11.3.26

#4380

Escolhe a melhor poltrona: 

a decadência que avança 

não merece a tua desatenção.

10.3.26

Juntos

As sílabas colam-se à noite

no pesar dos murmúrios isentos de gramática

esse rumor que se cola ao ouvido

e coloniza a vontade. 

Sei que juntos somos a grandeza

que não consegue a soma das partes. 

Sei que os nossos olhos fechados

chegam ao magma fundo onde ninguém vê. 

Os beijos que ciciam as estrofes sem medo

sabem de cor a tua silhueta

podiam desenhar uma carta topográfica

com os pormenores dos teus poros. 

Imagino 

o santuário que abriga o juntos que somos

juntos como se fôssemos siameses

e o meu sangue soubesse de cor

os versos em que te ergues. 

Imagino

a maresia do teu corpo

espanejando o cofre fraco

que esconde os nossos rostos fortes. 

E sei

que não há tempestades que falem mais alto

ou marés sublevadas no bojo do inverno

que separem esta nossa carne

do uníssono contínuo. 

Injustiças documentadas (639)

Às vezes 

que não são tão poucas

o saco deve 

mesmo 

estar roto.

#4379

A pólvora seca 

seca a pólvora 

assim emudecida.

9.3.26

#4378

Tosse os lugares-comuns 

torna-te

(dizê-lo não magoa) 

banal

sai de cena 

coberto pela vulgaridade 

– do par de lustros 

que foste representação.

#4377

Um filósofo 

por ser burguês 

despensa?

8.3.26

#4376

Descoser um provérbio por dia 

até não sobrarem lugares-comuns.

7.3.26

#4375

Às vezes 

é preciso saber da fonte 

para as palavras não serem 

um ermo.

6.3.26

Injustiças documentadas (638)

Perdeu a cabeça, 

diz-se

por aí. 

Alvíssaras 

pela cabeça decepada 

que por aí 

for encontrada.

 

(É prometida recompensa?)

#4374

A matéria 

que prima ser matéria 

prima sobre o vazio.

5.3.26

A pele que fala

Um deus dará em dobro as palavras que colo à tua nuca. Delas dirá serem sortilégio pelas estrofes desenhadas na tua pele enquanto deixamos o tempo quieto, lá fora. Delas serão as bocas amanhecidas, a lava forasteira a fugir de um paradeiro incerto.

#4373

O que é adorável 

no pensamento pré-fabricado 

é ser a bandeira 

da agonia do pensamento.

4.3.26

A crise das crises

Não sejam vertidas lágrimas

o peso ardiloso de uma crise 

 

– mais outra crise –

 

faz doer as almas.

 

As crises

estão tatuadas como uma lei de bronze;

as lágrimas usadas como lamento

são lágrimas perdidas pela usura da crise

 

lágrimas

 

que deviam ter outra fortuna.

Injustiças documentadas (637)

Oxalá se pudesse dizer

não há guerra

em vez de resmungar

não à guerra.

 

[Compêndio de ingenuidade antropológica]

#4372

O remorso gasto 

contraria o arrependimento, 

a usura do tempo 

que fala no avesso das mãos. 

3.3.26

Uivo

Um esquimó paramentado

noiteia sem freio

antes que devolvam o Inverno

à escolástica ruminante. 

A soldo de um general desarmado

convence os anões 

um verbo é substantivo

e no emaranhado de falas

bolça um arroto imperial

para gáudio dos circunstantes. 

Se ao menos pedissem

para caiar os tijolos

era empreitada para ele habilitada

mas este não era um lugar 

para igloos. 

Junho ainda é outono

na terra dos esquimós

não precisamos de contar os graus 

pelos dedos de uma mão

para anotar o paradeiro extinto

de um Inverno que nunca houve por cá. 

Alvíssaras

o esquimó perdeu o paramento

e não se sabe

se andam à procura do paramento

ou do esquimó.

#4371

É tarde 

de tarde 

é tarde 

à parte.

2.3.26

Os carismáticos

As muitas caras de um reino

desborbulham na madurez

e fingem,

com o descaro de quem finge fingir

que são uma só.

 

As caras-espantalhos

tomam o pulso da distração geral

e passam por rostos respeitáveis

oh! 

de pergaminhos imbeliscáveis

não vá ser profanado

o carisma

que trazem a tiracolo

uma medida das medidas

definida por definição.

#4370

Bebemos gasolina 

dos escanções esgrouviados

e comemos asfalto 

com direito a estrela Michelin.

