2.12.20

O país que não tem sobremesas

Metaforizava

a levedura extática

sem supor que na escotilha

vegetavam espiões

disfarçados de chefes de cozinha.

Uma voz troou

como se acabasse

com a feição dos minutos

e disse

de mote próprio:

este 

é o país

que não tem sobremesas.

As pessoas despacharam a proclamação:

um país que não tem sobremesas

não merece ostentar 

à lapela

o nome de país.

Foi quando um eremita,

conhecido citador de poetas

intelectual de velha cepa

(sem, contudo, 

se lhe conhecer safra própria)

contestou:

um país é como os pais

só que sem o acento tónico.

E quem não conhece pais

que não pedem sobremesa?

Ficou estabelecido

ao cabo de aturadas negociações

que um país está dispensado

de inventariar sobremesas;

ficou registado em ata

que um país

tem direito à dieta.

Não metaforicamente falando.

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