Fechem os fantasmas
a sete chaves
que uma é pouco.
[Ressaca eleitoral, take 2]
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
A ponte sente que as sílabas batem à porta.
O crepúsculo enfeita a garganta seca.
A noite açoita a luz que a quer desmentir.
No saco dos rejeitados segue a matéria anónima.
Precisa de cimento para escapar à ruína.
Se ao menos houver uma bênção na chuva
que seja dos nomes que se perdem em becos
e não olham ao medo como gramática da respiração.
As sílabas compõem-se na espera diletante.
À espera de serem a ponte que desfeiteia a orfandade.
Não sou o medo que cicia no crepúsculo.
Não sou a metade oculta na submissão.
Não sou o fantasma futuro dos sonhos.
Não sou o embaixador de virtudes remediadas.
Não sou apóstata a não ser pela minha lente.
Não sou uma admirável força
terçada nas contrariedades.
Não sou o sonho que poderia ter sonhado
nem o paradeiro de sonhos avulsos.
Não sou um promitente de coisa alguma.
Não sou a boca temerária
que se ajoelha às vozes dominantes.
Não sou mentira de mim mesmo
na medição das fragilidades.
Não sou penhor de nada que me possa penhorar.
Não sou o asceta que se exila dos sobressaltos.
Não sou o sangue domado
pelas paredes íngremes do idioma vulgar.
Não sou a medida fora de mim.
Não sou coleção de lugares não demandados.
Não sei ao certo o que serei
a não ser tudo aquilo
e mais ainda
o que sei não ser.
Toco por dentro o céu.
Cobro aos demónios as tempestades viris.
Do dicionário açambarco as palavras lúdicas
como se a vertigem não participasse
do precipício constante
e perdêssemos o paradeiro da lucidez.
Somos as asas que descem e sobem
decifrando paisagens singulares.
Tornamos a noite
na fogueira que adormece a pele.
Não deitamos fora o silêncio:
é na sua gramática que escondemos
as estrofes de que somos tutores.
No céu tocado
o achado de uma quimera
um domínio que vale mais
do que mil reinos.
Vejo que veem que o rei vai nu;
neste complexo palco de sombras
ainda bem que não é monarquia.
Dedico a indulgência
aos patronos da leviandade.
Sem eles
seria apenas
uma promessa do passado
e não quero
que saibam das promessas
que deixei por abastecer.
Dadas,
as mãos que sentem a pele a latejar
na dádiva sublime que cura do tempo tirano.
Por fora de nós
pende o suor da nossa respiração
e à boca legamos as palavras uníssonas.
Somos o leve habitar das sílabas
que voam sobre o estuário
enquanto vigiamos o entardecer.
Não é do domínio da cartomancia
mandar o outro
para o baralho.
[Desconstruindo uma ideia de Conan Osiris]