Colam-se
como barro pegajoso
aquelas palavras
que assassinam o idioma:
expectável, impactante, resiliente,
narrativa.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Colam-se
como barro pegajoso
aquelas palavras
que assassinam o idioma:
expectável, impactante, resiliente,
narrativa.
Desconfio
que as guilhotinas arrefecem
com as vozes que amadurecem
à medida da ira dos tempos.
De todos os ontem sem saída
emancipou-se um estuário de estrofes
o grande manifesto
onde cabem os manifestos avulsos
o músculo que se sobrepõe à força,
até os que se embriagaram com poder
sabem que o medo não escolhe vítimas.
Do miradouro onde se esconde o passado
vejo as milhas à distância do horizonte
e guardo as perguntas que fugiram dos fantasmas
guardo-as
como o maior tesouro
apalavrado nas minhas mãos.
Ninguém gosta
de pôr o dedo na ferida
se a ferida
é um viveiro de coisas infectas.
Deita-se o leite no ouro
e o mel no azul
e (quase) todos dormem serenos.
[Ressaca pós-eleitoral, take 11]
Benzida saudade
porque o povo diz
“saúdinha”
enquanto se saúda a bonança
nem que seja fingida
entre os braços dilacerados
que se prestam ao silêncio
à medida que a dor morde até ao osso.
Saudade,
saudadinha,
que dantes é que havia saúdinha
e se sabia como saudar
sem saudade
a saúde suada.
A não parcimoniosa prosa
diletante elegia a destempo
confunde de tão gongórica
– é como se alguém falasse
apenas para os seus ouvidos.
A fúria
não tem
lugar nem hora,
só vítimas ao acaso.
[Destroços poéticos da tempestade Kristin]
A glória à solta
sem freio
livre
e ninguém a apanha.
Sinal dos tempos
– lamenta o idoso
com morada no Restelo
(lá para os lados
do ministério da defesa).
Já não é como dantes
– fez coro
o odioso mais amado
ajudando-se um ao outro
a conservar a poeira
que enfeita as fatiotas.
Dantes
(lá está)
a glória valia mais
do que o ouro
e as especiarias das colónias.
Agora
o ouro está entesourado
a crescer de valor
porque um endemoninhado
espalhou a confusão no globo
sem estar à altura das responsabilidades.
Já a glória
coitada
perdeu-se na bolsa do esquecimento
condenada a ser uma atávica lembrança
com paradeiro por determinar.
Consta
que a última vez
que alguém deitou ouvidos na glória
foi quando os Sétima Legião a glosaram.
As algemas mordem na pele
submergem a respiração em pesadelos
previnem a poesia
– oh, a tão perigosa poesia
úbere dos espíritos desamparados
e ao mesmo tempo livres
apaixonadamente livres.
Um poema
é a chave-mestra
que dissolve as algemas.
Agora se percebe
porque há tão pouca gente
a ler poesia.
Costuro as lágrimas no coldre vazio
deixo às mentiras a gramática do medo
entretido com a prosa luminosa
uma trovoada irradia os seus braços
como um polvo acossado.
Tiro à sorte a medida da angústia
saiu um três
– alvíssaras,
a angústia anda despojada sobre a matéria
o vento cicia um segredo
temos de esperar pela próxima curva do dia
para saber se o segredo se deixa desenroupar.
Mal por mal
os antigos tossicam desconfiança
o mundo tem cores e formas que são punhais
e eles fogem do tempo, fogem
como se por eles falasse o embaixador da vida.
A água está muito fria
a lucidez é uma peça ausente na engrenagem
e já dizem,
por alto,
que o ocaso não é mentira.
Estamos
em carne viva
– o doce sintoma
de podermos
falar as diferenças.
[Ressaca eleitoral, take 7]