[Variação do #3063]
Somos nós
que arrastamos decadência.
não é o tempo.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
Atiras os dados
o calibre das folhas caducas
estilhaçado no frangir das folhas
à mercê da fragilidade cadente
do estanho que tatua a pele.
Aos dados dizes segredos
inventas a sobriedade cozinhada
entre páginas consuetudinárias
e palavras coevas que desdizem o futuro.
Pela amostra dos sortilégios
não se esperam proezas com arnês:
já se pressente o abismo
antes de chegares ao promontório
e não abrandas o passo.
Sabes
que um salto de gigante
não está vedado
e ninguém te ensinou
a proibição dos sonhos.
À hora em que escrevo
não sei
se já te chamam herói
ou
se te vou visitar ao cemitério.
Nas autoestradas
não há alminhas
é sempre a acelerar
sempre para a frente
é proibido
lembrar os mortos.
Já alguém pensou
no papel dos atores que fazem de mortos
deitados na maca das autópsias?
Sobre a carne viva
um mar inteiro deposto
o cofre sem paradeiro
sílabas deitadas ao acaso.
Profetas credenciados expõem teses,
são sobre inevitavelmente o futuro
e o sal do mar arrematado
embacia as tábuas oraculares
à medida que as cicatrizes
tatuam a carne outrora
viva.
Os dedos fervem as uvas
à espera que cantem;
à espera:
que sejam rivais das profecias
pelo meio de jardins desleixados
e ardinas sem voz para pregões.
Lá fora
o vento murmura (qualquer coisa)
como se fosse ele a tocar a rebate
pois os sinos estavam em greve;
a madurez da pele estende-se aos relógios
competem a ver quem anda mais depressa
e as tochas devolvem uma luz fátua,
o elixir capaz de remediar
os gritos sem rosto.
Há gente no baldio depois do rio
erram na margem
o olhar a perder-se da sua órbita
parece que estão à espera do anoitecer
para saquearem, às escondidas,
almas distraídas
e depois as empenharem
aos desalmados sem redenção.
É tanta a carne viva
tanta a soletrar palavras inteiras
que a morte
deixou de ser negócio próspero.
Em vez de saque
um saco atado aos pés
a fúria atravessada na jugular
ele há cada ingenuidade
daquelas mesmo pueris
e o logro não te pediu licença
tu ali deposto
derrotado
pelo teu pior adversário
tu.
A penumbra esvazia a finitude
devolve oráculos
à irrisória geografia das farsas
e nós
apenas breves esculturas cingidas ao vento
emprestamo-nos à matéria volúvel
a indisfarçável declaração de indiferença
(muito embora
a solenidade dos direitos humanos
o desminta).
Ajustamos a pele ao arnês
a ventoinha da tempestade acabou de soar.
Vamos de abalada
que o abismo não é quando queremos.
Não contem os segredos todos
aos demónios oraculares
eles não precisam dessa cartilha
nem de saber da matemática toda.
Jogo na areia
o sal chumbado
ao sol doido.
Juro ainda a tempo
no marcial empenho
que conspiro sem lei.
Atiro ao convés
a caveira derrotada
depois de nela beber.
O mar noturno bolça fúria
a vingança intempestiva
estilhaçada na proa.
A noite demora a eternidade
a claridade exilada no naufrágio
onde já não vencem os ousados.
Ontem
esqueci-me das vírgulas
disfarçado de sicário
remexi na gramática,
despojada de aritmética
e de espelhos.
Hoje
deixei de saber o critério:
uma espada veio a direito
e fugi
a tempo (a tempo)
antes que fosse estilhaçado
na desbondade da gramática
ferida.