[Crónicas do vírus, DCXCI]
Há sempre
um ângulo morto
da ciência.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
O presente é perfeito
e apresenta
o perfeito presente
no tempo cosmopolita
que é fusão
de antanho e porvir.
Corre a marginal
no parapeito do rio
e do sobranceiro patamar
a cidade em socalcos derrete-se
até ao caudal.
É como
se o pretérito se fundisse
no coevo
e no rio morasse
o poço sem fundo
que desarmadilha o futuro.
Até que
na irremediável, breve foz
todos os rostos se extinguem
e sobre apenas uma memória,
ela por sua vez
perecível
assim que os sedimentos são levados
para o fundo mar.
Arranquei a maldição
do meio do dia que estava.
Outros arqueiam-se
na superstição.
Não digo
êxodo.
Nem participo
com o meu corpo transido
na amálgama a que chamam
prazeres;
prefiro a enseada que se desenha
sob os poros que desinibem a respiração;
na moldura
que se justapõe aos tempos contínuos
abraço os verbos repelidos:
nunca me achei capaz
de figurar no elenco
onde quase todos participam.
Os vitrais animam a lucidez.
Ecos distantes
convocam a pele destatuada.
Não são os princípios que amparam um fim:
se soubesse com quantas candeias
se escreve o penhor
deixava-me estar sozinho
a um canto
para luzir o cenho descarregado,
o alvitre cheio de possibilidades
no mapa desarmadilhado de tempos erguidos.
Entronco no grande bazar
onde as vozes se reduzem ao murmúrio.
Coroas sem marca
marcam o cós do tempo.
Ainda estou para saber
como se leem os versos famintos
que correm no estuário desmaiado.
Julgo
que as palavras assim terçadas
explicam as águas termais do estuário.
[Crónicas do vírus, DCLXXXIX]
O rosto mau da política:
uma constante
não interrompida pela peste.
As artes dispostas no estuário
esperam pelas mãos adestradas,
esperam que as suas rugas sejam lição
antes de serem oferendas ao mar.
Os marinheiros admitem os mares a concurso.
Conhecem-nos melhor
do que as suas calejadas mãos;
é como se as mãos se deitassem aos mares
em metafórico alisar das ondas,
as mãos domadoras
dos mares que conduzem a embarcação.
Do mar alto
contam-se lendas avulsas e muitas:
diz-se
que quanto mais as rugas são ornato das mãos,
mais os mares se inclinam
aos vetustos marinheiros que os somam
sem saberem.
Os mares só gostam de levar ao seu magma
vidas se forem ainda tenras.
[Crónicas do vírus, DCLXXXVIII]
Legados da peste (10):
as impossibilidades
convivem numa fronteira sem limite.
O desmentido implícito
cimenta a mentira
contra o jugo dos hinos
que a desmentem
no leito da narrativa oficial
que deixa em banho-maria
os cínicos que o não sabem ser.
São estes os mantimentos
que advertem contra fantasmas
que apenas são fantasmas.
As palavras são uma tibieza
quando fingem as mentiras que são.
As ruas estilhaçam o sol tardio.
Amparadas na desesperança
as pessoas avançam contra o dia soturno.
Não esperam por nada.
Caladas
esgotam o chão parado
onde esperam pelo autocarro
antes que seja dia de trabalho
(antes
que seja a vez
de a rotina ter voz).
Se fosse pela noite marítima
crepuscular
impávida se iluminada pelo farol da barra
as mentiras escondiam-se de si mesmas.
Antes fosse um lugar preso ao mar
sem as amarras da terra.
Antes fossem as horas
o ponto cardeal vertiginoso
a faca madura que raspa todas as cicatrizes
deixando o mapa sem arestas.
Noturna-se a fala
no vértice diametral do medo.
As horas não são uma vertigem:
vagarosas
parecem arrastar o passado
colonizando todo o tempo
que as mãos conhecem.
[Crónicas do vírus, DCLXXXIII]
Legados da peste (7):
as bolas de cristal
a perquirir
sobre a morfologia da peste.
Saí em fiança
discípulo de parte incerta
que de minha culpa não considerei
o paradeiro.
Se fosse a forca o pedestal correto
– diz-se, em dedução pouco convincente –
o sino da obediência seria um lugar de paz
e a desordem apenas um avatar
para futura memória.
