estão tatuadas como uma lei de bronze;

as lágrimas usadas como lamento

são lágrimas perdidas pela usura da crise

 

lágrimas

 

que deviam ter outra fortuna.

Injustiças documentadas (637)

Oxalá se pudesse dizer

não há guerra

em vez de resmungar

não à guerra.

 

[Compêndio de ingenuidade antropológica]

#4372

O remorso gasto 

contraria o arrependimento, 

a usura do tempo 

que fala no avesso das mãos. 

3.3.26

Uivo

Um esquimó paramentado

noiteia sem freio

antes que devolvam o Inverno

à escolástica ruminante. 

A soldo de um general desarmado

convence os anões 

um verbo é substantivo

e no emaranhado de falas

bolça um arroto imperial

para gáudio dos circunstantes. 

Se ao menos pedissem

para caiar os tijolos

era empreitada para ele habilitada

mas este não era um lugar 

para igloos. 

Junho ainda é outono

na terra dos esquimós

não precisamos de contar os graus 

pelos dedos de uma mão

para anotar o paradeiro extinto

de um Inverno que nunca houve por cá. 

Alvíssaras

o esquimó perdeu o paramento

e não se sabe

se andam à procura do paramento

ou do esquimó.

#4371

É tarde 

de tarde 

é tarde 

à parte.

2.3.26

Os carismáticos

As muitas caras de um reino

desborbulham na madurez

e fingem,

com o descaro de quem finge fingir

que são uma só.

 

As caras-espantalhos

tomam o pulso da distração geral

e passam por rostos respeitáveis

oh! 

de pergaminhos imbeliscáveis

não vá ser profanado

o carisma

que trazem a tiracolo

uma medida das medidas

definida por definição.

#4370

Bebemos gasolina 

dos escanções esgrouviados

e comemos asfalto 

com direito a estrela Michelin.

 

[Compêndio de geopolítica do Médio Oriente e dos dementes em estado de negação ambiental]

1.3.26

#4369

Este poema dispensou 

a inteligência artificial.

28.2.26

#4368

A normalidade

é apenas 

um devaneio estatístico.

27.2.26

#4367

Não é a diplomacia que fraqueja 

são os homens que se tecem 

na sua pele de lobo.

 

[Ontologia da guerra explicada às criancinhas]

26.2.26

A bala furtiva

Uma bala

perdida num universo de milhões de balas 

– dir-se-á, uma bala achada

debalde

num achado que é um infortúnio.

Uma bala

atravessada no tempo errado

num corpo errado

assim trespassado

com um viés avulso

diagonal ou setentrional

até sentir o fogo macho na carne

e o sangue eflúvio em colheradas muitas

já um mar a caminho de estuário

e o apagamento à mão de semear.

#4366

Vi um anjo

casto como os anjos são. 

Soube depois

que fora só um pesadelo.

25.2.26

Burburinho

Um pelicano de corda

arrota sobre o lenço sujo da bailarina

enquanto nas traseiras do café

o artista do circo corta as páginas coladas

de um opúsculo de saberes esotéricos.

 

O pelicano balbucia umas sílabas

a bailarina espadana o plissado

para o sótão do pensamento.

Já o artista do circo

antes de ir buscar o petiz ao infantário

decora uns versos que cicia com pesar:

sua há de ser a presença num velório

e foi-lhe encomendada a elegia.

 

No restolho do dia

todos sem emprestam ao sono.

#4365

Uma mentira chique, 

colada com cuspo, 

respira 

como se puro fosse 

o ar da montanha.

24.2.26

IPMA

“Amanhã dão chuva”. 

E eu nunca soube

da identidade 

de tão filantrópica pessoa.

#4364

Para outros carnavais 

(em reserva dedicada)

a boca desenfreada 

e os corpos coreografados.

23.2.26

#4363

Entardece.

O dia fica míope. 

#4362

Peguei no verso do bilhete de metro para te escrever. 

O que já é uma declaração de amor.

#4361

Não é o restolho sobre o rosto que conta, 

é o riso espontâneo que decanta.

22.2.26

#4360

Maltrapilhos 

malsãos 

maltratados 

mal-entendidos.

21.2.26

#4359

Da bílis mal curada 

os sucos acerbos 

que desadoçam uma vida 

condenada à usura.

20.2.26

#4358

Sou culpado: 

tive uma ideia.

#4357

Dantes 

o futuro 

não contava.

19.2.26

#4356

À média luz 

palavras esgrimidas sem nudez 

a diplomacia,

ou a arte da mentira aburguesada.

18.2.26

A sagração do luar

Arrumo o luar

entre os nós da noite

e a jura da manhã. 

Levo o luar comigo

a luz extática que sua da noite

e respira através das paredes. 

É lugar-comum

o poeta pedir ao luar

que seja inspiração emprestado;

pode o poeta ser censurado

por se perder de encantos

por uma platitude tão carismática?

#4355

Um silêncio de fundo 

entoa a metáfora nascente:

depois de tudo

será outra vez

o silêncio.