15.9.26

O silêncio é um direito constitucional

Um suspiro como vírgula

desnorteia o silêncio embuçado. 

Já de longe 

se ensina:

os sinais ortográficos podem ser

a matéria gestual colhida 

ao acaso. 

As almofadas 

também podem calar as palavras

impor-lhes um silêncio envergonhado

e todavia terrífico:

a matéria lacustre exibe as águas paradas

a metáfora pantanal 

para o silencio arrancado a ferros,

uma tortura inimaginada 

até por adestrados algozes. 

Eu mantenho

que não há tortura pior 

do que palavras a eito

como se estivessem no cio adolescente

sem o tempero da moderação

tumultuosamente gongóricas

rasgando paisagens 

como se de papel fossem feitas

atraiçoando o sono translúcido

que fica refém das palavras a destempo

das palavras marcadas a fogo 

na pele desajeitada. 

Até que o direito ao silêncio

não seja uma impostura

ou o caldo untuoso 

onde acasalam os misantropos

e de constitucional abrigo seja credor.

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