28.6.18

O comboio sem patrono

Ganhei o caudal sem meças
no dia em que o calendário transbordou
e em fatias o sol se fez tirocínio
à espera do verão ajuramentado. 

O comboio passou
acelerado
talvez atrasado. 
À lapela 
trazia o cantor lírico
a voz embotada pelo vento que corria
no sentido lugar que não chegava a ter lugar
tanta a velocidade do comboio
tantos os apeadeiros falhados. 
Fazia lembrar
a infância 
ou a remissão de um tempo perdoado
no inconveniente de um olhar sem peias;
o comboio
sentia-o apressado
apesar de vir em débito com o tempo:
e, mesmo assim,
a pressa toda consumia a paisagem
transformada num borrão
nem sequer os limites conseguidos 
na moldura do olhar. 

Se perguntassem ao comboio
ele já não se lembrava 
de onde tinha partido
e menos ainda tinha em lembrança
onde queria ter cais. 

Era quando 
a âncora se lançava
na distante nuvem 
onde medravam evocações da infância:
o comboio de brincar
andava sucessivamente às voltas
na pista montada 
que era circular. 

Até que as pilhas se esgotavam
e o comboio de brincar 
ficava à mercê do rio caudaloso.

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