31.3.26

À corda

À corda

a cabeça sentada na periferia

um atilho estreita o olhar

neste lugar não há satélites

apenas os cantos dolentes de viúvas de carvão

e nem um abraço se peticiona

as pessoas têm alergia umas das outras. 

A corda 

a saltar de três em três degraus

matéria-prima por adulterar

os diamantes também

até os que se misturam com a fala

e de um gesto brusco fazem pérolas promissoras. 

Acorda:

o rio ainda vai caudaloso

e as mesas descompostas anunciam a noite

e tu

entre a espuma do dia

e a efémera condução de tudo

tomas a procuração inteira

para seres embaixador de ninguém. 

Injustiças documentadas (643)

À atenção superior: 

cair no goto 

pode ser 

uma armadilha.

#4400

Sanada a ferida funda, 

a cicatriz como prova 

incontestável.

30.3.26

Punhos de bisel

No testamento sem vírgulas

amontoam-se vinganças e prebendas

como se ser póstumo caiasse a transparência

e fosse confirmado

que estar vivo exige muita farsa

 

(há quem lhe chame

diplomacia).

 

No palacete que esconde as meias rotas

o embaixador encena ginástica retórica

manda dizer por palavras mediadoras

o que fica à porta de ser dito

poupando uma mão-cheia

de diplomáticos incidentes 

e querelas subterrâneas.

 

#4399

Contaram 

que o silêncio substituiu a fala 

e ninguém disse nada 

sobre isso.

29.3.26

#4398

Sabe a pouco 

o muito que vultos sem rostos 

fazem cair 

com sabor a injúria sem nome.

28.3.26

#4397

Que dizem as farsas em lume-brando

dos profetas que as anunciam?

27.3.26

Pele

Como contas os verbos da minha pele?

Em vez da noite, 

sombras levam por nós à boca 

o tempo sem cortesia. 

Em vez de braços 

embainhados numa coreografia daninha, 

estrofes levitam na alma sem fundo. 

Damos um adeus ao dia havido. 

Dele diremos elogios só. 

Não seremos sós 

enquanto a sós formos uma multidão.

#4396

Não fermento o mosto de autos da fé 

prefiro deixar a vontade à vontade,

sinal do seu império.

26.3.26

Contrafação

De cor

a cor neve

o nervo acobreado

a embocadura da névoa

a coberto dos noves nada

o nevrálgico costurar da corda

em cargos enevoados

o enlevo da carga pesada. 

 

Da cor água

de cor estabeleço o corsário

e o fortuito corpo estiolado

no estuário que desfaz o encargo

o calvário em estátuas desfeitas

encolhendo o corpete dos estafetas. 

 

Comprimo o olhar

em desavença com cores que sei de cor

o corrupio estiola os corsários avulsos

e de mim serão infecundas 

as cisões conspiradas por vozes lúgubres.

#4395

Nas veias do labirinto 

as horas escurecem de propósito 

e o sangue arrefece numa anestesia indulgente.

25.3.26

Nuvens escafandro

Sem medo, 

não sei o que é a morte. 

Sem o tempo escasso, 

tenho medo da morte. 

Depois das nuvens escafandro, 

onde tudo perde o sentido 

e os sentidos se exilam no nada, 

as memórias são guardadas em tatuagens 

que ajeitam a pele para a decadência. 

Aviva-se o penhor 

de todo o tempo que é pertença, 

de toda a vida que só pode ser sentida 

se rimar com vertigem. 

Como se houvesse 

apenas

um amanhã a amotinar-se de tanto passado.

#4394

Tudo num sopro

instantâneo

em prazo válido

na virtude do caudal límpido.

24.3.26

Desfeitiço

O endireita azares 

compareceu à faina

ainda com o guardanapo a tiracolo

os beiços com a gordura prova do almoço

pronto a devorar os inocentes candidatos

mesmo a jeito do selo do azar

que ficavam tão bovino naqueles lombos. 

O ferreiro e o almocreve subiram à mesa

mediam 

o estatuto dos notáveis que desfilavam

sem, ó heresia, passadeira carmim,

tao tenros para serem a carne 

para a boca do canhão

e ali jazendo depois

sem misericórdia dos verdugos

que se lambuzavam com a vitória 

cravada nos cascos

a sublime tatuagem

sem a fuligem do tempo que perdeu a memória

para grande lamento da turba que aprendeu

o feitiço dos notáveis. 

Faltaram 

o cangalheiro e o cobrador de fraque,

mas não importava,

as dívidas estavam prescritas

e só faltava esperar pelo espelho dos rostos

a sepultura onde desvivem os párias.

