8.1.26

#4313

Não nos vale 

o orçamento do Estado 

nem o estado do orçamento.

7.1.26

#4312

Não culpem 

os ponteiros do relógio 

pela pressa do tempo.

6.1.26

#4311

Há dias que pedem 

prolongamento 

e outros que suplicam

abreviatura.

#4310

Um casaco 

vestido do avesso 

dispensa cabide.

5.1.26

#4309

Não é a ralha 

que ralha;

são os que lhe inventaram

o nome.

26.12.25

#4308

Inteiro 

– nem que o custo 

seja insular.

25.12.25

#4307

Vai sendo costume 

a ausência de guerra 

não ser a paz.

24.12.25

#4306

À noite, 

um brinde: 

há noite

e somos dela.

23.12.25

#4305

As luzes emudecem 

os corpos adormecem 

os sonhos amanhecem.

22.12.25

#4304

No mosto do perdão 

aninha-se o alívio da alma, 

o não gratuito apelo da quitação.

21.12.25

#4303

Um poço escondido 

onde se guardam segredos 

num fundo de águas crepusculares.

20.12.25

#4302

O corsário 

amaldiçoa as marés-vivas 

sem elas pirateava com mais deleite.

19.12.25

Niilismo categórico

Não acredito em nada

nem nessas faustosas teorias

que celebram o nada em teoria.

 

Não acredito

em balas e em bolos

na posse da erudição e na contrição

na bondade e na originalidade

Na escorreita afirmação da sabedoria

e da malévola intenção que tem curadoria:

 

nos estultos

e nos proeminentes vultos

nos disfarces de farsa

e nas medidas avantajadas da graça

nos polícias dos costumes

e nos zeladores de estrumes

nos saudosistas do futuro

e nos apóstolos do kuduro

nas massas intestinas

e nos arrotos das meninas

na pujança da bruta força 

e na corda de que a teimosia troça

nos jornais cabedais

e nas conspirações demais

no vinho adamado

e no reclame que não se faz rogado

nas rosas viçosas

e nas ruas vistosas

nas bocas exuberantes

e nos colóquios comunicantes

nas verbas rasantes

e nos olhos escaldantes

nas árvores matriciais

e nas agulhas geniais

no perfeito acabado

e no imperfeito castrado

nas intenções marejadas

e nas deusas ultrajadas 

nos olhos extáticos

e nos poemas fantásticos

nos nomes angariados

e nas flores nas mãos dos irados.

#4301

Um elogio póstumo 

não houve; 

o morto não ouve.

18.12.25

#4300

Com aquele desplante jurássico 

o geronte à prova de sindicância 

dá a provar a ilusão da igualdade.

17.12.25

#4299

A levedura do juízo 

envelhece 

nos trajes puídos do tempo.

16.12.25

O homem alado

Chamavas as árvores pelos nomes

e juravas aos deuses

nos intervalos dos sonhos

que estarias de atalaia 

contra os avanços das marés.

 

Pedias lume à noite imediata

como se à boca subissem os verbos famintos

e na pele fossem tatuadas moradas,

espelhos vigilantes das sombras desenfreadas

no acolhedor cais 

onde as rodas viradas do avesso

cantavam poemas malditos. 

 

Tiravas à sorte o lugar 

e esperavas,

esperavas que o luar aquecesse o rosto

e de todas as matérias fosse o sangue feito

para desses feitos improváveis

só ler as palavras sentidas.

#4298

Não pises a demora

para de mora não serem 

os juros peticionados.

15.12.25

Agora(s)

Este agora 

será como todos os agoras. 

Na sua assimétrica descompostura

os agoras avançam contra a mudez dos passados

ultrapassam até aqueles amanhãs apessoados

que reivindicam pergaminhos. 

Ontem

soube de um agora

que se agitou na sensação vaga 

de um gume sem paradeiro. 

E depois percebi:

cada agora 

é uma efervescência de efemeridade

que perde validade

mais depressa do que qualquer fruto.

#4297

No palco arrombado 

os fantasmas desfilam com vagar 

e nós 

somos as assombrações do medo.

14.12.25

#4296

Arrumo o peso morto 

que se mistura com o dia cansado, 

a rua não tem prisões 

mostra-se na penumbra amaciada.

13.12.25

#4295

Está tratado, 

o tratado que nos trata, 

a profilaxia do futuro.

12.12.25

Injustiças documentadas (626)

Trocamos 

dois dedos de conversa

não sabemos

se ficamos com os dedos trocados

ou com a conversa coalhada.

A ardósia dos pobres

Pé curto

a língua de trapos

ensaboa a ardósia

e deixa, em letra de médico,

o verso de barro.

 

Os cavalos comem alfafa

(é da ordem dos costumes literários)

e os tratadores 

trocam dois dedos de conversa.

 

Amanhã é a feira

esperam-se as casadoiras em sua demanda

e os rapazes não aguentam a espera.

 

Os cavalos podem,

eles sim,

com a espera que for precisa.

 

No meio da aldeia

a ardósia ultrajada pela letra de trapos

cumpre a sua função:

 

as pessoas passam

e ficam 

olimpicamente

indiferentes.

#4294

Lateja 

num frémito repentino 

o estaleiro alfaiate

a forma onde ninguém cabe.

11.12.25

#4293

Em pinças 

assim o exige a fragilidade

o estado perene 

de quem faz a contabilidade dos dias.

10.12.25

#4292

Cobro o frio com o corpo 

cobro o preço regateado.

9.12.25

Injustiças documentadas (625)

Ao abrigo 

da liberdade de circulação de capitais 

a Europeia União aceitou o resgate 

de Lisboa por Viena.

#4291

Anoitece 

o olhar embaciado 

cobra a esperança 

do dia adiado.

8.12.25

#4290

A pilhagem sem máscara 

segue em velocidade de cruzeiro 

a farsa colhe por défice de lisura.