Nasceu do nada (dizem)
agora é a torre altaneira
que ateia a esperança
dos iguais.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Não digas nada.
Não acordes os demónios
do seu sono de fealdade.
Não abandones o silêncio inteiro
nem que por vírgulas tenham
a tua sorte.
Não amanheças imperador do dia.
Mas não fujas dele
lembra-te das flores que são seu cio
e toma-as como penhor
das juras por vencer.
Amanhã
dirás o que hoje não disseste
se entretanto não fores vítima (voluntária)
do (teu) esquecimento.
Referendei a apolónica montanha
como se entre os copos fluíssem os verbos
e o miado dos gatos se escutasse
em surdina.
Mas toda a gente estava em promenade
o vazio hasteado com pundonor
como se estivessem desligadas da corrente
ou alguém tivesse desligado as fichas todas.
Os feriados foram feitos
para todos se porem entre parêntesis.
Podia-se pensar
em taxar as taxas
– e assim sucessivamente –
até se chegar
ao palimpsesto da receita pública.
Toda a haste
bebe no impuro luar
que desagrava a noite.
Os copos
desembaraçam-se da água
povoam latitudes inexploradas.
Amanhã
(sempre o amanhã)
apuramos as contas desmatadas,
na contabilidade por estima
na vacatura das almas.
Desfliam
os números as letras as frases avulsas
massacram o pensamento
pedindo, sem saberem, que se exile.
[Concerto de Massive Attack, Primavera Sound Porto 2026]
Quando a caridade
se confunde com corveia
as mãos trocam palavras
por desdém.
(Anotação do poeta: o duplo sentido da última oração.)