 

[Compêndio de geopolítica do Médio Oriente e dos dementes em estado de negação ambiental]

1.3.26

#4369

Este poema dispensou 

a inteligência artificial.

28.2.26

#4368

A normalidade

é apenas 

um devaneio estatístico.

27.2.26

#4367

Não é a diplomacia que fraqueja 

são os homens que se tecem 

na sua pele de lobo.

 

[Ontologia da guerra explicada às criancinhas]

26.2.26

A bala furtiva

Uma bala

perdida num universo de milhões de balas 

– dir-se-á, uma bala achada

debalde

num achado que é um infortúnio.

Uma bala

atravessada no tempo errado

num corpo errado

assim trespassado

com um viés avulso

diagonal ou setentrional

até sentir o fogo macho na carne

e o sangue eflúvio em colheradas muitas

já um mar a caminho de estuário

e o apagamento à mão de semear.

#4366

Vi um anjo

casto como os anjos são. 

Soube depois

que fora só um pesadelo.

25.2.26

Burburinho

Um pelicano de corda

arrota sobre o lenço sujo da bailarina

enquanto nas traseiras do café

o artista do circo corta as páginas coladas

de um opúsculo de saberes esotéricos.

 

O pelicano balbucia umas sílabas

a bailarina espadana o plissado

para o sótão do pensamento.

Já o artista do circo

antes de ir buscar o petiz ao infantário

decora uns versos que cicia com pesar:

sua há de ser a presença num velório

e foi-lhe encomendada a elegia.

 

No restolho do dia

todos sem emprestam ao sono.

#4365

Uma mentira chique, 

colada com cuspo, 

respira 

como se puro fosse 

o ar da montanha.

24.2.26

IPMA

“Amanhã dão chuva”. 

E eu nunca soube

da identidade 

de tão filantrópica pessoa.

#4364

Para outros carnavais 

(em reserva dedicada)

a boca desenfreada 

e os corpos coreografados.

23.2.26

#4363

Entardece.

O dia fica míope. 

#4362

Peguei no verso do bilhete de metro para te escrever. 

O que já é uma declaração de amor.

#4361

Não é o restolho sobre o rosto que conta, 

é o riso espontâneo que decanta.

22.2.26

#4360

Maltrapilhos 

malsãos 

maltratados 

mal-entendidos.

21.2.26

#4359

Da bílis mal curada 

os sucos acerbos 

que desadoçam uma vida 

condenada à usura.

20.2.26

#4358

Sou culpado: 

tive uma ideia.

#4357

Dantes 

o futuro 

não contava.

19.2.26

#4356

À média luz 

palavras esgrimidas sem nudez 

a diplomacia,

ou a arte da mentira aburguesada.

18.2.26

A sagração do luar

Arrumo o luar

entre os nós da noite

e a jura da manhã. 

Levo o luar comigo

a luz extática que sua da noite

e respira através das paredes. 

É lugar-comum

o poeta pedir ao luar

que seja inspiração emprestado;

pode o poeta ser censurado

por se perder de encantos

por uma platitude tão carismática?

#4355

Um silêncio de fundo 

entoa a metáfora nascente:

depois de tudo

será outra vez

o silêncio.

17.2.26

#4354

Os olhos 

entardecem a pele; 

novos são os verbos 

que entram no estuário.

16.2.26

Tômbola

Por todo o lado

estão

os sorrisos postiços

as paredes rombas

os pássaros a prazo

os parágrafos a destempo

o zimbório desguarnecido

as viúvas pretéritas

os godos alisados pela angústia

os baraços que atam o futuro

navios enferrujados não naufragáveis

a madeira decomposta

os fardos com listas de medo

os rapazes que fruem as horas vagas

os marinheiros saltimbancos

bêbados pela manhã

as horas perdidas no suor da noite

os pesadelos

os pesadelos como ciprestes

rompendo o céu sem aviso

estão

por todo o lado

e sem mapa nenhum.

#4353

Fundas 

as palavras viscerais 

não se escondem 

do medo limítrofe.

15.2.26

#4352

Maltrata o trato 

despreza os códigos 

não se admire 

que fale 

ainda mais alto 

a reciprocidade.

14.2.26

Injustiças documentadas (636)

Pecado, 

capital.

#4351

À razão de um dente por mentira 

tantos são os que estão em dívida 

de um punhado de dentaduras.

13.2.26

Injustiças documentadas (635)

Paninhos quentes 

só têm serventia 

no inverno.

