19.5.22

Escala de Richter

Espero que a subida arrefeça

e dos ossos seja credor

para anotar 

a mudez acertada.

Não são as mãos gastas

à espera de vez;

a alvorada é apenas um pressentimento

aprisionada pela ainda insistente noite

alfandegada pelas transfigurações

procuradas no cálice da noite.

Não sou entrega no abismo sem aviso

não imagino a leveza do ar

ao perderem chão os pés;

assinto na fragilidade de mim

maior ainda

pela atalaia herdada

de tanto querer ser feito 

de matéria arnaz.

Levo o arnês

no espelho da recusa 

de ser mais do que aspeto 

e numa coreografia sem roteiro

desenho no chão o mapa sem destino

a contumácia

que se desfaz nos gramas tirados 

à serrania.

Pois queremos ser encorpados 

como o granito da serra

achamos que ser encorpado 

é passaporte capaz

e devedores aos mecenas das fragilidades 

não ficamos.

Junto nos dedos o que colhi do rosto

fragmentos insondáveis

ou apenas o suor cristalizado

a matéria exangue de um corpo sem medo

improvável marinheiro sem ir a bordo

o sono venal esbracejando à boca de cena

e os olhares

todos involuntariamente intrusos

espiando as dores em direto

recolhendo as lágrimas hirsutas

para delas fazer o promitente vinho néctar.

O dardo fica sozinho

no parapeito do desconhecido

não vinha com assinatura de autor.

Tudo se combina com a modéstia dos meios

e a sede do invisível.

Tudo avança no sentido algures

na retaguarda da linhagem do tempo em espera.

Para desta lava sermos retrato

enquanto se espera

que vença o prazo de validade

e a lava junte os poros na pele arrefecida

em juramentos que não se mutilam

em palavras meãs 

que ajudam ao silêncio.

Não é desta solidão que me acompanho.

Não é de uma prisão sem lugar

que desajeito o rosto.

Antes que seja o medo

acerto as horas 

do desejo.

Eis-me aqui

total

sem disfarces

com a sede sempre diferente

da tua boca.

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