15.12.21

Ao grama

Quanto 

é o peso

do ânimo leve?

#2236

[Crónicas do vírus, DCCCVIII]

 

Legados da peste (124):

são de pontes

para fugir de precipícios

os futuros públicos concursos.

14.12.21

#2235

[Crónicas do vírus, DCCCVII]

 

Legados da peste (123):

corremos 

atrás de um tempo

que não corre para trás.

13.12.21

Princípio geral da culpa

Se o bode 

é expiatório

é porque tem

as costas largas.

#2234

[Crónicas do vírus, DCCCVI]

 

Legados da peste (122):

não é o avesso

são corpos transfigurados.

12.12.21

#2233

[Crónicas do vírus, DCCCV]

 

Legados da peste (121):

eis a filatelia da época,

um conjunto de borrões

ou um disfarce 

por dentro do disfarce.

11.12.21

#2232

[Crónicas do vírus, DCCCIV]

 

Legados da peste (120):

que olhos míopes

os que trazem a tela

no baço arnês.

10.12.21

Dúvida metódica #3

Os progressistas,

os de forte pendor revolucionário,

abecedários de preconceitos mil

(muito embora se digam embaixadores

do contrário),

comem bolo-rei pelo Natal?

#2231

[Crónicas do vírus, DCCCIII]

 

Legados da peste (119):

a transgressão

já não é sinónimo de rebeldia,

anátema

que fere de morte 

a liberdade.

9.12.21

Sem esteio

O sangue não fala

se não no placo da beligerância

quando, 

pútrido e fora dos corpos,

ostenta a sua inutilidade.

#2230

[Crónicas do vírus, DCCCII]

 

Legados da peste (118):

cada um por si 

– o grau zero da aprendizagem.

8.12.21

Translation issues

Se appointment

é nomeação

disappointment 

não devia ser 

desnomeação? 

#2229

[Crónicas do vírus, DCCCI]

 

Legados da peste (117):

desexemplo,

estes desconcertantes

tempos.

7.12.21

Cemitérios por bibliotecas

No luto

não há um eco de Deus. 

Uma silhueta vermelha

rebelde

cativa os insultos 

– heresia, oh heresia. 

Se houvesse bibliotecas por narrar

seriam olhos sem sono

os que ditavam penhor. 

Se pensar bem

as bibliotecas são sepulturas

onde os mortos se corporizam

imorredoiros.

Os cemitérios deviam dar lugar

a bibliotecas. 

Não ficava pesado 

com o chumbo das sepulturas

o chão assim libertado

e os mortos

todos os mortos

teriam na biblioteca

o seu panteão. 

#2228

[Crónicas do vírus, DCCC]

 

Legados da peste (116):

tentativa e erro

uma e outra vez,

uma coreografia inacabada.

6.12.21

Princípio geral da orografia

Se a montanha

não foi parteira 

de um rato

foi o rato que pariu

a montanha.

 

Ulisses

não nasceu

ontem.

#2227

[Crónicas do vírus, DCCXCIX]

 

Legados da peste (115):

uma emboscada

que sai do esconderijo

e nos atropela, 

outra vez.

5.12.21

#2226

[Crónicas do vírus, DCCXCVIII]

 

Legados da peste (114):

de faiança desbotada,

este ADN adulterado.

4.12.21

Matilha

Um rosto seráfico

de bronze

impede o dedilhar da mentira. 

É como se forças sem face

metessem mais à obra

para derrotar uma tempestade,

convencidas da fortuna da maré. 

O vinho apresenta-se amigo. 

Se ao menos 

os cães não andassem em matilha

os remédios 

embainhados numa nota de rodapé

diriam

em voz apenas murmurada

que não é prémio de monta

saber dos filhos 

como seguidores. 

As mentiras

não se contam aos incrédulos,

de acordo com um advogado

que se diz ter procuração de demónios inúmeros. 

Da noite para o dia

avançam os vultos disfarçados

na contagem válida das mentiras sobrepostas. 

#2225

[Crónicas do vírus, DCCXCVII]

 

Legados da peste (113):

o rosto da peste,

ou uma procuração

da sinédoque da beligerância.

 

3.12.21

#2224

[Crónicas do vírus, DCCXCVI]

 

Legados da peste (112):

servidos 

num caudal tumultuoso

como se não fosse nossa

a vontade.

2.12.21

Jugo

Daí a lanterna

no labirinto do crepúsculo

bússola, talvez, 

ou dicionário

contra os vultos baços

que instruem a cobiça. 

#2223

[Crónicas do vírus, DCCXCV]

 

Legados da peste (111):

só os olhos

falam sorrisos.

1.12.21

Paredes-meias

Fala-se de vileza

e os olhos amedrontam-se

no estertor do sangue embaciado.

 

Fala-se de apatia

e as mãos ensanguentam-se

no fiorde do medo tardio.

 

Fala-se de remédios

e o corpo inteiro agasalha-se

nas luvas do tempo sem medida.

#2222

[Crónicas do vírus, DCCXCIV]

 

Legados da peste (110):

somos 

um estaleiro duradouro

à espera 

da beligerância sem rosto.

30.11.21

#2221

[Crónicas do vírus, DCCXCIII]

 

Legados da peste (109):

o medo 

não se paga

com a tença do abismo.

29.11.21

Cheque em branco

Era sem saber da lareira

que o Inverno se acomodava

entre os poros cansados 

e as preces não atendidas 

dos seus inimigos. 

Se ao exílio comparecessem

os arrojados embaixadores da fecundidade

prover-se-iam de toda a carne a jeito,

a vantagem não artificial na boca do desmedo

rindo, gulosamente, 

contra os padrões. 

Não sabendo do exílio

não se sabia do seu paradeiro

a loucura espalhada pelos átomos de todo o chão

chamando pelos fugitivos desamparados

seduzindo-os com a armadilha do fingimento. 

E eles

já não sabiam

se era de exílio que cuidavam apascentar

ou se era apenas o idioma estilhaçado. 

A fábrica ao longe,

marcando 

o horizonte que separa do desconhecido,

moderava as sílabas 

que medravam das bocas famintas. 

Não era o túmulo onde, 

serenos,

druidas esquecidos 

povoavam a errática condição. 

Os vultos não consentiam a identificação. 

Ninguém anda pela rua

a perguntar os nomes.

#2220

[Crónicas do vírus, DCCXCII]

 

Legados da peste (108):

não fosse errática a peste

maus não seriam

os ofícios dos regentes

(segundo o estalão benevolente).

28.11.21

#2219

[Crónicas do vírus, DCCXCI]

 

Legados da peste (107):

pandemia-pandemónio

um leve travo

a manicómio.

27.11.21

Chão de sangue feito

Os nomes não eram surdos. 

Plantados contra as ervas daninhas

cresciam pelo mosto do orvalho

desmentindo os oráculos sombrios. 

De cada vez que vinham à boca

eram resgatados ao desaparecimento

e ficavam a adejar sobre a impossibilidade

como se fossem elixires à mão

irrecusáveis convites para ladrões de almas. 

Na contingência da estrada sem noite

marcávamos os olhos com areias vivas

e sabíamos

que um destes dias os frutos colhidos

dariam conta da nossa safra. 

Até lá

jogávamos os nomes contra os estilhaços do dia

amparados pelas mãos invioláveis

e pelo verbo 

que só as nossas bocas sabiam entoar.