[Crónicas do vírus, DCCX]
A verosimilhança do riso
nos rostos desalfandegados.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Há um mosto sem paga
o ramal vindicado à candeia vigente
no dorso da manhã imprevista.
Há um penhor amarrotado
na cordilheira arrematada em promessa
e de mim é o leilão
onde se inventaria o outono.
[Crónicas do vírus, DCCVII]
Legados da peste (26):
uma matemática
cheia de vírgulas,
o algoritmo da incerteza.
Sobre a manhã contrariada
uma causa perdida.
Uma luta
contra as palavras assintomáticas
as boas rebeldes presas a uma véspera.
O corpo não responde,
prolonga o torpor
herdado de pesadelos sem remoço.
Digo que não há começo
para apaziguar com o impassível recomeço.
O dia não será fugitivo.
Espero
em espera diligente
que mude a maré
enquanto muda insiste
a voz.
Dizem
que da antropológica pequenez
vicejam deuses,
duendes que nos amesquinham
no nanismo terminal.
Dizem
talvez por ser costume
dizer quando melhor seria
calar.
Pois se do fundo fado
não somos feudo
não será por metafísicas poses
que seremos desmedo.
[Crónicas do vírus, DCCV]
Legados da peste (24):
as promessas
deixaram de ser
páginas de um sonho.
O bramido
idioma da multidão
cala as vozes únicas
que a discordância se afoga
na estrénua vociferação.
As vozes únicas
átomos perdidos
perdem o direito a serem voz
a menos
que recheiem o caudal tumultuoso
do bramido tonitruante.
O coro imperativo
ensina as sílabas minuciosas
e gravita na gramática rudimentar.
Já se sabia
que os números esbracejam
a antítese da excelência.
Com o mosto,
a filigrana de mim,
um inventário em falta:
aqueles inquéritos em moda
(dizem-se estivais
como se a época tola
precisasse de notários)
convocam as interiores peregrinações
que não tropecem no medo
ou na mentira.
E talvez o medo
seja o avesso da mentira
e os dois ilustram um binómio
(contudo, pouco reconhecido).
Uma história
depressa se transfigura
em estória
e das vozes estroinas
ecoam palavras apenas lúgubres
ou a simulação das palavras intuídas.
Cobram-se as folhas caducas
no pressentimento do Outono
(convém avivar a memória:
o Outono despoja o Verão);
à época tola
arruma-se no demais restolho
e as fantasias
as elucubrações de que se compõem
os fingimentos
ficam sem apeadeiro.
É nesta altura
que se vindimam as cepas
antes que caramelizem
e os frutos se esqueçam na podridão.
(E, todavia,
as colheitas tardias
apuram a doçura.)
[Crónicas do vírus, DCCIII]
Legados da peste (22):
abraçamos as janelas
que desamedrontam o futuro.
Este é o prefácio.
Antes do começo,
um esgrimir de intenções
que amanhecem regras do jogo.
Os verbos telúricos
abraçam-se à vontade sem tutor.
Quando já não houver páginas
e o crepúsculo ditar o seu império
nem de posfácios será embainhada
a memória.
[Crónicas do vírus, DCXCIX]
Legados da peste (18):
mudaram as etiquetas
e os azimutes
mas não mudámos de mais.
Os moinhos adestrados
ensaiam o vento.
No vale
um rumorejo
denúncia o rio
ainda infante.
A manhã adolescente
aprende com o sol
no compasso
das árvores que esbracejam.
O silêncio campestre
povoa o planalto.
O corpo ascende
como se tomasse conta
do horizonte.
Não fala:
o silêncio estrutural
embebido
como idioma.
Um avião
corta o céu
como se fosse uma vírgula
tartamudeada na paisagem.
A urze irrompe
pressentindo o outono.
O olhar fixa-se nas cumeadas
como se estivesse à espera
de miradouros.
No cruzamento
três caminhos oferecem-se
como hipóteses.
A um canto,
discretamente,
umas alminhas apascentam
um bouquet
enquanto as velas exibem
à exaustão do combustível.
Ninguém diria
que tão ermo lugar
é curadoria de uma alma dispensada.
Há vezes
em que o exílio se convoca
imperativo
no desmentido dos contos idílicos
industriados pela cidade.
Vamos rasgar bandeiras
vamos contar histórias a cachalotes
vamos transpirar o medo que poupámos
vamos estrelar a lua por caiar
vamos desenhar as páginas com um poema
vamos ciciar a alvorada junto ao pólen em espera
vamos arrumar os contratempos no parapeito
vamos dançar as marés intempestivas
vamos devolver as flores ao mar de platina
vamos aprender com a latitude hasteada
vamos ornar as tatuagens que se escondem na pele
vamos celebrar todos os corolários
vamos ser a matéria quimérica que somos no sangue.
[Crónicas do vírus, DCXCVII]
Legados da peste (17):
teremos aprendido
a não verter cal
na carne viva?
Faço de meus pés
o planalto
onde estiola o mosto
que murmura versos
às veias incandescentes.
Desconverso a fala diuturna:
o remoço não começa
na haste fruída das flores colonizadas
mas nos baldios
onde a liberdade se antecipa.
O planalto
deixo-o sozinho
a macerar a noite.
[Crónicas do vírus, DCXCVI]
Legados da peste (16):
está por demonstrar
se mantemos a cepa
ou se traduzimos a mudança.
Os comboios
trazem notícias
que são mais
do que a soma do peso
dos passageiros.
Não são
como os fretes nos cargueiros,
muito embora a especialização em fretes
seja uma constante nos compêndios
que nos atiram como lastro.
Já a tara dos comboios
arranja-se no lastro
que se compõe do peso dos passageiros.
Os comboios
não se importam com fretes
e nem supõem
a taragem dos fretes
se pudessem saber das vidas que os habitam
transitoriamente.
(Que é um eufemismo
para o inferno são os outros
que não é lema ensinado
aos comboios).
O regatear
deixou se ser nas feiras;
emigrou
para comícios
e congressos partidários.
O capataz modula a voz
comanda as emoções do séquito
– confirmando
que o séquito não passa de um séquito
ordeiramente obediente
cimentando uma pertença
à medida dos decibéis do palestrante
que usa a batuta desde o púlpito.
[Crónicas do vírus, DCXCIV]
Legados da peste (14):
os narizes assaltados
e não é por mistelas inaladas.