[Crónicas do vírus, CDXXXVI]
Ainda não aprendemos
que o arrependimento
não é a fiança da redenção.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
[Crónicas do vírus, CDXXXVI]
Ainda não aprendemos
que o arrependimento
não é a fiança da redenção.
[Crónicas do vírus, CDXXXIV]
Um coro de farsantes:
os súbditos,
indisciplinados.
exibindo-se como súbditos;
e os regentes,
que aproveitam
para exibir o músculo.
O podre de um regime
não são os seus porteiros;
são as portas
que lhes damos
como legado.
O podre dos porteiros
não é a vileza que os cobre
ou as meãs manhãs em que se entretecem
ou o coldre vazio
em que oxalá fossem concebidos
ou a árvore enfastiada em que se entronizam;
é dos que selam o sufrágio
cúmplices em primeiro grau
as mãos que servem às luvas dos porteiros.
O podre
é da letargia incandescente
que de mote próprio faz alpinismo
às costas dos súbditos
instruindo-os na apatia.
[Crónicas do vírus, CDXXXIII]
O fio da navalha
rorejando toda a vingança
sobre os frágeis
(que não admite exceções).
Como se de uma barreira de coral se tratasse:
os dentes afiados contra as redes
e o farol centenário
ciciando um pesar orquestrado
que não amedronta os peixes.
Nem do salitre cuidam os barcos
que em águas tumultuosas
sem a guarida do porto
não sobra atalaia
se não para o sopesar da embarcação.
Os nós enredam-se no crepúsculo:
têm de ser as mãos gastas dos marinheiros
a prevenir a redenção.
Não se diga
que a fartura pretérita se consumiu
nos corpos envelhecidos;
a maresia aspira o sal pelos poros
e embebe-se na ossatura dos marinheiros,
que ganham no tributo
calibrado na vertigem do tempo.
Deixam as vírgulas esquecidas
num recanto da boca
como se as tivessem salivado
e elas,
sílabas estilhaçadas,
sobrassem,
despojos,
nas pregas dos lábios.
Todas
as palavras
contam.
É nesta
aritmética suada
que habito.
E se contam
as palavras todas
subo aos contos
narrador acidental
embriagado
com o vocabulário sedoso,
emoldurado.
Com
todas
as palavras
contadas
no vagar das sílabas
chamando
os nomes
e as coisas
nelas desenhando
os rostos
os corpos
um amontoado de equações
amanhecidas
na contabilidade das palavras.
[Crónicas do vírus, CDXXX]
(Uma)
Tragédia dos comuns
– e como a expressão
se tomou de propriedade.
Pontos nos is
para que vos quero?
Pois
se na Turquia
há is que não levam ponto
e não consta
que a Turquia tenha sido
desqualificada.
Pontos nos is
mordaça institucionalizada
a pedir uma re-gramática
(pois se
há quem dispense pontos finais
e outros
dos parágrafos fazem tábua-rasa
e outros ainda
desconhecem maiúsculas
como inauguração de orações);
pois
os is mantêm validade
mesmo que venham amputados
de pontos
e ninguém nos pediu
para vertermos os pontos nos is
pois
tudo ficou aclarado
no cancioneiro do entendimento:
nos is sem pontos
que is se continuam a ter.
[Crónicas do vírus, CDXXIX]
O povo
a fazer a vontade
aos adágios que vulgarizou:
à segunda onda
segue-se a terceira,
sem demora.
Povoadas as floreiras
com o suor ungido
ajardina-se o verbo
nas cicatrizes consuetudinárias.
Um punhado de artes,
ou apenas o inescrúpulo larvar,
cimentam a pele emaciada:
se dantes
os canteiros desenhavam as cores
agora
entediam-se com o macilento rosto
da invernia que não se apieda.
A ossatura entoa os queixumes,
rima com a duração plúmbea
que agiganta os pesares
pelos soalheiros dias.
Sozinhos
os dias breves
remedeiam-se
à medida que as cinzas das lareiras
fazem cama
ao esquecimento.
Do lado certo
a montanha desenha-se na luz.
Rasgos de crueldade
na tribuna de um rebanho
(qual será a primeira rês
a deixar de contar
no inventário dos vivos?)
Amortecem a urze sob os cascos
com o mais alto patrocínio
do cão tutelar.
A neve arrancada ao chão
dissimula-se
nos ventres opados
como se fossem vitaminas órfãs
só à espera da confirmação do algoz.
Será rubra
a neve ensarilhada
sob o jugo do punhal severo.
Será assim tingida
a abundante água
vertida pela serra.
A narrativa congemina-se:
não é crueldade
é o oximoro
da beleza serrana.
O bolo-rei
tem má fama.
As rabanadas
têm má fama.
Os sonhos e as filhoses,
também têm má fama.
As famílias
que são os seus próprios anticorpos
têm má fama.
A febre do consumo
que desmede afetos
ou prova favores
tem má fama.
O beatismo da época
tem má fama.
As juras de metamorfose
(apalavradas na ressaca da época)
têm má fama.
As árvores ornamentadas
têm má fama.
As ruas iluminadas
têm má fama.
O natal
não tem culpa nenhuma.
Havia um número
(escondido)
que tinha o rosto
da tolerância.
Mantive-o em segredo
– e não foi por gula
ou egoístico bem-perder:
queria que esse número
fosse da minha lavra
sem o avesso da linguagem cifrada
nem a pretensão desilustre
dos marçanos sem roda.
Um número,
privativo:
diamante desencontrado
na floresta de números
nem primo nem esteta
nem estulto nem primacial.
Só um número anunciado,
mas sem revelação,
espaço sem limites
dicionário à espera de apeadeiro;
sangue que se encontra
por dentro de mim.