#4350

As cores 

abandonam a fala, 

é como se tivesse sido 

descafeinada.

12.2.26

#4349

As profecias 

são os impérios 

encomendados 

pelos farsantes.

11.2.26

#4348

Colam-se 

como barro pegajoso 

aquelas palavras 

que assassinam o idioma:

 

expectável, impactante, resiliente,

narrativa.

10.2.26

Dizia do bem que bem está

Desconfio

que as guilhotinas arrefecem

com as vozes que amadurecem

à medida da ira dos tempos. 

 

De todos os ontem sem saída

emancipou-se um estuário de estrofes

o grande manifesto 

onde cabem os manifestos avulsos

o músculo que se sobrepõe à força,

até os que se embriagaram com poder

sabem que o medo não escolhe vítimas. 

 

Do miradouro onde se esconde o passado

vejo as milhas à distância do horizonte

e guardo as perguntas que fugiram dos fantasmas

guardo-as 

como o maior tesouro

apalavrado nas minhas mãos.

#4347

Ao longe 

o mar conspira as marés hediondas,

o selo das tempestades consecutivas.

9.2.26

Injustiças documentadas (634)

Ninguém gosta 

de pôr o dedo na ferida

se a ferida 

é um viveiro de coisas infectas.

#4346

Deita-se o leite no ouro

e o mel no azul

e (quase) todos dormem serenos.

 

[Ressaca pós-eleitoral, take 11]

8.2.26

Injustiças documentadas (633)

É reunião 

mesmo quando é

pela primeira vez?

#4345

A rua 

deixa a noite bruxuleante 

enquanto encomenda os olhos 

ao sono.

7.2.26

#4344

O poeta hesita 

quer a palavra 

embrulhada 

num átomo de fragilidade.

6.2.26

Saúdinha

Benzida saudade

porque o povo diz

“saúdinha”

enquanto se saúda a bonança

nem que seja fingida

entre os braços dilacerados

que se prestam ao silêncio

à medida que a dor morde até ao osso.

Saudade,

saudadinha,

que dantes é que havia saúdinha

e se sabia como saudar

sem saudade

a saúde suada.

#4343

Faz antes a boca postiça 

a mentira cai-te 

como luva à medida da sua mão.

5.2.26

#4342

Não coabites 

as feridas abertas 

que dormem 

no caudal da angústia.

4.2.26

Injustiças documentadas (632)

Discover no less 

of what lies in 

a non-educated guess.

Injustiças documentadas (631)

O pano de fundo 

escolhe a marca de água.

#4341

O salto no precipício 

contra o medo colossal 

a veia devolvida 

na vertigem de quem o afronta.

3.2.26

#4340

Em contrarrelógio 

à medida do suicídio do tempo 

reis que somos das cicatrizes por fechar.

2.2.26

#4339

Perco a conta das palavras, 

concorrentes a arrancar 

a palidez de uma página.

1.2.26

#4338

Se a alma tivesse arestas 

as palavras não tinham pontuação.

31.1.26

#4337

A não parcimoniosa prosa 

diletante elegia a destempo

confunde de tão gongórica 

– é como se alguém falasse 

apenas para os seus ouvidos.

30.1.26

Injustiças documentadas (630)

O Leitão Amaro 

é uma mazela. 

#4336

A fúria 

não tem 

lugar nem hora, 

só vítimas ao acaso.

 

[Destroços poéticos da tempestade Kristin]

29.1.26

#4335

Podiam extinguir as vírgulas,

que elas dão tanto trabalho

(e tantas vergonhas deixam a nu).

#4334

Primeira volta 

segunda volta, 

já dizia Tom Waits 

a melhor cura para a ressaca 

é a bebedeira.

 

[Ressaca eleitoral, take 10]

28.1.26

A glória perdeu a glória

A glória à solta 

sem freio

livre

e ninguém a apanha.

 

Sinal dos tempos 

– lamenta o idoso 

com morada no Restelo

(lá para os lados

do ministério da defesa).

 

Já não é como dantes 

– fez coro

o odioso mais amado

ajudando-se um ao outro

a conservar a poeira

que enfeita as fatiotas.

 

Dantes

(lá está)

a glória valia mais 

do que o ouro

e as especiarias das colónias.

 

Agora

o ouro está entesourado

a crescer de valor

porque um endemoninhado

espalhou a confusão no globo

sem estar à altura das responsabilidades.

 

Já a glória

coitada

perdeu-se na bolsa do esquecimento

condenada a ser uma atávica lembrança

com paradeiro por determinar.

