28.2.21

Manual da resignação ao socialismo

O corso 

penhora o viés 

dos feiticeiros.

Em vez 

de pautas autênticas

os trovadores falam

de luas esquecidas

e embaciam os olhos

em luras fingidas.

O cidadão,

disbúlico,

fermenta o paternalismo

enquanto protesta

contra a presença perene

dos mandantes.

#1927

[Crónicas do vírus, CDXCIX]

 

Logo nós 

– arrumavam o fastio,

antes que fosse cedo de mais.

27.2.21

#1926

[Crónicas do vírus, CDXCVIII]

 

A peste

é um parêntesis no tempo

ou a confirmação de que somos

uma grande mentira.

26.2.21

Semântica em coreografia reescrita

A caligrafia

no pranto sem meada,

visível embaraço.

Segredam:

é a apoteose

e as vírgulas parecem

estar de acordo

tal como os sábios

esquecidos da sua erudição.

Doravante,

só há planícies

– planícies e súplicas.

O riso calcificado

desamanhece,

estorva a prosápia dos aspirantes.

Se ao menos se soubesse

do paradeiro da gramática

e não houvesse terroristas do idioma

o apogeu teria lugar

para além do dicionário.

#1925

[Crónicas do vírus, CDXCVII]

 

Não é tanto

o estado de sítio

mas o sítio do des-Estado.

25.2.21

Caudal

Onde o rio torce o braço

e o poente se esconde

nas costas dos socalcos

o feixe de luz habita a janela

ciciando o ocaso.

Onde o rio torce o braço;

antes que os poetas acordem

e tragam para a moldura

o bojo dos almirantes da palavra

e esta,

desenhadora,

amanheça em camadas de sentido

destronando as comendas dos avoengos.

#1924

[Crónicas do vírus, CDXCVI]

 

À medida que o passo avança

um deserto

que parece não ter fim

e devora a paciência.

24.2.21

Exílio

Esconjurado o fogo ávido

os corpos deitados pelo chão

sobre tapetes puídos

exalam o sacrifício do medo

enquanto pela portada

um clarão se projeta na parede.

 

Até parece

que a parede 

não está encardida.

 

Os projetos de passado

imersos no bolso do avesso

como se houvesse oráculos

e dos oráculos pudéssemos pedir

o futuro emprestado.

Não se confia na resistência de materiais

depois de tantas labaredas

e de quase tudo consumido no planalto

onde os espectros ficam longe.

 

Imaginamos a maré que rasteja até ao areal:

os pequenos despojos de água

fundidos na areia

como acontece

com a memória que atravessa o tempo

e se encerra em pontes herméticas,

o lugarejo ermo onde avança o rosto

contra as espadas que dinamitam o sono

em estilhaços que tornam o dia impuro.

 

Amanhã faz-se o resto.

 

A vassoura está perdida

e os vestígios ainda fumegantes 

bolçam uma maldição,

uma maldição qualquer,

anónima,

ergástula,

o condoído lamento

que saciado na anemia.

 

Atravessam-se as portas 

que se julgava fechadas.

 

Os amotinados não estão no lugar 

– eles nunca estão em lugar algum.

Leiam-se os éditos

nos idiomas que houver por inventariar

e diga-se,

com a voz ornamentada a tinta da china,

que a enxada remexe a terra

à procura dos diamantes prometidos.

 

Os medos não vêm à porta

e no juramento sem cerimónia

enfeitam-se as deusas com a nudez

entre os dedos que as desenham

e as bocas vadias

que nelas encontram sede.

#1923

[Crónicas do vírus, CDXCV]

 

Ao naufrágio de todos

somam-se os regentes.

23.2.21

Fala

Parto sem as chaves da porta

não sei das marés amanhecidas

nas palavras suadas

e aos parapeitos nus devolvo

a fala. 

 

Oxalá seja uma empreitada impura

um daqueles objetos disformes

entoando o salitre atirado longe

e contra os tiranetes categóricos arrimar

a fala. 

 

Concebo-me fecundo aríete

nos despojos de um dia esquecido

arriscando a métrica invalida

e às Desdémonas participo o império

da fala. 

 

No juramento sem lacre

o coração arremete contra o remoinho

onde máscaras sem sentido

patrocinam um medo que não meço

pela fala. 

