25.10.26

#4591

Vítimas de relambórios 

demandamos ermos lugares 

e o silêncio como idioma.

24.10.26

#4590

De rasura em rasura 

até à imperfeição a seguir.

23.10.26

#4589

De atalaia

para a desatenção não nos invadir

e reféns ficarmos

de vultos desapiedados.

22.10.26

Mexia, se calhar

Poeta em modo pungente:

peticiona comiseração 

como pão para a boca de um faminto

e mostra suas interiores consumições

em exacerbação

só para se despromover à infausta condição

que não passa de ardil. 

O poeta outro 

que em desgraças próprias milita

insultando tantos outros 

que em maiores padecimentos se enquistam

irrisoriamente proclamando

“pior alma não haverá no inventário de gente”.

Tudo 

por um punhado de piedade

ou de atenção, 

que vem a desaguar no mesmo,

pois se assim não fosse

não sairia da sombra da sobra de si mesmo.

#4588

As alvíssaras

não são de graça, 

mas são uma graça 

para alguém.

21.10.26

Injustiças documentadas (697)

Wealth

health 

by stealth.

#4587

A porta 

escancarada

segredos sem veio 

olhares à míngua de véus.

20.10.26

Vulcânico

Cocteau Twins, “These Eyes That Mouth”, in https://www.youtube.com/watch?v=s9yhVY2RCsk



Somos 

todo o chão demandado

o postal das milhas averbadas

as palavras tecidas em estrofes

o corpo-cais onde desce a âncora

sentinelas sem gasto

a alvorada que guarda os segredos

a pele que segrega os olhares escondidos

somos nós

no esplendor que não mede palavras.

Físico-química

Desconversamos

furtivos atrás dos descamisados

entretidos com os verbos emparedados

nesse palco nosso em que capitulamos. 

 

Nos nós gastos enganamos

os velhos desarmados 

presos nos estertores desalmados

sem temor dos sismos não abanamos. 

 

Na má matemática calculámos

os números mal artilhados 

os versos depois conspirados

que em tempo algum armámos. 

 

É ao luar quimera que nos damos

artesãos dos incríveis achados

arquitetos a cargo dos poemas suados

na empreitada pueril que aproveitamos.

#4586

A cidade em polvorosa 

a liberdade sequestrada 

rebeldes amotinados

num oxímoro de legitimidade.

19.10.26

#4585

Minhas são as alogias 

o irrenunciável direito a cometê-las 

e de prestar contas à consciência.

18.10.26

#4584

Sentinela em causa própria 

bebe no luar 

o anestésico velado. 

17.10.26

Quem quer uma autobiografia?

Não tenho pressa. 

Não. 

Tenho pressa. 

Não tenho. 

Pressa. 

Pressa não tenho. 

Não tenho

Pressa não. 

Não. 

Não tenho pressa

de fazer a autobiografia. 

De fazer. 

Pressa. 

A autobiografia. 

Não a autobiografia. 

Pressa. 

Não.

Injustiças documentadas (696)

Não se assarapantem: 

o elefante

não cabe na sala.

#4583

Mordo sem medo 

nos mastins que desassossegam os justos

na audácia louca de quem estrangula 

os torcionários.

16.10.26

Injustiças documentadas (695)

Estar às moscas, 

a incisiva peçonha das ditas cujas.

#4582

Conto este conto 

por conta das contas 

que conto não contar.

15.10.26

Sou penumbra

A boca fardada evita os suores noturnos. 

Lá fora

pássaros noctívagos grasnam

um protesto que alivia a solidão

ou apenas

o parco mantimento a festejar ilusões. 

Agora é o sibilar do vento

arrancado às folhas das árvores vizinhas

outro idioma que se amotina 

contra o silêncio de pedra. 

Nunca soube o que era ter medo do silêncio. 

Madrugava 

a horas nos outros visitadas pelo sono

pressentia que o corpo suplicava

o som líquido e lúcido do silêncio,

nem gente nos corredores 

a suar impaciência

nem cães raçudos 

a (pretenderem) anexar pernas 

com a sua mandíbula

ou demónios disfarçados 

a contrariar o regresso a casa,

só o dom do silêncio,

só o som de que me agencio. 

Deito ao peito as palavras amanhecidas

como forno onde fermentam os verbos

e os candeeiros acendem quando sou 

penumbra.

#4581

Do saque inteiro

os despojos ao deus-dará 

e nós, inteiramente usurários.

14.10.26

Exodus

The sea is like sargassum 

melting the bones that care 

for the light to come. 

Yet, clocks disdain hope. 

An overrated device shambles in waves, 

wiping away self-sustained sorrow. 

The clock is still there, 

so dull. 

We are imprisoned 

by the farce that fades words away. 

No shall we dance in the foggy night. 

No say we to the thrilling moonlight. 

Cast away the sorrow 

hollowing out the void inside. 

Dismantled words 

brush into the thin light 

that unfolds from merciless houses. 

No wonder we are strangers to each other. 

Oh! should we look in the eyes 

instead of running away; 

should we avoid mounting voices 

that shelter the seeds of apocalypses, 

playing the trustee of mankind. 

As if 

gold were removed from the words we say, 

deleveraging the deeds 

of massive, yet uncommitted aspirations. 

Oh!

if at least we stopped running from ourselves, 

if flagships arose in the midst of fierce seas, 

seats from which 

we start would uncover the best of us.