Penhorado pelo cinto negro do vigilante
assobiei a farsa recetiva
e toquei no sino da alma
procurando um exílio que soubesse a lima.
Quando o tempo
não é roubado por astronautas
entretido na poesia diletante
vou desenhando palavras com o pensamento
avulso
como se as rodas dentadas acordassem
e do acordo com os ascetas
uma estética imprudente fosse registada.
Assanham-se vozes
as estultas e as outras
encomendam-se ao cais errático
carimbam o poder estático
e encenam
no melhor amadorismo cínico
os palcos por onde desfila o silêncio.
Se amordaçados forem
os marejadores de almas
e as canetas hasteadas forem
até à fronteira do sol
perguntamos com voz imperativa
se as pessoas sabem a resposta
mesmo sem havermos diligenciado
uma concreta pergunta.
Desembaraçadas de seráficos tiranetes
as pessoas
encenam a sua própria liberdade.
Encenam;
e depois correm atrás de si mesmas
como se de si partissem para fora delas
e assim
exteriormente contempladas
resumissem
num sumário deslimitado
todas as tantas fragilidades
escondidas
em provérbios em vias de extinção
(oxalá)
a maresia tocada pelos dedos
e as palavras guardadas nas veias cavernosas
espantosamente sinceras
vítreas
até que a carne se levante, insubmissa,
e povoe carne outra do desejo armadilhado,
o desejo que só o desejo sem rédeas
sabe munir.

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