Ontem
comprei um palácio
feito de baldios e ouro invisível.
Queria poder dizer que meu era um domínio
mesmo que só fosse suserano
de mim mesmo.
Não contemplo outra hipótese:
se ao domínio meu
viessem a calhar em azar
(seu)
outros em suserana condição
decretá-lo-ia prescrito por inviabilidade.
Neste que é o domínio meu
decido sozinho
com um autoritarismo deplorável
ausente sensibilidade pelos outros
(que não existem)
eu, esboço de tirano
que de mim próprio faz sua predileta vítima,
sozinho decido
(dizia)
sobre a bandeira que não hasteio
as leis por fazer que ficam para memória futura
a dívida que não contraio
as embaixadas que não tenho de inaugurar
os hinos que ficam por conta do olvido
as credenciais que se dispensam da imaginação
e das fronteiras faço frangalhos
sob a égide da guilhotina com serventia única:
abolir
em corte rasante
todos os simples ensaios torcionários
de privação da vontade
nem que seja um tiro no pé
de ofensa a tudo o que o súbdito
(que coincide com o suserano,
há que insistir na mnemónica)
julgar nefasto
bem que seja uma venda aposta sobre os vícios.
Antes ser pária
por uma causa recomendável
nem que o seja apenas
pela lente por onde olho.
Um dia destes
talvez venda o palácio.

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