Resgatei uma lágrima
do mar em convulsão
enquanto me contratava
na moldura de um instante.
2.1.17
Em formação contínua
Perfeita a
constelação diurna
descompondo as
bravatas inúteis
no chão frio.
Diria,
sem suposições
frugais,
que os olhos
entediados saberiam
que calendário
escolher
que precisa
folha do calendário
escolher.
Mesmo que
estivesse escuro no quarto
e as mãos
arranjassem espaço
por tentativa e
erro.
Por mais
que os mastins
orquestrem
a noite imorredoira
e os tomadores
de chaves desfaçam
o ponto de Arquimedes
e maçadores
incontinentes da palavra
furtem o silêncio
esperado,
sobejam nas ogivas
rejuvenescidas
as orquídeas sem
tempo
à espera de vez.
Na perfeita
constelação diurna,
onde as estrelas
se intuem
nas sombras do avesso,
levando ao colo
o ciciar dos pássaros
e as ondas
sobrantes da maré imposta,
sem rumorejo leniente
ou arcadas
disformes,
o peso do rosto
levita no dorso da mão.
Quente e simples
no verbo alado
de estrofes amuralhadas
admitindo as
portas estroncadas
onde se queima a
amálgama de lugares-comuns
e de lugares-feitos.
Até que,
com a bênção da
aurora radiante,
troféus inanes não
sejam disputados.
1.1.17
Rouca a voz distante
Rouca
a voz distante.
Mercê
de coisas quiméricas
arrebatamentos
não banais
vistas
atiradas para páginas depois
pele
adestrada para o frio das estepes
refeições
singelas comidas no parapeito
algas
colhidas ao acaso na embocadura do mar.
Rouca
a voz distante
mas
suficiente para o demais:
as
proclamações vertiginosas
os
cálices verticais
os
olhos sambados
os
arbustos cheios de mel
as
areias recebidas no luar
as
estrofes que desaproveitam preces
os
beijos desatados
os
filhos servidos em ouro
os
braços maduros pelo entrelaçar.
Rouca
a voz distante
mas
voz
e
portanto
presente.
31.12.16
Pontes sábias
As pontes sábias
tangentes ao suor carregado
secam as lágrimas marejadas
vertidas em arcádias outonais.
As pontes sábias
amarelecem páginas cansadas
ao ritmo do vinho velho
para serem mestres tutoras dos esquecidos.
São sábias
as pontes desaproveitadas
sob os pés de gente enquistada
nos terríveis patamares da insídia.
Sobram as sábias pontes
que recolhem no seu antepasso
os exilados das cores desmaiadas.
30.12.16
Pecúlio
Arruaço
as ideias matrizes
contra os embustes disfarçados.
Sem ousadias militantes
(a não ser
dedilhar os farsantes
acobertados nos lugares-comuns).
Desajeitam-se os calibres
os pesos que precisam de contrapesos
os esquálidos contrafortes da igualdade
o verso e o reverso
as faces diametralmente descasadas.
É pouco.
Procuro janelas
que se desdobram em
janelas outras
múltiplas janelas
abrindo-se de par em par
abraçando-se às aragens diversas
as que têm origens acima das contagens
janelas de ogivas férteis.
Procuro corredores largos
onde o pensamento se espraie
em seus
deslimites.
Corredores
atapetados pelos olhares múltiplos
em sintaxe esperanta
no desembaraço de espíritos
desacorrentados.
29.12.16
Demiurgo
Um
plano misturado pelas mãos
enquanto
os ossos das montanhas arrefecem
e
os bastardos penhores do fogo
montam
cerco.
Não
saberia dizer aos olhos ávidos
se
não fossem os montes à mão de semear
como
se a mão neles pudesse pousar
a
agarrá-los.
A
paisagem não foge.
As
mãos trémulas
têm
de a encontrar
num
sortilégio a desfazer.
28.12.16
Arrefecido
A
mostarda ao nariz
o
mastro arrimado
as
nuvens escurecidas
o
amuo no estirador
e
a culatra em pulgas.
Não
adianta.
O
nariz já se consumia
em
sua perfunctório ensimesmar.
As
regras encavalitadas
o
suor sem préstimo
as
imitações pueris
os
poços poeirentos
e
as maças apodrecidas.
Não
adianta.
A
camisa-de-forças
era
estertor bastante.
27.12.16
Sobreiro professoral
Debaixo
das cicatrizes
o
velho sobreiro medra
um
invejável elixir.
Não
sabem da poda
os
poltrões citadinos
disfarçados
em farpelas
congeminadas
por bisturis.
De
hoje para amanhã
dandies ocultos fruirão
nas
margens dos montados.
Deem-lhes
bolotas
que
já estão habituados.