 

Chego ao estuário que extasia a boca

sem saber dos caminhos demandados

e todavia rasurei as arestas sem previsão

num anoitecer sem angústia à mercê 

da fala. 

 

Na fala que me concebe

arrumo as palavras mortas

contra as armaduras tomadas por vultos

antes que seja a espera a minha consumição

na fala em que me concebo.

#1922

[Crónicas do vírus, CDXCIV]

 

Nos despojos da invasão

arrematamos um olhar aprendiz.

22.2.21

Os meses são desiguais e ainda ninguém protestou

Os calendários são armadilhas:

a transfusão de dias

deixam-nos desiguais.

Todavia

não consta

que fevereiro se queixe de nanismo

nem que maio ou outubro

protestem contra a engorda forjada

ou que junho e novembro

desaprovem a dieta à força

ou que dezembro e janeiro

e julho e agosto

se amotinem por serem desiguais 

na alternância de meses desiguais.

Está é uma desigualdade

sem paladinos 

a quererem ditar a sua correção.

#1921

[Crónicas do vírus, CDXCIII]

 

Damos abraços

ao pesadelo duradouro

sob o vento ancião

que protesta 

um arrepio de apocalipse. 

21.2.21

#1920

[Crónicas do vírus, CDXCII]

 

A peste em bruto:

as juras que ficaram

desautorizadas.

20.2.21

#1919

[Crónicas do vírus, CDXCI]

 

A cólera,

um outro preço

da peste.

19.2.21

Moscatel

As curvas do rio

acordam da penumbra.

Ordenam as palavras dispersas

enquanto os patamares esperam:

esta noite

não é vitral do luar;

é o santuário do pecado.

Às escuras

as curvas do rio

apenas o pressentem.

#1918

[Crónicas do vírus, CDXC]

 

Amanhã

quando for o lugar desse amanhã

seremos anagrama

do que já fomos.

#1917

[Crónicas do vírus, CDLXXXIX]

 

Procuramos outra proteína

nas entrelinhas do labirinto.

18.2.21

Diagrama

Não se esconjuram

os pesadelos

que desornamentam a noite

nas ogivas decadentes da catedral.

Os estrénuos artífices 

conjugam as sílabas 

fazem-nas rimar com a saliva dos lobos

e colhem na mão nua

o fio denso da manhã.

Não anoitecem,

as estrofes adiadas:

esperam pela fortaleza furtiva

e aquartelam os pesares,

até às notícias tardias

selarem as bocas já de si

emudecidas.

#1916

[Crónicas do vírus, CDLXXXVIII]

 

Este tempo de parábolas,

as mãos a empurrá-lo

para trás.

17.2.21

Penitência

Por onde vou

no contrabando do verbo

não há monumentos para gastar.

 

Para onde vou

na gramática das minas

não há bondade para usar.

 

De onde vim

no opúsculo da mentira

não há almas para cuidar.

 

Por onde venho

no oráculo das viúvas

não há lágrimas para atraiçoar.

#1915

[Crónicas do vírus, CDLXXXVII]

 

Os dias

continuam a ser

como bolos cobertos de sal.

16.2.21

#1914

[Crónicas do vírus, CDLXXXVI]

 

Dizem que não houve carnaval. 

Mas é mentira. 

Na rua 

andam todos mascarados.

Retiro

O retiro

ou mais:

o lúgubre lugar

exílio das palavras embaçadas

penhor ávido

das deslembranças.

Ou retiro

às mealhas da memória

o corpo extático

e no alpendre

que tutela o rio

agiganto o eu novo

que se retira

à hibernação gorada.

No retiro ermo

ou mais:

na fuga que desmata

os medos de seus olhos

desvenda-se o mapa

tecido 

pelos dedos não gastos

mercancia da alma sem freio

oráculo sem medida do tempo.

Retiro-me

a tempo do destempo 

que me entroniza

e acredito

no póstumo candelabro

vertendo a cera derruída

pelas lágrimas esquecidas.

Desse retiro

onde sou o que serei:

montanha sem neve

impressão digital da primavera cega

rio estrepitoso

cavando o seu caudal

com as mãos não gastas

e o selo

de um olhar sem medo.

#1913

[Crónicas do vírus, CDLXXXV]

 

Regentes

em pose de estadistas

que não passam

de ilusionistas. 

