Fingia
que trazia o peso inteiro do mundo
as costas arqueadas
como prova.
A fenda entre o sentir e o olhar
a irremediável força abrupta do caudal
a fronteira sobranceira ao abismo
as palavras
contadas na hierarquia dos sinais
como se fossem proibidas de falar
entre si
os idiomas tão dispares
a apneia contumaz
uma anestesia
lograda contra as injúrias do mundo
e tudo,
tudo a cavalgar brutamente
contra o avesso
que investe na força centrípeta
demitindo as vezes que dissera
“para sempre”
e “nunca”
os quesitos transfigurados em tábuas régias
onde a gramática era uma infração
e as proibições banidas das leis
até que as leis se tornaram finas teias,
tão frágeis
que se desinvestiram do lugar que era seu
agora tornado extinto por direito forasteiro.
No diadema de pedra
fala a fronte no cenáculo onde os frágeis
passam o tempo:
se dissesse que os invejo
não estava a agredir a verdade.
Às vezes
quero ser o rebelde com causa por determinar
por causa da ebulição continua
que furta o sono;
outras vezes
só queria ser condenado à hibernação
para não ouvir os demónios acordados
as harpas delicodoces que esconjuram
os vultos dionisíacos
e de um lugar incerto
partir
partir sem ter de arranjar destino
apenas comandado por uma demanda
sem paradeiro
como se o corpo subisse pelos dedos
dando ordem a um piano
e dos versos contrafeitos
a boca arrancasse a sobremesa dúctil
que encerra o corpo
numa fortaleza sem mãos para existir.
Fujo de lugar algum:
os lugares não são como torturas
que levam pedaços do corpo
e o condenam à decadência;
os lugares
são o contrabando sem direito a castigo
açambarcando às flores
o impuro estatuto
que só os sonhos perseguem.

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