5.6.20

O mar das miragens

Levanta-se o vento na gárgula derruída.

As lamentações correm contra o sol
e viúvas sem perdição
convocam os deuses
lembram-se de tempos salientes
da coabitação num casulo imberbe
do tempo que foram perdendo
que não é do posterior ao enviuvar.

Levanta-se o vento que cicia verbos vãos.

Há nos chapéus de cerimónia
a negação da cerimónia
por visível demissão da estética.
Se ao menos se conservasse a memória
e dela desemudecessem os falantes emparedados
não era preciso estafar os dias em viperina língua
adormecer a perguntar se era por fim.

Um piano insubmisso justapõe-se no céu decadente.

Só se ouve o silêncio parado na sua marcha 
por episódicas sílabas dos pássaros passeantes.
Nada disto interessa à viuvez.
Sabem as respostas todas
a condoída mágoa servida nas abas da injustiça.
Se ao menos o vento recuasse
se fosse de soprar de trás para a frente
podia o tempo gasto ser resgatado
e os consortes levados em braços pela morte
estariam impecavelmente esperando
sedentos de palavras e de sexo
à sua sorte amada.

Disto trata o retardamento da morte das viúvas.

Mas o vento não passa da gárgula derruída
isolando as paredes encardidas com fungos literais
sem notário das esperanças das enviuvadas.

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