28.11.25

Indiviso

Tanto queria o tempo inteiro

tanto era o que perdia

no úbere indiviso da noite. 

 

Tanto era o aperto da angústia

tanto queria o exílio por perto

na boca extinta por fantasmas sem nome. 

 

Tanto queria ser a lava do vulcão

tanto era aquele nome sem paradeiro

deitado na estola que protegia da ofensa. 

 

Tanto era o vigilante sem sono

tanto queria da noite a pedra inaugural

no provérbio arrastado pelo caudal vertiginoso. 

Injustiças documentadas (623)

As nozes 

obviamente 

a quem tem dentes.

#4280

Arrumo a tralha dourada 

os verbetes da fala 

transcritos em sangue gasto.

27.11.25

Injustiças documentadas (622)

Não quero poetas mortos 

que a poesia que há por vir

só a dão os vivos.

Toponímia

Em vez 

das folhas venais

da manhã anónima

das soluçadas mentiras

dos altares desta vez aos frágeis

das efemérides apátridas

dos motivos ao acaso

dos colarinhos desengomados

e das finas mesuras 

de quem já não deita cotovelos na mesa

um tira-teimas

que as teimas estão pela hora da morte

e ninguém sabe que preço é esse

nem se a inflação se soma à idade

a que temos direito

este nosso luar ausente

dos rostos engaiolados no respeito atávico

nas modas tirânicas que ensurdecem

e povoam o sono com insónias contumazes. 

Em vez 

das vezes em que vagamos a voz

vantagem minha

como no ténis

e o fio da aurora preso ao cabelo enxuto

descai no parapeito que ateia as luzes válidas:

não digam a ninguém

que recusei uma comenda

porque não sei ser 

vez em vez de mim mesmo. 

#4279

Um enorme telescópio 

virado do avesso 

um intruso de fora para dentro.

26.11.25

#4278

Onde os escombros falam 

a carne torna-se silêncio.

25.11.25

A neve tardia

Os olhos desamestrados

voam pelas paredes gastas

dão-se às mãos ateadas

sem o pesar das almas agastadas

sem o vinco sobre o sangue.

Um esgar sem notação

açambarca a luz tímida que espreita

sobre os ombros do dia. 

Espevita os melhores verbos

tomando os melhores anos na varanda solar

e lá fora 

é o frio que dita a lei

o ar composto de finas faúlhas de gelo

que purificam o pensamento. 

As candeias estão apagadas

prefiro tatear no mapa dos sentidos

fugir de todos os fogos medonhos

fugir, até,

dos semelhantes 

que acabaram de se sentar

nos mesmos bancos do comboio

e de mim deixar em legado

a claridade exilada 

a que sempre se escondeu por delito próprio

o parágrafo sempre envidado

quando os outros 

são presença notada.

Injustiças documentadas (621)

As famílias não se constituem 

como os países fazem nascer 

Constituições.

Injustiças documentadas (620)

Ter pés de barro 

há de ser desconfortável.

#4277

Às vezes 

antes a História 

fosse um desperdício.

 

[Entre a vã glória, o estado de negação e o revisionismo do 25 de novembro de 1975]

24.11.25

#4276

As máscaras sucessivas 

entranham-se na pele consumada 

o palco onde se antecipam 

é a vitrine ocupada pelo mundo sem lei.

23.11.25

#4275

Pusessem 

os números a falar 

em vez das palavras 

para reduzirem o pensamento 

a zero.

22.11.25

#4274

Toda esta louca correria 

para depois o tempo se extinguir.

21.11.25

Injustiças documentadas (619)

Nada 

e um par de botas.

#4273

Eis o modo: 

todo ledo 

mergulho em salto vistoso 

para a Atlântida que há em mim. 

20.11.25

A vau

O véu desfeito na água sibilina

desprende-se diz versus havidos

agora é apenas um mapa vazio

à espera de outros versos seus. 

 

A voz ecoa a rima vespertina

completo o dia com as estrofes preenchidas

como se todo o sangue estivesse com fastio

os guerreiros foram desmentidos pelo adeus. 

 

Na pele a tatuagem sibilina

disfarça as achas perdidas

o corpo agiganta-se na eira do cio

o fado destroçado que vem aos olhos meus. 

 

Esconjurada a angústia assassina

as luzes desmaiam nas sílabas amanhecidas

e até os pássaros suspendem o pio

como se afinal a madrugada pertencesse a um deus. 

Injustiças documentadas (618)

Trabalhar, 

para esquecer.

#4272

A remessa expedida 

o olhar com ela, 

de atalaia, 

à distância.

19.11.25

Falta de comparência

O embaraço emascula o dia

a impaciência embacia o sol

e todas as vozes são como espinhas 

encravadas na garganta.

A angústia diluviana 

segue dentro de momentos.

Dará conta da minha ausência.

