16.1.26

Neptuno

Toco por dentro o céu. 

Cobro aos demónios as tempestades viris. 

Do dicionário açambarco as palavras lúdicas

como se a vertigem não participasse

do precipício constante

e perdêssemos o paradeiro da lucidez. 

Somos as asas que descem e sobem

decifrando paisagens singulares. 

Tornamos a noite 

na fogueira que adormece a pele. 

Não deitamos fora o silêncio:

é na sua gramática que escondemos

as estrofes de que somos tutores. 

No céu tocado

o achado de uma quimera

um domínio que vale mais 

do que mil reinos.

#4321

Da roda viva 

não sejam depreciativos: 

o que dirão 

quando morta for?

15.1.26

Injustiças documentadas (629)

O passado 

não tem 

futuro.

#4320

O vício 

não precisa de comício 

para ser um estropício.

14.1.26

#4319

Vejo que veem que o rei vai nu; 

neste complexo palco de sombras 

ainda bem que não é monarquia. 

13.1.26

Como esconder um telhado de vidro

Dedico a indulgência 

aos patronos da leviandade. 

Sem eles 

seria apenas 

uma promessa do passado 

e não quero 

que saibam das promessas 

que deixei por abastecer.

#4318

Um abalo sísmico 

não extingue 

a cortesia.

12.1.26

Apogeu

Dadas, 

as mãos que sentem a pele a latejar

na dádiva sublime que cura do tempo tirano.

Por fora de nós 

pende o suor da nossa respiração 

e à boca legamos as palavras uníssonas.

Somos o leve habitar das sílabas 

que voam sobre o estuário

enquanto vigiamos o entardecer.

#4317

É no cortejo dos párias

que te vou encontrar?

11.1.26

#4316

Daríamos às portas 

uma servidão negada 

e seríamos então 

amos em vez de servos. 

10.1.26

Injustiças documentadas (628)

O mundo vale a pena.

Vale a pena.

A pena.

Pena.

#4315

Carroll inventou um coelho; 

nós somos os artesãos 

de sonhos válidos.

9.1.26

Injustiças documentadas (627)

Não é do domínio da cartomancia

mandar o outro 

para o baralho.

 

[Desconstruindo uma ideia de Conan Osiris]

#4314

Sem a pimenta que deleita 

nem pela metade 

somos fuso ingente.

8.1.26

#4313

Não nos vale 

o orçamento do Estado 

nem o estado do orçamento.

7.1.26

#4312

Não culpem 

os ponteiros do relógio 

pela pressa do tempo.

6.1.26

#4311

Há dias que pedem 

prolongamento 

e outros que suplicam

abreviatura.

#4310

Um casaco 

vestido do avesso 

dispensa cabide.

5.1.26

#4309

Não é a ralha 

que ralha;

são os que lhe inventaram

o nome.

26.12.25

#4308

Inteiro 

– nem que o custo 

seja insular.

25.12.25

#4307

Vai sendo costume 

a ausência de guerra 

não ser a paz.

24.12.25

#4306

À noite, 

um brinde: 

há noite

e somos dela.

23.12.25

#4305

As luzes emudecem 

os corpos adormecem 

os sonhos amanhecem.

22.12.25

#4304

No mosto do perdão 

aninha-se o alívio da alma, 

o não gratuito apelo da quitação.

21.12.25

#4303

Um poço escondido 

onde se guardam segredos 

num fundo de águas crepusculares.

20.12.25

#4302

O corsário 

amaldiçoa as marés-vivas 

sem elas pirateava com mais deleite.

19.12.25

Niilismo categórico

Não acredito em nada

nem nessas faustosas teorias

que celebram o nada em teoria.

 

Não acredito

em balas e em bolos

na posse da erudição e na contrição

na bondade e na originalidade

Na escorreita afirmação da sabedoria

e da malévola intenção que tem curadoria:

 

nos estultos

e nos proeminentes vultos

nos disfarces de farsa

e nas medidas avantajadas da graça

nos polícias dos costumes

e nos zeladores de estrumes

nos saudosistas do futuro

e nos apóstolos do kuduro

nas massas intestinas

e nos arrotos das meninas

na pujança da bruta força 

e na corda de que a teimosia troça

nos jornais cabedais

e nas conspirações demais

no vinho adamado

e no reclame que não se faz rogado

nas rosas viçosas

e nas ruas vistosas

nas bocas exuberantes

e nos colóquios comunicantes

nas verbas rasantes

e nos olhos escaldantes

nas árvores matriciais

e nas agulhas geniais

no perfeito acabado

e no imperfeito castrado

nas intenções marejadas

e nas deusas ultrajadas 

nos olhos extáticos

e nos poemas fantásticos

nos nomes angariados

e nas flores nas mãos dos irados.

#4301

Um elogio póstumo 

não houve; 

o morto não ouve.

18.12.25

#4300

Com aquele desplante jurássico 

o geronte à prova de sindicância 

dá a provar a ilusão da igualdade.

17.12.25

#4299

A levedura do juízo 

envelhece 

nos trajes puídos do tempo.