21.1.26

#4326

Fechem os fantasmas 

a sete chaves 

que uma é pouco.

 

[Ressaca eleitoral, take 2]

20.1.26

A ponte servil

A ponte sente que as sílabas batem à porta. 

O crepúsculo enfeita a garganta seca. 

A noite açoita a luz que a quer desmentir. 

No saco dos rejeitados segue a matéria anónima. 

Precisa de cimento para escapar à ruína. 

 

Se ao menos houver uma bênção na chuva

que seja dos nomes que se perdem em becos

e não olham ao medo como gramática da respiração. 

 

As sílabas compõem-se na espera diletante.

À espera de serem a ponte que desfeiteia a orfandade.

#4325

Se um núcleo 

não fosse duro 

não seria núcleo.

 

[Ressaca eleitoral]

19.1.26

Desidentidade

Não sou o medo que cicia no crepúsculo. 

Não sou a metade oculta na submissão. 

Não sou o fantasma futuro dos sonhos. 

Não sou o embaixador de virtudes remediadas. 

Não sou apóstata a não ser pela minha lente. 

Não sou uma admirável força 

terçada nas contrariedades. 

Não sou o sonho que poderia ter sonhado

nem o paradeiro de sonhos avulsos. 

Não sou um promitente de coisa alguma. 

Não sou a boca temerária 

que se ajoelha às vozes dominantes. 

Não sou mentira de mim mesmo 

na medição das fragilidades. 

Não sou penhor de nada que me possa penhorar. 

Não sou o asceta que se exila dos sobressaltos. 

Não sou o sangue domado 

pelas paredes íngremes do idioma vulgar. 

Não sou a medida fora de mim. 

Não sou coleção de lugares não demandados. 

Não sei ao certo o que serei

a não ser tudo aquilo

e mais ainda

o que sei não ser.

#4324

O sal também tem flor. 

O dia perde a máscara dos timoratos.

18.1.26

#4323

Abotoada a inveja, 

se possível for, 

para encantar 

a forma descamisada de ser.

17.1.26

#4322

Os dedos matraqueiam palavras surdas 

do que ficou por dizer 

e do silenciado por diplomacia.

16.1.26

Neptuno

Toco por dentro o céu. 

Cobro aos demónios as tempestades viris. 

Do dicionário açambarco as palavras lúdicas

como se a vertigem não participasse

do precipício constante

e perdêssemos o paradeiro da lucidez. 

Somos as asas que descem e sobem

decifrando paisagens singulares. 

Tornamos a noite 

na fogueira que adormece a pele. 

Não deitamos fora o silêncio:

é na sua gramática que escondemos

as estrofes de que somos tutores. 

No céu tocado

o achado de uma quimera

um domínio que vale mais 

do que mil reinos.

#4321

Da roda viva 

não sejam depreciativos: 

o que dirão 

quando morta for?

15.1.26

Injustiças documentadas (629)

O passado 

não tem 

futuro.

#4320

O vício 

não precisa de comício 

para ser um estropício.

14.1.26

#4319

Vejo que veem que o rei vai nu; 

neste complexo palco de sombras 

ainda bem que não é monarquia. 

13.1.26

Como esconder um telhado de vidro

Dedico a indulgência 

aos patronos da leviandade. 

Sem eles 

seria apenas 

uma promessa do passado 

e não quero 

que saibam das promessas 

que deixei por abastecer.

#4318

Um abalo sísmico 

não extingue 

a cortesia.

12.1.26

Apogeu

Dadas, 

as mãos que sentem a pele a latejar

na dádiva sublime que cura do tempo tirano.

Por fora de nós 

pende o suor da nossa respiração 

e à boca legamos as palavras uníssonas.

Somos o leve habitar das sílabas 

que voam sobre o estuário

enquanto vigiamos o entardecer.

#4317

É no cortejo dos párias

que te vou encontrar?

11.1.26

#4316

Daríamos às portas 

uma servidão negada 

e seríamos então 

amos em vez de servos. 

10.1.26

Injustiças documentadas (628)

O mundo vale a pena.

Vale a pena.

A pena.

Pena.

#4315

Carroll inventou um coelho; 

nós somos os artesãos 

de sonhos válidos.

9.1.26

Injustiças documentadas (627)

Não é do domínio da cartomancia

mandar o outro 

para o baralho.

 

[Desconstruindo uma ideia de Conan Osiris]

#4314

Sem a pimenta que deleita 

nem pela metade 

somos fuso ingente.

8.1.26

#4313

Não nos vale 

o orçamento do Estado 

nem o estado do orçamento.

7.1.26

#4312

Não culpem 

os ponteiros do relógio 

pela pressa do tempo.

6.1.26

#4311

Há dias que pedem 

prolongamento 

e outros que suplicam

abreviatura.

#4310

Um casaco 

vestido do avesso 

dispensa cabide.

5.1.26

#4309

Não é a ralha 

que ralha;

são os que lhe inventaram

o nome.

26.12.25

#4308

Inteiro 

– nem que o custo 

seja insular.

25.12.25

#4307

Vai sendo costume 

a ausência de guerra 

não ser a paz.

24.12.25

#4306

À noite, 

um brinde: 

há noite

e somos dela.

23.12.25

#4305

As luzes emudecem 

os corpos adormecem 

os sonhos amanhecem.