Vítimas de relambórios
demandamos ermos lugares
e o silêncio como idioma.
Poeta em modo pungente:
peticiona comiseração
como pão para a boca de um faminto
e mostra suas interiores consumições
em exacerbação
só para se despromover à infausta condição
que não passa de ardil.
O poeta outro
que em desgraças próprias milita
insultando tantos outros
que em maiores padecimentos se enquistam
irrisoriamente proclamando
“pior alma não haverá no inventário de gente”.
Tudo
por um punhado de piedade
ou de atenção,
que vem a desaguar no mesmo,
pois se assim não fosse
não sairia da sombra da sobra de si mesmo.
Cocteau Twins, “These Eyes That Mouth”, in https://www.youtube.com/watch?v=s9yhVY2RCsk
Somos
todo o chão demandado
o postal das milhas averbadas
as palavras tecidas em estrofes
o corpo-cais onde desce a âncora
sentinelas sem gasto
a alvorada que guarda os segredos
a pele que segrega os olhares escondidos
somos nós
no esplendor que não mede palavras.
Desconversamos
furtivos atrás dos descamisados
entretidos com os verbos emparedados
nesse palco nosso em que capitulamos.
Nos nós gastos enganamos
os velhos desarmados
presos nos estertores desalmados
sem temor dos sismos não abanamos.
Na má matemática calculámos
os números mal artilhados
os versos depois conspirados
que em tempo algum armámos.
É ao luar quimera que nos damos
artesãos dos incríveis achados
arquitetos a cargo dos poemas suados
na empreitada pueril que aproveitamos.
Não tenho pressa.
Não.
Tenho pressa.
Não tenho.
Pressa.
Pressa não tenho.
Não tenho
Pressa não.
Não.
Não tenho pressa
de fazer a autobiografia.
De fazer.
Pressa.
A autobiografia.
Não a autobiografia.
Pressa.
Não.
Mordo sem medo
nos mastins que desassossegam os justos
na audácia louca de quem estrangula
os torcionários.
A boca fardada evita os suores noturnos.
Lá fora
pássaros noctívagos grasnam
um protesto que alivia a solidão
ou apenas
o parco mantimento a festejar ilusões.
Agora é o sibilar do vento
arrancado às folhas das árvores vizinhas
outro idioma que se amotina
contra o silêncio de pedra.
Nunca soube o que era ter medo do silêncio.
Madrugava
a horas nos outros visitadas pelo sono
pressentia que o corpo suplicava
o som líquido e lúcido do silêncio,
nem gente nos corredores
a suar impaciência
nem cães raçudos
a (pretenderem) anexar pernas
com a sua mandíbula
ou demónios disfarçados
a contrariar o regresso a casa,
só o dom do silêncio,
só o som de que me agencio.
Deito ao peito as palavras amanhecidas
como forno onde fermentam os verbos
e os candeeiros acendem quando sou
penumbra.
The sea is like sargassum
melting the bones that care
for the light to come.
Yet, clocks disdain hope.
An overrated device shambles in waves,
wiping away self-sustained sorrow.
The clock is still there,
so dull.
We are imprisoned
by the farce that fades words away.
No shall we dance in the foggy night.
No say we to the thrilling moonlight.
Cast away the sorrow
hollowing out the void inside.
Dismantled words
brush into the thin light
that unfolds from merciless houses.
No wonder we are strangers to each other.
Oh! should we look in the eyes
instead of running away;
should we avoid mounting voices
that shelter the seeds of apocalypses,
playing the trustee of mankind.
As if
gold were removed from the words we say,
deleveraging the deeds
of massive, yet uncommitted aspirations.
Oh!
if at least we stopped running from ourselves,
if flagships arose in the midst of fierce seas,
seats from which
we start would uncover the best of us.