Nas veias do labirinto
as horas escurecem de propósito
e o sangue arrefece numa anestesia indulgente.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Nas veias do labirinto
as horas escurecem de propósito
e o sangue arrefece numa anestesia indulgente.
Sem medo,
não sei o que é a morte.
Sem o tempo escasso,
tenho medo da morte.
Depois das nuvens escafandro,
onde tudo perde o sentido
e os sentidos se exilam no nada,
as memórias são guardadas em tatuagens
que ajeitam a pele para a decadência.
Aviva-se o penhor
de todo o tempo que é pertença,
de toda a vida que só pode ser sentida
se rimar com vertigem.
Como se houvesse
apenas
um amanhã a amotinar-se de tanto passado.
O endireita azares
compareceu à faina
ainda com o guardanapo a tiracolo
os beiços com a gordura prova do almoço
pronto a devorar os inocentes candidatos
mesmo a jeito do selo do azar
que ficavam tão bovino naqueles lombos.
O ferreiro e o almocreve subiram à mesa
mediam
o estatuto dos notáveis que desfilavam
sem, ó heresia, passadeira carmim,
tao tenros para serem a carne
para a boca do canhão
e ali jazendo depois
sem misericórdia dos verdugos
que se lambuzavam com a vitória
cravada nos cascos
a sublime tatuagem
sem a fuligem do tempo que perdeu a memória
para grande lamento da turba que aprendeu
o feitiço dos notáveis.
Faltaram
o cangalheiro e o cobrador de fraque,
mas não importava,
as dívidas estavam prescritas
e só faltava esperar pelo espelho dos rostos
a sepultura onde desvivem os párias.
A marcha de horrores
apalavrada para a sobremesa.
aos olhos
não deve ser escondida
a franqueza que não é fraqueza.
Ontem
arrumei as facas no alguidar
e esqueci-me do sangue.
Desenhei um mapa
à prova de infantes e marialvas
em cima de uma colher de desdém
depois de bebidos três cálices
de impudor.
Saí
sem medo da rua varrida
sem medo das pessoas
ah! ausentes
e estendi o meu império pelas ruas
desandadas
assim, errante,
gostosamente errante
só a olhar para as palmas das mãos
à procura de oráculo
ou só apenas à procura
de exílio.
Disseram-me
tu não sabes nadar nas espadas centrípetas
não sabes nada
de diplomacia
de jardinagem
e dos mistérios conspirativamente imputados
a (um) deus.
Não importa:
prefiro
a vertigem do vento que magoa a pele
fazer de detetive
em demanda de desconhecimento
metendo parafusos nas estrofes
(assim) abortadas
precavendo os demónios
impedindo-os de cavalgarem numa aurora pária
para fora de mim.
Amanhã
vou arrumar o desarrumo de depois de amanhã;
pode ser que o esconjuro
dê juros no passado.
Sempre desconfiei
de gente com ideias apessoadas
como se tivessem sido engomadas
pela omissão de perguntas
e por vírgulas mal confecionadas
– aquela gente de elevado gabarito,
não menos de dois metros de alto
(para extinguir as dúvidas que haja).
Sempre desconfiei
de amanhãs apreciados
sem se saber (ou desconfiar)
o que é o amanhã
e de profetas desenganados
peritos
em lubidriar o próximo e o distante.
Sempre desconfiei
daquelas bocas boçais que desconfiam
por desconfiar
a armadilham a confiança
em bolas de estrume disparadas sem critério.
Um grosso pincel
caia os corpos.
O véu da vergonha,
disfarçado,
cumpre os mínimos
do fingimento.
A dissolução do (Banco) Espírito Santo,
ninguém me desconvence do contrário,
tem um significado metafísico.
Não sou a noite que emudece.
Vale a voz que estilhaça o silêncio
mais alta do que todas as marés tempestuosas.
Não sou para ser lembrado
quando não souber
prefiro as manhãs sem calado
as horas contadas ao minuto
a garrafa atirada ao mar entardecido
até que me lembre de mim mesmo
no fim dos tempos.
Ah,
estas conspirações da alma
que atam as mãos a altos petroleiros
desensaboam as línguas curtas
enregelando vulcões atados
e na penumbras se esquecem da partida
e não se lembram da chegada.
Houvesse estrelas decadentes
idades certas para morrer
ou o desmorrer eterno apoiado em canetas
um punhado de folhas amarrotadas
e o sangue em convulsão
situado na ebulição de uma aurora boreal
para então
com o peito virado na nudez
e os estilhaços pendidos na pele trespassada
pudesse esconjurar os nomes
que pútridos descem pela falésia
até serem tão mar quanto o mar imenso
onde se depõem.
As sílabas colam-se à noite
no pesar dos murmúrios isentos de gramática
esse rumor que se cola ao ouvido
e coloniza a vontade.
Sei que juntos somos a grandeza
que não consegue a soma das partes.
Sei que os nossos olhos fechados
chegam ao magma fundo onde ninguém vê.
Os beijos que ciciam as estrofes sem medo
sabem de cor a tua silhueta
podiam desenhar uma carta topográfica
com os pormenores dos teus poros.
Imagino
o santuário que abriga o juntos que somos
juntos como se fôssemos siameses
e o meu sangue soubesse de cor
os versos em que te ergues.
Imagino
a maresia do teu corpo
espanejando o cofre fraco
que esconde os nossos rostos fortes.
E sei
que não há tempestades que falem mais alto
ou marés sublevadas no bojo do inverno
que separem esta nossa carne
do uníssono contínuo.
Tosse os lugares-comuns
torna-te
(dizê-lo não magoa)
banal
sai de cena
coberto pela vulgaridade
– do par de lustros
que foste representação.