Escolhe a melhor poltrona:
a decadência que avança
não merece a tua desatenção.
Refúgio nas palavras. A melodia perdida. Libertação. Paulo Vila Maior
As sílabas colam-se à noite
no pesar dos murmúrios isentos de gramática
esse rumor que se cola ao ouvido
e coloniza a vontade.
Sei que juntos somos a grandeza
que não consegue a soma das partes.
Sei que os nossos olhos fechados
chegam ao magma fundo onde ninguém vê.
Os beijos que ciciam as estrofes sem medo
sabem de cor a tua silhueta
podiam desenhar uma carta topográfica
com os pormenores dos teus poros.
Imagino
o santuário que abriga o juntos que somos
juntos como se fôssemos siameses
e o meu sangue soubesse de cor
os versos em que te ergues.
Imagino
a maresia do teu corpo
espanejando o cofre fraco
que esconde os nossos rostos fortes.
E sei
que não há tempestades que falem mais alto
ou marés sublevadas no bojo do inverno
que separem esta nossa carne
do uníssono contínuo.
Tosse os lugares-comuns
torna-te
(dizê-lo não magoa)
banal
sai de cena
coberto pela vulgaridade
– do par de lustros
que foste representação.
Perdeu a cabeça,
diz-se
por aí.
Alvíssaras
pela cabeça decepada
que por aí
for encontrada.
(É prometida recompensa?)
Um deus dará em dobro as palavras que colo à tua nuca. Delas dirá serem sortilégio pelas estrofes desenhadas na tua pele enquanto deixamos o tempo quieto, lá fora. Delas serão as bocas amanhecidas, a lava forasteira a fugir de um paradeiro incerto.
Não sejam vertidas lágrimas
o peso ardiloso de uma crise
– mais outra crise –
faz doer as almas.
As crises
estão tatuadas como uma lei de bronze;
as lágrimas usadas como lamento
são lágrimas perdidas pela usura da crise
lágrimas
que deviam ter outra fortuna.
Oxalá se pudesse dizer
não há guerra
em vez de resmungar
não à guerra.
[Compêndio de ingenuidade antropológica]
Um esquimó paramentado
noiteia sem freio
antes que devolvam o Inverno
à escolástica ruminante.
A soldo de um general desarmado
convence os anões
um verbo é substantivo
e no emaranhado de falas
bolça um arroto imperial
para gáudio dos circunstantes.
Se ao menos pedissem
para caiar os tijolos
era empreitada para ele habilitada
mas este não era um lugar
para igloos.
Junho ainda é outono
na terra dos esquimós
não precisamos de contar os graus
pelos dedos de uma mão
para anotar o paradeiro extinto
de um Inverno que nunca houve por cá.
Alvíssaras
o esquimó perdeu o paramento
e não se sabe
se andam à procura do paramento
ou do esquimó.
As muitas caras de um reino
desborbulham na madurez
e fingem,
com o descaro de quem finge fingir
que são uma só.
As caras-espantalhos
tomam o pulso da distração geral
e passam por rostos respeitáveis
oh!
de pergaminhos imbeliscáveis
não vá ser profanado
o carisma
que trazem a tiracolo
uma medida das medidas
definida por definição.
Bebemos gasolina
dos escanções esgrouviados
e comemos asfalto
com direito a estrela Michelin.
[Compêndio de geopolítica do Médio Oriente e dos dementes em estado de negação ambiental]
Não é a diplomacia que fraqueja
são os homens que se tecem
na sua pele de lobo.
[Ontologia da guerra explicada às criancinhas]
Uma bala
perdida num universo de milhões de balas
– dir-se-á, uma bala achada
debalde
num achado que é um infortúnio.
Uma bala
atravessada no tempo errado
num corpo errado
assim trespassado
com um viés avulso
diagonal ou setentrional
até sentir o fogo macho na carne
e o sangue eflúvio em colheradas muitas
já um mar a caminho de estuário
e o apagamento à mão de semear.
Um pelicano de corda
arrota sobre o lenço sujo da bailarina
enquanto nas traseiras do café
o artista do circo corta as páginas coladas
de um opúsculo de saberes esotéricos.
O pelicano balbucia umas sílabas
a bailarina espadana o plissado
para o sótão do pensamento.
Já o artista do circo
antes de ir buscar o petiz ao infantário
decora uns versos que cicia com pesar:
sua há de ser a presença num velório
e foi-lhe encomendada a elegia.
No restolho do dia
todos sem emprestam ao sono.
Arrumo o luar
entre os nós da noite
e a jura da manhã.
