15.4.26

#4415

Parto 

de um lugar poluído: 

antes costurar a boca 

ao silêncio.

14.4.26

Tabela de elementos

O vulcão hasteado 

o desejo tempera 

no destempo arqueado 

sem a noite em espera. 

 

No livro saciado,

a estrofe sincera 

o beijo rogado 

esta nossa quimera. 

 

O olhar mudado 

corpo ainda primavera 

o hábito rasgado 

 

a boca que se supera 

o amor povoado 

o dia que se esmera. 

#4414

Os braços impugnados 

atiram sal para as vozes vulcânicas; 

são os mecenas do silêncio caridoso.

13.4.26

Analogias e outras manias

Os grandes ladrões 

ocupam o alheio 

com a mesma facilidade 

que ao mitómano 

se averba falta de comparência 

à verdade.

São uma espécie de marxistas ilícitos 

(os primeiros). 

Já os segundos, 

são como especialistas 

de fertilidade in vitro

com uma precisão milimétrica 

para acertarem na mentira. 

Por sinal

os patos bravos do imobiliário 

são como diplomatas a comer 

com os cotovelos em cima da mesa.

Injustiças documentadas (648)

Cair em si 

é o abismo 

não reconhecido 

(como tal).

#4413

Etc. e mil

prouvera a inflação 

dos sentidos.

12.4.26

#4412

Sejam ruínas

os versos 

das minhas lágrimas.

11.4.26

#4411

Havia números primos 

outros elevados ao cubo 

outros ainda conspirando 

em lúdicas cabalísticas 

e a matemática,

aos costumes, dizia zero.

10.4.26

O velho que não era profeta

O homem velho

talvez lúcido como só a velhice admite

avisou: 

estamos vivos só à espera da morte.

 

Ninguém lhe perguntou

se já encomendara os serviços fúnebres

pois ninguém era tão velho

como o velho dali.

 

O velho residente

ou por surdez seletiva

ou por não saber da resposta, 

dedicou-lhes um silêncio conspirador.

 

Quem nos mandou

passear no jardim 

junto à câmara municipal.

#4410

A erupção do ócio profundo 

que é sexta-feira 

véspera da preguiça legalizada.

9.4.26

Reservado o direito de admissão

Às pérolas que há em nós

escondidas sob a pele fortaleza

neste que é um castelo que guarda a voz

povoada por singela grandeza. 

 

Crescermos na largueza do estuário

vontade por vontade conquistada

do tempo não se sacia o anuário

onde se hasteia a bandeira desatada. 

 

E depois, antes do entardecer,

disfarçamos os poemas mudos

reforçamos a voz que não sabe envelhecer

 

nem que pelos corpos puídos

suba um diferente amanhecer

para calar os verbos doídos.

#4409

As sete vidas de um gato 

provavelmente não chegavam 

para tanta sede de viver.

8.4.26

Injustiças documentadas (647)

I said

I’m sad.

Sad 

is therefore 

said.

#4408

Nem os dias merecem mordaça 

nem as bocas são freadas com o silêncio.

7.4.26

Jogar por fora

O garfo forja a farsa

e os dedos advertem

os sentidos assimétricos

que da poda não apodrecem

os galhos daninhos. 

 

Se assimétricos fossem os sacerdotes

talvez tivessem travessas atravessadas

e num poço empossado na peça centrípeta

falassem os nefelibatas fadados

os convictos em hora de ponta. 

 

De hoje para amanhã amacia o tempo

(houve quem o quisesse matar)

trovoadas avulsas desavisam os vetustos

sem a cerimónia nem a parcimónia

dos diplomatas desmatados

esquecidos dos manuais datados.

#4407

Uma aposta

na loucura

para ver se saímos 

do precipício.

6.4.26

Corta a corrente

O corsário bebeu as horas

e ainda foi a tempo

do circo.

 

O tenente cuspiu às escondidas

mas ainda selou as regras

da urbe.

 

O mendigo dormiu de dia

sem sequer temer o desagravo

das lides.

 

O figurão escondeu-se das regras

para gáudio dos ainda crucificadores

de serviço.

#4406

Na sola do dia, 

desfigurado,

o fidalgo acerta contas

com os fantasmas insistentes.

5.4.26

#4405

Crescido o sol amante 

a pele suada diz ao dia

que dia assim se deve 

emoldurado.

4.4.26

#4404

Salto em altura 

preciso de um vol d’oiseau

para dissolver confusões. 

3.4.26

Injustiças documentadas (646)

C’o a breca 

tive uma breca!

 

(E fiquei sem a beca)

#4403

Este beijo sabe a mundo

tenho na boca 

uma amostra de todos os continentes.

2.4.26

Injustiças documentadas (645)

Quem é louco 

ao ponto de oferecer ouvidos

nunca mais consegue usar a audição.

Injustiças documentadas (644)

Cão por ser preso

e cão por não ser.

#4402

Sílabas a soldo 

uma voz trémula

o medo 

como gramática do mundo.

1.4.26

Praxe

Justas 

as preces aprisionadas no jogo sem regras

quando as cortinas descem

e a luz sussurra os mistérios 

ajaezados.

Não é questão de tempo

o anticlone conspira a favor da Primavera;

os bardos foram silenciados

e os favos de mel suam a colheita esperada:

amanhã de manhã

haverá novidades ao pequeno-almoço

e o dia correrá a preceito 

– assim sejam confirmadas as justas preces.

#4401

Eis o portuguesmente fatalismo:

as ruas obcecadas 

a língua de trapos

um futuro preso ao passado.

31.3.26

À corda

À corda

a cabeça sentada na periferia

um atilho estreita o olhar

neste lugar não há satélites

apenas os cantos dolentes de viúvas de carvão

e nem um abraço se peticiona

as pessoas têm alergia umas das outras. 

A corda 

a saltar de três em três degraus

matéria-prima por adulterar

os diamantes também

até os que se misturam com a fala

e de um gesto brusco fazem pérolas promissoras. 

Acorda:

o rio ainda vai caudaloso

e as mesas descompostas anunciam a noite

e tu

entre a espuma do dia

e a efémera condução de tudo

tomas a procuração inteira

para seres embaixador de ninguém. 

Injustiças documentadas (643)

À atenção superior: 

cair no goto 

pode ser 

uma armadilha.

#4400

Sanada a ferida funda, 

a cicatriz como prova 

incontestável.