22.9.26

Manivela

Penhorado pelo cinto negro do vigilante

assobiei a farsa recetiva

e toquei no sino da alma

procurando um exílio que soubesse a lima. 

Quando o tempo 

não é roubado por astronautas

entretido na poesia diletante

vou desenhando palavras com o pensamento

avulso

como se as rodas dentadas acordassem

e do acordo com os ascetas

uma estética imprudente fosse registada. 

Assanham-se vozes 

as estultas e as outras

encomendam-se ao cais errático

carimbam o poder estático

e encenam

no melhor amadorismo cínico

os palcos por onde desfila o silêncio. 

Se amordaçados forem 

os marejadores de almas

e as canetas hasteadas forem 

até à fronteira do sol

perguntamos com voz imperativa

se as pessoas sabem a resposta

mesmo sem havermos diligenciado

uma concreta pergunta. 

Desembaraçadas de seráficos tiranetes

as pessoas 

encenam a sua própria liberdade. 

Encenam;

e depois correm atrás de si mesmas

como se de si partissem para fora delas

e assim

exteriormente contempladas

resumissem

num sumário deslimitado

todas as tantas fragilidades

escondidas 

em provérbios em vias de extinção

(oxalá)

a maresia tocada pelos dedos

e as palavras guardadas nas veias cavernosas

espantosamente sinceras

vítreas

até que a carne se levante, insubmissa,

e povoe carne outra do desejo armadilhado,

o desejo que só o desejo sem rédeas 

sabe munir.

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