19.3.26

Assento circunflexo

Ontem

arrumei as facas no alguidar

e esqueci-me do sangue. 

Desenhei um mapa

à prova de infantes e marialvas

em cima de uma colher de desdém

depois de bebidos três cálices

de impudor. 

Saí

sem medo da rua varrida

sem medo das pessoas

ah! ausentes

e estendi o meu império pelas ruas

desandadas

assim, errante,

gostosamente errante

só a olhar para as palmas das mãos

à procura de oráculo

ou só apenas à procura 

de exílio. 

Disseram-me

tu não sabes nadar nas espadas centrípetas

não sabes nada

de diplomacia

de jardinagem

e dos mistérios conspirativamente imputados

a (um) deus. 

Não importa:

prefiro 

a vertigem do vento que magoa a pele

fazer de detetive 

em demanda de desconhecimento

metendo parafusos nas estrofes 

(assim) abortadas 

precavendo os demónios

impedindo-os de cavalgarem numa aurora pária

para fora de mim. 

Amanhã

vou arrumar o desarrumo de depois de amanhã;

pode ser que o esconjuro

dê juros no passado.

 

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