2.8.23

Morgados

O corsário desmatado cobra os juros por junto

e o rosto remoça no orvalho ditoso

que aveluda a pele massacrada. 

Os dedos agarram-se ao vento mendaz

não se importam que seja mendaz

desenham a geometria das curvas

como se de retas fosse a estrada. 

Os impossíveis confundem-se com farsas

o fardamento circunstancial do dia vetusto

como se fossem andrajos condecorados 

e as assíduas personagens puídas 

em pose agonicamente importante

insultando o momento 

com pose de superioridade

(ah! os procuradores da república). 

Levanta-se a ira fermentada na lente baça

o areal enfastiado pelas marés rotineiras

o tempo, que parece imóvel,

uma sucessão de pesadelos hauridos

os roteiros excretados por figuras boçais

que lavram a sala pútrida com falas malsãs

e nós, intencionalmente indiferentes,

medramos por dentro do luar poético

uma biblioteca quimérica que cabe na alma

enquanto esperamos

que o sangue 

destile os morgados que se insinuam

no espelho do futuro.

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