Levo o luar comigo
a luz extática que sua da noite
e respira através das paredes.
É lugar-comum
o poeta pedir ao luar
que seja inspiração emprestado;
pode o poeta ser censurado
por se perder de encantos
por uma platitude tão carismática?
Por todo o lado
estão
os sorrisos postiços
as paredes rombas
os pássaros a prazo
os parágrafos a destempo
o zimbório desguarnecido
as viúvas pretéritas
os godos alisados pela angústia
os baraços que atam o futuro
navios enferrujados não naufragáveis
a madeira decomposta
os fardos com listas de medo
os rapazes que fruem as horas vagas
os marinheiros saltimbancos
bêbados pela manhã
as horas perdidas no suor da noite
os pesadelos
os pesadelos como ciprestes
rompendo o céu sem aviso
estão
por todo o lado
e sem mapa nenhum.
À razão de um dente por mentira
tantos são os que estão em dívida
de um punhado de dentaduras.
Colam-se
como barro pegajoso
aquelas palavras
que assassinam o idioma:
expectável, impactante, resiliente,
narrativa.
Desconfio
que as guilhotinas arrefecem
com as vozes que amadurecem
à medida da ira dos tempos.
De todos os ontem sem saída
emancipou-se um estuário de estrofes
o grande manifesto
onde cabem os manifestos avulsos
o músculo que se sobrepõe à força,
até os que se embriagaram com poder
sabem que o medo não escolhe vítimas.
Do miradouro onde se esconde o passado
vejo as milhas à distância do horizonte
e guardo as perguntas que fugiram dos fantasmas
guardo-as
como o maior tesouro
apalavrado nas minhas mãos.
Ninguém gosta
de pôr o dedo na ferida
se a ferida
é um viveiro de coisas infectas.
Deita-se o leite no ouro
e o mel no azul
e (quase) todos dormem serenos.
[Ressaca pós-eleitoral, take 11]
Benzida saudade
porque o povo diz
“saúdinha”
enquanto se saúda a bonança
nem que seja fingida
entre os braços dilacerados
que se prestam ao silêncio
à medida que a dor morde até ao osso.
Saudade,
saudadinha,
que dantes é que havia saúdinha
e se sabia como saudar
sem saudade
a saúde suada.
A não parcimoniosa prosa
diletante elegia a destempo
confunde de tão gongórica
– é como se alguém falasse
apenas para os seus ouvidos.
A fúria
não tem
lugar nem hora,
só vítimas ao acaso.
[Destroços poéticos da tempestade Kristin]
A glória à solta
sem freio
livre
e ninguém a apanha.
Sinal dos tempos
– lamenta o idoso
com morada no Restelo
(lá para os lados
do ministério da defesa).
Já não é como dantes
– fez coro
o odioso mais amado
ajudando-se um ao outro
a conservar a poeira
que enfeita as fatiotas.
Dantes
(lá está)
a glória valia mais
do que o ouro
e as especiarias das colónias.
Agora
o ouro está entesourado
a crescer de valor
porque um endemoninhado
espalhou a confusão no globo
sem estar à altura das responsabilidades.
Já a glória
coitada
perdeu-se na bolsa do esquecimento
condenada a ser uma atávica lembrança
com paradeiro por determinar.
Consta
que a última vez
que alguém deitou ouvidos na glória
foi quando os Sétima Legião a glosaram.
As algemas mordem na pele
submergem a respiração em pesadelos
previnem a poesia
– oh, a tão perigosa poesia
úbere dos espíritos desamparados
e ao mesmo tempo livres
apaixonadamente livres.
Um poema
é a chave-mestra
que dissolve as algemas.
Agora se percebe
porque há tão pouca gente
a ler poesia.
Costuro as lágrimas no coldre vazio
deixo às mentiras a gramática do medo
entretido com a prosa luminosa
uma trovoada irradia os seus braços
como um polvo acossado.
Tiro à sorte a medida da angústia
saiu um três
– alvíssaras,
a angústia anda despojada sobre a matéria
o vento cicia um segredo
temos de esperar pela próxima curva do dia
para saber se o segredo se deixa desenroupar.
Mal por mal
os antigos tossicam desconfiança
o mundo tem cores e formas que são punhais
e eles fogem do tempo, fogem
como se por eles falasse o embaixador da vida.
A água está muito fria
a lucidez é uma peça ausente na engrenagem
e já dizem,
por alto,
que o ocaso não é mentira.
Estamos
em carne viva
– o doce sintoma
de podermos
falar as diferenças.
