25.8.25

#4188

Há rodos que são poucos 

quando a palavra os mente.

23.8.25

Desobediência

Permitia o verbo dissidente

enquanto pendia sobre a fogueira

todavia de atalaia aos mastins desenfreados. 

Sentado numa margem

(a margem da sua escolha)

olhava os altaneiros procuradores 

com desdém 

deles desconfiando por dever de princípio. 

Os outros também desconfiavam dele:

era por intimidação

esbracejando com o medo da dissidência

e com a solidão que lhe era dedicada

como preço a pagar pela ousadia. 

Esse era o incentivo diligente que precisava

para continuar a morar naquela margem. 

Não brandissem bandeiras

hinos que faziam levantar plateias

os ossos dos antepassados 

como fermento da pertença

ou até o idioma por que se faziam entender

(que a língua só é pátria para os literatos

que a usam como ferramenta de profissão)

não despachassem para os compêndios da História

ou para outras mnemónicas sebastiânicas: 

a matéria-prima que precisava

era o livre pensamento

dispensava 

todas as trelas aparelhadas 

pelos diligentes engenheiros

que ensinam a obediência irrenunciável. 

Até hoje

não se arrependeu.

#4187

A pele puída 

tosse nos murmúrios do tempo.

22.8.25

Injustiças documentadas (577)

Dali vem o Dali.

Dali é dali. 

#4186

Estilhaçada a louça 

não era, todavia, 

a devastação hasteada 

em idioma púrpura.

21.8.25

#4185

A roda que veloz 

parece vertiginar mais depressa 

que o mundo.

20.8.25

O que fazer com a ferrugem?

O antídoto da ferrugem

é saber que a ferrugem 

não existe.

No dia 

em que a mnemónica

se perder no restolho da distração

a ferrugem

vai começar a tomar conta de tudo

com vagar mas pertinácia

até atingir o estatuto de irremediável.

Nessa altura

Nem a nostalgia 

 

(ou sobretudo ela)

 

será antídoto aceitável.

#4184

A partida 

a casa furada 

que chora 

as dores do futuro.

19.8.25

Injustiças documentadas (576)

Viva 

vi 

iva. 

#4183

A luz interrompida 

um sismo no tempo 

o medo emudecido.

18.8.25

Injustiças documentadas (575)

Saia sem a saia 

sem que saia 

com maus modos.

#4182

As frases 

deviam começar sempre com “mas” 

para ninguém soar a falso.

17.8.25

Os últimos dias não são os dias últimos

Os últimos dias

foram apenas a véspera

de outros dias. 

Deixo ao acaso

a matéria funda 

onde as vozes se congeminam

o lugar não sonhado

das flores evisceram o medo. 

Meto as metas no alfobre das perdas:

no lugar de onde venho

as armas não se terçam 

diante dos rostos impassíveis

e sei das estrofes descombinadas

que aguentam tempestades. 

Sei 

de fonte segura

o dia seguinte 

não se intimida com o pretérito

por mais pesado que seja 

o composto herdado

por mais inverosímil que venha a ser

o apanhado das memórias 

na colheita avulsa. 

Os fantasmas 

não precisam de esconjuro;

se fantasmas são

só se devem a quem os alimenta.

#4181

As solas 

que desapertam 

os nós e os enredos 

são as mesmas 

que os calcam.

16.8.25

#4180

Perguntaram 

na sala de aula 

quem queria ser Napoleão. 

Ao contrário de Dali, 

ninguém queria.

#4179

Obedece aos baldios 

as desregras 

são o melhor astrolábio.

15.8.25

Injustiças documentadas (574)

Ideias tão cerradas 

estavam mesmo a pedir 

para serem serradas.

Injustiças documentadas (573)

Sonho, todas as noites, com um país diferente.

Sonho com um país diferente todas as noites.

E são coisas diferentes.

#4178

As ondas rebentam

onde o areal as beija; 

um banho involuntário, 

não uma bomba fratricida.

14.8.25

Injustiças documentadas (572)

Em consciência:

inconsciência 

– um verbete da insânia. 

#4177

O ocaso 

é só a véspera

de outro ocaso.

13.8.25

Tira dentes

O processo fabrica as mãos

no augúrio do desmedo

que averba o dia prodigioso. 

O riso amacia as palavras. 

Desmonta a privação de modos

em esgares que esconjuram a bondade

 

(ele há casos

em que os desmodos entre o casal

não significam

senão

o insensato despovoar de cortesia

a insignificância de um sentido sem cimento).