26.12.16
Intermitências
Perguntam aos ossos matinais
se trazem com eles as pedras angulares
que decifram as veias do mundo.
Perguntam se as representações
se misturam com a métrica suspensa
entre dois lampejos da lua esquartejada.
Perguntam aos angariadores de almas
por que sortilégios se movem
para não conseguirem arrematar vivalma.
Perguntam às mulheres enlutadas
se não se lembraram de despojar o véu escuro
que freia o ar límpido.
Perguntaram aos loucos sem carteira
se não preferiam habitar
com os loucos encartados.
Perguntaram aos músicos distraídos
se eram apenas ociosos
ou se era travessia na praça da
desinspiração.
Perguntaram
se não havia folhas caducas para varrer
em vez da sofreguidão dos prazeres.
Perguntaram às mães
pela quimera do amor singular dos filhos
à espera de curarem orfandade precipitada.
Perguntaram
se as rodas perfeitas
saberiam vencer os estorvos sem espera.
E perguntaram às memórias
por que teimam
em inquietar o pensamento devolvido.
Perguntaram
e continuam a perguntar
pois perguntar é prova de vida
e perguntar não é critério imperativo
de respostas em fonte aberta.
25.12.16
Prognóstico reservado
A
verdade:
não
há maneira de a virar
contra
a mentira
por
mais que a mentira
se
componha de verdade
–
ou do que como ela seja estimado –
ou
a sua máscara seja
ou
uma convulsão circense
ou
o aparato de uma paisagem extática.
A
verdade
é
que não há verdade por arrematar
e
essa é a verdade sublime
que
transfigura as mentiras todas.
A
verdade
devia
ser banida do vocabulário.
24.12.16
Sirenes opacas
Sirenes
emudecem o chão
do
teatro algoz.
As
corças observam, altivas
o
despedaçar dos corais antigos.
Sobre
o despojar do musgo
as
migalhas do vento
dispersam
sementes várias.
“Tudo há de ser como dantes”
–
admitem os cultores dos costumes.
Não
valeram de nada
as
sirenes estridentes.
23.12.16
Portfolio
Rostos
por todo o lado
rostos
nos sonhos
rostos-pesadelo
rostos
caiados nas frontarias dispersas
rostos
em sorrisos cínicos
rostos
nervosos em trovoadas estridentes
rostos
inteiros em pedaços de dia
rostos
com rugas por dentro
rostos
longínquos
rostos
entronizados em ameias altas
rostos
salgados
rostos
tirados a preceito
rostos
imóveis
rostos
cibernéticos
rostos
ungidos com flores sangradas
rostos
sem medo de nada
rostos
negação
rostos
cantados
rostos
novelos
rostos
expressivos
rostos
pueris
rostos
marcados pela temível roda dentada
rostos
fugitivos
rostos.
E
eu como ilha no meio deles.
22.12.16
Categorias operativas
Odeio ismos.
Os rótulos adjacentes
as categorias herméticas
as peias por cima dos ombros
a desopulência dos maneirismos binários
o raciocínio ligeiro e cerce
a fantochada de uma esgrima pueril
as desavenças sem chão
as arritmias das oposições gratuitas
os olhos vesgos pela lente baça
os corredores estreitos por onde amesendam
os fartos vilões da mesquinhez.
Odeio que tenha de ser um ismo qualquer
que me amordaça às frugais paisagens
de quem assim se reduz.
Odeio ser atirado para os braços de um ismo
sem ter pedido esse lugar
e depois
aturar os algozes das categorias herméticas
dedilhando as minhas incoerências
quando uma ideia se soergue
contra o ismo em que me meteram.
Odeio as sindicâncias dos outros
à mercê dos ismos a que me prenderam.
Odeio não ter liberdade para alojar ideias
no promontório que me apetecer
sem logo aparecerem os mastins dos ismos
a descobrirem um (ou mais) para minha trela.
Lamento
a estreiteza dos frequentadores de ismos,
imodestos marceneiros das ideias acantonadas
aviltantes de si mesmos na cegueira sua.
Lamento (e odeio)
que se tenham inventado ismos.
#115
Os cinco sentidos
não ajudam à inteligibilidade das coisas
(ou desajudam à sua inteligibilidade;
o que não vai dar ao mesmo).
21.12.16
Cinzeiro
Uma
diligência no oráculo
uma
vírgula fora do lugar
a
barba fonte de vernáculo
e
a roseira sem vagar.
Uma
especulação vulgarizada
uma
semântica bombardeira
a
face fria e vaporizada
e
a camélia em viço e costureira.
Uma
clepsidra do avesso
uma
exclamação a despropósito
a
nuca com olhos de gesso
e
a esteva com sabre compósito.