#4393

A luz baça 

que prescreve a noite

é enteada da lucidez.

23.3.26

#4392

Quem quer ser estátua em vida 

pressente a indiferença póstuma.

22.3.26

#4391

O traço fino 

emulsionado pelo dedo firme 

as cores à escolha 

numa paleta de vozes.

21.3.26

#4390

A marcha de horrores 

apalavrada para a sobremesa. 

aos olhos 

não deve ser escondida 

a franqueza que não é fraqueza.

20.3.26

#4389

Dou-te menos de um minuto

para deixares em letra de forma 

o poema que estiver a desinvernar.

19.3.26

Assento circunflexo

Ontem

arrumei as facas no alguidar

e esqueci-me do sangue. 

Desenhei um mapa

à prova de infantes e marialvas

em cima de uma colher de desdém

depois de bebidos três cálices

de impudor. 

Saí

sem medo da rua varrida

sem medo das pessoas

ah! ausentes

e estendi o meu império pelas ruas

desandadas

assim, errante,

gostosamente errante

só a olhar para as palmas das mãos

à procura de oráculo

ou só apenas à procura 

de exílio. 

Disseram-me

tu não sabes nadar nas espadas centrípetas

não sabes nada

de diplomacia

de jardinagem

e dos mistérios conspirativamente imputados

a (um) deus. 

Não importa:

prefiro 

a vertigem do vento que magoa a pele

fazer de detetive 

em demanda de desconhecimento

metendo parafusos nas estrofes 

(assim) abortadas 

precavendo os demónios

impedindo-os de cavalgarem numa aurora pária

para fora de mim. 

Amanhã

vou arrumar o desarrumo de depois de amanhã;

pode ser que o esconjuro

dê juros no passado.

 

Injustiças documentadas (642)

Riscos 

e mal agradecidos.

#4388

Nos bastidores da memória 

joga-se às charadas com o tempo.

18.3.26

É preciso desconfiar dos que desconfiam

Sempre desconfiei

de gente com ideias apessoadas

como se tivessem sido engomadas

pela omissão de perguntas

e por vírgulas mal confecionadas 

– aquela gente de elevado gabarito, 

não menos de dois metros de alto

(para extinguir as dúvidas que haja).

Sempre desconfiei

de amanhãs apreciados

sem se saber (ou desconfiar) 

o que é o amanhã

e de profetas desenganados

peritos 

em lubidriar o próximo e o distante.

Sempre desconfiei

daquelas bocas boçais que desconfiam 

por desconfiar

a armadilham a confiança 

em bolas de estrume disparadas sem critério.

#4387

Um grosso pincel 

caia os corpos. 

O véu da vergonha, 

disfarçado,

cumpre os mínimos 

do fingimento.

17.3.26

Aritmética de salão

Quando se diz

tirei o dia

isso é soma ou subtração?

Injustiças documentadas (641)

A dissolução do (Banco) Espírito Santo,

ninguém me desconvence do contrário,

tem um significado metafísico.

#4386

Levantou-se um calvário tal 

que as bocas emudeceram 

de tanto medo.

16.3.26

Deselogio fúnebre

Não sou a noite que emudece. 

Vale a voz que estilhaça o silêncio

mais alta do que todas as marés tempestuosas. 

Não sou para ser lembrado 

quando não souber

prefiro as manhãs sem calado

as horas contadas ao minuto

a garrafa atirada ao mar entardecido

até que me lembre de mim mesmo

no fim dos tempos.

#4385

A granada

tinha pólvora seca 

e ninguém lamentou a ocorrência.

15.3.26

Injustiças documentadas (640)

Em cadeia.

Encadeia.

Em candeia.

#4384

A porta destravada 

o beijo do alecrim que desorvalha 

a fatia inteira do dia só para mim.

13.3.26

Zambujal

Um malandro

à Zambujal

hoje seria

um assediador.

#4382

Provavelmente

é improvável 

que a probabilidade 

se confirme.

12.3.26

Falésia

Ah, 

estas conspirações da alma

que atam as mãos a altos petroleiros

desensaboam as línguas curtas

enregelando vulcões atados

e na penumbras se esquecem da partida

e não se lembram da chegada. 

Houvesse estrelas decadentes

idades certas para morrer

ou o desmorrer eterno apoiado em canetas

um punhado de folhas amarrotadas

e o sangue em convulsão

situado na ebulição de uma aurora boreal

para então

com o peito virado na nudez

e os estilhaços pendidos na pele trespassada

pudesse esconjurar os nomes

que pútridos descem pela falésia

até serem tão mar quanto o mar imenso

onde se depõem.

