28.6.21

Sela

Estendo as mãos 

no colchão onde se antecipa a noite. 

As ruas arrefecem na ausência que se abate. 

Depois da voz distante

a lareira enche-se de rostos furtivos

e os garfos orquestram a claraboia baça. 

Se ao menos os olhos não mentissem;

se os corpos não fossem fugitivos

e os verbos não fossem danças arcaicas;

as varandas ensolaradas diriam ser ficção

ao falarem dos degraus antecedentes 

– e os animais não seriam a sua margem do medo

na bestial confissão do Homem animalesco. 

 

A razia entre os beligerantes

seria a caução da paz. 

A espécie seria procuradora de um agradecimento,

o primeiro por extinção de uma espécie

dentro da espécie. 

 

Os sonhos ainda não pesam como ónus. 

Deixem os poetas investidos nesse ministério

e as causas perdidas viram o jogo do avesso. 

Os ossos fundeiam no palco fundente. 

Já não há olhos tingidos de lágrimas

e mesmo que houvesse

seriam lágrimas de júbilo,

a celebração mais alta dos sonhos inviáveis. 

As páginas datadas não o desmentem. 

As palavras são escolhidas a dedo

amamentadas no úbere dos poetas,

os angariadores das flores disfarçadas

de estrofes

o ar desfeito de impurezas

que vem ao regaço dos ávidos do mundo completo.

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