 

Consta 

que a última vez

que alguém deitou ouvidos na glória

foi quando os Sétima Legião a glosaram.

#4333

A procissão de notáveis

arrisca encurralar o seu procurador.

 

[Ressaca eleitoral, take 9]

27.1.26

A poesia como sinónimo de liberdade

As algemas mordem na pele

submergem a respiração em pesadelos

previnem a poesia 

– oh, a tão perigosa poesia

úbere dos espíritos desamparados

e ao mesmo tempo livres

apaixonadamente livres.

 

Um poema 

é a chave-mestra

que dissolve as algemas.

Agora se percebe

porque há tão pouca gente

a ler poesia.

#4332

Podíamos 

deixar falar 

a liberdade, 

apenas.

 

[Ressaca eleitoral, take 8]

26.1.26

Sofreguidão

Costuro as lágrimas no coldre vazio

deixo às mentiras a gramática do medo

entretido com a prosa luminosa

uma trovoada irradia os seus braços

como um polvo acossado.

 

Tiro à sorte a medida da angústia

saiu um três

– alvíssaras,

a angústia anda despojada sobre a matéria 

o vento cicia um segredo

temos de esperar pela próxima curva do dia

para saber se o segredo se deixa desenroupar.

 

Mal por mal 

os antigos tossicam desconfiança

o mundo tem cores e formas que são punhais

e eles fogem do tempo, fogem

como se por eles falasse o embaixador da vida.

 

A água está muito fria

a lucidez é uma peça ausente na engrenagem

e já dizem, 

por alto, 

que o ocaso não é mentira.

#4331

Estamos 

em carne viva 

– o doce sintoma 

de podermos 

falar as diferenças.

 

[Ressaca eleitoral, take 7]

25.1.26

#4330

A duas voltas, 

para tirar as dúvidas.

 

[Ressaca eleitoral, take 6]

24.1.26

#4329

A amnésia 

disfarçada de ignorância,

ou vice-versa.

 

[Ressaca eleitoral, take 5]

23.1.26

#4328

Talvez se pudesse dizer 

dos processos de intenções 

que são um fascismo disfarçado.

 

[Ressaca eleitoral, take 4]

22.1.26

As flores obrigatórias

As flores deviam ser obrigatórias nas varandas. 

Ou as varandas só não seriam multadas

se tivessem flores abundantes e garridas

como ornato. 

As flores mercadejadas deviam dar direito

a desconto nos impostos. 

Não há lugar melhor

do que um que seja um mosaico de flores. 

#4327

Sitiar consciências 

devia dar direito a pontos negativos 

no cartão de cidadão.

 

[Ressaca eleitoral, take 3]

21.1.26

Remendado

Ontem 

comprei um palácio

feito de baldios e ouro invisível. 

Queria poder dizer que meu era um domínio

mesmo que só fosse suserano

de mim mesmo.

Não contemplo outra hipótese:

se ao domínio meu

viessem a calhar em azar 

(seu)

outros em suserana condição

decretá-lo-ia prescrito por inviabilidade. 

Neste que é o domínio meu

decido sozinho

com um autoritarismo deplorável

ausente sensibilidade pelos outros

(que não existem)

eu, esboço de tirano

que de mim próprio faz sua predileta vítima,

sozinho decido 

(dizia)

sobre a bandeira que não hasteio

as leis por fazer que ficam para memória futura

a dívida que não contraio

as embaixadas que não tenho de inaugurar

os hinos que ficam por conta do olvido

as credenciais que se dispensam da imaginação

e das fronteiras faço frangalhos

sob a égide da guilhotina com serventia única:

abolir 

em corte rasante

todos os simples ensaios torcionários

de privação da vontade

nem que seja um tiro no pé

de ofensa a tudo o que o súbdito

(que coincide com o suserano,

há que insistir na mnemónica)

julgar nefasto

bem que seja uma venda aposta sobre os vícios. 

Antes ser pária 

por uma causa recomendável

nem que o seja apenas 

pela lente por onde olho.

Um dia destes

talvez venda o palácio.

#4326

Fechem os fantasmas 

a sete chaves 

que uma é pouco.

 

[Ressaca eleitoral, take 2]

20.1.26

A ponte servil

A ponte sente que as sílabas batem à porta. 

O crepúsculo enfeita a garganta seca. 

A noite açoita a luz que a quer desmentir. 

No saco dos rejeitados segue a matéria anónima. 

Precisa de cimento para escapar à ruína. 

