Uma onda
depois outra
a maré inteira,
antes que mudada seja
a página diante.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Tiravas o som à televisão
e na mímica que sobrava
encontravas um medo maior:
não são meigos os silêncios
e até os ventríloquos
os sindicalistas em nome alheio
precisam de som
para não serem convencidos da nudez.
O pior
é que poucos se esmeram
na arte de ler os lábios.
Os silêncios eletrocutados
podem querer dizer coisas diversas
e pior do que a mudez
é não saber seguir
pela linha acertada.
Do lugar da roupa suja
onde os urgentes demandam detergente
os dentes subidos safram os dias indigentes
e nem o cloro salva a água de ser assaltante
os dedos consumidos no xisto
onde se amanha a impaciência.
Dei ao lugar
a indiferença capaz
e de dentro vieram, embuçados,
tiranetes avulsos em contramão
bolçando impropérios e outras platitudes.
Confrontei-os
com o detergente em emulsão
e eles
não querendo aparentar fraca parte
encheram de ar o peito
e avançaram.
Um singelo terçar dos dedos
contra tanta ufania
chegou
para os deixar sombriamente gastos
a contagem no chão os seus próprios despojos
só para efeitos contabilísticos
e etc.
Dobro
a metade em que se mutilas
a aritmética deixa de molho
o rosto original
o mosto fundacional.
Sou levado a desconfiar
que ser amigo do alheio é,
literalmente,
de uma generosidade desarmante.