4.11.19

Não contes

Não contes
a bússola do obscurecimento
a mortalha da melancolia
a lei vazia dos déspotas
a morte sem conta aberta. 

Não contes
em tua lídima matemática
o suor frio do medo
os móveis de antanho 
os corrimões velozes que fogem do tempo
o sumptuoso ardil 
dos que se ufanam
do vazio que tomam por grandeza. 

Não contes
os artesãos da boca farta
os ascetas sem mantimento
os degraus até ao Olimpo
as paráfrases desenhadas no friso da noite
os emblemáticos desdizeres dos mendazes
a música surdamente fastidiosa
as casas alinhadas na paisagem estreita
as lágrimas suadas em arestas arrumadas
o namoro dos ímpios ascetas
a gramática (diz-se) com linhagem
a etnia dos que perderam o altar dos escolhidos. 

Não contes
em notas avulsas
uma riqueza indigente
o verbo inerte de anciãos silenciados
os cemitérios sem ordem válida
os pesadelos destravados por diabos sem rosto
a comiseração assassina
os vetustos faróis de ideias atávicas
o veludo dos gatos assanhados
o espartilho das noites sem vista para o cais
o totem de um rei sem constituintes
o sereno rosto de uma sereia em aquário
o diadema que escolhe a luz pura. 

Não contes
que sejam as contas uma fachada
o vidro gasto pela espessura da noite
nem contes 
que sejas tu a contar
na diatribe fecunda 
que remexe os fundos do mundo.

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