Se por versos contasse os dias
haveria de anestesiar o tempo
como se dele ardido tivesse medida
e em mim a poesia fosse inacabada.
Se por mar medisse a alma
preferia que do magma de um vulcão
a matéria inviável erodisse
até à neve fresca deitar o olhar amotinado.
Se nas margens de um rio repousasse
e do ânimo incensado mostrasse a pele
seria como nas epopeias gravadas a xisto
e no estuário da noite encontrasse a sede inteira.
Se no luar enfeitiçado demando gramática
e os sinuosos versos desfeiteiam os pesares
na encruzilhada entre lágrimas e cinzas me encontro
deposto no avesso do medo refugiado.
Se no fio delgado do horizonte adormeço
e as balas puídas desvio para um aterro
sou esta constelação sem marca registada
o pescoço adorado pela vítrea neblina matinal.
Se no prejuízo me embuço
contumaz das noites desarrumadas
arremato a conspiração tonitruante
e aos vindouros deixo o sangue afónico.

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