 

O sol irrompe atrás do nevoeiro matinal. 

Há sempre uma cura

o fio que nos ata ao exterior de nós. 

As varandas não deixam ninguém de fora. 

Ah!

se soubéssemos o paradeiro 

dos dicionários escondidos

não seríamos apóstatas 

em nome próprio. 

Injustiças documentadas (571)

Coisas grossas em corpos finos 

acaba

numa trovoada desatada.

Injustiças documentadas (570)

Fez, 

tipo,

uma cena

no Sena.

#4176

Perguntei ao espantalho 

quantas auroras boreais tinha visto 

ele disse 

que passa muito tempo a dormir. 

12.8.25

Injustiças documentadas (569)

Escrevia 

dúvida 

e o teclado 

sintomaticamente 

devolvia 

dívida.

Injustiças documentadas (568)

Por falta de comparência 

– assim dita a lucidez.

#4175

O cursor flameja 

na folha branca e impaciente 

à espera de uma ordem

à espera de se transfigurar

em palavras.

11.8.25

O paraíso do monta-cargas

O córtex obsoleto

matéria-prima de necedades

concebe-se usura da inteligência

à conta da facúndia lúgubre.

Aos beócios sem remissão

as armas sem destruição massiva

 

(eles diriam maciça, 

em rima 

com a sua linhagem reconhecida)

 

a postiça erudição

à falta de paradeiro

profetas das suas próprias profecias

viciados na anestesia do demais.

#4174

Aceita o mau 

se o ou for o péssimo.

 

(Tempos desinteressantes)

10.8.25

Injustiças documentadas (567)

A esperteza saloia 

é uma desvantagem 

e um opróbrio regional.

#4173

Azar virado do avesso 

sem ser o idioma da sorte.

 

(Terra de ninguém)

9.8.25

#4172

Vista de fora 

a fronteira 

é só uma miragem.

8.8.25

Umbilical

Gota a gota

o suor bolçado

efervesce a pele

na clepsidra hiante.

 

Dos olhos

a paisagem sondada

desenha uma silhueta

no escafandro enferrujado.

 

No perímetro

lugar desviado do sagrado

adormece o adro

em seu sentido espectral.

 

Diz esta pérgula

que foi síndica de paixões

sem culpa formada

por ser bucólica atração.

 

Ao mar

as angústias evisceradas são devolvidas

nadam na profundidade

na escuridão em que medram.

 

Dou-me à noite

guardiã improvável da carne

na anestesia do pensamento

o lugar onde se fabricam os sonhos.

#4171

O disfarce

vestiu um disfarce 

e deixou de ser genuíno.

7.8.25

A procissão dos segredos

Que segredos esconde

a maré alta

a não ser a conceção do segredo

que se esconde sob o vidro fosco

do mar agitado?

 

Que verbos desalinha

a maré baixa

por deixar os destroços da maré prévia

de que não consta 

sequer 

entrada em dicionários?

 

Que saques

acordam na penumbra

enquanto as marés disputam o púlpito

e os números não contam

na aritmética?

 

Que provérbios

ficam por inventariar

pelo marégrafo intrigante

que esconde as folhas

sob o restolho do Outono?

#4170

Sou o dia aberto

o peito estrénuo

a fala sem intimidação.

6.8.25

Os cínicos

Uma vantagem dos cínicos 

é estarem sempre à espera 

dos contratempos 

para depois dormirem com eles.

Outra vantagem 

é desconhecerem a língua de trapos 

da desilusão.

#4169

Arruma a solidão 

na moldura do tempo.

5.8.25

Amuleto

O amuleto 

fala com as sílabas ao acaso 

no avulso ocaso vertido

em versos luminosos

versos que sorriem ao sol amplo.

#4168

O peso do ouro 

preso por arames 

no testamento dos estilhaços.

4.8.25

O naipe em falta

O espaço que dista

até deixar de ser lucidez

é a medida escolhida

a multiplicar por

(número à escolha do leitor).

A língua prova o azulejo

como se fosse o esquadro

onde se compõe a gramática.

 

Não digas à lua,

segredas

para ninguém ouvir,

ou ela esconde-se 

sob nuvens mal humoradas

e depois temos de adiar

o sortilégio da noite. 

