19.1.26

Desidentidade

Não sou o medo que cicia no crepúsculo. 

Não sou a metade oculta na submissão. 

Não sou o fantasma futuro dos sonhos. 

Não sou o embaixador de virtudes remediadas. 

Não sou apóstata a não ser pela minha lente. 

Não sou uma admirável força 

terçada nas contrariedades. 

Não sou o sonho que poderia ter sonhado

nem o paradeiro de sonhos avulsos. 

Não sou um promitente de coisa alguma. 

Não sou a boca temerária 

que se ajoelha às vozes dominantes. 

Não sou mentira de mim mesmo 

na medição das fragilidades. 

Não sou penhor de nada que me possa penhorar. 

Não sou o asceta que se exila dos sobressaltos. 

Não sou o sangue domado 

pelas paredes íngremes do idioma vulgar. 

Não sou a medida fora de mim. 

Não sou coleção de lugares não demandados. 

Não sei ao certo o que serei

a não ser tudo aquilo

e mais ainda

o que sei não ser.

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