21.1.26

Remendado

Ontem 

comprei um palácio

feito de baldios e ouro invisível. 

Queria poder dizer que meu era um domínio

mesmo que só fosse suserano

de mim mesmo.

Não contemplo outra hipótese:

se ao domínio meu

viessem a calhar em azar 

(seu)

outros em suserana condição

decretá-lo-ia prescrito por inviabilidade. 

Neste que é o domínio meu

decido sozinho

com um autoritarismo deplorável

ausente sensibilidade pelos outros

(que não existem)

eu, esboço de tirano

que de mim próprio faz sua predileta vítima,

sozinho decido 

(dizia)

sobre a bandeira que não hasteio

as leis por fazer que ficam para memória futura

a dívida que não contraio

as embaixadas que não tenho de inaugurar

os hinos que ficam por conta do olvido

as credenciais que se dispensam da imaginação

e das fronteiras faço frangalhos

sob a égide da guilhotina com serventia única:

abolir 

em corte rasante

todos os simples ensaios torcionários

de privação da vontade

nem que seja um tiro no pé

de ofensa a tudo o que o súbdito

(que coincide com o suserano,

há que insistir na mnemónica)

julgar nefasto

bem que seja uma venda aposta sobre os vícios. 

Antes ser pária 

por uma causa recomendável

nem que o seja apenas 

pela lente por onde olho.

Um dia destes

talvez venda o palácio.

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