3.6.15

Memória futura

Vi as pontes que olhavam os rios
provei as cidades de diferentes sextantes
os monumentos que se guardam na retina.
Andei pelas quatro partidas
errando pelas estradas empoeiradas
navegando clandestino na marinha mercante
ou em voos ocasionais como se fosse Ícaro.
Saltei entre lugares
mas às vezes parecia sedentário;
o nómada em mim era apenas um disfarce.
Vi os padres de tantos credos
em preces outonais.
Desaguei nos odores exóticos
onde havia mulheres com pele escura
macacos a atravessar as ruas
lixo no chão
e todo o encantamento do palco diante de mim.
Ao deitar
dei comigo a tocar violinos imaginários
a soluçar com as saudades que não tinha
a ensaiar no mapa mental o destino para depois.
Vi mundos muitos
lágrimas vertidas pelos mendigos
crianças tristonhas a caminho da escola
e crianças em algazarra nos parques infantis
neve suave em tarde de invernia
e o trinar de pássaros diversos
sussurrando os segredos guardados nos lugares distantes.
Experimentei as pedras das cidades
senti o suor das gentes no caiado das paredes
levitei de mim em vista de pássaro
tomando as cidades dentro da mão.
Demandei estranhos
amesendei com quem calhava
aprendi com os humildes
e com os da soberba
(que os há em todos os lugares).
Conheci camas à dimensão da variedade de sítios
as irrepreensíveis e as que pareciam latrinas
lençóis de veludo e os que arranhavam.
Embolsei as imagens num canto da memória
sem tirar uma fotografia.
Escorreguei pelos abismos
nadei nos lagos de água fria
apreciei a coreografia dos cisnes esfomeados
anotei a flora variada
e o aroma dos frutos que nem dos manuais sabia existirem.
Vi o belo
a natureza domada pela mão do homem
e a natureza sem freio.
E o feio também.
Renasci uma data de vezes.
Congracei cada vida como se fosse a última.
Insisti nas palavras que não podiam ser adiadas
nos gestos que não são volúveis
abrindo os botões da camisa para dar o tudo de mim.
Arrependi-me.
Outras vezes não.
Aquietei-me
quando os olhos se refugiaram no cansaço
de tantos lugares demandados.
Não deixei de ser viajante
nem de ir aos lugares que não tinha inventariado
dar de comer aos peixes do lago
ouvir música em bares obscuros
tirar livros das prateleiras das bibliotecas
mesmo em línguas indecifráveis.
Tirei as medidas ao mundo.
Ao seu paradoxo:
se visto do espaço, um mundo exíguo
e, todavia,
em dando com os pés no chão
um mundo que interminável parece.
E tudo isto
viajando sem sair do lugar
apenas com os olhos bem fechados
soltando o freio aos sonhos
na imaginação que medra de um fértil nada.

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