10.8.21

Sobre a inutilidade das memórias

Não sou de escrever as memórias.

Não sei descrever as memórias.

Não sei do paradeiro do passado. 

Mas sei-me presente

no tempo que é presente,

a menos que o fingimento

seja a luva que cobre a minha mão.

Não olho nos interstícios do devir. 

Não sei calcular o tempo

que não conheço. 

Não sei quantas sílabas tem o amanhã

ou se vem tingido e de que cor. 

Não sei da linhagem dos versos

que notificam o futuro. 

Não saberia 

sequer

imaginar as memórias do porvir

por mais mnemónicas que calhasse na maré. 

Espero em espera

com a paciência desembainhada

recebendo com hospitalidade

a silhueta do tempo andante. 

As memórias

são a confirmação 

de uma ausência. 

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