26.9.26

Cintilação

Fingia 

que trazia o peso inteiro do mundo

as costas arqueadas 

como prova. 

A fenda entre o sentir e o olhar

a irremediável força abrupta do caudal

a fronteira sobranceira ao abismo

as palavras 

contadas na hierarquia dos sinais

como se fossem proibidas de falar 

entre si

os idiomas tão dispares

a apneia contumaz

uma anestesia 

lograda contra as injúrias do mundo

e tudo, 

tudo a cavalgar brutamente 

contra o avesso 

que investe na força centrípeta

demitindo as vezes que dissera

“para sempre”

e “nunca”

os quesitos transfigurados em tábuas régias

onde a gramática era uma infração

e as proibições banidas das leis

até que as leis se tornaram finas teias,

tão frágeis 

que se desinvestiram do lugar que era seu

agora tornado extinto por direito forasteiro. 

 

No diadema de pedra

fala a fronte no cenáculo onde os frágeis

passam o tempo:

se dissesse que os invejo

não estava a agredir a verdade. 

Às vezes

quero ser o rebelde com causa por determinar

por causa da ebulição continua

que furta o sono;

outras vezes

só queria ser condenado à hibernação

para não ouvir os demónios acordados

as harpas delicodoces que esconjuram

os vultos dionisíacos

e de um lugar incerto

partir

partir sem ter de arranjar destino

apenas comandado por uma demanda 

sem paradeiro

como se o corpo subisse pelos dedos 

dando ordem a um piano

e dos versos contrafeitos 

a boca arrancasse a sobremesa dúctil

que encerra o corpo 

numa fortaleza sem mãos para existir. 

 

Fujo de lugar algum:

 

os lugares não são como torturas 

que levam pedaços do corpo

e o condenam à decadência;

 

os lugares 

são o contrabando sem direito a castigo

açambarcando às flores

o impuro estatuto 

que só os sonhos perseguem.

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