22.6.26

#4473

Nasceu do nada (dizem) 

agora é a torre altaneira 

que ateia a esperança 

dos iguais.

21.6.26

#4472

Um truísmo

como bandeira, 

sina sem exílio.

20.6.26

#4471

A voz descarnada, 

como a janela nua 

que se dobra perante o dia.

19.6.26

Contramão

Não digas nada. 

Não acordes os demónios 

do seu sono de fealdade. 

Não abandones o silêncio inteiro

nem que por vírgulas tenham

a tua sorte. 

Não amanheças imperador do dia. 

Mas não fujas dele

lembra-te das flores que são seu cio

e toma-as como penhor 

das juras por vencer. 

Amanhã 

dirás o que hoje não disseste

se entretanto não fores vítima (voluntária)

do (teu) esquecimento. 

#4470

Fugi da noite 

como o dia ártico em junho.

A luz perene 

desfaz a escuridão adamastora.

18.6.26

Areia para os olhos

Referendei a apolónica montanha

como se entre os copos fluíssem os verbos

e o miado dos gatos se escutasse

em surdina.

Mas toda a gente estava em promenade

o vazio hasteado com pundonor

como se estivessem desligadas da corrente

ou alguém tivesse desligado as fichas todas.

Os feriados foram feitos

para todos se porem entre parêntesis.

#4469

As lágrimas falam 

pelo silêncio inacabado.

17.6.26

#4468

Podia-se pensar 

em taxar as taxas 

– e assim sucessivamente – 

até se chegar 

ao palimpsesto da receita pública.

16.6.26

Haste

Toda a haste 

bebe no impuro luar 

que desagrava a noite. 

Os copos 

desembaraçam-se da água

povoam latitudes inexploradas. 

Amanhã 

 

(sempre o amanhã) 

 

apuramos as contas desmatadas, 

na contabilidade por estima 

na vacatura das almas.

#4467

O corpo 

fala no idioma 

que dispensa

tradução.

15.6.26

Injustiças documentadas (664)

Herein, 

the worst-off of myself 

embedded in a golden rule.

#4466

Desfliam 

os números as letras as frases avulsas

massacram o pensamento

pedindo, sem saberem, que se exile.

 

[Concerto de Massive Attack, Primavera Sound Porto 2026]

13.6.26

#4465

Resumia-se

a um delírio,

para bem 

da humanidade.

12.6.26

Injustiças documentadas (663)

Um crédito malparado 

devia ser cominado 

com multa.

#4464

A bola de bilhar 

brinca com a rasura, 

deixa extático

um mundo que dorme.

11.6.26

#4463

A porta usada 

escolhe a noite 

como exílio.

10.6.26

#4462

Um livro não é a badana 

uma pessoa não é efémera.

9.6.26

#4461

Um manguito aos estarolas 

que ceifam as esperanças 

em proveito próprio.

8.6.26

#4460

Se o meio ficar pela metade

mentimos à matemática

ou conseguimos o todo aritmético?

30.5.26

#4459

Quando a caridade

se confunde com corveia

as mãos trocam palavras 

por desdém.

 

(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)