#4271

Tropa fandanga 

pândega visceral 

embolia do mundo farsante

fuga interior 

heurística.

18.11.25

Escrupulosamente

As facas coladas às palavras

arrastam a infâmia 

que não deixa ninguém

órfão. 

Parece que as pessoas nasceram

inimigas mútuas;

parece

que se movem com os cotovelos 

em cima dos olhos dos outros

uma coreografia dantesca

feita de braços e pernas e torsos

sem cabeças visíveis

num contorcionismo réptil

os dias estendidos no lodo putrefacto

e todos os nomes deitados na usura sem autor

como se todos apenas esperassem

que a véspera não fosse tão pior de hedionda

do que o dia consecutivo. 

 

As pessoas desaprenderam de ouvir

desaprenderam de falar

desaprenderam;

 

ou talvez apenas tivessem fingido

disfarçando com um véu pesado

a omissão da civilização tão peticionada. 

 

Os pulsos aguentam as pás do tempo

o ultraje dos outros que aparecem em contramão

as cruzes inválidas que se deitam nas bandeiras

as palavras agressoras que corrompem espíritos

tornados guerreiros por vocação

como se aos dentes fossem buscar as balas

que atravessam como relâmpagos 

a carne feita presa de inocentes que nunca são. 

 

Todas as máquinas conspiram

no lauto palco da agressividade. 

As ofensas foram descontadas da razão

e voam céleres de apeadeiro em apeadeiro

entram nas casas

mesmo nas que estão seladas contra os elementos 

 

– e as provações arrancadas ao medo ilegítimo

passaram a fazer parte da tabela de elementos

contra os testamentos de boa vontade

as vírgulas que desembaraçam a lisura

que mais parece

tudo por junto 

que a matemática conspira contra a madrugada 

os olhos sentados nos espiões lisérgicos

encomendam a tela de xisto

onde os dedos alagados em tintas superficiais

se vão deitar e adormecer 

contra a recomendação dos provérbios. 

 

Não confidencia, a casta

nem mesmo 

quando as cãs se apoderam da pele

e num agasto incondicional

cobrem de orgulho assassino

os berços que alojam as taças vãs. 

Injustiças documentadas (617)

As mãos largas 

calçam luvas XXL.

#4270

Estiveram tanto tempo fora 

os forasteiros sem paradeiro 

párias do seu próprio lugar.

17.11.25

Matéria dada

Corto na soberba do dia

os chapéus não encenam o sacrifício capaz

nem as flores se antecipam à manhã tirana. 

As janelas arrepiam o vento

e as falas sobrepostas compõem 

o idioma sem pátria. 

Folgam os bolsos vazios

nada há que os queira habilitar

de aforros destes não se peticionam ordens

nem as bandeiras

deixadas na sua esquálida condição

se prestam a uma serventia. 

Entretanto a noite não demora

a gramática extinta

a pesar sobre as costas pesadas

a noite que se consuma exílio

no formidável adro 

onde se escondem os marinheiros desembarcados. 

Ontem já seria tarde

a maré passou ao largo

que neste lugar amaldiçoado

não há crepúsculo que se levante

nem palavras malditas, cortantes,

a lembrar os desadmiráveis logros da História.

#4269

Murchos 

os comícios de antanho 

na epopeia do teatro.

 

[“Santa Joana dos Matadouros”, de Brecht, encenação de Bruno Martins, Teatro Carlos Alberto]

16.11.25

#4268

Simulo dizer 

aquilo que depois hei-de desmentir 

sem me acusarem de estar a mentir; 

eis a dúctil complexidade 

dos tempos modernos.

15.11.25

Injustiças documentadas (616)

Deu-lhe ouvidos 

e depois 

ficou sem ouvir.

#4267

Num passo atrás 

o primitivo que há em nós 

toma conta 

da fala e dos gestos e das intenções.

14.11.25

Caterpillar

Não vem ao caso

nem vem ao acaso

o caso fortuito

a fortaleza jurada

o juro do crédito

a crença nos vultos

a volumosa pança

as pinças por que segue o dia

a dor que se amestra

a mestra numa arte marcial

ou o marciano herdado no jardim.

#4266

Dar parte de fraco: 

poucos têm essa força.

13.11.25

Desamparo

Um gatafunho 

desaloja a solidão da página. 

Os gestos aformoseiam

palavras ditas a medo. 

 

Amanhã

os peixinhos fritos

serão servidos com arroz de feijão. 

 

Os costumes

precisam de habitar algum tempo

na sua antítese. 

Até que da confusão arada

sobre apenas uma febre audível

a tremenda confusão dos órgãos vitais

desamparados pelo paradeiro desconhecido.

Injustiças documentadas (615)

A (des)inteligência, 

(é) artificial.

#4265

Ergue-se 

uma luz bruxuleante 

como se as vozes fossem 

interstícios do tempo.

