14.12.22

Tribunal superior

Sai dessa pele

no teu papel de sobrinho da esperança.

Pele

em vez de osso maduro

nem que seja em impuro esbracejar

a indulgência dos almocreves

a certeza dos infantes. 

 

Sai da pele

que careces de corpo em nome próprio

esteta infinito

poeta antecipado

mecenas postergado

procurador dos muros sem pousio

assim achado numa clareira onde houve fogo

matriz promitente no denodo dos dias. 

A pele que trazes tatuada

é candidata a estilhaço

mourejando nos flancos de um mar adormecido

depois do tumultuoso dia que o arruinou. 

 

Sai da pele;

precisas de outra

e só não sabes que costuras serão suas

e a sua gramática sortilégio. 

 

Não é de uma pele servil

o amancebado distrate em falta,

nas convulsões adiadas 

que espreitam pela escotilha de um luar furtivo

luar eflúvio

que rima 

com o flúmen onde teu olhar repousa. 

 

Tua será uma pele subjacente;

ou uma pele herança

fruída num futuro sem data

à espera

sem a espera das contingências

como se num adro vazio

todas as estrofes levitassem

à espera de vez

à espera da declaração de autonomia. 

 

Sai dessa pele

e encontra a Primavera 

que se insinua nos poros suados

torna-te o trono dessa Primavera

e escreve

num papel feito de rosas 

o teu nome a ouro

o teu nome

de ouro.  

Sem comentários: