Podiam extinguir as vírgulas,
que elas dão tanto trabalho
(e tantas vergonhas deixam a nu).
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
A glória à solta
sem freio
livre
e ninguém a apanha.
Sinal dos tempos
– lamenta o idoso
com morada no Restelo
(lá para os lados
do ministério da defesa).
Já não é como dantes
– fez coro
o odioso mais amado
ajudando-se um ao outro
a conservar a poeira
que enfeita as fatiotas.
Dantes
(lá está)
a glória valia mais
do que o ouro
e as especiarias das colónias.
Agora
o ouro está entesourado
a crescer de valor
porque um endemoninhado
espalhou a confusão no globo
sem estar à altura das responsabilidades.
Já a glória
coitada
perdeu-se na bolsa do esquecimento
condenada a ser uma atávica lembrança
com paradeiro por determinar.
Consta
que a última vez
que alguém deitou ouvidos na glória
foi quando os Sétima Legião a glosaram.
As algemas mordem na pele
submergem a respiração em pesadelos
previnem a poesia
– oh, a tão perigosa poesia
úbere dos espíritos desamparados
e ao mesmo tempo livres
apaixonadamente livres.
Um poema
é a chave-mestra
que dissolve as algemas.
Agora se percebe
porque há tão pouca gente
a ler poesia.
Costuro as lágrimas no coldre vazio
deixo às mentiras a gramática do medo
entretido com a prosa luminosa
uma trovoada irradia os seus braços
como um polvo acossado.
Tiro à sorte a medida da angústia
saiu um três
– alvíssaras,
a angústia anda despojada sobre a matéria
o vento cicia um segredo
temos de esperar pela próxima curva do dia
para saber se o segredo se deixa desenroupar.
Mal por mal
os antigos tossicam desconfiança
o mundo tem cores e formas que são punhais
e eles fogem do tempo, fogem
como se por eles falasse o embaixador da vida.
A água está muito fria
a lucidez é uma peça ausente na engrenagem
e já dizem,
por alto,
que o ocaso não é mentira.
Estamos
em carne viva
– o doce sintoma
de podermos
falar as diferenças.
[Ressaca eleitoral, take 7]
Talvez se pudesse dizer
dos processos de intenções
que são um fascismo disfarçado.
[Ressaca eleitoral, take 4]
As flores deviam ser obrigatórias nas varandas.
Ou as varandas só não seriam multadas
se tivessem flores abundantes e garridas
como ornato.
As flores mercadejadas deviam dar direito
a desconto nos impostos.
Não há lugar melhor
do que um que seja um mosaico de flores.
Sitiar consciências
devia dar direito a pontos negativos
no cartão de cidadão.
[Ressaca eleitoral, take 3]
Ontem
comprei um palácio
feito de baldios e ouro invisível.
Queria poder dizer que meu era um domínio
mesmo que só fosse suserano
de mim mesmo.
Não contemplo outra hipótese:
se ao domínio meu
viessem a calhar em azar
(seu)
outros em suserana condição
decretá-lo-ia prescrito por inviabilidade.
Neste que é o domínio meu
decido sozinho
com um autoritarismo deplorável
ausente sensibilidade pelos outros
(que não existem)
eu, esboço de tirano
que de mim próprio faz sua predileta vítima,
sozinho decido
(dizia)
sobre a bandeira que não hasteio
as leis por fazer que ficam para memória futura
a dívida que não contraio
as embaixadas que não tenho de inaugurar
os hinos que ficam por conta do olvido
as credenciais que se dispensam da imaginação
e das fronteiras faço frangalhos
sob a égide da guilhotina com serventia única:
abolir
em corte rasante
todos os simples ensaios torcionários
de privação da vontade
nem que seja um tiro no pé
de ofensa a tudo o que o súbdito
(que coincide com o suserano,
há que insistir na mnemónica)
julgar nefasto
bem que seja uma venda aposta sobre os vícios.
Antes ser pária
por uma causa recomendável
nem que o seja apenas
pela lente por onde olho.
Um dia destes
talvez venda o palácio.
A ponte sente que as sílabas batem à porta.
O crepúsculo enfeita a garganta seca.
A noite açoita a luz que a quer desmentir.
No saco dos rejeitados segue a matéria anónima.
Precisa de cimento para escapar à ruína.
Se ao menos houver uma bênção na chuva
que seja dos nomes que se perdem em becos
e não olham ao medo como gramática da respiração.
As sílabas compõem-se na espera diletante.
À espera de serem a ponte que desfeiteia a orfandade.
Não sou o medo que cicia no crepúsculo.
Não sou a metade oculta na submissão.
Não sou o fantasma futuro dos sonhos.
Não sou o embaixador de virtudes remediadas.
Não sou apóstata a não ser pela minha lente.
Não sou uma admirável força
terçada nas contrariedades.
Não sou o sonho que poderia ter sonhado
nem o paradeiro de sonhos avulsos.
Não sou um promitente de coisa alguma.
Não sou a boca temerária
que se ajoelha às vozes dominantes.
Não sou mentira de mim mesmo
na medição das fragilidades.
Não sou penhor de nada que me possa penhorar.
Não sou o asceta que se exila dos sobressaltos.
Não sou o sangue domado
pelas paredes íngremes do idioma vulgar.
Não sou a medida fora de mim.
Não sou coleção de lugares não demandados.
Não sei ao certo o que serei
a não ser tudo aquilo
e mais ainda
o que sei não ser.