 

Ao baralho

faltam

(número à escolha do leitor) cartas;

não se suponha

que um dos gladiadores

fica em vantagem:

a adulteração da sorte e do azar

é indiferente

ao número de cartas em falta. 

 

Corre ao miradouro

pode ser que vejas o luar

desenhado em azulejos distintos

onde se escondem

as cartas em falta. 

#4167

Mutantes 

como o sangue furtivo 

que foge do medo

e canta no estuário da manhã.

3.8.25

#4166

Ensaiam 

na maquinal dança sem fim 

a anestesia dos sentidos 

o apurado desfreio

que ilude a liberdade.

 

[“Sirât”, realizado por Óliver Laxe]

2.8.25

Injustiças documentadas (566)

Mnemónica para os distraídos: 

mais gato do que lebre.

#4165

No abotoar das ideias 

contam as palavras 

escolhidas a dedo.

1.8.25

Injustiças documentadas (565)

Na zona franca 

ninguém conta mentiras.

Injustiças documentadas (564)

E depois 

há aqueles 

cujas vidas 

são eternas obras 

de Santa Engrácia.

Injustiças documentadas (563)

Antes (de) cair em desgraça 

(há) que ser engraçado. 

#4164

Um lampejo de cor 

esbraceja no crepúsculo 

promete a luz que resgata 

a lucidez.

31.7.25

Cosmovisão

De todo o mundo havido

sinto que estou devedor

de muito mais mundo por haver.

Os lugares por inaugurar

a promissória

de cujo distrate o tempo cuidará

terão um dia inventário.

Não sei 

quanto mais mundo haverá

mas sei

que sou, 

e em parte significativa,

todo aquele mundo já havido.

#4163

Antes a dissidência 

do que desabar 

pelo peso da consciência.

30.7.25

Injustiças documentadas (562)

Por que se diz

pela hora da morte

como se fosse

um contrato de carestia

se à morte é tão fácil chegar?

Amnésia

Entorta as certezas 

no palco dos erros

onde vestes 

a humildade dos pequenos

e, contudo,

entroniza a imutável grandeza

da linhagem sem contrabando.

 

Engana as costuras 

que nas feridas transportas rastos

desacontecimentos sem memória

e a espingarda que rebenta

com as cicatrizes do mundo.

 

Faz com que a amnésia

venha comer à tua mão.

#4162

Acordava 

sem o fole dos pesadelos 

desalfandegado de todos os medos.

29.7.25

Assinatura com tinta permanente

As coisas que as coisas têm 

não se juntam aos adjetivos 

que sobre elas se inventariam. 

Se ao menos soubéssemos 

se as coisas têm um avesso 

não procurávamos pelas bainhas 

até sabermos do seu fundo. 

É como 

mergulhar num poço sem fundo: 

ninguém acredita na credenciação, 

mas não se vê nada 

a não ser o nada.

#4161

À vaia, 

ouvidos de parede

e sono discreto.

28.7.25

Saltar sem corda

É nesta custódia 

que quero albergue. 

Os rios abundantes, 

veigas exuberantes, 

colheitas frondejantes, 

um segredo 

para evitar a invasão 

de sobressaltos, 

a noite repleta 

de sonhos válidos. 

Um corpo 

em forma de dádiva. 

E o outro, 

recíproco,

numa coreografia servida 

por estrofes matinais.

#4160

Corpos silhuetas

expropriam a luz; 

deles 

é o trono do estio.

27.7.25

#4159

Talvez sem custódia, 

que somos amantes 

da liberdade.

26.7.25

#4158

Não tenhas medo da lanterna 

a luz não te morde o pensamento.

25.7.25

Sem fronteiras

Se perto fosse a ofensa

e de guetos falassem 

os idiomas sem diálogo

as vestes solenes 

com que se disfarçam

os lugares

teriam de arder numa pira. 

 

Se puídas fossem as bandeiras

e as bocas não falassem

por reflexo condicionado

as palavras seriam como velas acesas 

pelos ventos ao acaso

e dos mares demandados

só haveria notícia de sereias feiticeiras

e marinheiros testemunhas da madrugada. 

 

Não transigimos com os pesadelos

quando o lugar do crepúsculo

eles ocupam 

e arrepiam os versos que são a prova

de que as quimeras não são apenas

a fértil encenação de sonhadores avulsos.

#4157

Às almas sem costuras 

a luz desalfandegada da madrugada.

24.7.25

Injustiças documentadas (561)

E se ao menos 

fizéssemos de conta 

que amanhã é amanhã.

