3.7.23

Mecenato (em proveito próprio)

Adivinhei o estado comatoso

à volta do adro voejavam abutres disfarçados

e o oriente devolvia o sol

ainda infante

ainda assembleia dos desejos.

As ruas apinhadas de silêncio

fingiam as vozes suadas

fingiam

que sabiam ver debaixo das pálpebras

e as pedras guturais que segredavam os rumores

desatendiam as preces embaixadoras.

 

Os corpos 

eram atirados para a falésia

mas voavam

tão leves

que se acreditava que era intencional.

 

Os gatos lutavam pelo lugar

houvesse uma gata que fosse para disputar

e antes que os preclaros se abespinhem

diga-se 

que os gatos não leem os gurus de amanhã

nem vão às manifestações participativas.

 

(Porventura

propor-se-á

numa bem-aventura assembleia

a destituição da natureza

ou a sindicalização 

das gatas.)

 

O cio dos gatos é indiferente

e os varões pendidos na madurez invejam

tão profilático desejo

toda a carnalidade sem o véu dos costumes.

A usura

a maldita usura

levar-nos-á à decadência

e depois

à extinção.

 

(A menos que as assembleias participativas

se substituam à usura

e, salvíficas,

decretem que tudo o que se opõe 

à desmaterialização

está condenado à proibição.)

 

A encenação não conta,

adverte o pai na direção da filha

e ela

insistindo no descomportamento

mostra a língua e duas caretas

às meretrizes que se mercam 

na rua feita montra.

 

Ah, se ao menos o mundo não tivesse arestas

e as chaves não fossem segredos

as bocas diziam os nomes ao acaso

e já ninguém participava no medo;

se as cortinas se mantivessem subidas

e já não houvesse clareiras por recusar

as fogueiras não se extinguiam

nem à força de chuvas estrénuas.

 

Esgotado o tempo 

já não se sabe se ele se gastou

ou se atirou contra 

os que dele são párias.

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