12.11.25

Como ser desinfluencer

Na basílica dos sentados

a fuligem transpira com as sílabas da cerveja

enquanto os pássaros discorrem os voos rasantes,

indiferentes aos humanos que se encostam

À decadência.

Um ilustre

porventura perdido do seu caminho

erra pelo jardim afora

cruza-se com os reumáticos sentados

diante da basílica dos sentados.

Um deles conhece-o:

 

“já te vi 

na capa de uma cor-de-rosa revista”

 

arranha a voz de bagaço

com a mesma dificuldade 

de quem já deixou para trás

pelo menos

meia-dúzia de cervejas

e uns tantos copos de bagaço.

O ilustre 

deu corda às pernas

antes que fosse importunado pelos reles.

Outro decadente levantou-se

arrumou as calças puídas que estavam a cambar

e exclamou, triunfante:

 

“cá está 

porque sempre quis

ser um desinfluencer!”

Injustiças documentadas (614)

Já o dinheiro morto

descansa num cemitério.

#4264

Ilhas 

sem o balastro do tempo

apenas um modo humilde

toda a fragilidade 

encerrada num verbo.

11.11.25

Estátua

Sopro o sangue sobre a pele do mar 

colho a maré noturna à prova de medo

deixo às mãos antigas

as rugas 

o pesar da alma nos ossos cansados.  

#4263

Os esquimós 

beijam-se coçando os narizes; 

aqui vamos esquecendo 

a gramática do beijo.

10.11.25

Injustiças documentadas (613)

De certeza 

que a fome 

não é a matéria-prima 

das farturas.

#4262

Só um tirano pode decretar 

que os sonhos são uma doença.

9.11.25

#4261

Os degraus lícitos 

três abaixo do nível do mar 

esperam pela maré dionisíaca.

8.11.25

#4260

As mãos atadas 

no bulício do mundo infrene 

são um aplauso pela coragem dita.

7.11.25

Embraiagem

Sobre o olhar 

adeja um céu plúmbeo.

Não consigo 

desfazer as nuvens pesadas 

que cospem chumbo 

para as consciências desprotegidas.

Injustiças documentadas (612)

Foi a tinta 

de tanto correr 

que o sol se fez baço.

 

[Este poema não é patrocinado pelas Tintas Barbot]

#4259

Escondemo-nos 

não por medo de fantasmas 

escondemo-nos 

por dever de restrição 

a modéstia incansável.

6.11.25

Manifesto contra as profecias

Oxalá os cavalos sentados

esperneassem contra os deuses distraídos

e da confusa coreografia

com o beneplácito de coveiros envelhecidos

sobrassem as bocas atónitas 

como se estivessem 

anestesiadas por um luar feito de quimeras. 

Já não sei 

o que fazer com as profecias

que jorram com a abundância de um nada. 

Uma amálgama de medo e claridade

invade o papel que espera pelas estrofes. 

Dizem que o dia messiânico

tomou conta dos véus que ornamentam os rostos. 

Dizem

que não falta muito

para os demónios se tornarem gladiadores

tomando conta da melancolia rebelde. 

Oxalá 

todas as profecias crepusculares

sejam desmentidas 

pelos verbos que se agarram às bocas

famintas de futuro.

#4258

O testamento 

é a prova do passado 

selada na fina louça do futuro.

5.11.25

Digo estas palavras

Digo destas palavras:

 

o silêncio tribuno

a alma que sangra

o estiolado juro que juro

as sílabas que não tartamudeiam

é nessas palavras

que terço um idioma

o jasmim que vem às mãos

o olhar de uma criança aluada

ou o cão que se faz suserano das ruas

e que mesmo assim

vem comer às mãos bondosas. 

 

É por estas palavras:

 

levanto a manhã da luz inaugural

e em estrofes que rasam os violinos

de mim me dou em legado

gramática que dissolve as algemas

da posteridade.

#4257

Abre-se uma janela sobre a manhã 

e vejo o esplendor a povoar o dia.

Injustiças documentadas (611)

De molho, 

as barbas; 

mas que molho 

se serve às barbas?

4.11.25

#4256

O fio desprende-se do precipício 

e o chão torna-se um pesadelo.

3.11.25

Desavença geral

Cultivo a anatomia da indiferença

um certo desmodo do ser atual

até parecer fora do mundo

e acabar a pensar

fora da caixa.

Cultivo

esta despertença

intencional

intransitiva:

as ruas têm um aroma ácido

as pessoas parecem todas estranhos

a claridade convoca o crepúsculo demorado

pois na ausência de luz

tudo fica oculto

até os agentes 

que repetem agressões diárias.

#4255

Limpas a fuligem 

que embacia a alma 

não há dia que fuja 

ao ritual.

2.11.25

#4254

Sou 

o fato feito à medida 

do dia por ocupar.

1.11.25

#4253

O cheiro a ódio 

envenena todos os minutos 

que viajam no sangue.