15.10.15

Centelha

Einstürzende Neubauten, “Emanuelle”, in https://www.youtube.com/watch?v=sG5GaXXfiHQ

Um copo vazio
A sombra de um gato
As mãos deitadas no rosto
O murmúrio do vento
Um chapéu vermelho
Os lábios que beijam a janela
O cais sem navios
Um piano à espera
A almofada fria
Os olhos marejados
Um peito descarnado
Um corpo cheio.
            E as costas das mãos
            que limpam as lágrimas.
As folhas de outono em despojos
O entardecer que se arrasta no tempo
O mar parado
As páginas gastas de um livro
A chuva sem finitude
Os caminhos pedonais, sem gente.
            E os lábios quentes
            que enxaguam a melancolia.
O navio naufragado
O prato com a comida fria
A noite madraça
Uma sereia pelo meio do sonho
A música que empalidece
As roupas ininteligíveis
A cidade esquizofrénica
Um avião fantasma.
            E os olhos no seu avesso
lambendo as lágrimas fúteis.
Um abraço demorado
As palavras tangentes
O milagre do pensamento
A viagem purificativa
Um ocaso sortilégio
Depois do amanhã promitente
O baloiço pueril
As coisas muito sérias.
            E um peito tórrido
            ninho das manhãs claras.
A parede branca
O cavalo desembestado
Violinos sem freio
Um quadro espelho do olhar ardente
O gelo em forma de trovão
O sorriso torrencial.
E o sol que canta
à lua que espera.

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