Uma
mãe-de-água duradoura
uma
frase esboçada a preceito
a
orelha patrona da audição dura
e
a acácia que desce até ao peito.
20.12.16
#114
A carne que atormenta,
a quente carne nas mãos,
e um vulcão efervescente
à espera de uma centelha.
a quente carne nas mãos,
e um vulcão efervescente
à espera de uma centelha.
Equinócio
Que
beijos sábios
enfeitam
o meu peito?
Que
mãos suadas
se
entretecem no meu corpo?
Que
olhos fundos
indagam
minhas estrelas?
Que
cálice poente
aquece
o meu devir?
Que
luar candente
anoitece
o meu lugar?
Que
poema ávido
empresta
sossego ao meu ser?
Que
manhã precoce
tira
freio ao desejo?
19.12.16
Imersível
Esplendorosas constelações idosas
desembaraçadas de poeiras estiolantes
adormecem na potente aurora.
Milhafres vociferantes
irrompem em voos rasantes
contra as carecas que boiam.
A estufa exala o tempero dos trópicos
para gáudio do ecossistema mendaz.
Esplendorosas asas que planam
tomando o céu como império
sobre a fazenda capitular de pé curto,
antes que vento vespertino
desmonte a temperança.
Os pássaros gorjeiam,
num anátema caótico de grasnares mucosos
e a fatia de um bolo
furtada por menino guloso.
Os todos arrumados a um canto
sem certezas desempoeiradas
nem certidões venais,
alisam o chão agora aprumado.
Num bloco de notas
desenhos avulsos arrancados à letargia.
Uma safra diletante
com artesãos cansados, mas diligentes
porque
“o futuro não pode ficar nas mãos do acaso”.
Suspensas no céu clareado pelo luar
estrelas difusas falam aos mortais
desprendendo curtos postais ilustrados
que enfeitam a soleira do olhar.
Os mortais
– talvez esquecendo a mortal
condição –
desmentem desperdícios amontoados sob os
pés.
Anestesiados
pelo esplendor de que são ilhas furtivas
não lhes apetecem infortúnios.
18.12.16
#112
A vontade sitiada numa alcáçova
não é espécime válido:
sem a sua roda livre
não passa de desvontade,
refém das suas ameias.
não é espécime válido:
sem a sua roda livre
não passa de desvontade,
refém das suas ameias.
Medicinal
Os
ossos estatutários
não
derrotados pelo cansaço cardeal
profetizam:
agentes
corrosivos serão
e
sem capitulação
dos
mais tóxicos elementos.
Ossos-esteio
nos
quais as malsãs divindades
não
conseguem aportar.
Estatutários
ostentam
a sua grandeza imperial.
São
a sua própria centelha
essência
das essências
onde
se bebe a água pura.
17.12.16
Videiras
A fina
haste da videira
descai
na intempérie.
A fina
haste da videira,
entronização
de um caule timorato,
decai na
penumbra ditosa.
Hão de
medrar uvas doces
impregnadas
de uma escura tez
dizendo
aos céus que não as demovem.
Nem que
frágeis sejam as hastes
de onde
se arqueiam.
16.12.16
Tiro ao alvo
Sob o pejo dos holofotes
mais fácil alvo dos atiradores.
Não precisam de ser furtivos
que os limos confluem
e as atenções dão sobre si
tonitruantes cambalhotas.
E, contudo,
reserva-se ao perfil discreto
dos apóstolos que fogem da ribalta.
Não consegue.
Por mais
que sobre o pensamento
em demanda de um equinócio
as luzes todas desçam sobre o seu rosto.
Já sabe:
segue-se a artilharia contínua
um esboço bélico
que narra o seu errado postulado da história.
Não importa.
Soube ser arquiteto de uma couraça
à prova da pior das balas
e as cicatrizes no que sobra do corpo
são caução para o demais.
15.12.16
Manual de instruções
Sabia
que
as escadas adulteravam
a
noite.
Que
as mãos atadas
eram
vistoria
a
destempo.
Que
os beijos prometidos
rimavam
com areias
movediças.
Sabia
que
o velho cais
esperava.
Que
os ulmeiros desmaiados
desconfiavam
do tempo
gasto.
Que
as batinas embuçadas
aperfeiçoavam
os ardis
militantes.
Sabia
que
as rotundas podiam ser
ao
contrário.
Que
o poente
era
um rio
sem
horizonte.
Que
as árvores outonais
regressavam
à opulência
matinal.
Sabia
o
que os livros emprestavam
ao
olhar.
Que
as marés desajeitadas
compunham
as costuras
da
alma.
Que
um triunvirato entronizado
bebia
até os sentidos ficarem
embotados.
Sabia
que
essa era a melhor
lucidez.
Por
saber
que
em tais preparos
nada
era o saber.
14.12.16
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