12.5.26

Cadastro

Assento os ossos na bacia tumular

onde extraviados se elevam

os expoentes da decadência. 

Se há divórcios sem ónus

o que separa os termos desses próceres

é exemplo que não acaba

pois em acabando torna-se possível

a reconciliação 

que compunha o estulto perdão. 

Vejo 

como desfilam 

imersos num orgulho sem medida

como fingem aos fingimentos de excelência

esgrimindo a mentira como arte do possível

convocando os ingénuos para um altar

disfarçado de abismo

e depois

quando vítimas se encontram

capitulam 

na impossibilidade de reaver o seu eu. 

Vejo 

como se desfazem em elogios próprios

artesãos de uma vaidade por conta do futuro

na admissão sem finitude 

do que à sua volta gravita

vomitando palavras grotescas

mestres de cerimónias no mais pútrido 

dos lugares

onde dançam os frutos por amadurecer

no intencional rapto que devolve ao mundo

a vergonha que não o consome. 

Depois do futuro fica por mostrar 

a candeia que resgata a lucidez

fica à mostra

apenas a carne nua

a convocatória dos espíritos despojados de algemas

eles que recusam 

a assimetria dos déspotas

a aura corrompida dos embaixadores da frivolidade

os antros sinistros que adulteram a gramática

por que respondem as almas despojadas

o livre escrutínio que sujeita

até os que mantêm a usura dos farsantes. 

Corro daqui para longe

mergulho dentro das profundezas 

que em mim habitam

prefiro o desencanto do humilde anonimato

quero que invisível seja o meu rosto

quando se dá às ruas das cidades.

Quanto aos procuradores das banalidades,

os que passeiam o queixo 

garbosamente içado ao alto 

a trinta e cinco graus 

os que obrigam os outros 

a despenharem-se na sua vez

deixo-os a falar sozinhos

do lado de lá desta porta 

que é o meu forte.

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