[Ressaca eleitoral, take 7]
Talvez se pudesse dizer
dos processos de intenções
que são um fascismo disfarçado.
[Ressaca eleitoral, take 4]
As flores deviam ser obrigatórias nas varandas.
Ou as varandas só não seriam multadas
se tivessem flores abundantes e garridas
como ornato.
As flores mercadejadas deviam dar direito
a desconto nos impostos.
Não há lugar melhor
do que um que seja um mosaico de flores.
Sitiar consciências
devia dar direito a pontos negativos
no cartão de cidadão.
[Ressaca eleitoral, take 3]
Ontem
comprei um palácio
feito de baldios e ouro invisível.
Queria poder dizer que meu era um domínio
mesmo que só fosse suserano
de mim mesmo.
Não contemplo outra hipótese:
se ao domínio meu
viessem a calhar em azar
(seu)
outros em suserana condição
decretá-lo-ia prescrito por inviabilidade.
Neste que é o domínio meu
decido sozinho
com um autoritarismo deplorável
ausente sensibilidade pelos outros
(que não existem)
eu, esboço de tirano
que de mim próprio faz sua predileta vítima,
sozinho decido
(dizia)
sobre a bandeira que não hasteio
as leis por fazer que ficam para memória futura
a dívida que não contraio
as embaixadas que não tenho de inaugurar
os hinos que ficam por conta do olvido
as credenciais que se dispensam da imaginação
e das fronteiras faço frangalhos
sob a égide da guilhotina com serventia única:
abolir
em corte rasante
todos os simples ensaios torcionários
de privação da vontade
nem que seja um tiro no pé
de ofensa a tudo o que o súbdito
(que coincide com o suserano,
há que insistir na mnemónica)
julgar nefasto
bem que seja uma venda aposta sobre os vícios.
Antes ser pária
por uma causa recomendável
nem que o seja apenas
pela lente por onde olho.
Um dia destes
talvez venda o palácio.
A ponte sente que as sílabas batem à porta.
O crepúsculo enfeita a garganta seca.
A noite açoita a luz que a quer desmentir.
No saco dos rejeitados segue a matéria anónima.
Precisa de cimento para escapar à ruína.
Se ao menos houver uma bênção na chuva
que seja dos nomes que se perdem em becos
e não olham ao medo como gramática da respiração.
As sílabas compõem-se na espera diletante.
À espera de serem a ponte que desfeiteia a orfandade.
Não sou o medo que cicia no crepúsculo.
Não sou a metade oculta na submissão.
Não sou o fantasma futuro dos sonhos.
Não sou o embaixador de virtudes remediadas.
Não sou apóstata a não ser pela minha lente.
Não sou uma admirável força
terçada nas contrariedades.
Não sou o sonho que poderia ter sonhado
nem o paradeiro de sonhos avulsos.
Não sou um promitente de coisa alguma.
Não sou a boca temerária
que se ajoelha às vozes dominantes.
Não sou mentira de mim mesmo
na medição das fragilidades.
Não sou penhor de nada que me possa penhorar.
Não sou o asceta que se exila dos sobressaltos.
Não sou o sangue domado
pelas paredes íngremes do idioma vulgar.
Não sou a medida fora de mim.
Não sou coleção de lugares não demandados.
Não sei ao certo o que serei
a não ser tudo aquilo
e mais ainda
o que sei não ser.
Toco por dentro o céu.
Cobro aos demónios as tempestades viris.
Do dicionário açambarco as palavras lúdicas
como se a vertigem não participasse
do precipício constante
e perdêssemos o paradeiro da lucidez.
Somos as asas que descem e sobem
decifrando paisagens singulares.
Tornamos a noite
na fogueira que adormece a pele.
Não deitamos fora o silêncio:
é na sua gramática que escondemos
as estrofes de que somos tutores.
No céu tocado
o achado de uma quimera
um domínio que vale mais
do que mil reinos.
Vejo que veem que o rei vai nu;
neste complexo palco de sombras
ainda bem que não é monarquia.
Dedico a indulgência
aos patronos da leviandade.
Sem eles
seria apenas
uma promessa do passado
e não quero
que saibam das promessas
que deixei por abastecer.
Dadas,
as mãos que sentem a pele a latejar
na dádiva sublime que cura do tempo tirano.
Por fora de nós
pende o suor da nossa respiração
e à boca legamos as palavras uníssonas.
Somos o leve habitar das sílabas
que voam sobre o estuário
enquanto vigiamos o entardecer.
Não é do domínio da cartomancia
mandar o outro
para o baralho.
[Desconstruindo uma ideia de Conan Osiris]