 

Se ao menos houver uma bênção na chuva

que seja dos nomes que se perdem em becos

e não olham ao medo como gramática da respiração. 

 

As sílabas compõem-se na espera diletante.

À espera de serem a ponte que desfeiteia a orfandade.

#4325

Se um núcleo 

não fosse duro 

não seria núcleo.

 

[Ressaca eleitoral]

19.1.26

Desidentidade

Não sou o medo que cicia no crepúsculo. 

Não sou a metade oculta na submissão. 

Não sou o fantasma futuro dos sonhos. 

Não sou o embaixador de virtudes remediadas. 

Não sou apóstata a não ser pela minha lente. 

Não sou uma admirável força 

terçada nas contrariedades. 

Não sou o sonho que poderia ter sonhado

nem o paradeiro de sonhos avulsos. 

Não sou um promitente de coisa alguma. 

Não sou a boca temerária 

que se ajoelha às vozes dominantes. 

Não sou mentira de mim mesmo 

na medição das fragilidades. 

Não sou penhor de nada que me possa penhorar. 

Não sou o asceta que se exila dos sobressaltos. 

Não sou o sangue domado 

pelas paredes íngremes do idioma vulgar. 

Não sou a medida fora de mim. 

Não sou coleção de lugares não demandados. 

Não sei ao certo o que serei

a não ser tudo aquilo

e mais ainda

o que sei não ser.

#4324

O sal também tem flor. 

O dia perde a máscara dos timoratos.

18.1.26

#4323

Abotoada a inveja, 

se possível for, 

para encantar 

a forma descamisada de ser.

17.1.26

#4322

Os dedos matraqueiam palavras surdas 

do que ficou por dizer 

e do silenciado por diplomacia.

16.1.26

Neptuno

Toco por dentro o céu. 

Cobro aos demónios as tempestades viris. 

Do dicionário açambarco as palavras lúdicas

como se a vertigem não participasse

do precipício constante

e perdêssemos o paradeiro da lucidez. 

Somos as asas que descem e sobem

decifrando paisagens singulares. 

Tornamos a noite 

na fogueira que adormece a pele. 

Não deitamos fora o silêncio:

é na sua gramática que escondemos

as estrofes de que somos tutores. 

No céu tocado

o achado de uma quimera

um domínio que vale mais 

do que mil reinos.

#4321

Da roda viva 

não sejam depreciativos: 

o que dirão 

quando morta for?

15.1.26

Injustiças documentadas (629)

O passado 

não tem 

futuro.

#4320

O vício 

não precisa de comício 

para ser um estropício.

14.1.26

#4319

Vejo que veem que o rei vai nu; 

neste complexo palco de sombras 

ainda bem que não é monarquia. 

13.1.26

Como esconder um telhado de vidro

Dedico a indulgência 

aos patronos da leviandade. 

Sem eles 

seria apenas 

uma promessa do passado 

e não quero 

que saibam das promessas 

que deixei por abastecer.

#4318

Um abalo sísmico 

não extingue 

a cortesia.

12.1.26

Apogeu

Dadas, 

as mãos que sentem a pele a latejar

na dádiva sublime que cura do tempo tirano.

Por fora de nós 

pende o suor da nossa respiração 

e à boca legamos as palavras uníssonas.

Somos o leve habitar das sílabas 

que voam sobre o estuário

enquanto vigiamos o entardecer.

#4317

É no cortejo dos párias

que te vou encontrar?

11.1.26

#4316

Daríamos às portas 

uma servidão negada 

e seríamos então 

amos em vez de servos. 

10.1.26

Injustiças documentadas (628)

O mundo vale a pena.

Vale a pena.

A pena.

Pena.

#4315

Carroll inventou um coelho; 

nós somos os artesãos 

de sonhos válidos.

9.1.26

Injustiças documentadas (627)

Não é do domínio da cartomancia

mandar o outro 

para o baralho.

 

[Desconstruindo uma ideia de Conan Osiris]

#4314

Sem a pimenta que deleita 

nem pela metade 

somos fuso ingente.

8.1.26

#4313

Não nos vale 

o orçamento do Estado 

nem o estado do orçamento.

7.1.26

#4312

Não culpem 

os ponteiros do relógio 

pela pressa do tempo.

6.1.26

#4311

Há dias que pedem 

prolongamento 

e outros que suplicam

abreviatura.

#4310

Um casaco 

vestido do avesso 

dispensa cabide.

5.1.26

#4309

Não é a ralha 

que ralha;

são os que lhe inventaram

o nome.