16.4.24

Interrupção

O casario sobe a colina

no seu dorso o açaime do silêncio

o refúgio das casas habitadas

todas aquelas vidas sem nome

anónimas

como a parte do rio feita de urina desaguada. 

 

Não são segredos que se desembaraçam

na coutada das mãos arrefecidas

é a maresia arrancada ao mar amaciado

o remorso tingido de medo

na sepultura avivada que entontece

no divã do futuro desalinhado. 

 

Os olhos são como idiomas

juntam-se à pele amanhecida

no cofre das sílabas desenhadas

com o ouro da língua. 

 

Os versos

não são sobre os moradores

ou o lugarejo com as casas como presépios. 

 

Os versos

não são sobre a perfeição confecionada

ao anoitecer

pela coreografia de corpos sem número

ou do desejo que fora feito património. 

 

Os versos

são um feixe de luzes combustíveis

que irradiam no céu avulso

deixando o chão ornamentado

pelas vozes litorais

em cores arrancadas ao siso.

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