#4381

Não esmorece 

o fio precário sobre o horizonte 

o rosto dá-se de frente 

à maré tumultuosa.

11.3.26

#4380

Escolhe a melhor poltrona: 

a decadência que avança 

não merece a tua desatenção.

10.3.26

Juntos

As sílabas colam-se à noite

no pesar dos murmúrios isentos de gramática

esse rumor que se cola ao ouvido

e coloniza a vontade. 

Sei que juntos somos a grandeza

que não consegue a soma das partes. 

Sei que os nossos olhos fechados

chegam ao magma fundo onde ninguém vê. 

Os beijos que ciciam as estrofes sem medo

sabem de cor a tua silhueta

podiam desenhar uma carta topográfica

com os pormenores dos teus poros. 

Imagino 

o santuário que abriga o juntos que somos

juntos como se fôssemos siameses

e o meu sangue soubesse de cor

os versos em que te ergues. 

Imagino

a maresia do teu corpo

espanejando o cofre fraco

que esconde os nossos rostos fortes. 

E sei

que não há tempestades que falem mais alto

ou marés sublevadas no bojo do inverno

que separem esta nossa carne

do uníssono contínuo. 

Injustiças documentadas (639)

Às vezes 

que não são tão poucas

o saco deve 

mesmo 

estar roto.

#4379

A pólvora seca 

seca a pólvora 

assim emudecida.

9.3.26

#4378

Tosse os lugares-comuns 

torna-te

(dizê-lo não magoa) 

banal

sai de cena 

coberto pela vulgaridade 

– do par de lustros 

que foste representação.

#4377

Um filósofo 

por ser burguês 

despensa?

8.3.26

#4376

Descoser um provérbio por dia 

até não sobrarem lugares-comuns.

7.3.26

#4375

Às vezes 

é preciso saber da fonte 

para as palavras não serem 

um ermo.

6.3.26

Injustiças documentadas (638)

Perdeu a cabeça, 

diz-se

por aí. 

Alvíssaras 

pela cabeça decepada 

que por aí 

for encontrada.

 

(É prometida recompensa?)

#4374

A matéria 

que prima ser matéria 

prima sobre o vazio.

5.3.26

A pele que fala

Um deus dará em dobro as palavras que colo à tua nuca. Delas dirá serem sortilégio pelas estrofes desenhadas na tua pele enquanto deixamos o tempo quieto, lá fora. Delas serão as bocas amanhecidas, a lava forasteira a fugir de um paradeiro incerto.

#4373

O que é adorável 

no pensamento pré-fabricado 

é ser a bandeira 

da agonia do pensamento.

4.3.26

A crise das crises

Não sejam vertidas lágrimas

o peso ardiloso de uma crise 

 

– mais outra crise –

 

faz doer as almas.

 

As crises

estão tatuadas como uma lei de bronze;

as lágrimas usadas como lamento

são lágrimas perdidas pela usura da crise

 

lágrimas

 

que deviam ter outra fortuna.

Injustiças documentadas (637)

Oxalá se pudesse dizer

não há guerra

em vez de resmungar

não à guerra.

 

[Compêndio de ingenuidade antropológica]

#4372

O remorso gasto 

contraria o arrependimento, 

a usura do tempo 

que fala no avesso das mãos. 

3.3.26

Uivo

Um esquimó paramentado

noiteia sem freio

antes que devolvam o Inverno

à escolástica ruminante. 

A soldo de um general desarmado

convence os anões 

um verbo é substantivo

e no emaranhado de falas

bolça um arroto imperial

para gáudio dos circunstantes. 

Se ao menos pedissem

para caiar os tijolos

era empreitada para ele habilitada

mas este não era um lugar 

para igloos. 

Junho ainda é outono

na terra dos esquimós

não precisamos de contar os graus 

pelos dedos de uma mão

para anotar o paradeiro extinto

de um Inverno que nunca houve por cá. 

Alvíssaras

o esquimó perdeu o paramento

e não se sabe

se andam à procura do paramento

ou do esquimó.

#4371

É tarde 

de tarde 

é tarde 

à parte.

2.3.26

Os carismáticos

As muitas caras de um reino

desborbulham na madurez

e fingem,

com o descaro de quem finge fingir

que são uma só.

 

As caras-espantalhos

tomam o pulso da distração geral

e passam por rostos respeitáveis

oh! 

de pergaminhos imbeliscáveis

não vá ser profanado

o carisma

que trazem a tiracolo

uma medida das medidas

definida por definição.

#4370

Bebemos gasolina 

dos escanções esgrouviados

e comemos asfalto 

com direito a estrela Michelin.

 

[Compêndio de geopolítica do Médio Oriente e dos dementes em estado de negação ambiental]

1.3.26

#4369

Este poema dispensou 

a inteligência artificial.

28.2.26

#4368

A normalidade

é apenas 

um devaneio estatístico.

27.2.26

#4367

Não é a diplomacia que fraqueja 

são os homens que se tecem 

na sua pele de lobo.

 

[Ontologia da guerra explicada às criancinhas]

26.2.26

A bala furtiva

Uma bala

perdida num universo de milhões de balas 

– dir-se-á, uma bala achada

debalde

num achado que é um infortúnio.

Uma bala

atravessada no tempo errado

num corpo errado

assim trespassado

com um viés avulso

diagonal ou setentrional

até sentir o fogo macho na carne

e o sangue eflúvio em colheradas muitas

já um mar a caminho de estuário

e o apagamento à mão de semear.

#4366

Vi um anjo

casto como os anjos são. 

Soube depois

que fora só um pesadelo.

25.2.26

Burburinho

Um pelicano de corda

arrota sobre o lenço sujo da bailarina

enquanto nas traseiras do café

o artista do circo corta as páginas coladas

de um opúsculo de saberes esotéricos.

 

O pelicano balbucia umas sílabas

a bailarina espadana o plissado

para o sótão do pensamento.

Já o artista do circo

antes de ir buscar o petiz ao infantário

decora uns versos que cicia com pesar:

sua há de ser a presença num velório

e foi-lhe encomendada a elegia.

 

No restolho do dia

todos sem emprestam ao sono.

#4365

Uma mentira chique, 

colada com cuspo, 

respira 

como se puro fosse 

o ar da montanha.

24.2.26

IPMA

“Amanhã dão chuva”. 

E eu nunca soube

da identidade 

de tão filantrópica pessoa.

#4364

Para outros carnavais 

(em reserva dedicada)

a boca desenfreada 

e os corpos coreografados.

23.2.26

#4363

Entardece.

O dia fica míope. 

#4362

Peguei no verso do bilhete de metro para te escrever. 

O que já é uma declaração de amor.

#4361

Não é o restolho sobre o rosto que conta, 

é o riso espontâneo que decanta.

22.2.26

#4360

Maltrapilhos 

malsãos 

maltratados 

mal-entendidos.

21.2.26

#4359

Da bílis mal curada 

os sucos acerbos 

que desadoçam uma vida 

condenada à usura.

20.2.26

#4358

Sou culpado: 

tive uma ideia.

#4357

Dantes 

o futuro 

não contava.

19.2.26

#4356

À média luz 

palavras esgrimidas sem nudez 

a diplomacia,

ou a arte da mentira aburguesada.

18.2.26

A sagração do luar

Arrumo o luar

entre os nós da noite

e a jura da manhã. 

Levo o luar comigo

a luz extática que sua da noite

e respira através das paredes. 

É lugar-comum

o poeta pedir ao luar

que seja inspiração emprestado;

pode o poeta ser censurado

por se perder de encantos

por uma platitude tão carismática?

#4355

Um silêncio de fundo 

entoa a metáfora nascente:

depois de tudo

será outra vez

o silêncio.

17.2.26

#4354

Os olhos 

entardecem a pele; 

novos são os verbos 

que entram no estuário.

16.2.26

Tômbola

Por todo o lado

estão

os sorrisos postiços

as paredes rombas

os pássaros a prazo

os parágrafos a destempo

o zimbório desguarnecido

as viúvas pretéritas

os godos alisados pela angústia

os baraços que atam o futuro

navios enferrujados não naufragáveis

a madeira decomposta

os fardos com listas de medo

os rapazes que fruem as horas vagas

os marinheiros saltimbancos

bêbados pela manhã

as horas perdidas no suor da noite

os pesadelos

os pesadelos como ciprestes

rompendo o céu sem aviso

estão

por todo o lado

e sem mapa nenhum.

#4353

Fundas 

as palavras viscerais 

não se escondem 

do medo limítrofe.

15.2.26

#4352

Maltrata o trato 

despreza os códigos 

não se admire 

que fale 

ainda mais alto 

a reciprocidade.

14.2.26

Injustiças documentadas (636)

Pecado, 

capital.

#4351

À razão de um dente por mentira 

tantos são os que estão em dívida 

de um punhado de dentaduras.

13.2.26

Injustiças documentadas (635)

Paninhos quentes 

só têm serventia 

no inverno.

#4350

As cores 

abandonam a fala, 

é como se tivesse sido 

descafeinada.

12.2.26

#4349

As profecias 

são os impérios 

encomendados 

pelos farsantes.

11.2.26

#4348

Colam-se 

como barro pegajoso 

aquelas palavras 

que assassinam o idioma:

 

expectável, impactante, resiliente,

narrativa.

10.2.26

Dizia do bem que bem está

Desconfio

que as guilhotinas arrefecem

com as vozes que amadurecem

à medida da ira dos tempos. 

 

De todos os ontem sem saída

emancipou-se um estuário de estrofes

o grande manifesto 

onde cabem os manifestos avulsos

o músculo que se sobrepõe à força,

até os que se embriagaram com poder

sabem que o medo não escolhe vítimas. 

 

Do miradouro onde se esconde o passado

vejo as milhas à distância do horizonte

e guardo as perguntas que fugiram dos fantasmas

guardo-as 

como o maior tesouro

apalavrado nas minhas mãos.

#4347

Ao longe 

o mar conspira as marés hediondas,

o selo das tempestades consecutivas.

9.2.26

Injustiças documentadas (634)

Ninguém gosta 

de pôr o dedo na ferida

se a ferida 

é um viveiro de coisas infectas.

#4346

Deita-se o leite no ouro

e o mel no azul

e (quase) todos dormem serenos.

 

[Ressaca pós-eleitoral, take 11]

8.2.26

Injustiças documentadas (633)

É reunião 

mesmo quando é

pela primeira vez?

#4345

A rua 

deixa a noite bruxuleante 

enquanto encomenda os olhos 

ao sono.

7.2.26

#4344

O poeta hesita 

quer a palavra 

embrulhada 

num átomo de fragilidade.

6.2.26

Saúdinha

Benzida saudade

porque o povo diz

“saúdinha”

enquanto se saúda a bonança

nem que seja fingida

entre os braços dilacerados

que se prestam ao silêncio

à medida que a dor morde até ao osso.

Saudade,

saudadinha,

que dantes é que havia saúdinha

e se sabia como saudar

sem saudade

a saúde suada.

#4343

Faz antes a boca postiça 

a mentira cai-te 

como luva à medida da sua mão.

5.2.26

#4342

Não coabites 

as feridas abertas 

que dormem 

no caudal da angústia.

4.2.26

Injustiças documentadas (632)

Discover no less 

of what lies in 

a non-educated guess.

Injustiças documentadas (631)

O pano de fundo 

escolhe a marca de água.

#4341

O salto no precipício 

contra o medo colossal 

a veia devolvida 

na vertigem de quem o afronta.

3.2.26

#4340

Em contrarrelógio 

à medida do suicídio do tempo 

reis que somos das cicatrizes por fechar.

2.2.26

#4339

Perco a conta das palavras, 

concorrentes a arrancar 

a palidez de uma página.

1.2.26

#4338

Se a alma tivesse arestas 

as palavras não tinham pontuação.

31.1.26

#4337

A não parcimoniosa prosa 

diletante elegia a destempo

confunde de tão gongórica 

– é como se alguém falasse 

apenas para os seus ouvidos.

30.1.26

Injustiças documentadas (630)

O Leitão Amaro 

é uma mazela. 

#4336

A fúria 

não tem 

lugar nem hora, 

só vítimas ao acaso.

 

[Destroços poéticos da tempestade Kristin]

29.1.26

#4335

Podiam extinguir as vírgulas,

que elas dão tanto trabalho

(e tantas vergonhas deixam a nu).

#4334

Primeira volta 

segunda volta, 

já dizia Tom Waits 

a melhor cura para a ressaca 

é a bebedeira.

 

[Ressaca eleitoral, take 10]

28.1.26

A glória perdeu a glória

A glória à solta 

sem freio

livre

e ninguém a apanha.

 

Sinal dos tempos 

– lamenta o idoso 

com morada no Restelo

(lá para os lados

do ministério da defesa).

 

Já não é como dantes 

– fez coro

o odioso mais amado

ajudando-se um ao outro

a conservar a poeira

que enfeita as fatiotas.

 

Dantes

(lá está)

a glória valia mais 

do que o ouro

e as especiarias das colónias.

 

Agora

o ouro está entesourado

a crescer de valor

porque um endemoninhado

espalhou a confusão no globo

sem estar à altura das responsabilidades.

 

Já a glória

coitada

perdeu-se na bolsa do esquecimento

condenada a ser uma atávica lembrança

com paradeiro por determinar.

 

Consta 

que a última vez

que alguém deitou ouvidos na glória

foi quando os Sétima Legião a glosaram.