15.2.21

Manifesto contra o calor de ananases

Temos a sombra da pérgula

enquanto se agiganta a boca do sol

e o estio merecesse castração.

 

Pela janela

coabitamos o olhar

ciciamos por uma réstia de maresia.

 

O palco não está de feição

esta fornalha intempestiva,

como se as palavras bombistas

subissem à boca

e só déssemos conta

quando, 

ativadas pela saliva aterrada,

tomassem conta do corpo inteiro.

 

Tal como a fornalha em riste

contra o frescor do corpo

que exsuda, furiosamente;

o corpo

como se conspirasse 

em autofagia.

#1912

[Crónicas do vírus, CDLXXXIV]

 

Não podemos

convocar o esquecimento

e fingir o desacontecimento do tempo.

14.2.21

Poema adiado

Ainda não foi desta vez

que fiz um poema

autorizando a palavra

deletério.

#1911

[Crónicas do vírus, CDLXXXIII]

 

Às vezes

agarrada à pele

a impressão

que o futuro foi extinto.

13.2.21

Entre parêntesis

Não lês

o que está

entre parêntesis?

Erro de julgamento.

O que se esconde

dentro do parêntesis

é ouro entre vulgatas.

#1910

[Crónicas do vírus, CDLXXXII]

 

Uma peste

com saudades do maio de 68.

(Vendo as guedelhas

que os varões apresentam.)

12.2.21

Gato vadio

I

O furtivo gato vadio

esgueira-se entre duas paredes. 

Não tem pertença. 

Disso se alvitra

dos gatos que dizem ser vadios. 

Mas o gato tem um paradeiro,

como pode ser vadio?

 

II

Os pianos à espera de venda

não se ensinam na mudez. 

Junta-se em finas camadas

a poeira versátil que os desafina. 

Os pianistas não andam por perto. 

Os pianos exibem a sua contumácia. 

 

III

O embaixador debita o gongórico pesar

enquanto o mundo puído

cuida da sua decadência. 

Se tivesse havido tirocínio

fora dos salões diplomáticos

o embaixador libertar-se-ia dos laços solenes

enfim imberbe na hermenêutica do mundo. 

 

IV

O fundo ácido das palavras espontâneas

contraria o desaguisado com a eira da alma. 

O passo incerto acerta as horas,

ditas por uma clepsidra submersa. 

As ilusões não são a terraplanagem hasteada,

o olhar devolvido ao teatro dos sonhos. 

 

V

Veio uma amostra do tempo lúdico. 

Em vez de preces 

(não atendidas),

uma voz rude. 

A cortesia pertence ao pretérito, 

embrulhada em verbos contrafeitos

e personagens vazias de memória. 

É vetusto o singrar na solidão:

vetusto e sem propósito 

a semântica sem falantes em nome próprio.

Lúdico é a lucidez sobrante.

 

VI

O mapa abraçado ao diadema

povoa as cintilações desarmadilhadas. 

Oxalá o mapa haurido seja destronado

pelo envelhecer consentido,

sem pressa. 

Os mapas desaprendem-se

no eterno desejar de tudos sem hipótese. 

 

VII

O gato vadio

não sabe o que é o mar. 

Mas o mar fala connosco

conta-nos os segredos 

que são os nossos segredos.  

A manhã avivada

enumera os verbos alimentares

enquanto o tempo urde as suas personagens. 

Não consta

que os gatos

(vadios ou não)

procurem o mar como azimute. 

 

VIII

A armadilha sob o olhar

disfarça-se de beatífico rosto. 

As árvores acinzentadas pelo dia chuvoso

martirizam-se

não lhes sai da cabeça

que foram inventadas 

para ornamentos de dias ungidos pelo sol. 

 

IX

Antes o despenhor dos gatos vadios

do que a fórmula narcisista

de anjos agonizantes

presos 

às cortinas da memória

e à tirania da pertença.

#1909

[Crónicas do vírus, CDLXXXI]

 

Quando isto tudo terminar.

A centelha de desesperança

que mais ecoa nas bocas.

#1908

[Crónicas do vírus, CDLXXX]

 

Quando os açaimes nos largarem

seremos rostos disformes.

11.2.21

Vulcão sem sono

Não será a voz sem nome. 

Não será o ocaso adiado. 

 

As ferragens do dia

espalhadas no sótão do pensamento

guardam as sílabas que esperam vez. 

 

Não será por causa dos nomes sem voz. 

Não será por causa do adiamento esquecido. 

 

O caudal frugal 

despenha-se no dorso cansado

e usurpa a lucidez desembaraçada. 

 

Não será do nome que traz uma voz. 

Não será do ocaso que súplica vez. 

 

Os armadores dos sentidos

povoam a geografia das almas

sem espera de recompensa. 

 

Não será através do medo. 

Não será através dos sonhos. 

 

Os trunfos amuralhados

revoltam-se nas costuras da manhã

e atravessam o leilão marcado para um ermo. 

#1907

[Crónicas do vírus, CDLXXIX]

 

Mais erro

que tentativa,

ou apenas

aprendizagem morosa.

#1906

[Crónicas do vírus, CDLXXVIII]

 

E apesar do arcaísmo

para que somos atirados

fugimos para o futuro

através de ideias fecundas. 

10.2.21

Astronauta em terra

Não quero ser 

astronauta:

o mundo 

não é para ser visto

de fora.

Ou, 

sendo assim olhado,

senti-lo exterior se torne vício,

terapêutico ao fazer esquecer

as suas imensas fragilidades,

e seja o apetite

para os pés não voltarem a sentir

a boca da terra.

#1905

[Crónicas do vírus, CDLXXVII]

 

A peste convida 

a sermos

involuntariamente 

arcaicos.

9.2.21

Aqui é proibido vendar as bocas

Não me digam

o que não é falável

na circuncisão do olhar

pelas lágrimas repressoras

de altivos sicários de almas.

 

Prefiro desfalar

o que é falável

usar a baioneta da palavra

fecundar a dissidência

no altar 

onde 

só vozes caiadas

colhem identidade.

 

Não me obstruam o mar

que as minhas ondas se sobrepõem

aos paredões indigentes.

 

Não levem 

o ouro que trago na pele

que a nudez remanente 

é pólvora 

ateada no quartel dos fracos.

 

Não me digam

o que tenho caução para dizer

que serão essas as palavras

que faço sussurrar na boca,

continuamente.

 

Não desembaracem fronteiras

que eu próprio me faço salteador

e desembarco numa baía

onde o areal se declarou

livre 

de magistrados castradores.

#1904

[Crónicas do vírus, CDLXXVI]

 

Os mortos,

que não chegaram

a tempo da vacina. 

#1903

[Crónicas do vírus, CDLXXV]

 

Este era o pior fantasma

de que não sabíamos 

a existência.

8.2.21

Manifesto contra as notas de rodapé

No pé de página

onde a atenção se dissolveu

os nomes que oferecem a inspiração.

É por isso

que odeio os rodapés:

não passam de ornamentos

um enchimento de página

prova dada

das leituras encomendadas.

Ao pé de página

devia estar apenas

o número

e não os nomes

que quase não passam

de analgésicos números. 

#1902

[Crónicas do vírus, CDLXXIV]

 

A mnemónica necessária:

quando será a descolonização

do vírus maldito?

#1901

[Crónicas do vírus, CDLXXIII]

 

Dos outros

que existem

temos uma leve 

desconfiança.

7.2.21

#1900

[Crónicas do vírus, CDLXXII]

 

De primeiro a último.

(História de um destino)

#1899

[Crónicas do vírus, CDLXXI]

 

Amuralhados 

no nosso exílio

reféns da soberba consentida.

6.2.21

#1898

[Crónicas do vírus, CDLXX]

 

O relógio arrasta-se

numa procissão

sem rostos.

5.2.21

O avarento

O penhor sem alma

toma de assalto a renda alheia

ao notar 

os excruciantes pesares

dos penhorados.

Usurários,

os juros,

combinam com a aspereza da alma

 

(afinal, tem-na, 

mas de mau calibre).

 

O penhor

desalma os penhorados.

Estes, 

em farta súplica,

pedem

 

(e fazem-no “penhoradamente”)

 

para haver lugar a alguma indulgência.

O penhor

homem pouco letrado

não sabe o significado de “indulgência”

e tem vergonha de perguntar

 

(ou de deitar mão a um dicionário

sob o olhar inquisitivo dos outros).

