27.1.16

Do tempo adiantado

O menino agarrado ao gato
no sono do gato
rima com o seu ronronar.
Espreita pela janela
bebe as cores diametralmente opostas
do entardecer.
Imagina-se mais velho
sem o torpor da meninice
uma ferrugem que embacia empreitadas.
E ele tinha tantas
arqueadas sobre o portal das resoluções!
Afaga o dorso do gato
e o gato espreguiça;
no fundo,
o menino quer o futuro adiantado
mexer nos relógios que amparam o tempo
torcer o braço ao tempo
para se fazer cedo
(cedo de mais).
Se aprendesse com o gato poltrão,
se ao menos levasse o olhar
à lição do gato,
traria do futuro ao tempo de agora
a alucinação do sono demorado
e o culto do vagar.
Um dia
o menino confidenciou
dramas extemporâneos ao avô.
Talvez por causa da surdez do velho
não pôde congraçar a lição que o gato
em seu regaço
silenciosamente emoldurava.

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