18.1.16

Interminável

Invocavas um fado generoso
um tempo luminoso
um peito cheio de glória
um sangue descontaminado
dos pérfidos querubins
em teu redor.
Não te cansavas das preces
exortando os bons espíritos
contra as sombras malditas.
Convocavas as santidades
em rima com as preces:
suplicavas amanhãs diferentes
sem as algemas do arrependimento.
Porém
por mais
que as curvas te parecessem retas,
na contabilidade das coisas,
quando os pés voltavam ao chão
e os olhos retomavam lente desembaciada,
tomavas nota da argúcia dos fazedores de fé,
de como não te podias entregar
nas suas mãos.
E então
choravas as lágrimas sem peias
amaldiçoavas a inocência irrefreável;
juravas que era a vez derradeira
e que os espelhos vindouros
teriam um banho de diferença.
Até nova importunação crítica
tomasse seu poiso
e em teus olhos
o de antanho voltasse à mercê da repetição.
Não tinhas remédio.
E sabias
(só sabias)
que as distintas proclamações
vertidas em tinta da China,
as juras de ventos outros
a tomarem-te como bálsamo,
eram inoportunas canseiras.
Já sabias:
os sonhos não são grande dano
mas também não afivelam propósitos
que se vejam.
Não estranha
que fosses contumaz à novidade.

Sem comentários: