Fujo de vozes que murmuram lamentos.
Fujo de luares adulterados no horizonte.
Fujo de “personalidades” fingidas
e das que não o sendo não ficam atrás
em voyeurismo banal.
Fujo das invetivas de gente ofensora.
Fujo dos idiomas que ultrajam a fala.
Fujo de viúvas negras com o cenho carregado.
Fujo de idiotas úteis e dos outros
que intuem uma certa utilidade.
Fujo da “resiliência”,
do “impactante”
e do “abrangente”.
Fujo dos tipos que estão sempre a dizer “tipo”.
Fujo dos farsantes que mentem a si mesmos
enquanto fingem uma coisa qualquer.
Fujo do marasmo que se deita no calendário.
Fujo das ideias matrioskas.
Fujo de amadores ufanos e patriotas fala-barato.
Fujo do deus dará
que oxalá seja estatuto falhado.
Fujo do que finjo
antes que o fingimento me colonize.
Fujo da indigência
e da soberba dos risíveis arautos.
Fujo da nomenclatura gasta
em fósforos virgens.
Fujo dos sacerdotes de todos os calibres.
Fujo dos mapas, das fronteiras,
da obnóxia distinção de nacionalidades.
Fujo quando for hora de fugir.
Fujo enquanto me apetecer fugir
e de tanto fugir não me cansar
altura em que fujo de continuar a fugir.

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