Mas em fiança
alcatifei uma recusa metódica
e do alçapão das proibições fui exilado,
antes que,
derrotado pela vergonha do que seria,
não fosse se não
desarmado capataz por inércia.
Por isso não foi exorbitante
o preço da fiança;
o exercício da liberdade
não tolera a letargia
e o consentimento tácito é a tuneladora
que enterra
e de vez
a maré caudalosa de onde se extraem
os direitos de quem se considera um ser,
um ser de corpo e alma inteiros,
que não capitulam na arena
dos ardilosos regentes.
[Crónicas do vírus, DCLXXXII]
Legados da peste (6):
o abismo maior
entre acríticos obedientes
e lunáticos cercados por conspirações.
A celebridade confessou
com jactância e comoção:
“eu gosto que os outros gostem de mim”.
Eu cá prefiro
que os outros
não saibam do meu paradeiro.
Sem a trincheira
evapora-se o cais sem medo.
Seguem-se
os remédios banais
à espera que amanhã seja
apenas
uma repetição.
Não se diga do sarcasmo
que bolça as suas vítimas;
somos nós
procuradores da imprudência
que jogamos o trunfo
a nosso desfavor.
Por isso
não contamos catedrais;
só contamos
as pedras em que caímos.
A partida
é do avesso do cais
onde a fuligem decai
e as palavras se tornam verbos.
Viajo
nas varandas de um corcel
entre a neve vertida na planície
e a promessa que ferve no sangue.
A chegada
é num lugar sem paradeiro
onde a boca encontra consulta
e a fala se agiganta no silêncio.
[Crónicas do vírus, DCLXXIX]
Uns mastins
desdentados de lucidez
a fingirem
a conspiração da peste.
O deslumbramento
no copo vazio da obviedade
rima
a meias
com a finura das prosápias
das sumidades que embelezam
a pública praça.
O púlpito a eles,
ó meãos súbditos que andais a leste,
que precisais de guias gratuitos.
Ato contínuo
não esqueçais a imperativa genuflexão
que a gratidão é virtude que se não inflaciona
e os gurus não estão ao serviço
apenas para de seus corpos sentirem
do calor uma irradiação.
Não vos canseis do bom conselho,
ávidos que estais de recomendáveis bússolas,
para que possais emprestar um seguimento
ao vosso devir.
[Crónicas do vírus, DCLXXVII]
Haverá sempre
teorias da conspiração
e os autores das teorias da conspiração.
Alta fidelidade.
Alta.
Fidelidade.
Fidelidade alta.
(Ou fidelidade em alta
se houvesse páginas
para retalhar.)
E baixa fidelidade,
também se engaça?
E a
fidelidade baixa
é possível arrematar?
(Se houvesse tempo
para perguntar ao tempo
e se os praticantes da semiótica
– e os totens das almas
estilhaçadas pelo desamor –
não estivessem de férias.)
Nunca souber dizer
por que o ministro dos negócios estrangeiros
é ministro
dos negócios estrangeiros.
Se a diplomacia não é
se não
uma pedra no sapato dos negócios
e se os negócios
(no estrangeiro ou fora dele)
transbordam a diplomacia,
continuo sem saber
se o ministro dos negócios estrangeiros
não é apenas
o ministro do fingimento
o ministro que terça a hipocrisia
entre as nações
o ministro que disfarça ressentimentos
atrás do biombo da semântica
o ministro da propaganda das virtudes pátrias
o ministro cuidador das dores de alma.
Um ministro
oximoro.
[Crónicas do vírus, DCLXXV]
Legados da peste (2):
dois passaportes,
pois as fronteiras
passaram a ser internas.
Não sou de escrever as memórias.
Não sei descrever as memórias.
Não sei do paradeiro do passado.
Mas sei-me presente
no tempo que é presente,
a menos que o fingimento
seja a luva que cobre a minha mão.
Não olho nos interstícios do devir.
Não sei calcular o tempo
que não conheço.
Não sei quantas sílabas tem o amanhã
ou se vem tingido e de que cor.
Não sei da linhagem dos versos
que notificam o futuro.
Não saberia
sequer
imaginar as memórias do porvir
por mais mnemónicas que calhasse na maré.
Espero em espera
com a paciência desembainhada
recebendo com hospitalidade
a silhueta do tempo andante.
As memórias
são a confirmação
de uma ausência.