6.10.17

Colosso

Desisti do lírico amparo do mundo.

Não que o mundo não mereça;
não quero mais mondar as margens volúveis
não quero
naufrágios em berço de ouro
facas fundas a boiar em nenúfares sem culpa
as ruidosas crianças
sem adivinharem o pleito doravante
e as buganvílias decadentes 
na ilharga da estiagem.

Vingam-se as nuvens sem rosto
em apuradas incisões por dentro da carne
em cicatrizes indissolúveis
um baraço irritante que detém os movimentos.

Ah!
Se ao menos pudesse sonhar com um oásis
com prestimosas personagens seus atores
e as planícies não escondessem um ermo arenoso
enquanto à ceia
servia as palavras empunhadas pela boca faminta
nem que fosse apenas 
para ser seu singular ouvinte.
Deitar-me-ia sobre tapetes sem rugas
no dorso da noite desamparada
– e eu seu exigível amparo,
se me não esquecesse.

Meneio o olhar profícuo
à procura dos versos andantes
das paredes transparentes
dos sacerdotes sem deus
dos invulgares esteios sem cais
dos números perdidos nas equações.
Procuro
algum sentido
sem aval dos compêndios azulados da razão
sem o escudo esquecido da bondade,
apenas com a indomável gesta sem antepassados
sem sequer o patíbulo do adeus.

À espera de invenções tonitruantes
do progresso
à falta de ser eu seu fautor.

#334

Da coleção esquecida:
vasos sem uso
vinho avinagrado
e uma bússola estilhaçada.

5.10.17

#333

Salvo conduto
salto no escuro
falto à transgressão
falso garrote.

Ouro

O ouro espalhado
apanhado em seivas destinadas
sob janelas tempestuosas
sem medo dos embaraços
sem nos sentirmos penhorados
pela esteva quebrada.

No ouro vertido
em lagoas miríficas
os corpos nus na habitual coreografia
somos o ouro intenso
puro
tesouros sem contraste
nos rostos molhados pelo bolçar da cascata.

Do ouro transigido
cobramos a tenência das almas
das nossas,
as que contribuem para a mordomia do tempo,
e tingimos os dedos com a tinta vertida
nas palavras que roubamos
ao ouro sentido.

4.10.17

As cortinas baças


O sextante enferrujado
na proa desabitada
espera por mãos seguras.
Talvez marinheiras,
as mãos
precatando o roteiro cautelar
por entre marés medonhas
e visitas de anjos promitentes.
É como uma boda
as harpas sabiamente dedilhadas
em acordes mastins que deliciam os celebrantes
e sorrisos incautos
sorrisos ardis
cortesias militantemente farsantes,
provocatórias na deslisura sua vertedura,
palavras baças pelo vinho excessivo.
No dia seguinte
poucos guardam memória.
Não gostaram do sextante
servido em cristais admiráveis:
oxalá não houvesse sextante oferecido
em remoques risíveis que atordoam
– protestam,
entre duas cefaleias e três fármacos,
os invisíveis celebrantes à míngua de memória.
Pois o male
(insistem)
é o sextante e sua existência.

#332

Agarro
com as mãos inteiras
a maresia tardia
e trago a mim o sal despedaçado.

3.10.17

Babugem

Estou impressionado,
azoado – diria:
o senhor mandão
zeloso tiranete local
abespinha-se à conta de
(veja-se lá o topete)
perguntas.

Per-gun-tas!

O senhor mandão
prefere as ideias no singular
e às suas semelhantes.
Mas as perguntas
descosidas sobre seu domínio hermético
intuem o plural,
hedionda impossibilidade.
A tolerância
(insinua o mandão)
não admite perguntas que os calos pisem.
Tem bom remédio,
o mandão:
há especialistas nas maleitas calosas
ou leva com tirocínio no plural
ou remete-se,
prisioneiro da fúria avassaladora,
da fúria reveladora,
à babugem
que das suas palavras se excreta.

#331

Deitei o olhar atrás do ombro
em oráculos do pretérito
e escombros não vi.

2.10.17

Dou de mim

Dou de mim
o insubmisso
a cor sem asas
as mãos trespassadas de amor
as palavras-crisálida
a fonte sem finitude
o navio sem sono
o gato treslido
a porta sem chave, entreaberta
o armário sem fundo
a sede do suor cansado.

Dou de mim
prédicas sem ouvintes
viveiro inesgotável
facas sem gume, mansas
flores diuturnas
o fato dandy
ideias sem norte
ideias sem sorte
pianos delicodoces
hábitos sem açaime
o tremeluzente predicado da alma.

Dou de mim
o que de mim vier em legado
sem pejo
sem o cotejo da saliva acidulada
apenas a redenção acautelada
e páginas a eito, devoradas
lauto amesendar no ermo neófito
onde se depõem armas espúrias
se colhem morangos do bosque
e danço os poemas anelados.

Dou de mim
o mais fundo
medula inteira
olhos às vezes marejados
outras, embaciados
e um gesto de ternura
no coalhar do rosto à espera.

Dou de mim
estrofes desarranjadas
o caos com ordem
ou a ordem embebida no caos
montanhas alinhadas no firmamento
os dedos contando os dias por fazer
e as memórias alinhadas no cadafalso.

Dou de mim
alma pura
ou impura
– não interessa.

Dou de mim
a inteireza balbuciada nas cinzas remanescentes
por entre mundos sem limite
ondas que crescem nos braços do mar
numa revolta por dentro
e o sangue em ebulição
irreprimível
contra as paredes meãs
esventrando-as
estilhaçando-as em poeira sem uso.

Dou de mim
o proveito da noite
em apalavradas estrofes sem juramento
no galope estridente de cavalos sem eira
até que tudo o sono cubra com seu regaço
e paisagens de veludo,
por entre os olhos baços
sem lágrimas por perto,
vistam as mais solenes fazendas
para se celebrar
o eu que dou de mim.

#330

Não fazia infância
um caleidoscópio de memórias
num poço de que não sei fundo.

1.10.17

#329

Banho-maria
Maria no banho
ou Maria sem banho?

#328

O fuzo difuso
sonho sem sono
mandante sem ordem.

Medalhas

As medalhas transluzem à lapela
como o sangue da terra,
vertido nas flores tingidas.

Não sabe de mais nada
menos o ufano das comendas
em tiros convulsos sobre a indiferença.

Talvez queira
olhos ciciados no umbral do dia
um bem-haja desfolhando-se
em páginas circunspectas
árvores beijadas no rosto sem rugas.

Os frutos maduros
escrevem as páginas solícitas.

Não se despe das medalhas
nem nos contrafortes do sono.