 

Recusa a súplica,

compulsivamente desconfiado.

Os penhorados perdem tudo.

O penhor

sem saber da vicissitude

perde 

o que perderam os penhorados:

não há vivalma 

que dê um cêntimo

por aquele pecúlio penhorado.

Termos em que se pode epilogar

reconhecendo

que o penhor foi devorado

pela avareza

 

(e pela necedade). 

#1897

[Crónicas do vírus, CDLXIX]

 

Quanto do nosso eu

foi confiscado

numa tirania disfarçada?

#1896

[Crónicas do vírus, CDLXVIII]

 

Hoje

respiro

por uma metáfora.

4.2.21

Ervas daninhas

Tirando 

as ervas daninhas

e os coevos admiradores

de aspirantes a tiranetes

fica a aveludada pista

para o tangencial amanhã.

Ao calhas

a matilha limítrofe

fareja o sinal da morte

pois a morte é mantimento.

Admirados

os representantes das farsas

passam a mão pelo amanhã

e certificam-no

com um selo arcaico.

Sem saberem

povoam-se

ervas daninhas

no seu

(próprio)

prândio. 

#1895

[Crónicas do vírus, CDLXVII]

 

As palavras imponderáveis:

zaragatoa

síncrono

confinamento

assintomático

profilático

ventilador

zoom

distanciamento

vacina.

3.2.21

O bom gigante

Deito-me à amálgama

que incendeia a boca.

Ao longe

o latido de um cão

irrompe a solidão da madrugada.

Lembro o crepúsculo de véspera

uma claridade singular, 

maduramente ocre,

agigantando-se

contra a decadência do dia;

lembro

como fiquei extasiado

e quase entoei uma prece

para tornar imorredoiro este entardecer.

Mas agora era madrugada:

a negação 

do imorredoiro, quimérico ocaso de véspera.

Entendo agora

a amálgama que não julgo ser prisão

nem labéu que me desterra

mas o manancial que semeia

a estatura maior do que sou.

#1894

[Crónicas do vírus, CDLXVI]

 

Todo este tempo depois

a suspeita 

que o devir falhará 

os hábitos do outrora.

2.2.21

#1893

[Crónicas do vírus, CDLXV]

 

Atirados

para o minimalismo

quase 

em monástica condição.

Roteiro para sair da desgraça

Não se montam escadotes

num rossio deixado ao deus-dará.

 

Os poetas esqueceram-se da chave.

 

Pelo estreito corrimão

não cabem dois pares de mãos.

 

Aos cabelos enxovalhados

atirem-se pétalas de ouro.

 

Este puré não vinga

na assembleia de Ícaro.

 

Não se elevam sacerdotes

no harém esquecido num mapa perdido.

 

Os poetas nunca foram servis.

 

Pelas avenidas apinhadas

correm as mãos desajeitadas.

 

Aos ourives apeçonhados

atirem-se cabelos desemparedados.

 

Este vinho não convence

na conferência de Eros.

 

Não se fingem astronautas

na maré rasurada das medidas.

 

Os poetas não querem um céu.

 

Pelo cais solitário

avança a matilha caiada.

 

Aos órfãos revoltados

atirem-se mães à solta.

 

Este cozinhado não se valida

no estertor de Zeus.

#1892

[Crónicas do vírus, CDLXIV]

 

Folgam 

os peixes do Douro

com a deserção dos pescadores.

1.2.21

Já não há bandeiras para estes mastros

(Trama desnacionalista)

 

As bandeiras choram.

Escamam as suas lágrimas

nos bebedouros onde se alicia

a melancolia.

Os prantos fundem-se com as preces:

ah, 

outrora lançávamos os dados

e hoje não passamos de peões

num tabuleiro onde somos

deslembrança.

As bandeiras rasgadas,

pontuação da desesperança

e só por um segundo

a grandeza,

essa tão fátua grandeza,

se levanta das teias dos manuais:

neles se encerram as suas fronteiras;

neles 

vivem os fantasmas

que resistem ao exorcismo do presente.

O futuro 

é feito do presente 

que vamos adestrando,

este o seu autêntico tirocínio.

O passado 

tem o conhecimento 

como única serventia;

não se presta

a ser a fonte ardilosa

de onde manam 

oráculos disfarçados de miasmas.