21.9.26

Faca fria

Se por versos contasse os dias

haveria de anestesiar o tempo

como se dele ardido tivesse medida

e em mim a poesia fosse inacabada. 

 

Se por mar medisse a alma

preferia que do magma de um vulcão

a matéria inviável erodisse 

até à neve fresca deitar o olhar amotinado. 

 

Se nas margens de um rio repousasse

e do ânimo incensado mostrasse a pele

seria como nas epopeias gravadas a xisto

e no estuário da noite encontrasse a sede inteira. 

 

Se no luar enfeitiçado demando gramática

e os sinuosos versos desfeiteiam os pesares

na encruzilhada entre lágrimas e cinzas me encontro

deposto no avesso do medo refugiado. 

 

Se no fio delgado do horizonte adormeço

e as balas puídas desvio para um aterro

sou esta constelação sem marca registada

o pescoço adorado pela vítrea neblina matinal. 

 

Se no prejuízo me embuço

contumaz das noites desarrumadas

arremato a conspiração tonitruante

e aos vindouros deixo o sangue afónico.

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