Cá nos arranjamos
entre o ódio profissional
e as cicatrizes da indiferença.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Ninguém perguntou ao corço
se quer participar no carnaval.
[Laivos de antropocentrismo]
Desta janela
desenhamos a paisagem.
É a nossa feitoria
como se a história tivesse parado
e os rios habilitassem as estrofes cheias.
As mãos dão nomes aos lugares
numa alquimia que cobre de ouro
as veias animadas com o vagar do tempo.
Atravessamos o luar tingido:
é nas costas do medo
que descobrimos o segredo.
Os países
não têm biografia.
As pessoas
não têm bandeira.
As almas
não têm custódia.
Um aformoseado ramo de cheiros
coloniza o quarto
a centelha acende-se na fruição das mãos
mesmo que estejam às escuras os olhos
mesmo que pendidos amanheçam os dias
não são as convulsões averbadas pelos pesadelos
a desfazer os propósitos
e o reino não fica pária.
Amanhã
começo no dorso da manhã
e sigo por aí dentro
até ser o imperador ilibado
o poeta sem franquia
que não desiste
não desiste
e do dia
faz o seu trono imorredoiro.
Os gomos da esperança
esmagam-se
contra a boca insaciável.
O seu sumo promitente apetece
até aos deuses.
Escolhi os dados sem números
não creio que a sorte tenha paradeiro
e que se oponha ao bálsamo do azar.
Escolhi o acaso
a melhor tradução da sorte e do azar.
A pele como a pedra granítica
o suor como a chuva fria
a noite como o sono fundo
as serranias como uma voz doída.