27.4.16

Pedras da calçada

Dizia o taxista
– recolha o troco com cuidado
que são muitas moedas.
Dizia o moço de recados
– não sei, não sei, não sei,
só as ordens que me deram.
Dizia a menina solteira,
em expiação do desamor
– ai, quem me dera, quem me dera
soldado de chumbo que a mim se entregasse.
Dizia o toureiro à civil
– apre, vosselência pisou-me os calos.
Dizia o cangalheiro em fato de banho
– estranho a ausência de farpela entrevada.
Dizia o bombeiro nas finanças
– não me enerve
que ponho este sítio em estado de sítio.
Dizia o catedrático ao estarola
à entrada do restaurante
– não tenha o topete 
de se meter à minha frente.
Dizia o artista de rap para o papel
– rimas sem rumo
são como
maças sem sumo.
Dizia o carteiro à porteira
– e a senhora do quarto direito
continua o adultério?
Dizia o operário da siderurgia ao banqueiro,
depois de um acidente de trânsito
– querias que assumisse a culpa
se bateste por trás?
Dizia o pai natal à já não criancinha
em seu colo à espera de fotografia
– marota, marota,
já não tens idade para isto!
Dizia a senhora coquete ao empregado do café
garçon, sirva-me um gin tónico
mas seja generoso
que depois o recompenso.
Dizia o filho à mãe
– desengana-te,
não vou às aulas de ballet
nem como a sopa ao jantar.
Dizia o patusco ao interpelar o ministro
a meio da inauguração
– senhor ministro, senhor ministro
pode vossa excelência interceder
por um emprego no ministério 
para o meu sobrinho?
Dizia o mendigo à passagem de uma beldade
– desta esmola é que nunca hei de ter
(e a beldade ficou sem saber as entrelinhas).
Dizia o motorista da carris, resignado
– o trânsito na cidade está um inferno.
Dizia o filósofo, sem aquele ar pensativo
que se pespega aos da classe
– não sei para onde hei de olhar
que tudo se turva
ao ser beijado pelos olhos meus.

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