Injustiças documentadas (560)

Se tirares as medidas, 

sobra-te um nada.

#4156

O bem da sombra 

é ser o avesso da luz.

23.7.25

Sobre a sorte

A flor

beija a noite

que a costurou.

 

O nevoeiro

sitia a cidade

num pesadelo contumaz. 

 

A fala

conspira uma mudez

no estertor da solidão. 

 

Uma ponte

a soldo dos rebeldes

amanhece contra os prognósticos. 

 

A estrada

consegue ser um vazio

sempre a fugir dos outros. 

 

A madrugada

vence a atalaia dos sentidos

no verso acanhado dos deuses sem sono. 

 

Um idioma

sobe pelos dedos túrgidos

rouba os emudecidos lábios. 

 

Até que extremados

os loucos vegetam na lua possuída

desfeiteando os demónios em barda. 

 

Páginas depois

o olvido impede a nostalgia

dos circenses que desabençoam a fogueira. 

 

Tarde

o bocejo arremata um par de minutos

até os curadores do medo deporem. 

 

Calada

a boca sela 

a angústia estilhaçada. 

 

O vento

vem de longe

contar uma matemática sem números. 

 

Vem contar

entre meadas de vozes sibilantes

os segredos mal guardados. 

 

Até que

os cobradores do futuro

se fechem na escuridão que os açambarca. 

 

Então

invisíveis aos olhos lúcidos

desapertam a escotilha e falam.

 

Falam

incessantemente

com as sílabas todas sem vergonha. 

 

Como

dentes-punhais

cortando a carne podre a eito. 

 

Para então

cúmplices

desassorearem a mudez contrafeita.

Injustiças documentadas (559)

Controverso.

Contra o verso.

Encontro o verso.

#4155

De todos os dotes 

arrefecemos o mundo 

das ilusões mandatadas.

22.7.25

Cultura

Não tenhas sede 

de cultura

que a cultura está distraída 

e não tem sede de ti.

Podes dizer

com toda a propriedade

que a cultura é como 

um camelo.

#4154

De todas as cores imprevistas 

tua é a fala preponderante 

um amanhecer sem promessas frívolas.

21.7.25

Metáforas sem sabor

Ainda hoje

estou para saber 

a que sabem as metáforas

angariadas às três pancadas.

 

Desconfio

que é só uma prova de vida

daquelas congruentes com a epifania

de quem se dá a conhecer

do alto do seu eruditismo.

 

Fora disso

a metáforas metidas a martelo

são como 

víveres fora de prazo

que contribuem

para comida datada.

#4153

A pele fria 

esconde-se dos verbos 

no encanto do entardecer.

20.7.25

Reciprocidade

O recíproco

as tenras daninhas

que absorvem os medos do mundo

a hipótese materializada

no cenário coloquial

e os braços vertidos do chão

déspotas da capitulação a destempo

o fortuito porta-voz

histriónico

a vender juros e barrigas de freira

antes que sejam conspirados

pela polícia dos costumes.

#4152

Que cisma

o cisma 

em vez dos catecúmenos.

19.7.25

#4151

Temos a coragem 

de contra à fruta 

como má ela é?

18.7.25

#4150

Dou e tiro

e depois

dou o tiro.

17.7.25

Injustiças documentadas (558)

Um pesadelo diurno 

também se traduz

nightmare?

15.7.25

#4149

Arranco-te dos braços 

da macieira 

querido lótus daninho.

 

[Haiku sul-coreano]

12.7.25

#4148

A cidade ferve 

sequestrada pelo sabre 

dos indigentes com pose de eruditos.

11.7.25

Os nossos nomes

A boca segreda

o poema matinal. 

 

A pele interior,

magma impaciente,

acende a lua diuturna. 

 

Hibernamos no cais

onde as flores

têm os nossos nomes.

#4147

Um sabre 

mesquinho 

a castrar do dia

a sua veia.

#4146

Um silogismo armadilhado

para saber

quem não adormeceu em pé.

10.7.25

Baunilha vs. lua

O comité da baunilha 

declarou a interdição dos verbos 

que se inspiram na lua.

 

Dizem:

têm inveja

que o luar têm um aroma

invejado pela baunilha.

 

Ao que um anónimo grita

perdido no meio da sala:

objeto essa abjeção

em lado nenhum

o aroma da lua 

rivaliza com a baunilha.

#4145

O rosto haurido 

conta os dias para trás 

fingindo a inércia do tempo.

9.7.25

Anarquia

As cartas transparentes

como quem procura as soluções

antes de começar as palavras cruzadas:

a regra é a desregra

penhor da exceção

a metamorfose das regras.

Não custa sabê-las

só é custosa a obediência.

E ainda maltratam

desde manuais de instruções

a códigos dos generais da moralidade

como anátema

a anarquia.

#4144

Apeado 

o sol nascente a mascarar o olhar 

esperou que o dia se fizesse homem.

8.7.25

Ninguém pediu a salvação

Dão as asas ao cavalo errado:

 

as lágrimas vertidas no espelho

são de um puro sangue

e os puros sangue

dispensam asas.

 

Não se engasta o ouro 

nos anéis escondidos:

 

as ameias confirmam inimigos

ou apenas uma imagem deles

pois os que não desconfiam

sentenciam através de janelas 

franqueadas.


Os deuses estão com dúvidas:

 

os rios 

não param nas vírgulas do tempo

e há vozes que não se viram do avesso

com medo da pele vetusta.

 

Os rios

sobem pelo entardecer

como se fossem a caução dos famintos.

Injustiças documentadas (557)

Torcer o nariz 

mas sem o fraturar.

#4143

O alfaiate da memória 

esconjura as cicatrizes

do tempo.

7.7.25

Testemunha

Disse-me a maresia

a lua quer ser gémea do teu olhar

tremer nos lábios prementes

que desfazem a fala nos beijos telúricos

verter o sal vulcânico nas cicatrizes fechadas

e dizer

com os pulmões a sangrar o ouro haurido

que teus são os olhos que cobram a noite

nas fachadas incandescentes

que demoram na quietude do luar

escondidas nas nuvens furtivas

que fingem o ar dos dias

no ouro das tuas mãos regaço.

#4142

O foro próprio

em assentidas tardes de deliberação 

desconspira as tábuas malditas 

que procuram úbere.

6.7.25

#4141

Rasgo a folha do calendário 

salto um dia 

deixo espaço ao vazio.

5.7.25

#4140

Sobre as coisas do mundo 

verto um olhar espartano 

melhor é quando a esperança 

é vetada à partida.

4.7.25

Espantalho

O algoritmo dos costumes 

desembaraça-se do biombo.

 

O número das bestas corre no estuário

chovem os botões de rosa 

arrancados aos pés

e a bengala puída 

cambaleia com a ajuda do vento.

 

Ninguém fugiu da noite radiosa

a lua ajudava a compor os olhos vadios;
se não fosse pelas ruas penhoradas

a pele tinha a cor do luar

e isso era uma coisa boa.

 

As promessas quase sempre

não passam de promessas.

 

Mas as pessoas não desistem

antecipam as ilusões que marejam

no miradouro onde os sonhos 

se dissolvem.

 

Dizem

sentados num proverbial lugar-comum:

sonhar não paga 

imposto.

Injustiças documentadas (556)

O diabo

cabe no buraco 

da agulha?

#4139

Se rareia a lucidez 

é porque andamos entretidos 

em mundos paralelos,

a fugir do anátema do existente.

3.7.25

Selo branco

Não soam os verbos puídos

com o advento do crepúsculo:

não querem sair do esconderijo

dispensáveis 

ao saberem da gravidade da maré reinante.

 

Mas

às vezes

(mais)

é preciso dar lugar às palavras-parafuso

aos estrénuos, lancinantes versos

que cozinham as coisas em cru

deixando as madrugadas órfãs

por ausência justificada

numa maceração atónita.

 

E as ondas embutidas na pele sacrílega

fumigam os lugares-comuns

como se as pessoas pudessem

com a franqueza que não é atributo

despossuir-se das amarras de outrora.

Carimbam as palavras

que não deixam créditos à indiferença

impassíveis 

à reprovação dos estandartes do regime

as pessoas suas cultoras

elas sim

indiferentes à censura

que morde em vez da amnistia.

 

Os anéis apertam a jugular

jogam as partidas dinamitadas

sobre o chão insalubre onde se encontram

as raízes de quase tudo.

 

Amanhecemos nas bocas plenas

e não esperamos pelo tempo

habilitamos nós mesmos 

as falas que condoem

os espíritos avulsos que não desistem

de serem órfãos

mas se confundem com vítimas.

#4138

Feito num oito 

o padrinho das mentiras 

sempre a pisar o pântano perene.